Edu Dracena lamenta não ter realizado maior sonho da vida e revela: 'Quase fui para o Real Madrid dos galácticos'

Francisco De Laurentiis e Vladimir Bianchini, do ESPN.com.br
Elsa/Getty Images
Edu Dracena Brasil Mexico Amistoso 12/09/2007
Dracena em jogo da seleção, em 2007: dois anos antes, ele quase foi para o Real Madrid

2ª parte de entrevista exclusiva com Edu Dracena. Confira mais no domingo

Para ler a 1ª parte, clique aqui

Eduardo Luís Abonizio Souza pode dizer que realizou todos os sonhos na vida.

Quer dizer, quase todos...

Mais conhecido como Edu Dracena, o zagueiro do Palmeiras, de 35 anos, disse em entrevista ao ESPN.com.br, que ainda quer ganhar um Mundial de Clubes antes começar a pensar em aposentadoria dos gramados: "É o único título que me falta", confessou.

Seu outro sonho era disputar uma Copa do Mundo com a seleção brasileira, o que estava encaminhado para acontecer no Mundial da Alemanha, em 2006, já que ele vinha sendo preparado para ser um dos beques do Brasil desde a Copa das Confederações de 2003. 

No entanto, uma lesão no joelho sofrida em 2005, que resultou em uma das quatro cirurgias que ele fez no local durante a carreira, o impediu de estar na equipe de Carlos Alberto Parreira na Copa das Confederações de 2005, vencida pela seleção, e, consequentemente, no Mundial do ano seguinte, em que o Brasil caiu nas quartas.

De quebra, Dracena também revelou que esteve muito próximo de assinar com o Real Madrid dos "galácticos", então chefiado pelo técnico Vanderlei Luxemburgo, que era fã de Edu e havia comandado o defensor no forte Cruzeiro da Tríplice Coroa, em 2003.

Hoje em Dia/Gazeta Press
Edu Dracena Comemora Trofeu Campeonato Mineiro Cruzeiro 08/04/2006
Edu Dracena comemora conquista do Campeonato Mineiro em 2006, pelo Cruzeiro

Porém, essa mesma lesão que o tirou da Copa do Mundo também o impediu de jogar ao lado de Roberto Carlos, Zinedine Zidane, Ronaldo "Fenômeno" e David Beckham.

"Em 2005, o Vanderlei tinha me indicado e eu já estava conversando com o Real Madrid. Na semana em que os representantes do clube viriam para o Brasil para a gente conversar cara a cara e me verem jogar, eu sofri a lesão. Foi na final do Campeonato Mineiro. Acabamos derrotados e me machuquei aos 46 do 2º tempo", lamentou, em bate papo na Academia de Futebol do Palmeiras, clube que Edu defende desde o ano passado.

Elsa/Getty Images
Edu Dracena Lucio Brasil Mexico Amistoso 12/09/2007
Dracena conversa com Lúcio em jogo da seleção

Sobre não ter disputado a Copa do Mundo de 2006, ele lamenta não ter conseguido realizar o "maior sonho" da carreira como jogador. No entanto, prefere pensar em todos os que conseguiu tornar realidade em 18 anos de carreira.

"Era meu maior sonho, mas infelizmente não foi possível... Por outro lado, ganhei muitos títulos durante a minha carreira, títulos que poucos jogadores conseguiram. Só tenho que agradecer por tudo o que conquistei e seguir fazendo meu melhor", ressaltou o atleta, que começou a carreira no Guarani-SP.

Na entrevista, Edu Dracena também lembrou seu início de carreira, em um Guarani vivendo grave crise financeira, a amizade com o ex-meia Neto, hoje comentarista da TV Bandeirantes, os bons anos de Fenerbahce-TUR, e apontou Rodrigo Caio, do São Paulo, e Vítor Hugo, do Palmeiras, como futuro da defesa brasileira, entre outros assuntos.

Confira a primeira parte da entrevista com Edu Dracena:

ESPN: Você começou a jogar no Guarani com que idade?
Edu Dracena: Comecei bem novinho, com 13 anos fui fazer um teste na base e fiquei. Larguei toda a estrutura da família em Dracena para ir para a cidade grande. Nunca tinha saído de casa, mas tinha esse sonho de ser jogador. Sempre batalhei para isso e desejei ter sucesso. Fui fazer o teste no Guarani por indicação de um amigo que estava jogando, eu não tinha empresário nessa época. Fiquei um ano viajando três vezes ao mês de Dracena para Campinas. Eram 11 horas de ônibus!

