Aranha é chamado de 'macaco' por torcida do Grêmio

ESPN.com.br

O jogo entre Santos e Grêmio terminou 2 a 0 para o time alvinegro, mas a cena mais lamentável veio das arquibancadas. O goleiro Aranha, do time paulista, foi alvo de críticas racistas por parte da torcida atrás do gol onde estava no no segundo tempo.

Em uma imagem flagrada pela câmera da ESPN Brasil, é possível ver uma torcedora da equipe tricolor chamando Aranha de "macaco". Além disso, outros torcedores - inclusive, um negro - imitaram sons de macaco em direção ao atleta.

O gesto revoltou o goleiro do Santos, que, visivelmente chateado, falou sobre o caso após o apito final.

"O fato de ter uma campanha contra o racismo no telão da outra vez não é à toa. A torcida xingar e pegar no pé é normal. Mas daí começaram a falar ‘preto fedido', ‘cambada de preto', fiquei nervoso, mas fiquei me segurando. Fizeram rápido e pouco um coro de macaco, para não dar tempo de pegar. Pedi para o câmera virar e mostrar, mas ele não fez isso. Fico p.. com essas coisas acontecerem aqui. Mas isso dói, dói. Não é possível. Vem falar que eu estava insultando a torcida, virei e falei que eu era preto sim, negão", afirmou o goleiro.

"Como tomar providência? No meio de tanta gente, fica difícil assim. Graças a muito esforço, tem leis, mas no futebol a gente sabe que o torcedor usa de várias maneiras para desestabilizar o torcedor. Sou mais experiente agora", falou Aranha. A assessoria de imprensa do Santos informou que divulgará uma nota no nome de Aranha sobre o caso. 

Na súmula da partida disponível no site da CBF, o árbitro Wilton Pereira Sampaio não relatou o ocorrido. Ele apenas registrou que foi lançado um rolo de papel higiênico da torcida em direção ao goleiro santista. Além disso, o juiz registrou as reclamações de Felipão, que foi expulso na partida.

Questionado sobre o assunto na entrevista coletiva após a partida, o técnico do Santos, Oswaldo de Oliveira, pediu que a punição seja mais pesada para as pessoas que cometem atos racistas. "Essa questão do racismo, a gente podia fazer o seguinte: parar de falar e as autoridades punirem. Tem que ser tratado com mais rigor tanto a violência como a manifestação racista", disse o treinador.

"Como já falei, a recorrência é um fator que na verdade é abominável. O Arouca sofreu uma situação dessas no Paulista e não tenho notícia de ter acontecido algo. Ao mesmo tempo que fala e não tem punição, isso acaba estimulando esse tipo de atitude", completou.

Oswaldo prefere encerrar assunto racismo: 'Quanto mais se fala, menos se pune'

Pelo lado do Grêmio, o conselheiro Marcos Chitolina, falou que o clube vai tentar identificar os responsáveis pelos atos racistas. "Nós temos que identificar isso, a Arena tem condições tecnológicas disso, buscar imagens tecnológicas, o grêmio não pode se colocar como clube racista. A Arena tem todas as condições de identificar esse torcedor, e vamos buscar identificar e vamos nos defender dentro das formas da lei", afirmou.

Mais tarde, já na madrugada desta sexta-feira, o Grêmio divulgou uma nota oficial repudiando a ação dos torcedores e prometendo uma ação do departamento jurídico. 

Leia a nota oficial do Grêmio na íntegra:

O Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense lamenta e repudia o ato de racismo ocorrido na noite desta quinta-feira, durante partida realizada pela Copa do Brasil, na Arena do Grêmio. O Clube se solidariza com o atleta Aranha e com seu clube, Santos, ressaltando que atos como esse são fruto de atitudes individuais e isoladas, que em nada representam a grandiosidade e o respeito da torcida gremista.

Informamos que o Departamento Jurídico do Clube, em conjunto com a administração da Arena, já está tomando todas as medidas possíveis para que os envolvidos neste episódio sejam identificados e para que os materiais disponíveis sejam enviados às autoridades policiais, a fim de tomarem as providências cabíveis no âmbito criminal.

