Lesão no cérebro, família e título: como australiano escreveu uma das mais belas histórias do surfe

Luiza Ferraz, para o ESPN.com.br
Divulgação/WSL
Família ajudou Owen Wright a escrever uma das mais belas histórias do surfe
Família ajudou Owen Wright a escrever uma das mais belas histórias do surfe

O último sábado foi de muitas emoções em Gold Coast, na Austrália. Depois de uma temporada inteira fora do Mundial de surfe, por conta de uma lesão quase fatal no cérebro, causada por uma queda em Pipeline, no Havaí, o australiano Owen Wright mostrou que está de volta e venceu a etapa de abertura do Tour, em uma final contra o defensor do título e seu compatriota Matt Wilkinson.

Essa foi considerada, por muitos, a maior reviravolta da história do surfe. Afinal, até alguns meses atrás, Owen não conseguia nem subir em uma prancha e, agora, foi o campeão de uma das etapas mais cobiçadas do circuito. Na praia e no palanque, o público foi ao delírio, e do começo ao fim, o australiano derrubava lágrimas de emoção. Mas qual foi o segredo para a sua rápida ascensão?

Para quem acompanha o surfe, o nome da família Wright é um dos mais tradicionais e promissores do esporte. São sete filhos, dos quais dois, Owen e Tyler, disputam a elite mundial, e o mais novo, Mikey, participa de campeonatos e desbrava ondas ao redor do mundo com sua patrocinadora. O pai, Rob, sempre incentivou os filhos dentro e fora d'água, como um verdadeiro técnico, em uma conexão familiar que foi fundamental na dura jornada de Owen Wright no último ano.

Veja momentos da final masculina de Gold Coast, vencida por Owen Wright

Perda de memória, dificuldade para falar e andar foram apenas algumas das consequências que o surfista sofreu desde o acidente - que interrompeu a sua sonhada disputa pelo título de melhor do mundo. Se sua vida esteve em risco, surfar, então, parecia completamente fora de questão... Foi nesse momento que sua irmã Tyler foi peça-chave na reabilitação. Ela esteve do seu lado do começo ao fim, procurando os melhores profissionais para tratá-lo, enquanto carregava o nome da família no circuito feminino.

Treinada pelo irlandês e ex-competidor do WCT Glenn Hall, a australiana decidiu que seria campeã mundial naquele ano, servindo como inspiração para que seu irmão pudesse se reerguer. Dito e feito. Foram quatro etapas e dez vitórias que a levaram ao tão esperado caneco. E seu irmão? Apesar de ainda debilitado, estava sempre lá para apoiá-la. A primeira vitória veio em Gold Coast, há exatamente um ano e pouco depois do acidente, com uma das cenas mais emocionantes do esporte: Tyler desceu do palanque de campeã e foi direto para os braços do irmão - que chorava.

"Existem muitas razões pelas quais decidi ganhar o título mundial esse ano, razões das quais eu não falei publicamente", contou a surfista ao Daily Mail, após ganhar o título mundial. "Eu amo tanto a minha família, o Owen e a minha mãe, e poder fazer isso por eles é muito gratificante e especial."

Reprodução/Twitter
Owen Wright comemora título com a mulher e o filho
Owen Wright comemora título com a mulher e o filho

Além da força da irmã, Owen também viu nascer o seu primeiro filho, Vali Wright, com a namorada de longa data Kita Alexander. Antes de começar a temporada, ele comentou: "O que eu mais quero nesse próximo ano, é vencer um evento e ver a minha namorada e meu filho sorrindo. Se eu puder fazer isso, estou feliz!".

E o mundo do surfe vibrou ao ver um de seus jovens ícones voltando tão precocemente, sendo que há menos de um ano mal conseguia ficar em pé em uma prancha de surf - em 2015, ele havia surfado com maestria as ondas de Fiji, estabelecendo a histórica marca de duas baterias perfeitas em uma mesma etapa.

Foram diversas homenagens nas redes sociais, vindas de surfistas do mundo inteiro e de grandes nomes como Mick Fanning, Gabriel Medina e o também finalista Matt Wilkinson, que escreveu: "Você é a única pessoa para quem eu perdi e mesmo assim fiquei feliz. É tão bom te ter de volta".

Owen Wright eliminou o brasileiro Gabriel Medina para chegar à final em Gold Coast

Naquele momento, não existia nacionalismo ou rivalidade, tanto os atletas no palanque, quanto o público na areia, gritavam por um só nome, "Wright", que vivia ali o seu verdadeiro "final" - pois ele ainda tem muito por vir - feliz.