Donos de camarotes se irritam com menos jogos no Allianz Parque e ameaçam devolução

Diego Garcia e Henrique Munhos, do ESPN.com.br
Gazeta Press
Allianz Parque vive novo capítulo de briga entre WTorre e Palmeiras
Allianz Parque vive novo capítulo de briga entre WTorre e Palmeiras

A constante mudança de jogos do Palmeiras, que não pode utilizar o Allianz Parque em todos seus jogos por conta de contrato com a WTorre, tem irritado os donos de camarotes do estádio. Os proprietários têm se mobilizado para tomar alguma atitude, que pode ir desde notificação extrajudicial à construtora, rescisão contratual ou, em último caso, até ida à Justiça se for necessário.

O ESPN.com.br conversou com diversos donos de lugares nos camarotes do Allianz nos últimos dias, após a divulgação de que o Palmeiras perderia o jogo contra o América-MG para uma sessão de cinema do filme Independence Day.

Vale citar que, posteriormente, na noite desta quarta, dois dias após a divulgação do fato que revoltou palmeirenses nas redes sociais, eis que a CBF antecipou o duelo e resolveu o entrevero.

Mesmo assim, a insatisfação dos proprietários de camarotes continua, principalmente porque eles vêm desembolsando altas quantias para ter conforto sem poder ter acesso a todos os jogos do time alviverde.

"Fizemos o negócio por causa do Palmeiras. Nossa prioridade são os jogos do Palmeiras. Estamos conversando a respeito inclusive com outros donos de camarote pra ver o que pode ser feito, não estando descartada a possibilidade de romper o contrato. Vamos formar um bom grupo", disse Luciano Henrique, em conversa com a ESPN. Ele possui oito cadeiras no camarote 304.

O torcedor, no caso, paga R$ 80 mil por cadeira por 60 meses de contrato, mas todo o valor investido - R$ 640 mil - é distribuído nos primeiros 36 meses.

"Esta semana pagaremos a parcela 19 de 36, ou seja, já estamos chegando à metade e o prejuízo é enorme tanto financeiro como moral porque a construtora não dá a mínima atenção aos parceiros", reclamou Luciano.

"Saliento que nossa ideia e manter a parceria mas vendo a construtora tratar os jogos como prioridade", acrescentou.

Já Leonardo Fioretti possui 12 espaços no camarote 325 e investiu em torno de R$ 400 mil, mais R$ 50 mil de móveis e alguns itens de personalização. Tudo isso por três anos de contrato.

"O descontentamento é geral. Nos foi vendido um produto muito caro e prometido muito. E além de não entregarem nada do prometido ainda existe esse problema de o Palmeiras jogar pouco lá", queixou-se Fioretti.

"Estamos nos unindo para demonstrar toda nossa insatisfação. É sem dúvida o camarote mais caro da América Latina. Hoje um torcedor do Avanti tem mais comodidade e privilégios do que nós que investimos quase R$ 500 mil para ter um camarote no Allianz. Além disso pagamos o ingresso integral de todos os jogos ou eventos", continuou Leonardo.

Reinaldo Machi é outro que possui lugares nos camarotes do Allianz Parque, dividindo com o próprio Fioretti. E também exibiu sua insatisfação em conversa com o ESPN.com.br.

"Estamos um pouco decepcionados com as mudanças de locais, quando adquirimos o direito de uso por três anos nós não imaginávamos que isso fosse ocorrer com tanta frequência", alegou o palmeirense, que possui um camarote privativo em nome de sua empresa e recebe convidados no espaço, que tem 12 lugares e uma antesssala com poltronas, TV, aparadores para comida e frigobar.

O torcedor, no entanto, acredita que é possível diálogo para resolver o entrevero, sem precisar recorrer ao Judiciário. "Quero evitar chegar a esse ponto. Pelo que o jurídico analisou, uma rescisão nos causaria um prejuízo maior ainda", determinou Machi.