No que se refere às ações administrativas, caso os responsáveis identificados sejam sócios do clube, estes serão imediatamente suspensos do Quadro Social e proibidos de ingressar no estádio.

Reiteramos que o Grêmio tem sido um incentivador de iniciativas que visam coibir esse tipo de crime e que continuará alerta e atuante na luta contra a discriminação racial.


Veja outras manifestações sobre o caso de racismo:

Edu Dracena, zagueiro do Santos: "Isso é lamentável no futebol e na vida. Todo mundo é igual a todo mundo. Não tem como discriminar ninguém hoje. Você vê no futebol, onde tem espetáculo, uma pessoa imbecil como essa tem que ser banida do futebol, não pode nem entrar no estádio. O Aranha foi muito feliz ao denunciar e só assim podemos acabar isso."

"Essas pessoas sozinhas não tem essa atitude. Por estar acompanhado, de querer chamar a atenção, fazem esse tipo de ofensa."

Zé Roberto, meia do Grêmio: "É lamentável a gente viver no século XXI e estar passando por uma situação como essa, eu só tenho que lamentar. Como pegou a imagem clara, tem que haver punição. Infelizmente, a gente vive em um país racista. Só lamento que, às vezes, numa situação como essa, o próprio clube sai punido por não ter nada a ver, se tratando de um torcedor do clube."

"Na minha carreira, pelo que me lembre, no tempo que joguei na Alemanha, eu nunca passei por essa situação. Uma situação desagradável que eu nunca espero passar;. Não tenho muito o que falar dessa questão, é de ficar indignado, com tantas raças diferentes, cores diferentes, e viver um episodio desse dentro do nosso estádio."

"A gente fica muito chateado. Quem teve esse ato de racismo pode ser punido, embora não sei se adianta muita coisa, porque é uma coisa que está encubada. Ainda que venha a ter punição, a gente vai continuar vivendo com esse tipo de situação de racismo."

"Como me falaram que a televisão pegou a pessoa, que seja punido, embora não vá minimizar muita coisa, porque no Brasil não é novidade. Não deva ter solução. Que tenha punição, mas não solução eu creio que não tenha não." 

Arouca, volante do Santos: "Espero que as autoridades possam tomar atitude, punir essas pessoas, que tiveram esse tipo de ato, porque não dá pra aceitar mais. Algumas pessoas olham outras fazendo, olham que não dá em nada e acabam tomando a mesma atitude. Enquanto não houver uma atitude mais severa, a gente vai continuar passando por isso."

Robinho, atacante do Santos: "Somos todos iguais. O Grêmio é muito grande, tem que identificar, não precisa generalizar, não foi a torcida toda, mas a gente fica chateado."

"Não precisa punir todo mundo, não foram todos os torcedores, tem muitas câmeras que dão para identificar bem. Tem que ter punição severa para eles, não vem mais para o estádio. Tem jogador do grêmio que é negro."

Muricy Ramalho, técnico do São Paulo: "Isso é coisa do nosso país. Está nesta situação, os caras brigam, roubam em cima, isso é um exemplo do país. Nossa educação é ruim. O cara vai para dentro do campo como na rua esta acontecendo, xingar as pessoas. E sabe que não vai acontecer nada. Isso está chato. Eu trabalhei dois anos com o Aranha no Santos. O cara que xingou... Primeiro que deveria ser preso. E segundo que não teve a chance de conhecer quem é o Aranha. Imagina como tá o filho do Aranha. Isso é um reflexo do nosso país."

Zinho, gerente de futebol do Santos: “A gente lamenta muito, não cabe mais isso na sociedade que a gente vive. Esse ato e essa torcedora, a gente fica muito triste. Não pode uma paixão, um sentimento de um jogo extrapolar para essa esfera. Nós ficamos muito tristes. Somos solidários ao Aranha e contra qualquer tipo de preconceito."

"Nós temos nosso departamento jurídico, seria leviano da minha parte falar qualquer comentário sobre o que o Santos faz ou não, e vamos, primeiro, dar o apoio ao nosso atleta."