Pai, derrota, derrame, sonho realizado: o ex-boxeador que esperou 36 anos para sua 1ª Olimpíada

Guilherme Nagamine e Ricardo Zanei, do ESPN.com.br
Ricardo Zanei/ESPN.com.br
Earl Jones: após mais de três décadas, a realização do sonho olímpico no Rio-2016
Earl Jones: após mais de três décadas, a realização do sonho olímpico no Rio-2016

Quanto tempo é necessário para realizar um sonho? Depende. Nos Jogos Olímpicos e Paralímpicos do Rio de Janeiro, um homem finalmente colocou um ponto final a uma espera de 36 anos. 

Earl Jones é careca e tem uma voz amigável. O bigode grisalho entrega em parte seus 57 anos, enquanto seu porte físico sugere o boxeador que um dia ele já foi. Canadense, é mais um entre os milhares de voluntários que estão no Rio - e possivelmente um dos mais felizes. 

No Brasil, enterrou de vez a frustração de ter sido impedido duas vezes, por diferentes circunstâncias, de participar de uma Olimpíada. O sorriso confirma isso.

"Foi um sonho se tornando realidade. Mas quando recebi a carta e falaram que eu estava no boxe na Olimpíada... Sabe quando você está aqui [faz sinal com a mão mostrando uma altura] e tem o dia mais feliz da sua vida? Você sobe para cá [faz sinal mostrando uma altura maior que a anterior]", afirmou ele, que agora na Paralimpíada está no Centro de Tênis, ao ESPN.com.br. 

A PRIMEIRA TENTATIVA

Robson Conceição e a persistência: no quadrilátero de quatro cordas, ele triunfou com ouro

Jones vem de uma família de boxeadores. O pai foi pugilista. Quatro de seus irmãos foram pugilistas. E suas irmãs também entravam no ringue para fazer sparring - e não podiam ser atacadas, só atacavam. Natural, portanto, que se transformasse em boxeador também.

E dos bons. Mas não o suficiente para chegar até uma Olimpíada. Em 1979, na seletiva do Canadá para os Jogos de Moscou, acabou derrotado nas quartas de final.

"Quando você está no boxe tem algo chamado 'a política do boxe'. Eu estava contra um cara que supostamente deveria ser coroado campeão canadense. Mas adivinhe o que eu estou fazendo aqui? Eu estou aqui para machucá-lo. 'Se você vai me vencer, vou garantir que você não chegue para a próxima luta porque, se eu perder, eu garanto estar te mandando uma mensagem'. Depois da luta, fomos para o vestiário e suas costelas estavam bem machucadas."

"No outro dia, ele lutou com um cara de Ontário e perdeu. Você sabe a pior parte de tudo isso? O cara com quem eu lutei era o meu primo. E paguei por isso todas as vezes que meu parentes me viram. Era 'Oh, você acabou com a oportunidade dele'."

Se vencesse a seletiva, Jones também não iria para os Jogos - o Canadá acabou aderindo ao boicote à Olimpíada russa. Mesmo assim, depois do revés, virou profissional. Fez só quatro lutas, com duas vitórias e duas derrotas. Somado a isso, tinha certa decepção por não fazer combates maiores, apesar de propostas - seu pai controlava a carreira e o fazia sempre ser uma atração nos duelos preliminares.

"Toda essa mentalidade do meu pai e os negócios fizeram ele recusar lutas por mim. Doeu. Doeu. Então disse: ‘Estou cansado do boxe'. Ao mesmo tempo, me ofereceram o trabalho em tempo integral no centro recreacional na minha cidade [Ottawa]. Estava lá desde os 16 anos. E isso é o que eu venho fazendo desde então."

a segunda tentativa

Fotos retratam a emoção dos atletas olímpicos na Rio 2016

No centro recreacional de Ottawa, Jones se realizou como "criador de oportunidades" - é assim que ele se define. Como coordenador, busca dar a crianças carentes da cidade a chance de desenvolverem habilidades tanto em projetos esportivos como em não-esportivos.

Em meio a esse trabalho, depois de abandonar o boxe, teve uma "recaída". O fogo dos ringues o chamava de volta. Aos 30, tentou voltar. Passou a correr 15km de manhã e 15km à noite. Pesava 74kg e chegou a 65kg em seis meses. Esbarrou novamente, porém, na política do boxe: queriam lhe pagar US$ 300 por round, ou US$ 700 a menos do que recebia quando era mais novo.

