Seis fatores, explicados por Tite, para entender o Corinthians campeão brasileiro

André Donke, Guilherme Nagamine e Thiago Cara, do ESPN.com.br
ESPN.com.br
Sete fatores, explicados por Tite, para entender o Corinthians campeão brasileiro
Sete fatores, explicados por Tite, para entender o Corinthians campeão brasileiro

O Corinthians sagrou-se campeão brasileiro pela sexta vez. Elogiado pelas atuações consistentes nos últimos meses, o time levantou a taça com três rodadas de antecedência após o empate contra o Vasco na última quinta-feira. 

Abaixo, o ESPN.com.br lista seis aspectos do trabalho realizado nos treinos e dentro de campo que ajudam a explicar a conquista do elenco comandado pelo técnico Tite. O treinador, aliás, explica alguns deles. 

1 - o esquema e a forma de atuar

Na época poderia não parecer, mas o amistoso contra o Bayer Leverkusen deu muito mais do que visibilidade e ritmo de jogo a um Corinthians que estava em pré-temporada. O triunfo por 2 a 1 sobre a equipe alemã, nos Estados Unidos, foi decisivo para Tite implementar o esquema tático 4-1-4-1.

Com a formação, Elias ganhava mais liberdade para subir ao ataque e Jadson passou a ficar mais aberto pela direita. Os números, mostrados no item 5, indicam que a ideia funcionou. E funcionou muito bem.

Reprodução
Amistoso contra o Bayer Leverkusen forjou esquema campeão do Corinthians de Tite
Amistoso contra o Bayer Leverkusen forjou esquema campeão do Corinthians de Tite

Fala, Tite: Cada que vez vejo o Bayer Leverkusen jogar eu penso: aquele jogo foi o embrião e o início do esquema do 4-1-4-1, foi quando a equipe se ajustou e cresceu em termos táticos. Foi ali. Foi contra o Leverkusen quando vencemos por 2 a 1.

Eu imaginava o Renato pelo lado e o Jadson por dentro. Era a utilização dos dois, com o Lodeiro na época, tinha o Danilo, mas não com a mesma mobilidade.

E aí...o Lodeiro sai, vamos para o jogo. Lodeiro fica fora e o Jadson entra pelo lado. E ele joga muito, faz pelo lado a transição defensiva . O Renato já tinha feito isso comigo, jogando aberto pela esquerda, com Pato e Guerrero na frente em um 4-4-2 com duas linhas de quatro. É observar que a equipe pode mostrar coisas boas também.

Preparação física alinhada à tática: veja como o Corinthians mantém sua intensidade 

2 - o elenco

Não foi acaso o gol que acabou sacramentando o título na 35ª rodada ter sido marcado por Lucca, após cruzamento de Edilson e desvio de Danilo. Todos jogadores considerados reservas, mas com potencial para decidir uma partida para o Corinthians.

A máxima de que "para ser campeão brasileiro, é preciso elenco" não foi apenas clichê para o Corinthians. Cássio não pode enfrentar o Atlético-MG no primeiro turno, por exemplo, e Walter garantiu a vitória; sem laterais, o zagueiro Yago foi improvisado e não comprometeu; quando Elias esteve com a seleção, Rodriguinho se descobriu em nova posição... Isso só para citar alguns exemplos.

Fala, Tite - Lembrei que o Walter jogou contra o Atlético-MG no primeiro turno. (Mostra) O quanto a equipe toda foi importante, independente da individualidade, de manter o padrão. Foi, sim, o treinamento dado e a conscientização deles e da importância de cada um nos momentos decisivos e optar pelo momento de cada um. Você vai ver que repeti a escalação duas vezes de um jogo para o outro. Nos demais, a equipe toda foi importante.

3 - a ajuda tecnológica

A tecnologia também foi uma aliada importante do clube ao longo da campanha do Brasileiro. Além da análise tática dos adversários, equipamentos também tiveram participação fundamental. Um deles foi a plataforma que permite filmar exercícios nos treinamentos de um plano mais elevado.