Divulgação/Guarani Futebol Clube
Edu Dracena Guarani
Edu Dracena em ação pelo Guarani, time que o revelou

ESPN: Quais suas lembranças desse seu time do Guarani?
Edu Dracena: Era um time fortíssimo. Jogávamos eu, Elano, Renato, Martinez, todos da base do "Bugre". Nessa época eu conheci e fiquei amigo do Neto também. Estava em posto de gasolina e o Neto estava na loja de conveniênica. Olhei e pensei: "Caramba, olha o Neto!". Fui lá cumprimentar a me apresentei. Por coincidência, uma semana depois ele virou gerente de futebol do Guarani.

ESPN: E como era o trabalho do Neto na diretoria?
Edu Dracena: O momento do clube era muito difícil financeiramente. Isso nos uniu ainda mais e ficamos amigos até hoje. Temos muito respeito, carinho e admiração um pelo outro. E não só pelo Neto jogador, mas pela pessoa mesmo.

ESPN: E como o Neto driblava essa crise financeira do Guarani?
Edu Dracena: Nessa época era dureza (risos). Jogávamos o Rio-São Paulo, e o Neto teve uma ideia: ao invés de irmos de avião para os jogos, que tinha que gastar mais, vamos pegar o dinheiro das viagens de avião, pagar parte dos salários atrasados e vamos de ônibus para o Rio de Janeiro. A gente chegava tudo "quebrado" (risos). Isso ficou marcado na minha vida. Foi um aprendizado muito grande.

ESPN: E como você avalia sua passagem pelo Guarani?
Edu Dracena: Foi muito difícil, até porque peguei muito atacante bom no auge (risos). Meu Deus do céu, todo jogo era um sofrimento. Joguei contra Edílson "Capetinha", Evair, Edmundo, Romário, Luizão, Oséas, Paulo Nunes, Marcelinho Carioca, Viola... Olha os nomes! Eu tinha só 17 anos e tinha que enfrentar esses caras. Outro dia encontrei o Marcão [ex-goleiro do Palmeiras], que mora no meu prédio aqui em São Paulo, e falei: "Joguei contra vocês em 99! Vocês tinham Júnior Baiano, Clebão, Arce, Júnior, César Sampaio, Alex, Oséas, Paulo Nunes, Evair e nem assim ganharam (risos)". Acabou 0 a 0 esse jogo.

Zé Elias lembra quando atacante deitou e rolou sobre Edu Dracena pelo Olympiacos

ESPN: E como você ganhou o apelido de Edu Dracena?
Edu Dracena: O Beto Zini [lendário ex-presidente do Guarani] não queria que eu usasse Edu Dracena. Quando eu comecei, era conhecido como Eduardo Luiz, que é meu nome de verdade. Ele falava: "Eduardo Luiz! Isso sim que é nome de zagueiro! (risos)". Mas tinha um problema: na base, havia três caras chamado Eduardo. Quando o treinador chamava, todos olhavam (risos)! Aí, como nasci em Dracena, virei o Edu Dracena, o outro virou Edu Valinhos e o terceiro ficou como Edu Gonçalves. Acabou que ninguém mais foi chamado de Eduardo, todos os apelidos pegaram. 

ESPN: Como foi que você subiu para o profissional?
Edu Dracena: Minha estreia foi contra a Matonense, no Campeonato Paulista, e foi muito especial. Ali eu pensei: 'Agora vai!'. Foi um momento muito importante, porque essa minha geração subiu direto do juvenil pro profissional sem escalas. Nós fomos para a Copa São Paulo, mas ficamos no banco pela idade. Os meninos mais velhos foram eliminados ainda na primeira fase, e nós acabamos sendo promovidos direto para o profissional depois. Aí ia ter um jogo da Copa do Brasil na quarta e o técnico resolveu poupar os titulares no fim de semana, então mandou a molecada toda para o jogo. Era a chance da minha vida, eu sabia que se fosse bem ia me firmar no profissional. Perdemos por 1 a 0, mas joguei bem pra caramba. Depois do jogo, lembro que o Beto Zini falou: "Vocês vão ouvir falar muito desse garoto ainda". Outro jogo dessa época que me marcou foi contra o Flamengo do Romário. Jogamos no Brinco de Ouro e ganhamos por 1 a 0. Anulamos o ataque deles!

ESPN: E sua passagem pelo Olympiacos?
Edu Dracena: Eu estava jogando bem e eles me emprestaram para o time, que na época disputava direto da Champions League. Eu fiquei só seis meses lá. Infelizmente, eles estavam com problemas financeiros e atrasaram três mses o meu salário. Estava vivendo na Grécia com meu irmão e resolvemos voltar para o Brasil. Foi bom pelo aprendizado e pela experiência. Joguei com caras como Zé Elias e Giovanni "Messias".

