'Máquina de gols', brasileiro preferiu China ao Liverpool e teve que lavar o próprio uniforme

Francisco De Laurentiis e Vladimir Bianchini, do ESPN.com.br
Veja gols do atacante Cléo por Atlético-PR e Goiás

Cléverson Córdova, 31 anos, já viveu de tudo um pouco no futebol. Mais conhecido como Cléo, o hoje atacante do Goiás teve que fazer uma importante opção para sua vida e carreira em 2011: jogar em um dos maiores times da Europa ou desbravar um novo mercado na Ásia em troca de um caminhão de dinheiro? O brasileiro optou pela independência financeira, mas acabou passando por situações inesperadas.

Tudo aconteceu quando Cléo vivia a melhor fase da carreira, com a camisa do Partizan, da Sérvia. A artilharia implacável na equipe alvinegra chamou a atenção do técnico Roy Hodgson, então no Liverpool, que descreveu o paranaense de Guarapuava como "máquina de gols" em uma entrevista.

Cléo havia vencido concorrência com Luís Fabiano e Nilmar para ser contratado, e os Reds já preparavam uma proposta de 14 milhões de libras (R$ 57,8 milhões, na cotação atual) quando surgiu o Guangzhou Evergrande, da China. Hoje comandado por Luiz Felipe Scolari, o time asiático ainda engatinhava, mas ofereceu um salário monstruoso ao brasileiro para seduzí-lo.

Resultado: malas prontas para a aventura no futebol chinês.

"Foi uma situação em que tive que ir embora, não tive escolha. Essa proposta da China foi por muito dinheiro. Fui a transferência mais cara do Campeonato Chinês na época! Foi aí que eles começaram a investir pesado em estrangeiros. Mas, para isso, tive que abrir mão de várias propostas na Europa, como as do Liverpool, Fiorentina, Lyon e Olympique de Marselha", conta Cléo, em entrevista ao ESPN.com.br.

GIULIANO GOMES/Gazeta Press
Cleo Comemora Gol Atletico-PR Maringa Campeonato Paranaense 14/03/2015
Cléo nos tempos de Atlético-PR

Hoje na Série B, o centroavante diz que a decisão foi "muito difícil", mas garante que nunca se arrependeu da escolha pelo Oriente.

"Poderia estar até hoje na Europa jogando que não teria conquistado financeiramente o que conquistei nos quatro anos de China. Eu teria que jogar a carreira toda na Europa e trabalhar um tempo como técnico pra chegar perto. É claro que foi muito difícil, porque é o sonho de todos jogar em um grande europeu, ainda mais depois do Roy Hodgson me chamar de 'máquina de gols'. Mas não me arrependo. Fiz a independência financeira", salienta.

Na China, apesar do salário astronômico, Cléo encontrou uma equipe ainda em construção, sem qualquer estrutura que lembrava seus tempos de Europa, até mesmo de Brasil.

"Saí do Partizan, que tinha uma estrutura perfeita, centro de treinamento, estádio, torcida fanática, e fui para uma equipe que não tinha nada. Não tinha nem roupeiro! Eu que tinha que lavar minha roupa todo dia depois dos treinos e trazer de volta", lembra.

A estrutura de treinamento também deixava bastante a desejar.

"Os primeiros seis meses foram bem difíceis. A gente não tinha nem campo pra treinar, então íamos em um parque aberto da cidade, com um monte de gente andando em volta. Era totalmente amador. Apesar disso, nós tínhamos ótimos jogadores, e por isso ganhamos tudo", relata Cléo, que foi campeão chinês com sobras em 2011 e 2012, faturando também a Copa da China e a Supercopa da China em 2012.

As coisas só mudaram depois que o técnico Marcelo Lippi, campeão do mundo em 2006 com a seleção italiana, assumiu o Guangzhou, em 2012. O comandante foi o responsável por comandar a estruturação do clube chinês, e contou com os gols de Cléo para ter sucesso e transformar a equipe em uma potência na Ásia.

"O Lippi promoveu uma revolução total, mudou tudo. Passamos a ter CT, campo bom, e ele supervisionava. Era um cara sensacional, ganhei até um Rolex dele porque fui o jogador que mais fez gols em uma temporada. Tudo o que ele falava, cumpria", elogia.

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Cleo foi contratado pelo Guangzhou Evergrande, da China
Cléo ganhou caminhão de dinheiro na China

A afinidade com o ex-técnico da Azzurra foi tão grande que Cléo permaneceu entre os titulares até mesmo depois que o Guangzhou contratou o paraguaio Lucas Barrios, hoje no Palmeiras e então estrela do Borussia Dortmund.

