Handebol: Mundial na mira da PF pagou cheerleaders três anos depois, na Justiça

Diego Garcia, do ESPN.com.br
Fernando Dantas/Gazeta Press
Cheerleaders em ação no Mundial 2011 levaram anos para receber
Cheerleaders em ação no Mundial 2011: meninas levaram anos para receber

No mesmo Mundial que caiu nas mãos da Polícia Federal na semana passada por suspeita de fraudes, a Confederação Brasileira de Handebol (CBHb) demorou três anos para pagar as cheerleaders que se apresentavam durante os jogos da competição. E só quitou a dívida após sentença judicial.

A informação chegou ao ESPN.com.br dias depois da publicação de uma série de reportagens que apresentavam indícios de fraudes envolvendo a CBHb e licitações que utilizaram R$ 6 milhões em recursos públicos. Os documentos motivaram a abertura de inquérito policial contra a Confederação.

No fim de 2013, a Consoli Polito Comunicação e Arte - que tem como nome fantasia Academia Panteras - ingressou com ação judicial contra a CBHb tentando receber os valores a que tinha direito por serviços de cheerleaders realizados ao longo do Mundial Feminino de Handebol, que aconteceu em dezembro de 2011.

A Confederação não apresentou defesa, e a juíza Ana Lúcia Freire de A. dos Anjos, da 9ª Vara Cível de Aracaju, deu ganho de causa à Consoli Polito em abril de 2014, determinando o pagamento de R$ 94.902,64, a ser atualizado a partir de 31/10/2013.

O acordo inicial para a contratação das cheerleaders era de R$ 72.240,00, mas como o pagamento não foi feito na época, dezembro de 2011, o montante sofreu juros. Como foi quitado apenas em setembro de 2014, chegou a cerca de R$ 100 mil.

A ESPN procurou o advogado da Consoli, Diego Costa Pelágio de Lacerda, que confirmou o pagamento feito depois de decisão judicial, anos depois do Mundial.

A reportagem também conversou com Euds Ricardo, da Academia Panteras.

"Contrataram a gente para apresentações de cheerleaders em todos os jogos, encomendaram coreografias específicas e serviços de consultoria. As despesas com alimentação, figurino, tudo era por conta nossa. Assim, o número de apresentações ficou barato, mas para nós era importante, pois era um Mundial", explicou Euds.

"O Manoel (presidente da CBHb), sempre muito cordial, ficou embromando para realizar o pagamento. O resto da equipe dele era de uma arrogância, uma petulância, gente mal preparada, e aí cansamos e entramos na Justiça. Eles são de uma cara de pau, de uma desfaçatez...", relembrou.

Euds lembrou que viveu até um drama com as meninas que dançaram durante o Mundial, já que não pôde pagá-las naquela ocasião.

"Somos uma pequena empresa, e tivemos que bancar os custos de transporte e alimentação das meninas que dançaram no Mundial, e era assim o dia inteiro no ginásio durante o torneio. Não tinha água, nós que bancamos, depois as próprias meninas não recebiam e achavam que era conosco, que nós não queríamos pagar, aí mostramos para elas que não recebemos", explicou.

"A gente fazia serviço cheerleaders para Corinthians, NBA (no Brasil), Grand Prix... E o tratamento do vôlei, por exemplo, sempre foi muito bom e pagou melhor", continuou Euds.

Para a realização do torneio, além do dinheiro investido com recursos públicos do Ministério do Esporte cotados em R$ 6 milhões, houve mais R$ 1 milhão por Lei de Incentivos em São Paulo, R$ 1 milhão do COB e mais empréstimo de R$ 2 milhões da Federação Internacional de Handebol (IFH), segundo relatório de sindicância da CBHb entregue à reportagem.

A ESPN entrou em contato com a CBHb, que respondeu por meio dos departamentos jurídico e financeiro que "o pagamento foi efetuado à empresa contratada à época do Mundial mediante acordo celebrado em 09/09/2014".

No último dia 11 de novembro, o ESPN.com.br começou a publicar uma série de reportagens sobre denúncias envolvendo a Confederação Brasileira de Handebol. Confira abaixo tudo o que já foi para o ar:

VEJA O QUE JÁ FOI PUBLICADO SOBRE DENÚNCIAS CONTRA O HANDEBOL 

Atas e datas de assinaturas indicam fraudes em licitações de R$ 6 milhões

Sem nenhum empregado, firma que geria projetos organizava festas; veja gastos

Auditorias mostram mais de R$ 800 mil sem recibos; cartolas levaram benesses

CBHb teve pleito com diretor eleito e pediu aumento a técnico pelo título de outro

Após reportagens, procurador pede abertura de inquérito policial contra a CBHb

CONTATO

Em setembro, a ESPN lançou um canal para fiscalizar e cobrar transparência no esporte. Queremos a contribuição dos leitores e telespectadores do canal para contar essas histórias. Se você tem alguma dica, de qualquer esporte, olímpico ou paralímpico, nos mande um e-mail para: jogolimpo@espn.com. A fonte será preservada.

Reprodução ESPN
'Jogo Limpo'! Colabore com a série de reportagens que briga por um esporte sem corrupção
'Jogo Limpo'! Colabore com a série de reportagens que briga por um esporte sem corrupção