Sem xingar no Twitter e com estilo "bundão": brasileiro conta como é jogar 'Counter-Strike' profissional no Japão

Roque Marques/ESPN.com.br
Hisashi Yoshimura
Apesar de ter passado toda a vida no Japão, guin ainda mantém lado brasileiro vivo durante as competições
Apesar de ter passado toda a vida no Japão, guin ainda mantém lado brasileiro a mostra durante as competições

O brasileiro Guilherme "guin" Kiyota Tadashi é um desconhecido do público. Isso porque o jogador de Counter-Strike: Global Offensive não brilha nos torneios presenciais do país e nem vive em uma gaming house nos Estados Unidos. Fugindo do comum, guin atua profissionalmente pela DeToNaToR, um das principais equipes do Japão.

Nascido na cidade de Chiryu, na província de Aichi, o jogador de 19 anos vive com os pais, ambos brasileiros, e pouco se lembra da única vez que visitou o Brasil, quando ainda tinha 8 anos.

"Fiquei um mês no Brasil, na zona sul de São Paulo. É zona sul que se diz né?" indagou o jogador, que não é muito familiarizado com o país, mas conversou normalmente em português com o ESPN.com.br. "Fiquei um tempo também em Minas Gerais, onde é a casa da minha avó. Mas eu não lembro de muita coisa", completou.

Futebol deu lugar ao Counter-Strike

Antes de profissional no Counter-Strike, guin alimentava o sonho de quase todo menino brasileiro: o de ser jogador de futebol. "Eu gostava de jogar futebol, meus pais me levavam na escolinha aqui do bairro e eu sempre quis ser jogador profissional", revelou."Quando eu terminei a escola eu fui para o ensino médio, eu parei de jogar pois já estava desanimado. Foi quando comecei a jogar CS, aos 16 anos", afirmou o jogador.

"Estava tendo promoção e o jogo estava pela metade do preço. Todos os meus amigos do futebol, que eram brasileiros, compraram e a gente foi jogando. Depois eles começaram a ficar sem tempo e eu comecei a jogar com os japoneses", contou guin. "Me chamaram para um time amador e gostaram do meu estilo, um ano depois, a DeToNaToR me contratou", completou.

Depois de três meses de testes, em janeiro, o jogador foi enfim aceito na escalação, onde é o único não japonês.

Vida de profissional e cenário japonês

Questionado sobre como é a vida de um profissional no país nipônico, guin reclamou, além da rotina pesada de treinos, de um fato bem peculiar: não poder xingar no Twitter.

"Eles têm muito respeito ao próximo. Profissionais daqui tem uma regra: não pode xingar ninguém no Twitter. Você não pode falar praticamente nada pois a galera é respeitadora demais. As vezes é difícil não poder xingar ninguém", afirmou o jogador, em tom de brincadeira. "Treinamos 6 dias por semana e folgamos aos domingos. Normalmente jogamos das 20h até 1h ou 2h da madrugada. No fim de semana, começamos às 18h e vamos até umas 3h. É cansativo", completou.

guin revelou que costuma treinar com equipes japonesas, mas também enfrenta as potências asiáticas. "A gente procura mais treinar com times chineses, o cenário de lá da China é bem forte. Nós jogamos contra VG e TyLoo as vezes. Contra a MVP [principal equipe da Coréia do Sul] também".

Hisashi Yoshimura
Detonator
guin e a DeToNaToR participaram de seu primeiro torneio juntos recentemente

O jogador contou que o investimento no cenário de eSports japonês ainda é baixo, com o League of Legends e Street Fighter V sendo os mais populares. No CS, o jogador revelou que são poucos os torneios e que a maioria das equipes não paga salários.

"Aqui no Japão o cenário é bem fraco. Não tem muitos campeonatos e a maioria junto com os demais países asiáticos. É difícil ter campeonatos locais, por ano tem 1 ou 2, fora as qualificatórias asiáticas", afirmou. "É difícil você ver time profissional que paga mesmo. Como eles nunca ganharam nada grande, as organizações não veem o CS como algo que pode dar resultado", explicou guin.

