Ex-São Paulo lembra quando viu CR7 destruir United e ser contratado 'no vestiário'

Francisco De Laurentiis e Vladimir Bianchini, do ESPN.com.br
Relembre o jogo entre Sporting e United de 2003

A visão de jogo nunca foi o forte de Rinaldo Francisco de Lima, mais conhecido como Nem, um dos últimos "zagueiros-zagueiros" do futebol brasileiro. Revelado pelo São Paulo, time pelo qual teve três passagens (1993 a 1994, 1997 a 1998 e 1999 a 2000), e um dos destaques do título nacional do Atlético-PR, em 2001, o ex-beque era um jogador de destruição, que marcava duro, provocava e era um terror para os atacantes.

No entanto, ele provou que entendia muito de bola quando viu um garoto de 18 anos deixar o poderoso Manchester United de joelhos e decretou que aquele seria um craque.

Nem foi um dos que viram de perto o surgimento de Cristiano Ronaldo, então apenas um magrelo camisa 28 do Sporting Lisboa, em um amistoso contra os "Diabos Vermelhos", em 6 de agosto de 2003, na reinauguração do estádio José Alvalade, na capital portuguesa.

Na ocasião, o hoje três vezes melhor do mundo e astro do Real Madrid não marcou nenhum gol, mas deixou o técnico do United, Sir Alex Ferguson, boquiaberto com seus dribles, arrancadas e chutes potentes.

O "Puto Maravilha", como era apelidado, não tomou conhecimento dos campeões ingleses, que vinham de vitórias sobre Barcelona e Juventus em amistoso, e criou diversos lances de perigo naquele dia - as mais perigosas foram duas bombas de perna direita, defendidas com muito esforço pelo goleiro francês Barthez.

Os alviverdes venceram por 3 a 1, gols de João Pinto (2) e Luís Filipe - Hugo, contra, fez o do United. Naquele dia, Nem sabia que havia visto o nascimento de um craque.

"Eu saí do Atlético-MG e fui para Portugal assinar contrato com o Braga, mas o presidente estava em Lisboa. Ele estava com o Jorge Mendes [empresário de CR7] e eles me convidaram para ver o jogo entre Sporting e United. Hoje eu te digo: graças a Deus eu tive a oportunidade de ver aquele moleque jogando. Naquele dia, eu já tinha certeza que ele seria um dos grandes", conta o ex-defensor, ao ESPN.com.br.

John Peters/Man Utd via Getty Images
Cristiano Ronaldo Kleberson Alex Ferguson Apresentação Manchester United 13/08/2003
Cristiano, Ferguson e Kleberson na apresentação

Nem havia acabado de se tornar jogador do Braga, clube que defendeu com destaque por quatro anos, tendo cogitada inclusive a naturalização para defender a seleção portuguesa pelo técnico Luiz Felipe Scolari.

Segundo o brasileiro, Cristiano Ronaldo, que havia sido sondado pelo Arsenal anteriormente, saiu do José Alvalade naquele dia praticamente de contrato assinado com o Manchester United. A assinatura de fato acabou acontecendo alguns dias depois, na Inglaterra.

"Ele arrebentou os caras naquele dia, jogou muito. Tanto é que, quando desceu para os vestiários, já era jogador do Manchester (risos). O Ferguson ficou maluco quando viu o menino. Os caras do Sporting colocaram o Cristiano para jogar porque tinham certeza que ele iria arrebentar, e não deu outra", recorda - a atuação de CR7 fez até o famoso Roy Keane tirar sarro do lateral O'Shea, dizendo que o colega de equipe pediu para ser atendido pelos médicos, pois havia ficado tonto de tanto correr atrás do garoto luso.

O amor do United por Cristiano foi mesmo à primeira vista. Uma semana depois daquele amistoso, lá estava o gajo sendo apresentado em Old Trafford, ao lado do brasileiro Kleberson (então pentacampeão do mundo com a seleção brasileira).

O atacante virou ídolo na Inglaterra, e, muitos gols e títulos depois, deixou os Red Devils para conquistar mais taças no Real Madrid. Neste sábado, aliás, ele tem chance de vencer sua terceira Uefa Champions League (a segunda pelos merengues), já que o time espanhol encara o rival Atlético de Madri na decisão do torneio, em Milão.

Tietado por Cristiano

Atualmente com 43 anos e trabalhando como técnico do Hercílio Luz FC, que disputa a 2ª divisão catarinense, Nem é um dos maiores ídolos do Braga.

Gazeta Press
Nem Sao Paulo Fernando Baiano Corinthians Torneio Rio-São Paulo 14/03/1999
Nem (esq) em ação nos tempos de São Paulo

Quando o brasileiro chegou à equipe alvirrubra, em 2003, o time era apenas um figurante em Portugal, sempre brigando contra o rebaixamento e sem campanhas de destaque. Com muita raça e cartões amarelos, o capitão fez o clube mudar de patamar e passar a ser respeitado.

"No meu primeiro ano, cheguei e o time estava para cair, completamente desacreditado. Eu cheguei e falei pra imprensa que ia fazer aquele time virar campeão. Falavam que eu era maluco, que só falava besteira, mas mostrei para eles que estava certo", recorda o ex-são-paulino e atleticano.

"No meu primeiro ano, classificamos o Braga pela primeira vez para a Copa da Uefa. Depois, a equipe foi crescendo ano a ano e passou a ser respeitada por todos. No meu último ano, classificamos para a Champions, e eu completei meu ciclo. Tenho muito respeito lá, e o presidente é meu amigo até hoje, mandou até passagem e ingresso para eu ver a final da Liga Europa em 2011", relata.

Não à toa, Nem tornou-se um nome respeitado no futebol português, aterrorizando atacantes com sua marcação cerrada, que muitas vezes fazia sair "faíscas" em duelos com centroavantes como Liedson, então no Sporting.

CityFiles/Getty Images
Nem Braga Liedson Sporting Campeonato Portugues 11/10/2006
Nem e Liedson 'conversam' em 2006

A prova disso foi que, no dia em que o ex-defensor voltou a encontrar Cristiano Ronaldo, 11 anos depois de vê-lo em ação pelo Sporting contra o Manchester United, quem acabou tietado foi o próprio Nem, e não CR7.

"Levei meu filho, um amigo e o filho dele para conhecerem o Cristiano em Campinas, durante a Copa do Mundo, pois sou muito amigo do Jorge Mendes. Quando chegamos lá, perguntei se ele podia tirar uma foto com meu filho, e ele respondeu: 'Você não é o Nem, que jogava no Braga?'", relembra.

"No fim, nós sentamos e conversamos um bom tempo, tiramos várias fotos, contamos piadas, foi muito bacana. Eu disse a ele que, no dia em que ele jogou contra o United, eu estava lá e tinha visto a história ser feita", conta, antes de finalizar, aos risos.

"Ainda bem que nunca joguei contra ele, porque marcar o homem é complicado... E se eu tivesse marcado o Cristiano nos meus tempos de Braga, pode ter certeza que a gente não faria amizade..."