Ross Kinnaird/Getty Images
Edu Dracena Olympiacos Veron Manchester United Champions 23/10/2003
Edu Dracena marca Juan Sebastián Verón durante Olympiacos x Manchester United

ESPN: Aí você voltou para o Guarani e logo acertou com o Cruzeiro, não é?
Edu Dracena: Isso. Cheguei no time da Tríplice Coroa no fim de janeiro. Conheci o Felipe Melo no meio do ano. Reencontrá-lo agora no Palmeiras, neste momento das nossas carreiras, foi muito bacana. Espero que a gente possa contribuir para sermos campeões juntos novamente.

ESPN: Quais as grandes lembranças daquele super-time do Cruzeiro?
Edu Dracena: Os títulos, né? Todos eles! Quando você conquista troféus, você marca território. É isso que é importante. A Tríplice Coroa foi algo inédito para o clube. São coisas como essa que marcam nossa carreira pelo resot da vida. Isso eu sempre falo para os momentos mais novos: "Vocês têm que chegar ao clube para serem campeões e trabalharem duro para isso. Não adianta só passar e ser esquecido depois".

Lugano conta que Dracena bateu a cabeça contra o Chelsea e convidou todos para casamento

ESPN: Você ganhou tudo no Cruzeiro, vinha jogando na seleção... Como foi parar no Fenerbahce?
Edu Dracena: O Fener surgiu do nada. Teve muita especulação de transferência minha nessa época. Diziam que eu estava conversando com o Milan, com outros clubes, mas eram só sondagens. De repente, um empresário me ligou falando que o Fener me queria. Eles tinham acabado de contratar o Lugano, então nem acreditei na hora. Mas foi tudo muito rápido. Eles me ligaram na quinta, na sexta os caras foram para Minas e no sábado batemos o martelo. Domingo já fui embora, porque faltavam poucas horas para fechar a janela europeia. Muotos times sondaram, mas só eles chegaram e pagaram o que o Cruzeiro queria. Eu cheguei em Istambul junto com o Deivid, que tinha saído do Sporting. A gente tinha jogado junto no Cruzeiro, em 2003. Quando estava negociando, liguei para o Alex, que também tinha sido do time da Tríplice Coroa, e perguntei como era lá. Ele me disse: "Pode vir de olhos fechados que você vai ser dar muito bem aqui".

YURI KADOBNOV/AFP/Getty Images
Edu Dracena Fenerbahce Jo CSKA Champions 02/10/2007
Edu marca Jô durante Fener x CSKA na Champions

ESPN: Guardou boas lembranças dos três anos de Fenerbahce?
Edu Dracena: Excelentes! O povo turco é muito fanático, não dá para comparar com o Brasil. Os turcos te enxergam como... Sei lá, um personagem, um astro. É muito diferente do Brasil. Aqui, se você ganha, pode sair tranquilo na rua, mas se perder não pode. Lá, eles te enxergam como um ídolo, independentemente de vitória ou derrota, é diferente. Jogar lá foi a melhor escolha que fiz. Fomos campeões no ano de centenário do clube, a festa foi absurda, muito marcante. Eu me adaptei muito bem ao país e à cultura, fui muito feliz lá. Foram três anos vitoriosos e intensos. Fiquei lá até quando tive a lesão que rompi o ligamento cruzado do joelho.

ESPN: E na seleção, por que você acha que não se firmou?
Edu Dracena: Eu joguei em todas as seleções de base até a pré-olímpica. Acho que o que atrapalhou um pouco a nossa geração foi aquela eliminação no pré-olímpico de 2004... Quando eu estava no meu auge, eu estava negociando com o Real Madrid e...

ESPN: Com o Real Madrid? É mesmo?
Edu Dracena: Sim. Em 2005, o Vanderlei Luxemburgo, que tinha sido meu técnico no Cruzeiro, me indicou e os clubes estavam conversando. Era a época do Real Madrid dos galácticos. Só que, na semana que em que os representantes do Real viriam para o Brasil para a gente conversar cara a cara e me verem jogar, eu sofri uma lesão grave no joelho. Foi na final do Campeonato Mineiro. Acabamos derrotados e me machuquei aos 46 do segundo tempo. Aí não deu certo.

Richard Heathcote/Getty Images
Edu Dracena Fenerbahce Drogba Chelsea Champions 02/04/2008
Dracena levanta Drogba durante Fener x Chelsea

ESPN: Você fica triste pensando nessa transferência que não deu certo?
Edu Dracena: Sendo bem sincero, não fico reclamando e pensando "por que bem comigo?". Eu procuro encarar as dificuldades e olhar para a frente. Já que aconteceu comigo, bola pra frente e "vam'bora". Tive que superar muitos obstáculos na carreira. Superer quatro lesões, e sempre tive o pensamento positivo de que iria voltar melhor. E sempre voltei mesmo, porque ficava seis meses me preparando para isso. Não tenho do que reclamar.