Na DeToNaToR, os jogadores recebem um salário, considerado pelo brasileiro como baixo, e suporte com equipamentos. O contrato é de dois anos com opção de renovação por mais dois. "Recentemente disputamos nosso primeiro campeonato offline, tanto meu quanto da escalação, o JESPA. Vencemos os dois primeiros jogos, mas perdemos na semifinal para a Absolut, principal equipe do país", contou.

Referências brasileiras

Questionado sobre como é ser um brasileiro jogando Counter-Strike no Japão, guin afirmou que isso não faz diferença, mesmo que nosso país seja referência no Counter-Strike. "Eles me tratam normal, é mesma coisa. Eles são muito respeitosos e sabem que sou brasileiro", revelou.

O jogador afirmou que acompanha várias streams do cenário nacional, principalmente as de Bruno "bit" Lima e Epitácio "TACO" Filho, de quem é fã de longa data. "Acompanho ele desde a Dexterity", contou. Quanto as competições, guin disse que não assiste muito os torneios locais do Brasil, mas está sempre ligado na SK Gaming, Immortals, Luminosity Gaming e Orbit.

Contra o estilo "bundão" dos adversários, guin se tornou o "fer japonês"

Sobre o estilo de jogo do cenário japonês, guin afirmou que as equipes locais são muito regradas e não costumam ousar. Para o brasileiro, eles são "bundões". "Para falar a verdade, eles são bundões. Ninguém pensa em rushar, em pegar informação", afirmou.

Contrariando os japoneses, guin afirmou que gosta de jogar mais ofensivamente. Questionado se poderia ser considerado o "fer japonês", o jogador riu e concordou. "O meu estilo é [o mesmo do] fer. Gosto de rushar bastante, pegar informação. Aqui ninguém pensa nisso, então eu pego os caras de surpresa. Tem uns times que já ficam ligados, já ficam me esperando, mas normalmente dá para dar uma surpreendida", revelou.

Questionado se há outro jogador que procura se inspirar, guin afirmou que também admira Braxton "swag" Pierce, banido em um escândalo de manipulação de resultados em 2014. "Aprendi bastante com ele e com o estilo dele. Eu não sei nem explicar direito, mas eu gosto muito de vê-lo jogar", completou.

Futuro da DeToNaToR

guin também falou dos planos com a DeToNaToR e a aspiração de alcançar grandes resultados no país e no cenário internacional. "Montamos essa escalação em janeiro, é difícil disputar um major logo de cara, mas tudo está acontecendo rápido. Somos quase o melhor time do Japão, estamos pelo menos no top 3", contou o jogador.

Hisashi Yoshimura
Guin Japão
guin sonha em participar do PGL Major Krakow, em julho

"Tem o minor asiático em junho e sei que podemos chegar até a final. Até lá estaremos preparados e se tudo der certo poderemos combater os bons times da Ásia", cravou guin.

Sobre os talentos do cenário, o brasileiro destacou o companheiro de equipe, Yusuke "Norisen" Shima, como principal jogador do Japão. "Ele tem muito futuro, já jogou contra muitos times internacionais. Ele não é muito conhecido do grande público, mas na Ásia é famoso. Tem um estilo agressivo e muito futuro", reforçou guin.

Questionado sobre o seu lugar entre os principais jogadores do país, o brasileiro deixou a modéstia de lado. "Estou pelo menos entre os cinco melhores", afirmou.

Desejo de jogar no Brasil e recado a torcida

Apesar de ter passado pouco tempo no país, guin revelou o desejo de atuar por uma equipe brasileira. "Jogaria, com 100% de certeza. Tanto uma que more fora ou dentro do Brasil. Se eu receber uma proposta eu vou", afirmou.

"Eu gosto de conhecer pessoas, jogar contra novos adversários, mostrar o meu estilo. Se eu receber um convite, eu vou", reforçou.

Em um recado ao Brasil, guin afirmou que apesar da distância, ele e muitos jogadores daqui compartilham o mesmo sonho. "Queremos viver do eSports, jogar profissionalmente. Queremos chegar em grandes campeonatos, brilhar e provar que nós podemos conquistar o mundo. Nunca desista do sonho que um dia você chega lá", afirmou.

Para acompanhar a saga da DeToNaToR e assistir as partidas de guin, fique ligado em seu perfil no Twitter.