Medo de se trocar no vestiário, adepto da 'sesta' e fã de Gareca: as histórias de 'Forrest Gump' rival do Grêmio

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Atacante uruguaio é o maior artilheiro da história da primeira divisão do Paraguai
Atacante uruguaio é o maior artilheiro da história da primeira divisão do Paraguai

Hernán Rodrigo López tem muita história para contar.

O atacante de 39 anos, que enfrenta o Grêmio em Assunção nesta quinta-feira às 19h30 (de Brasília) pela liderança do grupo 8 da Libertadores, começou no futebol no meio da década de 1990 e é um verdadeiro "Forrest Gump".

Hoje no Guaraní (atual campeão paraguaio), o veterano centroavante uruguaio tem passagens por sete países, encontros com lendas ainda no começo da carreira e enfrentou um Real Madrid galáctico na final do Mundial Interclubes.

Seu começo de carreira aconteceu em 1995 no River Plate uruguaio pelas mãos de Jorge Fossati, ex-técnico do Internacional. "Ele me pediu para treinar e não fui, porque tinha um pouco de vergonha por me trocar no vestiário do elenco profissional. Meu irmão mais velho (Gonzalo), que integrava o grupo como jogador, me cobrou por minha ausência. O técnico tinha perguntado por mim. No outro dia, fui", relembra Hernán López em longa entrevista ao jornal El Gráfico em 2011.

"Fui pedir o uniforme, e Jorge me chamou no vestiário dos técnicos. 'Bom, garoto, de agora em diante vai treinar aqui, vai se trocar no vestiário da primeira equipe, e que seja a última vez que me cause problema', me esclareceu. Foi um tanto sério e um pouco de brincadeira. Sempre me lembrarei de que ele me fez estrear na elite. Fechou os olhos e apostou em mim", agradeceu o atacante.

E logo em seu ano de estreia foi eleito a revelação do futebol uruguaio pelo diário El Pais, tendo sido convidado a participar da festa de premiação. "Meu pai e meu avô saíram para comprar uma camisa, uma gravata e um paletó, porque tinha que ir bem vestido. Ali me encontrei com Chilavert, Ayala, Francescoli, Gamarra e Cafu. E eu estava metido ali, com esses monstros", recorda-se.

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Hernán López, com apenas 19 anos, no Mundial sub-20 de 1997
Hernán López, com apenas 19 anos, no Mundial sub-20 de 1997

Com 19 anos, disputou o Mundial sub-20 de 1997 e foi à final com a seleção uruguaia, perdendo para a Argentina "de Riquelme, Aimar e Cambiasso" por 2 a 1.

"Isso significava iniciar o caminho profissional, por mais que você esteja na base. Minha mãe não estava muito contente, porque começaram as viagens e a deixei em segundo plano", lembra. "O Mundial sub-20 foi a etapa mais linda no futebol durante minha adolescência".

Após esse início fulminante, porém, Hernán López passou de revelação a andarilho.

"Passei do River ao Torino, que estava na Série B. Tudo mal. 'Como pode ser que me tenham transferido a um time no qual não jogo?', me questionava. Depois ia a outra equipe e não tinha continuidade. E assim sucessivamente", afirma.

Na Grécia, atuou pelo Kavala: "Fui de empréstimo junto a outro uruguaio, de agosto a dezembro de 1999. Saiu tudo errado, mas serviu de vivência. Conheci Atenas, as ruínas... Mas você está contente quando joga, e não quando vai de turista".

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A mudança de rumo aconteceu no Olimpia, do Paraguai, onde foi campeão da Libertadores em 2002 e teve a chance de disputar o Mundial Interclubes.

"Desfrutei de ir ao Japão disputar a Copa Intercontinental. Nós enfrentamos o Real Madrid, nada menos. Era um time de estrelas galácticas, com Zidane, Ronaldo... Estivemos perto (de vencer), mas perdemos por 2 a 0. Quando comecei a jogar na rua, naqueles tempos no Uruguai, nem imaginava disputar uma partida no Japão. E Ronaldo me impactou. Um jogador espetacular", garantiu El Piojito.

Ele teve duas passagens pelo futebol mexicano atuando por Pachuca e América, mas um costume do país atrapalhou sua adaptação.

"Não me adaptei ao México pela maneira de viver. Com o América, começávamos a treinar às 11h e terminávamos às 3h da tarde. Me tiraram a sesta, não podia dormir. E almoçava às 4h. No Norte, quando estava no Pachuca, jogava como mandante ao meio-dia, porque era o horário oficial do clube. Uma loucura. No Norte, há insegurança, e o tráfico é tremendo. A experiência foi ao contrário do que no Paraguai. Praticávamos a partir das 8h, pelo calor, e chegava em minha casa às 11h. Então, almoçava, tirava a sesta e tinha o resto da tarde pela frente", explicou.

Hernán López também tem um carinho especial pelo Vélez Sarsfield, principalmente pelo técnico Ricardo Gareca (ex-Palmeiras e hoje na seleção peruana).

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Hernán López em sua passagem pelo Vélez Sarsfield em 2009: agradecimento a Gareca
Hernán López em sua passagem pelo Vélez Sarsfield em 2009: agradecimento a Gareca

"Parte da diretoria me queria fora a me ver de titular. Gareca me respaldou e me deu confiança. Assim me soltei e rendi como esperava. Vir ao futebol argentino, estar seis meses e sair, ele não ia permitir", disse.

"Quando Ricardo Gareca assumiu no Vélez, eu estava passando um semestre atípico ao jogar no time reserva junto a Santiago Silva. 'El Tigre' armara reuniões pessoais de meia hora. 'O que acontece? Por que não joga?', me perguntou. Comentei algumas coisas e ele me disse: 'Quero que fique. Considero que você é bom e te verei na pré-temporada'. Me deu confiança só com essas palavras. Marquei gols na pré-temporada e comecei o campeonato como o 9 titular, algo impensado. Foi o torneio que coroamos com o título. Olha o que acontece quando um treinador gera confiança em alguém".

Na Argentina, veio também o pior momento de sua carreira: uma grave lesão no joelho direito, cuja recuperação sofreu complicações, quando estava deixando o Vélez rumo ao Estudiantes treinado por Alejandro Sabella: "O jogo mais difícil que me apareceu foi esse: me recuperar da lesão e estar bem em um campo".

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Ele procurou até mesmo ajuda extracampo.

"Fui ao psicólogo, o que me ajudou a superar um mau momento. Somos jogadores de futebol, mas temos uma vida fora do campo. Como todos, também devemos resolver problemas. Não tem que ficar louco para falar com um psicólogo. Em princípio, fui cauteloso e depois me dei conta de que me servia", admitiu.

Desde 2012 Hernán Rodrigo López atua apenas no futebol paraguaio. Com passagens também por Cerro Porteño, Sportivo Luqueño e Libertad, hoje é o maior goleador da história da primeira divisão local (122 gols).