Handebol fez dívida de R$ 7,5 milhões por Mundial no Brasil, dividiu em cinco vezes e não pagou parcelas

Diego Garcia, do ESPN.com.br
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Durante a realização do Mundial 2011 - aquele mesmo em que a ESPN indicou fraudes de R$ 6 milhões em 14 licitações - a Confederação Brasileira de Handebol (CBHb) fez uma dívida de 2,365 milhões de francos suíços (R$ 7,5 milhões) com a Federação Internacional de Handebol, mas até hoje não a quitou.

A dívida consta em documentos sigilosos obtidos pelo ESPN.com.br com exclusividade. Neles, o presidente da CBHb, Manoel Luiz Oliveira, assina as cartas enviadas ao vice-presidente da IHF, Miguel Roca, e também ao diretor da entidade, Amal Khalifa - uma delas também vai direto ao presidente da IHF, Hassan Moustafa.

Em contato com a reportagem, o cartola confirma que até hoje não quitou a quantia "por falta de recursos", e que os documentos obtidos pela ESPN são sigilosos - e, portanto, não deveriam ter vazado à imprensa.

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Documento em que presidente da CBHb promete parcelar dívida com a IHF
Documento em que presidente da CBHb promete parcelar dívida com a IHF


Além disso, a CBHb diz que o pagamento, hoje, será por meio da realização de campeonatos. A reportagem também tentou contato com a IHF, que não respondeu até a publicação.

Na documentação obtida pela reportagem, Manoel propôs, em 16 de julho de 2012, parcelar a dívida em cinco parcelas. A primeira delas seria de 365 mil francos suíços em dezembro de 2012; a segunda, de 500 mil francos suíços em dezembro de 2013; a terceira, de 500 mil francos suíços em dezembro de 2015; a quarta, de 500 mil francos suíços em dezembro de 2014; e a quinta, de 500 mil francos suíços em dezembro de 2016.

Em uma segunda carta, de 28 de dezembro de 2012 - por sinal, na mesma época em que estava combinado o pagamento da primeira parcela -, o cartola afirma que combinou de se encontrar com Roca em Barcelona, no dia 7 de janeiro de 2013, para "realizar o pagamento da primeira parcela", mas que um telefonema com uma terceira pessoa o fez acordar que o pagamento seria feito em Madri.

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Veja documento em que presidente da CBHb promete pagar dívida com cartões de viagem da delegação
Em documento, cartola da CBHb promete pagar "primeira parcela" com cartões de viagem


"Queria informar que temos tudo preparado para fazer o pagamento, que será feito por meio de cartões Visa Travel Money que cada membro da delegação (da seleção brasileira masculina) vai levar consigo", diz o presidente Manoel Luiz de Oliveira, em carta obtida pela reportagem.

No entanto, não é possível confirmar se a "primeira parcela de pagamento" mencionada nesse documento é, de fato, relativa à dívida do Mundial. A CBHb diz que usou os cartões "para manutenção da seleção" na Espanha.

Ocorre que a delegação do Brasil estaria chegando em terras espanholas para a disputa do Campeonato Mundial de Handebol Masculino de 2013 - e a seleção quase ficou de fora da competição por conta da dívida, depois de ameaças feitas de suspensão pela IHF.

DJALMA VASSÃO/Gazeta Press
Manoel Luiz Oliveira é presidente da CBHb há 28 anos
Manoel Luiz Oliveira é presidente da CBHb há 28 anos

 

  • OUTRO LADO

Confira, abaixo, todo o outro lado da CBHb, também com a abordagem e as perguntas, na íntegra, feitas pela reportagem da ESPN à confederação.

"ESPN - Tenho aqui um documento, de 28 de dezembro de 2012, assinado pelo presidente Manoel Luiz de Oliveira, endereçado a Miguel Roca e Amal Khalifa, da Federação Internacional de Handebol (IHF), em que a CBHb se compromete a pagar dívida com a IHF por meio de cartões Visa Travel Money dos membros da delegação da seleção brasileira. Além do que, segundo informado à reportagem, essa dívida não consta na prestação de contas da CBHb. Ainda existe outro documento enviado à IHF, de 16 de julho de 2012, em que o presidente Manoel divide o pagamento da dívida em: 365 mil francos suíços em dezembro de 2012; 500 mil francos suíços em dezembro de 2013; 500 mil francos suíços em dezembro de 2015; 500 mil francos suíços em dezembro de 2014; e 500 mil francos suíços em dezembro de 2016. Diante dessas informações, tenho essas perguntas à CBHb:

1) A CBHb gostaria de contestar as informações acima?
Resposta: Prezado Sr. Diego, temos conhecimento dos documentos que estão em sua posse, os mesmos foram também passados para outros veículos; documentos estes são CONFIDENCIAIS E SIGILOSOS, o que é motivo de sindicância interna. Mas esclarecemos que com relação ao conteúdo dos documentos, de fato, foi proposto à Federação Internacional de Handebol (IHF) uma forma parcelada de pagamento da dívida assumida junto à entidade, porem esta proposta não foi cumprida, pois a CBHb não teve recursos para honrar. Foi elaborado um acordo para pagamento, com a participação do Ministério do Esporte por meio de realização futura de campeonatos internacionais.

2) Parte da dívida com a IHF foi paga com os cartões Visa Travel Money da delegação? Se sim, a CBHb pode identificar quais membros de delegação utilizaram seus cartões para o pagamento?
Resposta: Não . "A despesa paga via cartão Travel Money foram recursos para manutenção da seleção adulta masculina no mundial da Espanha em 2013, equivalentes a taxa e despesas de participação."

3) Quanto da dívida foi pago dessa forma?
Resposta:
Nenhuma parte foi paga desta forma.

4) A dívida com a IHF já foi quitada? Se sim, quando e de que forma?
Resposta: Não, a dívida existe.

5) Por que a dívida com a IHF não consta na prestação de contas da CBHb?
Resposta: Conforme foi esclarecido aos presentes na Assembleia Geral finalizada no último dia 31/01, a dívida junto à IHF é proveniente da realização do Campeonato Mundial Feminino de 2011 no Brasil, onde a IHF efetuou pagamentos a fornecedores diretamente, com a promessa de a CBHb ressarcir posteriormente. Foi elaborado um acordo para pagamento, com a participação do Ministério dos Esportes, por meio de realização futura de campeonatos internacionais. Porém, até o momento, está se deliberando entre as partes a elaboração de um instrumento nestas condições, não podendo ser nada contabilizado até a formatação do documento assinado entre as partes. Assim que tivermos de posse do documento, faremos o registro contábil".

  • DOSSIÊ HANDEBOL

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