Greves, protestos, coragem: mulheres vão à luta por um futebol melhor (mas não no Brasil)

Maria Victoria Poli, do ESPN.com.br
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Seleção feminina dos Estados Unidos
Seleção feminina dos Estados Unidos

A história que segue trata de injustiça e desigualdade, mas nem por isso descarta um final feliz. Na verdade, ela ainda não tem um final e, talvez, demore a ter. Mas o importante é que tenha. E, se depender dessas mulheres, vai ter.

Ao mesmo tempo, essa história trata de uma luta que não pode sumir ou simplesmente se perder entre as tantas outras histórias que ouvimos todos os dias. De que adianta você trabalhar tanto ou mais que qualquer outra pessoa, você vencer tanto ou mais que qualquer outra pessoa e não ser recompensado igualmente pelo simples fato de ser mulher?

Três títulos de Copa do Mundo, quatro medalhas de ouro em Jogos Olímpicos, dez vezes campeã da Copa Algarve e, ainda assim, o reconhecimento, a visibilidade e as recompensas não eram iguais. A seleção feminina de futebol dos Estados Unidos é o maior exemplo de uma sequência de gerações vitoriosas dentro de campo que já não se contentam mais com troféus, medalhas, aplausos e tapinhas nas costas. Elas querem mais.

Durante o último ano e meio, jogadoras de destaque como Alex Morgan, Hope Solo, Megan Rapinoe, Carli Lloyd e Becky Sauerbrunn mobilizaram toda a categoria na tentativa de chamar a atenção para um grave problema: o tratamento e as premiações desiguais no futebol de elite norte-americano.

Ora, elas praticam a mesma modalidade, são profissionais do mesmo ramo, disputam tanto quanto e já venceram muito mais do que os homens que defendem o mesmo país, então por que devem aceitar serem relegadas a premiações e condições inferiores?

Derrotadas na Corte Federal, em julho de 2016, às vésperas das Olimpíadas do Rio de Janeiro, as atletas da seleção dos EUA resolveram fazer um apelo público para essa situação de desigualdade. Se as autoridades não as escutavam, talvez a comoção popular pudesse mudar a situação.

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Jogadoras da seleção feminina dos EUA fazem campanha por salários iguais aos dos homens
Jogadoras da seleção feminina dos EUA fazem campanha por salários iguais aos dos homens

"Preferíamos não precisar lidar com isso, mas não vamos recuar de maneira alguma", disse Rapinoe, na época.

Para isso, apostaram em uma campanha com camisetas e tatuagens temporárias com o slogan "Equal Play Equal Pay" (Jogo Igual Pagamento Igual). As imagens, assim como a mensagem, seriam veiculadas nas mídias sociais e antes das partidas como forma de pressionar a Federação.

Mas essa luta não é de hoje. A questão, na verdade, é muito mais profunda e até mesmo assombra a história do país.

Na Constituição dos Estados Unidos não existe sequer uma menção explícita à igualdade de gênero - para se ter uma noção, outras 197 Constituições no mundo o fazem, inclusive a do Brasil. Em 1923, foi apresentada ao Congresso a "Equal Rights Amendment (ERA)", uma emenda que previa a igualdade de direitos entre homens e mulheres, mas que nunca foi aprovada.

No âmbito internacional, o país é um dos seis únicos membros da ONU que não ratificaram a Convenção sobre Eliminação da Discriminação contra a Mulher, de 1979. Os outros cinco integrantes desta lista são Irã, Somália, Sudão do Sul, Tonga e Vaticano.

Marta fala sobre a evolução do futebol feminino e diz sentir saudade do Brasil

Na última quarta-feira, porém, as mulheres da seleção nacional deram mais um grande passo na batalha por direitos e igualdade salarial. Com as mesmas jogadoras na linha de frente do movimento, o time se articulou como sindicato pelos últimos meses e conseguiu um acordo com a federação, com garantias de avanços e investimentos na liga feminina pelos próximos cinco anos.

Além do salário mais justo e das premiações por campeonato - ainda não iguais aos dos homens -, as jogadoras também pressionaram tendo em vista outras mudanças que julgam cruciais para o desenvolvimento, a longo prazo, de seu jogo. As conquistas levam em consideração a carreira tanto no clube como na seleção, e estabelecem melhor estrutura para esta e para as próximas gerações do futebol feminino dos Estados Unidos.

"Eu estou incrivelmente orgulhosa deste time e do compromisso que mostramos durante todo o processo", afirmou Rapinoe. "Apesar de acreditar que ainda há muito progresso a ser feito para nós e para as mulheres do mundo todo, acho que a WNTPA deveria ficar muito orgulhosa deste acordo e se sentir empoderada e no caminho certo", finalizou a meio-campista.

 

  • IRLANDA

 

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As jogadoras da seleção da Irlanda pedem respeito
A seleção feminina da Irlanda pede respeito

E o mais importante é que elas não estão sozinhas. Cada vez mais mulheres de todo o mundo têm se mostrado parte de uma geração corajosa, desafiadora, disposta e vencedora - e não somente dentro do campo de futebol.