"Contrataram o Barrios, que tinha feito muitos gols na Alemanha, mas o Lippi não me tirou do time porque eu estava muito bem. O Barrios batia o pé, mas o Lippi não me tirava. Ele colocava sempre que estava melhor, e por isso é um craque no que faz", ressalta.

Cléo ficou até 2014 no Evergrande, passando um período no Kashiwa Reysol, do Japão, em 2013, e sendo comandado pelo técnico brasileiro Nelsinho Baptista. Após deixar a China, foi contratado pelo Atlético-PR, equipe pela qual havia passado no começo da carreira, e chegou no início de 2016 ao Goiás, clube pelo qual foi campeão estadual.

Fifa não deixou jogar pela Sérvia

Nascido em Guarapuava, no Paraná, Cléo nunca teve moleza na vida. Depois das aulas, pegava pesado e trabalhava entregando colchões na loja de seu irmão para ganhar um dinheirinho. "Nunca ganhei mesada. Meus pais me fizeram trabalhar desde moleque pra eu aprender a dar valor ao dinheiro", recorda o camisa 9.

Apaixonado desde jovem por futsal, já que a cidade do interior paranaense tem tradição na modalidade, o atacante migrou aos 16 anos para o campo, e aos 17 começou a jogar no Batel, time de sua cidade. Passou ainda pelo Comercial-PR, antes de se arriscar pela primeira vez fora do país, no pequeno Olivais, de Portugal.

Ficou pouco em terras lusitanas, voltando em 2005 para jogar pelo Atlético-PR. Foi vice-campeão da Libertadores, inclusive anotando dois gols, antes de retornar ao Olivais, desta vez se firmando no Português e chamando a atenção do Estrela Vermelha, um dos dois gigantes Sérvia, que o levou por empréstimo em 2008.

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Cleo Comemora Gol Kashiwa Reysol Yokohama Marinos Campeonato Japones 06/05/2013
Cléo também jogou no Kashiwa Reysol, do Japão

Em Belgrado, impressionou logo de cara, mas, ao final da temporada, o time sérvio informou que não conseguiria pagar os 800 mil euros (R$ 2,9 milhões) necessários para comprá-lo em definitivo. A negociação, então, tomou um rumo surpreendente: Cléo acabou contratado pelo Partizan, inimigo mortal do Estrela Vermelha.

"Eu fui o primeiro jogador a atuar pelos dois rivais em 30 anos! Na época, falaram muito que eu estava sendo ameaçado, mas sera só na internet, as pessoas escreviam coisas nas redes sociais, essas coisas. Pessoalmente, nunca aconteceu nada comigo, até porque nunca falei mal de ninguém, nunca desprezei qualquer clube", garante.

No Partizan, o paranaense manteve sua grande fase. Em duas temporadas, marcou muitos gols e conquistou o Campeonato Sérvio em 2009/10. A idolatria da torcida era tanta que ele até se naturalizou sérvio para jogar pela seleção local.

No entanto, acabou impedido pela Fifa...

"Eu estava fazendo muitos gols e vivendo meu auge. Aí um dia o primeiro ministro da Sérvia foi em um jogo, o estádio estava lotado, e ele me fez o convite para a naturalização. Foi incrível, ficou marcado demais para mim", conta.

"Tenho até hoje o passaporte sérvio, mas infelizmente não pude jogar pela seleção, porque a lei da Fifa mudou, e os naturalizados precisavam obrigatoriamente ter descendência ou estar há pelo menos quatro anos no país. Eu fiquei três anos e oito meses na Sérvia, mas a Fifa não me autorizou a jogar, infelizmente", lamenta.

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Cleo se destacou com a camisa do Partizan Belgrado
Cléo virou ídolo no Partizan

Dos tempos de Partizan, Cléo também se lembra de um amistoso contra o Real Madrid, além da disputa da Uefa Champions League na temporada 2010/11.

"Jogamos contra o Real Madrid e os caras atropelaram, passaram o carro sem dó na gente (risos). Mas foi legal, porque deu pra ver como os caras que jogam lá são diferenciados, só craques de alto nível mesmo", lembra.

"Disputar a Champions pelo Partizan foi muito legal, uma realização pra minha vida, algo sensacional. Enfrentamos Arsenal, Braga e Shakhtar Donetsk", recorda Cléo, que guardou na memória o frio que passou na Ucrânia quando enfrentou o time laranja e preto na nevasca.

"Foi a última partida, em 16 de dezembro, e o estádio estava até meio vazio, porque estava nevando e fazia um frio absurdo. O (volante) Fernandinho, que jogou comigo no Atlético-PR, só olhava pra mim e falava: 'Meu Deus, tomara que esse jogo acabe logo, não tô sentindo meus pés (risos)'. Não sei como não congelamos!", gargalha.