"Devo ter uma reunião na próxima semana com o pessoal da WTorre para conversar um pouco a respeito. No contrato que assinamos, não existe nenhuma garantia de que teríamos todos os jogos no Allianz Parque. Independentemente do contrato, eles se colocaram à disposição para tentar remediar, mas penso ser muito difícil uma solução", continuou, esperando o resultado do encontro com um representante da construtora para tomar um parecer.

"Quando assinamos o contrato, deixamos a razão de lado e nos deixamos levar pela emoção", lamentou Reinaldo Machi.

O que ocorre é que os donos de camarote não possuem nenhuma garantia de que terão todas as partidas realizadas no Allianz Parque. A reportagem teve acesso a uma cláusula no contrato entre os proprietários e a construtora que é bem claro quanto a isso. Veja abaixo:

"A remuneração devida pela cessionária (WTorre) a camarotes não variará em razão do número de oportunidades que a cessionária utilizar o(s) camarote(s), da performance do time de profissional do Palmeiras, do número de jogos oficiais do time de futebol profissional do Palmeiras no Allianz Parque ou eventual perda de mando de campo do time de futebol profissional do Palmeiras, da ocupação do Allianz Parque e dos eventos e atividades nela realizados ou do fato de o evento ser realizado na área do campo de futebol ou do anfiteatro do Allianz Parque, pelos camrotes ou por terceiros, tampouco em razão das obras e benfeitorias que eventualmente venham a ser realizadas no Allianz Parque pela cessionária", diz o documento.

Vale citar que, se os proprietários de lugares nos camarotes optarem pela rescisão contratual, existe uma multa de 30% do valor que ainda falta ser desembolsado.

Outro torcedor, que pediu para ficar no anonimato, é proprietário de mais de uma dezena de cadeiras no Allianz Parque no setor de camarotes corporativos, em investimento que supera a marca de R$ 500 mil.

"Pretendo entender melhor como conduzir isso. Inicialmente, vamos fazer uma notificação à WTorre. Estão todos muito incomodados. Isso não é um movimento orquestrado, é uma coisa que vai ocorrer naturalmente. A briga só está começando. Os números são absurdos, vocês nem imaginam", apontou o torcedor.

Ele aponta que em seu camarote os gastos são de R$ 45 mil por mês.

"Somos todos apaixonados pelo Palmeiras. Por isso pagamos essa fortuna", explicou.

Alguns proprietários de camarotes no Allianz, inclusive, disseram à reportagem que acreditam que a WTorre lucra mais de R$ 1 milhão apenas com cada jogo que não realiza no estádio, já que as prestações das cadeiras continuam sendo pagas, mesmo sem partidas no estádio.

Para completar, dos donos de camarotes ouvidos pela reportagem, a grande maioria afirmou que vai à Justiça contra a WTorre se necessário.

"Se o desrespeito por parte da construtora conosco continuar, sim", apontaram.

OUTRO LADO

O ESPN.com.br procurou a WTorre para ouvir o lado da construtora no imbróglio.

Oficialmente, a empresa não comentou o assunto.

Mas, segundo fontes da empresa, a afirmação de que lucra mesmo em dias de jogos "não faz o menor sentido".

Isso, porque o objetivo de negócios da arena seria justamente o oposto: abrigar o maior número possível de eventos, incluindo os jogos.

Ainda de acordo com pessoas da WTorre ouvidas pela reportagem, "sem jogos, sem shows, sem eventos, a arena não lucra, mas perde".

Ainda conforme apuração da reportagem com gente da construtora, foram vendidos dois novos camarotes na semana passada, mesmo com a retratação econômica do Brasil, e a WTorre se coloca à disposição para ouvir críticas que os clientes possam formular para oferecer um serviço cada vez melhor.

Bruno Secco - ESPN FC
Allianz Parque é administrado pela construtora WTorre
Allianz Parque é administrado pela construtora WTorre