Daniel Augusto Jr/Ag. Corinthians
Números ajudaram Corinthians a ser campeão
Ciência ajudou Corinthians a ser campeão

O equipamento veio após o time corintiano observar o uso dele durante a Florida Cup e foi obtido com ajuda de Fernando Lázaro, analista de dsempenho técnico da equipe.

Um dos bons exemplos de uso aconteceu antes da partida contra o Atlético-MG, no segundo turno. Na atividade que foi filmada, Tite determinou que a linha defensiva saísse jogando mais fechada.

Fala, Tite: Eu disse isso porque, se os meio-campistas errarem com a pressão mais alta do adversário, a linha estaria dando sustentação defensiva. No treino aconteceu isso: o meia perdeu a bola e, com os quatro defensores fechados, não teve infiltração na defesa. Mostrei este vídeo antes do jogo. E contra o Atlético-MG, no primeiro tempo, o Renato Augusto perdeu a bola. O ataque do Atlético não conseguiu infiltrar porque os quatro da linha de trás estavam mais fechados [como no treino].

4 - ambiente e relação do técnico com o grupo

Um dos pontos importantes também para a conquista foi a relação do treinador com o grupo e o bom ambiente construído pelos jogadores. Atletas de mais renome, mas que passaram certos períodos ou o torneio inteiro no banco - como Ralf, Cristian e Edu Dracena - não foram vistos reclamando publicamente da condição e esperaram pacientemente para atuarem.

Tite também disse que acertar o tom de voz com o grupo foi importante para ter uma boa relação com o grupo. Segundo ele, o auxiliar Fabio Carille o ajudava a acertar a "tecla" com os jogadores.

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Fala, Tite: Precisa de tempo para encontrar a "tecla" dos jogadores. Eu vou e posso ser mais veemente. Peguei o Malcom e o Arana, são garotos de 18 anos. Mas eu pego o Edilson, o Edu Dracena e o Gil, meu tom de voz é outro. A "tecla" é outra, a batida é outra. Eu sou um cara mais pilhado. De mudar tom de voz, de jogar lá em cima na palestra e eu tive que modular isso porque não é uma equipe que responde a isso. A equipe com Emerson, Guerrero, Paulinho, eu chutava a parede, quebrava o pau, falava 'vai dentro" e eles olhavam para mim...essa é a diferença. A tecla é diferente.

Respeita e trabalha todos de forma igual [para transformar todos do elenco em importantes]. O técnico tem que estar em campo vendo o treino de quem não jogou no dia anterior. Observando e acompanhando o trabalho. Isso é valorização do trabalho. O jogador fala 'Os caras jogaram ontem e ele está conversando com o diretor. Não está vendo o treino, não está vendo a qualidade que eu tenho. Como ele vai me julgar?'. E aí é uma relação de respeito, trabalho e de exigência a todos. Não vou agradar, mas vou respeitar. Isso eu faço. Isso para mim é fundamental, essencial na relação de grupo.

Gazeta Press
Jogadores do Corinthians conversam com técnico Tite em treino
Jogadores do Corinthians conversam com técnico Tite em treino

5 - o meio de campo e o ataque

Se há um destaque individual em meio ao jogo coletivo do Corinthians e acima do técnico Tite, este vem do meio de campo. O fato de Renato Augusto e Jadson serem os líderes na disputa da Bola de Ouro não deixa mentir.

Os números falam por Jadson, que é o líder em assistências do Brasileirão, com 12, e é o vice-artilheiro da competição com 13 gols. Além disso, ele é o líder em assistências que terminaram em finalizações (89), quarto em passes certos (1473) e segundo em cruzamentos certos (37). As estatísticas são da Footstats. Já o ESPNTruMedia aponta que o camisa 10 é o jogador que mais chances criou na competição (94).

Líder de assistências e um dos artilheiros do Corinthians: reveja o que Jadson fez na campanha

Renato Augusto, que lidera a Bola de Ouro com folga, não tem nos números o seu principal argumento para ser escolhido como melhor jogador, mas foi uma referência dentro de campo e o grande expoente de criatividade no jogo corintiano, tanto que retornou à seleção brasileira. Com 24 dribles certos até o momento, de acordo com a Footstats, ele é o quarto melhor nesta estatística na Série A.