Jogou a toalha. No fim, correu uma maratona. "Tinha que achar algo que me gratificasse para não voltar para o ringue. Algo para me preencher. Corri em 2h59min."

Em 2010, na busca do sonho olímpico, decidiu se inscrever para ser voluntário nos Jogos de Londres-2012. Não deu certo novamente. Mas em vez de ser derrubado por um adversário, ele mesmo se nocauteou. Ao medir sua pressão em uma clínica, o médico o mandou imediatamente para o hospital.

Estava com a pressão altíssima e sofrendo um mini-derrame. "No hospital, me deram uma injeção e foi isso que me salvou. Depois de fazer todos os exames, um médico perguntou: 'Você percebeu que vocês quase se matou? Você é meio indiano, meio branco e meio preto. Você têm três culturas com um alto risco para sal'. Eu comia sete pepperonis por dia. E tem muito sal em um pepperoni."

próximo sonho

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Jones conta sua história como se estivesse no ringue. A cada pergunta, não desvia o olhar em nenhum momento. A cada resposta, olha nos olhos. Sempre nos olhos. É firme: não perderia nenhuma brincadeira de encarada. Desvios para o teto ou para um outro ponto? Apenas para pensar no começo da resposta. Durante 57 minutos de conversa, seus olhos só estremeceram uma vez, ao falar do pai. 

Nota da Redação: foi nesse momento que os entrevistadores também 
estremeceram. Jornalista, às vezes, se depara com segundos em que
o ar some e os olhos ficam marejados. Só pudemos imaginar a vida que
passou na mente do nosso entrevistado. E pudemos comprovar que são
instantes como aqueles que fazem da Olimpíada algo especial demais.

Apesar do controle paterno sobre sua carreira ter culminado em um caminho fora do esporte profissional, o canadense claramente guarda um amor gigantesco. Lee Roy Jones não só ensinava boxe para os filhos. Abriu uma academia e saiu caçando crianças nas ruas e as convidando para participar de treinos.

"Percebi que eu faço a mesma coisa que ele, mas de um jeito diferente. Meu pai encaminhou meu plano de vida sem eu ter conhecimento. Ele dizia, 'venha para o ginásio'. E eu digo, 'venha para o centro recreacional'."

O foco e a determinação de todos os atletas paralímpicos, o verdadeiro coração e o amor que eles sentem pelo esporte é o que mais me tocou. Um sábio amigo me disse que era melhor levar alguns lenços de papel, porque as emoções que eu ia sentir nos Jogos ficariam comigo para sempre. Saí e comprei quatro pacotes de lenços de papel.

Earl Jones, sobre a Paralimpíada
Se no Rio cumpriu seu sonho olímpico - no boxe limpava o ringue e ajudava na logística durante as lutas, enquanto no tênis em cadeira de rodas orienta o público -, em Ottawa ele espera, um dia, abrir uma academia de boxe. Enquanto isso não acontece, segue dando oportunidades. E se motivando quando algo dá errado. 

"Eu crio oportunidades, eu ensino a sobreviver. Tem um menino... Ele jogava futebol e estava sendo observado por universidades pequenas. Trabalhava para mim e, um dia, o deixei trancar as portas do centro. Ligo o notíciário no dia seguinte. Quatro adolescentes tentaram roubar um iPod de um outro garoto dentro de um ônibus. A criança do iPod acabou sendo esfaqueada e morreu. O menino que estava segurando a faca? Era o que estava trabalhando para mim."

"Doeu. Doeu porque eu vi ele crescendo. Ele teve tantas oportunidades... O que aconteceu: ele apontou a faca para a criança, o ônibus parou e, adivinha onde a faca foi? Bem na criança. E os três amigos entregaram ele, disseram que ele tinha planejado tudo. Na prisão, foi morto por um menino de 16 anos com uma faca. Ele esfaqueia um e é morto por facadas. Essa história fica comigo para sempre porque não quero ver isso acontecer nunca mais. É minha motivação."

"O jeito que tentamos não salvar todos, mas dar oportunidade a pessoas. Essa viagem [ao Rio] para mim foi para abrir os olhos. Eu preenchi um sonho. Eu vou voltar e o que vou fazer? Talvez eu vá para Tóquio. Eu volto e preciso achar aonde eu quero ir. É viver do melhor jeito e dar oportunidades do melhor jeito possível."