ESPN: Mas retomando a história da seleção: por que acha que não se firmou?
Edu Dracena: Então... Eu estava convocado para jogar a despedida do Romário da seleção brasileira, no Pacaembu, mas, no domingo, sofri a lesão grave no meu joelho, que me deixou seis meses parado em 2005. Esfriou um pouco. Se isso não tivesse acontecido, sem dúvida eu teria tido uma vida maior na seleção brasileira

Alex conta como abraço de Zico em motorista abalou clima no Fenerbahce: 'Para eles, é loucura'

ESPN: Você era nome praticamente certo na Copa das Confederações e na Copa do Mundo. Fica frustado por isso?
Edu Dracena: Nunca me arrependi de nada na carreira. Sempre fiz meu melhor e nunca fiquei frustado de não ter disputado uma Copa do Mundo. Óbvio que era meu maior sonho como jogador, mas infelizmente não foi possível. Por outro lado, ganhei muitos títulos durante a minha carreira, títulos que poucos jogadores conseguiram. Só tenho que agradecer por tudo o que conquistei e seguir fazendo meu melhor

ESPN: Para você, quem são os futuros grandes zagueiros do Brasil?
Edu Dracena: Gosto muito do Rodrigo Caio, e não só por ele ser de Dracena como eu (risos). Está direto na seleção e falo para ele que, quando eu parar, é ele quem vai dar sequência ao legado da nossa cidade (risos). Também gosto muito do Vítor Hugo, um companheirão aqui de Palmeiras, e do Gabriel, do Atlético-MG, que é moleque novo, mas pode dar muito retorno. O Brasil está muito bem servido de zagueiros. Quando eu comecei a carreira, era uma posição muito criticada, mas hoje temos Miranda, Thiago Silva, Maquinhos, Miranda, Gil, tantos outros... O Tite pode escolher de olho fechado.

ANTONIO SCORZA/AFP/Getty Images
Edu Dracena Ronaldinho Gaucho Treino Seleção Brasileira Copa das Confederações 15/06/2003
Edu Dracena marca Ronaldinho Gaúcho durante treino da seleção, em 2003

ESPN: Você e o Rodrigo Caio são rivais de clubes, mas são bem amigos, então?
Edu Dracena: Eu conheço a família dele há muito tempo, e nós nos vemos todo fim de ano em Dracena. Acho isso bacana, porque muitas vezes posso passar para ele um pouco da experiência das coisas que vivi.

ESPN: E quais conselhos você dá a ele?
Edu Dracena: Quando ele teve uma lesão grave, por exemplo, eu conversei muito bom ele, disse que aquilo era coisa de momento e ele ia voltar forte. Corremos esses risco (de se lesionar) todo dia, até nos treinos. A gente fica triste, porque é muito ruim ficar tanto tempo fora. Você sente falta da adrenalina dos jogos, até das concentrações. Acaba dando o valor para as mínimas coisas. Até de andar você sente falta, porque nos primeiros dias fica de muletas. No fim, você acaba refletindo que precisa dar mais valor às coisas. Eu sou saudável e tenho que fazer sempre meu melhor, e não ficar reclamando que estou cansado. Precisa treinar em cima do cansaço e se superar a cada dia.

Orivaldo Chaves/Agência RBS/Gazeta Press
Edu Dracena Cruzeiro Rafael Sobis Internacional Campeonato Brasileiro 28/05/2006
Edu marca Rafael Sóbis durante Cruzeiro x Inter

ESPN: O que mais mudou nesses seus 18 anos de carreira no futebol?
Edu Dracena: Muita coisa! Acho que o que mais estranho é essa coisa das redes sociais, além da cobertura muito maior da imprensa. Dentro de campo, há um número gigantesco de câmeras, tudo o que você faz é filmado, absolutamente tudo. E a repercussão de qualquer coisa que você fala ou faz é muito maior e está ao alcance do mundo todo em um clique.

ESPN: E dentro de campo?
Edu Dracena: Hoje vejo muito imediatismo com os jogadores jovens. Na minha época já estava começando isso, mas agora aumentou muito mais. Os caras sobem jogadores da base sabendo que eles não estão prontos, que ainda faltam fundamentos, muito crus ainda. Não pode queimar etapas por causa de interesses ou para que ele possa jogar logo. Se fosse hoje que eu estivesse começando, talvez não seria jogador... Vejo que nas primeiras dificuldades muitos garotos desistem ou pedem para os empresários os levaram embora para fora do Brasil. Jogador aqui é muito mimado, e o empresário leva embora mesmo. Não é assim que tem que ser. O jogador precisa ficar e demonstrar seu valor. Por isso, acho o futebol muito mais complicado hoje em dia do que na minha época.