A importância dos meio-campistas, porém, não se limita a dupla de armadores. Afinal, Elias recuperou o bom futebol de sua primeira passagem pelo clube e, além de cumprir com sua função defensiva, causou muitos problemas aos adversários quando desceu ao ataque. Com sete assistências e cinco gols, o jogador de 30 anos participou diretamente de quase um quinto das bolas que o Corinthians mandou às redes.

ESPN TruMedia
Mapas de calor de Jadson, Elias e Renato Augusto
Mapas de calor de Jadson, Elias e Renato Augusto

O ATAQUE? QUESTIONADO E DECISIVO

Que atire a primeira pedra o corintiano que não xingou seus atacantes, ao menos uma vez, durante o Campeonato Brasileiro. Desde a saída de Paolo Guerrero e Emerson Sheik, desconfiança foi a palavra para definir a relação entre torcida e os homens de frente do time. Mas, quando a equipe precisou, eles não decepcionaram.

Quer exemplo? Os gols de Luciano naquele difícil jogo contra o Avaí, a estrela do jovem Malcom nos dois encontros com o Atlético-MG, o talismã Lucca diante do Coritiba... E, claro, Vagner Love, o maior exemplo de alguém que soube transformar os questionamentos em gols.

Vagner Love calou críticos para virar um dos artilheiros do Corinthians no Brasileiro

O camisa 9 era o primeiro substituto para Guerrero, mas demorou a engrenar. Precisou ser afastado para um período de recondicionamento físico, enquanto Luciano brilhava em campo. Até que o então titular se lesionou, e Love não desperdiçou a nova chance - perdeu algumas em campo, é verdade, mas até isso o corintiano pode relevar.

Nos últimos cinco jogos do time (Atlético-PR, Flamengo, Atlético-MG, Coritiba e Vasco), por exemplo, foram cinco gols de Love, que virou artilheiro do Corinthians no Brasileiro, ao lado de Jadson. Seus 13 gols foram mais do que o triplo do que Guerrero fez no novo clube. Que atire a primeira pedra quem sentiu saudade...

Fala, Tite - Dá para esticar mais o sorriso? Ele (Love) é muito persistente, um exemplo de profissional. Trabalhou muito e está colhendo os frutos. Dá para ver que o torcedor prestigia não só o esforço, mas também o talento. Ele tem qualidade, e o nível de confiança... São coisas que o tempo vai dando.

6 - arena corinthians

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Torcedores do Corinthians festejando o hexacampeonato na Arena em Itaquera
Torcedores do Corinthians festejando o hexacampeonato na Arena em Itaquera

"Caiu em Itaquera, já era". O lema é da torcida, mas o time do Corinthians resolveu abraçá-lo neste Brasileiro. Em 2015, os rivais gostaram de ironizar as eliminações em casa no Paulista, Libertadores e Copa do Brasil, mas, na Série A, foi difícil visitar a Arena e não sair derrotado pelos anfitriões.

A sintonia entre torcida e jogadores foi forte e só duas equipes conseguiram sair com pontos da Arena - o Palmeiras venceu (2 a 0) no primeiro turno, e o Grêmio empatou (1 a 1) no segundo. Como mandante, aproveitamento do Corinthians, até o jogo contra o Corinthians é de impressionantes 90,2%.

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Título fez Corinthians bater recorde de público de sua Arena
Título ajudou Corinthians a bater recorde de público de sua nova Arena

Das 15 vitórias como anfitrião, só uma veio longe da Arena - contra a Chapecoense, em Araraquara -, no jogo que é justamente o pior público da equipe no Brasileiro. Tirando essa partida, o Corinthians não levou menos que 24 mil pessoas ao estádio e é campeão com média de 32.970 torceodres/jogo.

Fala, Tite - Se nós não compreendermos o torcedor, eu não posso trabalhar como técnico. O torcedor é paixão. Primeiro jogo que eu fiz, com bastante gente dentro da Arena, eu me assustei. Eu olhei pro banco e disse "isso aqui está fervendo", porque eu tinha ido só no Pacaembu, que também fervia, quando lotava ali fervia. Eu olhei pra trás na primeira vez e falei "isso aqui treme tudo".