Aaron Hernandez nos deixa com uma questão final: 'Por quê?'

Ian O'Connor, do ESPN.com*
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Hernandez e Tom Brady: o triste fim da vida de um promissor jogador de futebol americano
Hernandez e Tom Brady: o triste fim da vida de um promissor jogador de futebol americano

A mensagem de texto chegou cedo, por volta das 6h30 e, ao ouvir a notícia de que Aaron Hernandez aparentemente tinha se enforcado na cela de sua prisão, pensei imediatamente em sua filha de 4 anos, Avielle. Ela estava ali, na Sala 906, enquanto seu pai estava sendo julgado pelo assassinato de dois homens, um caso que terminaria na semana passada em sua absolvição.

Pensei naqueles dois homens, Daniel de Abreu e Safiro Furtado, e os integrantes da família que mereciam justiça e passaram semanas sentando-se numa duríssima provação, ouvindo um testemunho detalhado sobre as mortes sangrentas e sem sentido de seus entes queridos.

Pensei na família de Odin Lloyd, o linebacker semiprofissional que, em 2013, foi encontrado morto em um poço de cascalho a cerca de uma milha da casa de Hernandez, em North Attleborough, Massachusetts. A mãe de Lloyd, Ursula Ward, mostrou notável coragem depois que o ex-New England Patriots foi considerado culpado de executar seu filho.

"Eu perdoo as mãos das pessoas que cometeram o assassinato do meu filho, antes ou depois", disse Ward, após o veredicto. "E rezo e espero que um dia todo mundo lá fora também os perdoe."

Também pensei em D.J. Hernandez, irmão mais velho de Aaron e um treinador de futebol em uma escola secundária de Connecticut. Quando Aaron tinha 16 anos, ele foi devastado pela morte de seu pai, Dennis, um lendário atleta escolar em Bristol, Connecticut, que morreu de complicações de uma cirurgia de hérnia. No fim das contas, apesar da tragédia, D.J. teve uma vida produtiva que impressionou seu irmãozinho.

Mas, tanto quanto qualquer coisa, pensei nas cenas surreais que haviam acontecido na Corte Superior de Suffolk, em Boston.

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Aaron Hernandez chega sorridente ao julgamento e manda beijo...
Aaron Hernandez chega sorridente ao julgamento e manda beijo...
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... para sua filha Avielle e sua noiva Shayanna Jenkins
... para sua filha Avielle e sua noiva Shayanna Jenkins

Aaron Hernandez brincou regularmente com os advogados que estavam lá para defendê-lo, e interagiu facilmente com os oficiais de justiça presentes para guardá-lo. Ele tentou fazer contato visual com as sete mulheres e cinco homens lá para julgá-lo. Balbuciou palavras de amor e apoio para sua noiva, e mandou um beijo para Avielle. Observei-o de perto durante alguns dias dentro da sala de audiências, e durante todo o julgamento em vídeo ao vivo. Continuei tentando imaginá-lo atirando em seu moribundo amigo Lloyd, e era um lugar muito difícil de chegar.

O mesmo vale para a imagem de Hernandez amarrando lençóis em sua janela dentro do Centro Correcional Souza-Baranowski, em Shirley, Massachusetts, na manhã de quarta-feira, e se enforcando. Ele acabara de ser considerado inocente dos assassinatos de 2012 de Abreu e Furtado, e seu advogado principal, Jose Baez, lhe dissera que havia uma chance de derrubar a condenação de Lloyd em apelação.

O ex- tight end assentiu e chorou depois que o júri leu os veredictos de inocente e, de repente, um homem que cumpria pena de prisão perpétua por trás das grades tinha algo novo para viver.

Aaron Hernandez, jogador dos Patriots, é levado sob custódia acusado de homicídio; veja as imagens!

"Acho que há muitas falhas nessa convicção [de Lloyd]", disse Baez ao ESPN.com. "Se elas forem expostas corretamente, [Hernandez] certamente pode e deve obter um novo julgamento."

A perspectiva de um novo julgamento, disse Baez, trouxe em jogo o que tinha sido um cenário insondável - seu cliente um dia saindo da prisão como um homem livre. Aaron Hernandez, o advogado disse, está "um passo mais perto de se reunir com sua família."

E agora ele está morto.

"A família e a equipe jurídica estão chocadas e surpresas com a notícia da morte de Aaron", disse Baez em um comunicado divulgado na manhã de quarta. "Não houve conversas ou correspondências de Aaron com sua família ou equipe jurídica que indicaria que qualquer coisa como esta era possível. Aaron estava ansioso em ter a oportunidade de uma segunda chance para provar sua inocência. Aqueles que amam e se preocupam com ele estão com o coração partido E determinados a encontrar a verdade que ronda a sua morte prematura."

Baez pediu às autoridades para conduzir uma investigação transparente e disse que seu escritório de advocacia iria conduzir uma investigação particular.

Prisão por suposto assassinato não é 1ª polêmica na vida de Aaron Hernandez; conheça o histórico!

A notícia da morte de Hernandez foi um baque tão forte quanto a notícia de sua prisão, em 2013. Ele causou um monte de problemas na Universidade da Flórida, como uso de drogas e o comportamento imprudente, fazendo com que ele fosse derrubado para a 113ª escolha no Draft de 2010. Ao longo do tempo, a franquia Patriots ficou cada vez mais preocupada com os atos criminosos associados a Hernandez em sua cidade natal; o tight end disse ao treinador Bill Belichick, durante o draft combine de 2013, que temia por sua vida.

Cinco dias depois de Baez ter dito que havia uma chance de reverter o julgamento, no mesmo dia em que os Patriots campeões seriam homenageados na Casa Branca, Hernandez foi encontrado desacordado em sua cela. Ele foi levado para o UMass Memorial-HealthAlliance Hospital, em Leominster, e declarado morto às 4h07. Ele morreu com uma tatuagem em sua mão que dizia "CBS/WBS/IWBTG", representando as frase “can't be stopped, won't be stopped, I will be the greatest”, algo como “não pode ser parado, não será parado, serei o maior”.

Suicídio é algo muito complexo para caber perfeitamente dentro de uma pequena caixa, e Hernandez deixa tantas perguntas e tão poucas respostas. Por que agora? Por que ele se mataria depois de ganhar uma absolvição no duplo homicídio? Ele estava com o coração partido por ainda não poder ser o pai que sua filha precisava que ele fosse?

Isso é claro: em seus últimos dias, mesmo como um assassino condenado, Aaron Hernandez não parecia uma pessoa assombrada. Ele realmente parecia um cara que ainda tinha algo para viver.

*Ian O'Connor é repórter do ESPN.com. Tradução livre de Ricardo Zanei. O conteúdo original, em inglês, pode ser acessado em “Aaron Hernandez leaves us with one final ‘Why?’.