Pai proibiu atleta do país mais pobre do mundo de lutar, mas ele foi e levou medalha no Rio-16

Gustavo Faldon e Ricardo Zanei, do Rio de Janeiro (RJ), para o ESPN.com.br
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Alfaga foi porta-bandeira de Níger na Rio 2016
Alfaga foi porta-bandeira de Níger na Rio 2016; neste sábado, será medalhista olímpico

"Venho de um país pobre. Não me importo de ganhar ou perder. Mas coloquei na minha cabeça que preciso ganhar. Pensei: 'Sou jovem, tenho 21 anos, tenho que ganhar essa medalha agora'."

Níger é o país mais pobre do mundo. A escravidão persistiu até 2003, mas a abolição não significou liberdade, e a nação ainda sofre com esse crime. Níger tem, no Rio-2016, a melhor participação de sua história olímpica. Culpa de um jovem de 21 anos que teve que superar um drama familiar para entrar no esporte, o taekwondo, longe de ser uma modalidade difundida no país.

Abdoulrazak Issoufou Alfaga foi o porta-bandeira de Níger na cerimônia de abertura. O rapaz mal sabia que esse seria o seu menor feito no Rio-2016.

O último dia de disputas do taekwondo reservou a Alfaga o feito de se tornar o maior atleta olímpico da história do país. Ele entrou na chave da categoria acima de 80kg como zebra, azarão, enfim, o nome que você escolher. Entre os 16 participantes, aparecia como o 12º mais bem ranqueado.

Chegou à final. Nunca, jamais um atleta nigerino havia disputado uma decisão olímpica. Eliminou um campeão mundial. E ainda ajudou um brasileiro, que terminou com uma inédita medalha de bronze. Perdeu a final? Sim, Radik Isaev, do Azerbaijão, celebrou o ouro. Mas não apaga em nada a história.

História que começou para Níger em Tóquio-1964. Até hoje, são 44 participações de atletas do país nos Jogos, sendo apenas 6 no Rio-2016. Como comparação, o Brasil teve 67 representantes no atletismo no Rio. Claro que alguns disputaram mais de uma edição, caso do boxeador Issaka Daboré, que competiu em 1964, na Cidade do México-1968 e conquistou um improvável bronze em Munique-1972, se tornando o maior atleta olímpico do país.

Até este sábado, 20 de agosto.

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Abdoulrazak Issoufou Alfaga
Alfaga com a bandeira de Níger: nunca antes o país foi tão longe nos Jogos

Agora, o rótulo pertence a Alfaga.

"Estou muito feliz de ter conquistado a medalha de prata porque era meu objetivo trazer a segunda medalha para o meu país, a primeira desde 1972, quando nosso 'avõ' trouxe uma medalha de bronze. Agora, todos sabem que podem sonhar em ganhar uma medalha olímpica", disse o herói, em entrevista exclusiva ao ESPN.com.br

Justo ele, que teve que lidar com a morte para se imortalizar.

Em 2001, quando tinha 7 anos, ele viu seu primo morrer em decorrência de uma lesão sofrida justamente em uma luta de taekwondo. Seu pai, então, proibiu Alfaga e seus irmãos de praticar a modalidade.

Quatro anos depois, ele foi morar com seu tio em Togo. Aos 11 anos de idade, ele voltou a "brincar" com o taekwondo. "Meu tio não queria que eu me envolvesse, mas um dia eu peguei emprestado um dobok [roupa utilizada nos combates] de um amigo e comecei a treinar em segredo."

"Tenho um primo que morreu por causa do taekwondo. Mas hoje eu ganhei uma medalha grande, para a minha família esquecer isso. Taekwondo não é perigoso, ele morreu por acidente. Quero dizer a todos que pratiquem taekwondo. Praticando taekwondo na África você tem chance de ganhar uma medalha olímpica."

Da tragédia ao segredo para o sucesso no tatame. Ele treina na Alemanha, em um centro de taekwondo em Friedrichshafen. O objetivo é continuar até os Jogos de Tóquio-2020, mas, mesmo com uma bolsa de estudos e com apoio do Comitê Olímpico de Níger, ele sofre com dificuldades financeiras para seguir no esporte.

"A Federação de Taekwondo de Níger é pobre. Apenas o ministro do Esporte e o governo podem liberar fundos para a minha preparação. É realmente difícil. Sem dinheiro, não existe esporte em alto nível. Tenho feito o meu melhor e não quero desistir. Muitas pessoas querem o mesmo, mas se eles entendessem o quanto é difícil para mim, eles desistiriam."

O IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) é um estudo da ONU (Organização das Nações Unidas) que analisa e compara alguns itens, como dados financeiros e econômicos, educação, expectativa de vida e mais uma série de fatores. A última edição foi veiculada em 2014.

Níger aparece na última posição, 188º lugar. O país mais pobre do mundo, que ainda luta para abolir a escravidão das suas fronteiras, tem IDH de 0,348. O Brasil é o 75º, com 0,755. Em primeiro está a Noruega, 0,944.

No taekwondo, pelo menos, Níger é prata, com tons alaranjados, como a bandeira do país. "Todos estão felizes, o presidente me ligou por causa de hoje, ele me ligou para me dar os parabéns". "Olê, olê, olê, olê, Níger!", cantou a torcida no Rio-2016 neste sábado. Mal sabiam o tanto que isso significa para o país.