Carrasco do Palmeiras no 6 a 2 escapou de dois atentados no Iraque: 'Nasci de novo'

Francisco De Laurentiis e Vladimir Bianchini, do ESPN.com.br
Relembre os gols de Mirassol 6 x 2 Palmeiras, pelo Paulistão de 2013

A goleada sofrida por 6 a 2 para o Mirassol, no Campeonato Paulista de 2013, é um dos momentos mais amargos da história do Palmeiras. Para o atacante Caion, autor de dois gols naquele 27 de março, foi a chance de chamar atenção no cenário do futebol nacional e mudar de vida. Mesmo que as consequências das escolhas feitas depois daquela partida não tenham sido da forma como o jovem planejava...

Quase quatro anos depois de ter surpreendido o Brasil, ele lembra com detalhes do jogo realizado no Estádio José Maria de Campos Maia. Com apenas 11 minutos, o time do interior paulista, que vinha mal na tabela, já vencia o maior dono de títulos nacionais do país por 3 a 0. 

"Para alguns, íamos levar um sacode do Palmeiras por tudo que vínhamos fazendo. Não ganhávamos há três rodadas. Mas era o nosso jogo da vida, tínhamos que ganhar de qualquer forma. Entramos tão focados que não desperdiçamos nenhuma chance", recordou Caion, de 26 anos e atualmente no Juventude-RS, ao ESPN.com.br.

O centroavante lembra que chegou a pensar que seu time perderia a partida, apesar do início arrasador, já que a equipe da capital deu mostras de que reagiria em campo.

"Depois, eles diminuíram para 3 a 2 e eu pensei: 'Agora fodeu, já era! Contra um time grande, eles vão virar'. Mas fizemos o 4 a 2 e depois matamos o resultado. Se a gente continua no mesmo ritmo poderia ter feito mais gols", analisa o centroavante.

"A gente se contentou em só defender para não levar mais gols, até pelo susto que levamos no primeiro tempo, aí ficamos meio que receosos e resguardados. Acho que cabia mais, mas contra um time grande não pode dar bobeira", acrescenta.

CÉLIO MESSIAS/Gazeta Press
Caion Comemora Gol Mirassol Palmeiras Campeonato Paulista 28/03/2013
Caion durante a goleada do Mirassol sobre o Palmeiras, em 2013

Depois daquela partida, Caion despertaria o interesse de diversos clubes brasileiros, mesmo com o Mirassol fazendo campanha ruim na sequência e acabando rebaixado para a Série A2 do Paulistão. Após o fim do Estadual, ele acertou com o Náutico, mas não vingou no Recife. Defendeu ainda a Chapecoense na Série B de 2013.

"Depois do 6 a 2, achei que minha vida ia dar um up. Por tudo o que aconteceu, todas as entrevistas que dei, todo mundo indo atrás de mim... Mas eu estava mal agenciado, se tivesse alguém para me ajudar teria dado um salto na carreira. Estava num momento muito bom, e se tivesse alguém com pensamento forte eu teria ido para um time grande. Aí eu acredito que tudo teria sido diferente para mim", ressalta.

Caion diz que se arrepende de ter escolhido o Náutico ao invés do Goiás na época.

"Na época, o Náutico foi uma escolha errada. Não minha, mas de quem me agenciou. O Goiás também me queria, era aquele time do Enderson Moreira e do Walter que quase foi para a Libertadores, mas meus empresários me levaram para o Náutico. A meu ver, foi a escolha errada, pois no Goiás era um outro momento. Naquele ano o Náutico acabou até rebaixado no Brasileiro, eu saí com só três meses e fui pra Chape", lembra.

  • ESCAPANDO DA MORTE NO IRAQUE

Depois da Chapecoense, Caion passou por Audax-SP e Portuguesa. Com a dificuldade financeira da Lusa, resolveu aceitar uma ousada proposta para jogar no futebol iraquiano, com a promessa de ganhar um bom salário no Al-Shorta Bagdad.

No entanto, a situação caótica no país asiático quase lhe custou a vida.

"Eu fui para o Iraque por causa de dinheiro mesmo. Estava há quatro meses sem salário na Portuguesa e vi que não iria receber. Foi uma coisa de louco... Fiquei na dúvida se ia, falei com a minha esposa. 'Será que eu me arrisco?'. Era muito dinheiro, mas o país estava em guerra. Eu achava melhor não, mas aí ela acabou me convencendo. A comissão técnica era brasileira, o clube pagava certinho, tudo certo...", conta.

"Onde eu iria morar, em teoria, era uma região que não estavam em conflito. Aí uma semana depois que cheguei no hotel onde morava, explodiu um carro bomba. Foi um dia antes da minha estreia isso, bem no hotel que nosso time ficava. Foi desesperador. Os iraquianos tentavam nos acalmar, mas foi um pânico", relembra o atleta.

Caion ainda escaparia de outro atentado no período em que morou no Iraque.

Divulgação
Caion defendeu o Juventude na Série C
Caion atualmente defende o Juventude

"Eu fiquei um ano lá, e como tinha internet no quarto, não queria saber de sair para a rua. Morria de medo de sair do hotel, tinha medo de bomba explodir comigo perto. Minha esposa foi nos últimos cinco meses que morei lá, mas ficou só dois e voltou para o Brasil", relata o centroavante.

"Teve até mais uma história curiosa. Quando minha esposa estava lá, a gente saía do hotel toda noite para tomar um sorvete. Só que ela voltou ao Brasil porque ficou mal, precisou fazer uma cirurgia e eu parei de ir. Uma semana depois que ela foi embora, explodiu um carro-bomba na lojinha que a gente ia comprar sorvete, exatamente no horário que a gente costumava ir. Eu nasci de novo", afirma.