Na última quarta-feira, as jogadoras da seleção da Irlanda se recusaram a treinar às vésperas de um amistoso contra a Esolváquia, em Dublin. O motivo? As péssimas condições de trabalho oferecidas pela federação irlandesa.

Entre os pedidos das jogadoras estão o pagamento de cerca de mil reais por participação com bônus de 500 reais por vitória e 250 em caso de empate. Reivindicações por nutricionistas e programas individuais de condicionamento e fortalecimento físico, acesso a equipamentos de treino e acomodações em hotéis que tenham, pelo menos, acesso à internet são algumas das solicitações.

Mesmo assim, a parte financeira deste debate talvez seja a que menos importa. Algumas atletas chegaram a reclamar do fato de precisarem se trocar em aeroportos e, posteriormente, devolverem os uniformes após as partidas.

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A seleção feminina da Irlanda foi a público para reivindicar mudanças
A seleção feminina da Irlanda foi a público para reivindicar mudanças

O jogo, programado para esta segunda-feira, corria o risco de boicote. No entanto, na quinta-feira, após as reivindicações públicas das atletas, a Football Association of Ireland (Associação de Futebol da Irlanda) afirmou que houve uma negociação de sucesso e que as jogadoras retornariam normalmente aos treinos que antecedem a partida.

"A associação está satisfeita com o fato de que os dois lados chegaram a um acordo comum, que pemite que as duas partes avancem, de forma conjunta, como uma só, visando os melhores interesses do futebol irlandês", afirmou a organização por meio de um comunicado oficial.

  • NIGÉRIA

 

Soma-se às irlandesas o emblemático protesto das mulheres nigerianas.

O gol de Desire Oparanozie contra Camarões deveria ter sido única e exclusivamente motivo de festa pelo oitavo título do país na Copa Africana de Nações. Mal sabiam as jogadoras que depois da vitória, em 3 de dezembro, elas precisariam escutar e suportar da Federação de Futebol da Nigéria que "severos desafios econômicos" pelas quais a instituição atravessava impediam o pagamento prometido pelo título.

A resposta veio em forma de ação: por mais de 10 dias as jogadoras acamparam em um hotel em Abuja, capital do país, e foram até as portas da Assembleia Nacional, com cartazes e o apoio de torcedores, cobrar o que lhes é de direito.

"Líderes da Nigéria, não estamos pedindo para sermos celebradas, para que paguem por nosso título. Não somos animais, mas seres humanos que se sacrificaram por nossa nação. O que buscamos é nosso direito de receber pelo que trabalhamos", diziam.

O pedido de Onomi Ebi, jogadora da seleção nigeriana, aconteceu no mesmo dia em que Muhammadu Buhari, presidente da Nigéria, anunciou ao parlamento um plano orçamento recorde para 2017 com o objetivo de retirar o país da recessão econômica.

As Super Falcons, dias depois, escutaram da federação que receberiam o pagamento, mas que "o dinheiro não estava imediatamente disponível naquele momento".

 

  • SUÉCIA

 

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Camisa seleção Suécia
Edição especial das camisas da seleção sueca

A seleção da Suécia também virou protagonista na luta por um futebol mais justo. Em março deste ano, a Adidas, fornecedora oficial dos uniformes da equipe, lançou uma edição especial das camisas com frases motivacionais para a disputa da Copa Algarve.

"Acredite em você mesma". "Estou jogando por minhas garotas do Irã". "Eu acredito que mulheres podem fazer qualquer coisa que elas decidirem". Estes são alguns dos dizeres - na verdade, tuítes - que estampam as camisas. As autoras são mulheres suecas e influentes, ligadas ou não ao futebol, que tentaram encorajar, inspirar e motivar outras em até 140 caracteres.

 

  • BRASIL

 

Enquanto estes casos mostram mudanças efetivas no modo de se encarar o futebol feminino ao redor do mundo, o que vemos no Brasil ainda é uma modalidade na periferia dos holofotes no que diz respeito a patrocínio e investimento. A exemplo disso está a recente chegada de Marta ao time feminino do Orlando City, o Orlando Pride.

A equipe da Flórida anunciou a brasileira, eleita cinco vezes Melhor Jogadora do Mundo pela Fifa, como "a maior de todos os tempos". O dirigente, inclusive, afirmou que a contratação da atleta é "motivo de orgulho" e uma prova da "crença na equipe feminina" do clube.

Robert Cianflone/FIFA via Getty Images
Marta Brasil Canada Rio 2016 Futebol Feminino 19/08/2016
Marta, cinco vezes melhor do mundo pela Fifa

Apesar de Marta, o exemplo de reivindicação e resultados das norte-americanas ainda é uma realidade distante do futebol brasileiro. Por aqui, as condições mínimas de trabalho para as mulheres passam pelo desejo da consolidação de estrutura, de categorias de base e das próprias equipes que dependem de apoio privado e parcerias, na maioria das vezes, para simplesmente existirem.

Resta saber se a luta de todas essas mulheres ao redor do mundo servirá de exemplo também para o futebol feminino no Brasil, porque não é justo ter que se contentar sempre com a grama sintética. Elas entenderam.