Conheça o brasileiro que viveu Bundesliga por uma semana e não perde há seis meses na Europa

André Donke, do ESPN.com.br
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Lateral esquerdo brasileiro Paulo Otávio, hoje atuando no Linz, da Áustria
Lateral esquerdo brasileiro Paulo Otávio, hoje atuando no Linz, da Áustria

Há menos de um ano, Paulo Otávio, sem muito espaço no futebol brasileiro, resolveu se aventurar na segunda divisão austríaca para defender o LASK Linz. E nem é necessário esperar a temporada acabar para dizer que ele fez a melhor escolha possível.

O lateral esquerdo começou no PSTC quando tinha 12 para 13 anos. Na verdade, ele era atacante, mas como a concorrência no setor era maior, preferiu ter a chance de entrar no clube de Londrina em uma posição mais recuada. A estratégia funcionou, e ele foi morar longe de casa já na adolescência.

Em 2011, foi para o Atlético-PR. Subiu aos profissionais, desceu e acabou no rival Coritiba em 2013. Sem muito espaço, defendeu Santo André e Paysandu - pelo último, fez dois jogos na Série B e um na Copa do Brasil de 2015, ano em que acabou o contrato com o time paraense e também com o paraense.

O ano seguinte lhe trouxe o Tombense, mas só por meses. Insatisfeito, Paulo Otávio queria mudar de ares, e a oportunidade veio do outro lado do oceano. Na Áustria, veio enfim a chance de atuar com regularidade, já que assumiu a titularidade logo de início.

O obstáculo mesmo era a língua. Fosse o inglês o alemão. Um "How old are you?" (quantos anos você tem?, em inglês), acabou respondido com um "Fine, thanks" (bem, obrigado) e fez o brasileiro causar risos em seus companheiros logo no primeiro dia.

Quem ajudou na comunicação foram Fabiano, no LASK desde 2012, e Felipe Dorta, que hoje defende o Wacker Innsbruck, também da segunda divisão. Além disso, tem quem se aproximasse do português. O atacante congolês/francês Dimitry Imbongo é um dos melhores amigos de Paulo Otávio e até arrisca a língua do amigo, como aparece no vídeo ao lado (Imbongo pergunta ‘quem é seu pai?' após vencer o lateral no videogame)

Se foi se adaptando fora de campo aos poucos, o brasileiro, que faz aulas de alemão, conseguiu o entrosamento dentro das quatro linhas rápido. Depois de o Linz viver uma série de cinco jogos sem vencer no começo da temporada, a equipe não perde há 16 partidas oficiais, sendo 14 vitórias e dois empates. O último revés ocorreu em 21 de outubro. Tal série deixou o time na liderança da segunda divisão austríaca com 16 pontos de vantagem. Apenas o campeão vai para a Bundesliga local.

Qual é o segredo? "Acho que a nossa entrega nos jogos. O treinador (Oliver Glasner) tem uma filosofia de atacar para frente na hora de defender, é ate estranho para falar. Normalmente, todo mundo espera, fecha a casinha, ele a todo momento quer que ataque. Se der dois passos para trás, ele vai achar ruim", afirmou Paulo Otávio, que voltou a treinar nesta semana após ter sofrido um corte no pé devido a um pisão.

"A questão física também está sendo um diferencial. Chega no fim do jogo, e o time não está sentindo (cansaço), parece que está igual, e os outros times estão cansando."

Em alta, o brasileiro, que soma 24 jogos e um gol na temporada, viveu um momento especial na semana passada, quando o seu vídeo anunciando a renovação de contrato por dois anos apareceu no telão do estádio e foi festejado.

Em um ano, tudo mudou na carreira de Paulo Otávio. Teve, inclusive, uma experiência no futebol alemão.

  • Uma semana no Colônia

O defensor já sonhava com o retorno ao Brasil em dezembro, mas viu o plano adiado por conta de uma oportunidade irrecusável. Por uma semana, ele treinou e foi observado pelo Colônia. Por poucos dias, o atleta da segunda divisão austríaca viveu sob os holofotes de um dos principais campeonatos do mundo.

"Foi uma convivência muito boas. É engraçado até, eles veem o brasileiro e parece que já te enxergam como sinônimo de alegria, querendo conversar. Eles estavam fazendo de tudo para eu me sentir em casa", disse o lateral esquerdo, que teve a chance de conviver com o titular da seleção alemã em sua posição.

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Lateral esquerdo Paulo Otávio durante jogo do Linz pela segunda divisão austríaca
Lateral esquerdo Paulo Otávio durante jogo do Linz pela segunda divisão austríaca

"Conversei só em treino com o Hector, é uma boa pessoa, com a bola no pé é indiscutível. Conversei mais com o Leonardo Bittencourt (alemão filho de brasileiro), saía para almoçar, vivia conversando comigo, e o Modeste, toda hora que me via queria brincar. E também o Mavraj (zagueiro, hoje no Hamburgo). Eu chegava para tomar café mais cedo, e muitas vezes ficava sozinho. O Léo estava em recuperação e ia mais tarde para a fisioterapia. Ele (Mavraj) me chamava para tomar café, o Modeste também", contou.

Aliás, Modeste foi um dos que mais chamou atenção de Paulo Otávio. Terceiro principal goleador do Alemão com 23 gols (três a menos que Lewandowski e Aubameyang), o atacante causou muitos risos no brasileiro ao mostrar seu conhecimento do português, adquirido nos tempos de Bordeaux com Jussiê.

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"Ele não treinou a semana toda, e jogavam sábado contra o Borussia. Ele aqueceu na quinta, o último treino, e o aquecimento foi um joguinho. Ele falou para eu ir no time dele. O zagueiro me deu a bola e fui para a direita, não tinha como cruzar de esquerda e cruzei de direita certinha. Ele deu uma bicicleta certinha e saiu falando: ‘gut (bom, em alemão), car..'. Achei muito engraçado."

"Depois daquilo, ele me via e só falava, p... que pariu, car... Ele olhava para minha cara e já gritava desse jeito", declarou, aos risos, um brasileiro que só tem motivos para sorrir na temporada.