"Fiquei em choque... Se ela não tivesse voltado ao Brasil, nós teríamos morrido lá, porque certamente estaríamos na loja naquele horário, já que íamos todo dia, sempre. Se minha esposa não tivesse ido embora, não gosto nem de pensar no que poderia ter acontecido", diz.

O brasileiro ainda conta outro episódio assustador, no qual um torcedor ateou fogo ao próprio corpo para protestar contra a interferência do Governo iraquiano no Al-Shorta.

ALDO CARNEIRO COSTA/Gazeta Press
Caion Comemora Gol Nautico Ponte Preta Campeonato Brasileiro 07/07/2013
Caion comemora gol pelo Náutico

"Os caras lá parecem que não tem medo de morrer. É sério. São totalmente diferentes da gente. O presidente do nosso time era muito querido, mas foi deposto pelo Governo. Era um cara muito honesto, muito gente boa. Aí teve um torcedor que derramou gasolina e colocou fogo no próprio corpo em protesto. Ainda salvaram o cara, não deixaram morrer. Eu vi tudo isso ao vivo, e pensava: 'Onde é que eu fui me meter?'. Foi uma experiência muito louca", recorda.

Após a passagem pelo Iraque, Caion diz ter mudado como ser humano.

"Eu mudei, não tem como ser diferente. Vi coisas que nunca imaginaria. Tirando a guerra, é um país maravilhoso, de gente acolhedora. Eles amam brasileiros! Se você joga bem, eles te idolatram. Até hoje me pedem pra voltar, mas não tem como. Infelizmente, do jeito que o país está, é inviável pensar nisso", lamenta.

  • ANTES DO FUTEBOL, COLOCAVA INSULFILM

Nascido em 1990, Herlison Caion de Sousa Ferreira trabalhou com sua família em uma loja de acessórios automotivos antes de despontar para o futebol, em 2008.

Divulgação
Caion
Caion passou pela Coreia do Sul

"Antes do futebol eu trabalhava colocando insulfilm em carros. Meu tio e meu pai trabalham com isso, e minha família tem uma loja em Fortaleza. Pra falar a verdade, eu não gostava, não (risos). Queria mesmo era jogar bola. Depois larguei o insulfilm e fui me arriscar no futebol", conta.

O atacante começou com 18 anos na base do Maranguape, do Ceará. Depois, ainda passou pelas bases de Icasa-CE e Iraty-PR antes de se transferir para o Gangwon, da Coreia do Sul, clube pelo qual fez sua estreia profissional, em 2010.

"Foi uma loucura (risos)! Imagina eu sozinho na Coreia, eu que nunca na vida tinha nem saído de perto de casa! Tudo diferente, idioma, comida, não tinha amigos, conhecido, nada. Um frio da peste e eu sem saber falar nem inglês (risos)", lembra Caion, aos risos.

"Depois de seis meses pedi pra ir embora, mas pediram pra ficar, aí acabei aceitando. Mas no final do ano não aguentei mais. Conversei com os emprésarios que me levaram e acabei saindo. Dentro de campo não tinha problema, lá é um ótimo país para viver, muito bom de jogar, mas fora de campo tava dureza. Aí voltei ao Brasil", conta.

Nos anos seguintes, Caion faria sua carreira em equipes como Caxias-RS e Bragantino antes de chegar ao Mirassol, time pelo qual brilhou contra o Palmeiras.

Em 2015, ele resolveu se arriscar novamente no futebol estrangeiro e foi atuar no HB Koge, da Dinamarca. Gostou muito de conhecer e viver na Europa, mas...

"Do Iraque eu fui pra Dinamarca. Só futebol te faz ir da água para o vinho assim (risos). Eu fiquei seis meses no Koge, era uma vida fascinante e maravilhosa, um país onde só tem tranquilidade, bem diferente do Iraque. Sofri muito com frio lá, porque saí direto de 50ºC em Bagdá pra -20ºC nessa cidade que eu morava. Mudança total", relata.

O brasileiro elogia bastante o profissionalismo dos times e jogadores dinamarqueses.

"Lá não tem concentração, você pega seu carro, vai para o jogo e chega direto para a partida, totalmente diferente daqui. Lá o profissionalismo é gigante, os caras são robôs e fazem tudo certinho. Se tentassem imitar aqui, iria dar errado (risos)", diverte-se.

Mas nem tudo é perfeito na Dinamarca, segundo conta o matador.

ROBERTO VINICIUS/Gazeta Press
Caion Comemora Gol Cruzeiro-RS Gremio Campeonato Gaucho 12/03/2016
Caion comemora gol pelo Cruzeiro-RS em cima do Grêmio, no Gauchão deste ano

"O problema de lá era o imposto de renda! Os caras mordem mais de 40% do salário se você é estrangeiro, e não dão direito nem a usar os serviços. Daí complicou para ganhar um dinheiro e resolvi ir embora. Por isso, acabei ficando só seis meses lá", revelou.

Na volta ao Brasil, acertou com o Cruzeiro-RS, e foi muito bem: artilheiro e destaque no Campeonato Gaúcho. Na sequência, acertou com o Atlético-GO, mas não se firmou. Depois, foi para o Juventude, clube no qual agradou e ganhou renovação de contrato.

"A vinda para o Juventude foi ótima. Tivemos um ano maravilhoso, fizemos uma linda campanha na Série C e eu pude colaborar pra gente conseguir o acesso para a Série B. Ainda fizemos uma bela história na Copa do Brasil, quase eliminamos o Atlético-MG, mas infelizmente anularam o gol do Hugo de forma errada, poderia ter sido tudo diferente. Foi um ano ótimo, e agora espero dar sequência em 2017", finaliza.