Os 50 anos do golpe: um historiador que virou jogador e Gilberto Gil fã do Chelsea

Thales Machado e Mariana Rodrigues, para o ESPN.com.br
Arquivo Público Mineiro
Gilberto Gil e Caetano Veloso moraram em Londres quando foram exilados na ditadura militar
Gilberto Gil e Caetano Veloso moraram em Londres quando foram exilados na ditadura militar 

O currículo de Joel Rufino dos Santos é extenso. Professor, historiador e escritor. Um dos maiores especialistas em cultura africana no Brasil e um dos intelectuais mais respeitados no meio acadêmico nacional. Negro, é autoridade quando o assunto é a maléfica cultura do racismo que acompanha a história da sociedade brasileira. Escreveu mais de 25 livros sobre, entre eles, a "História política do futebol brasileiro". Além de tudo isso, foi jogador de futebol.

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Na Bolívia. Durante um exílio forçado pela ditadura militar. Essa é apenas uma de diversas histórias envolvendo a maior paixão de alguns brasileiros na época em que foram obrigados a saírem do país por um governo autoritário.

Divulgação
Rufino, historiador que virou jogador de futebol
Rufino, historiador que virou jogador de futebol

No dia 31 de março de 1969, Joel Rufino era um estudante de História na USP, com 23 anos. Casado e com um filho, diz não ter captado a gravidade e as mudanças que viriam em sua vida com o Golpe militar que presenciara.

"No golpe, andei pela cidade meio atordoado, como todo mundo. Nós (ele e a mulher) não sabíamos bem para onde ir. No dia seguinte, ainda aquele atordoamento, minha mulher foi para um lugar seguro, voltou para a casa dos seus pais. E eu peregrinei no subúrbio, em casas de conhecidos, esperando o que iria acontecer", diz o historiador, em depoimento ao projeto "Democracia Viva".

Quando o golpe ficou "sério", segundo Joel, ele se exilou primeiro na embaixada boliviana, para posteriormente seguir para La Paz, capital do país. Um companheiro nesta jornada de Joel foi o atual político José Serra. Outros foram os atores Gianfransciso Guarnieri e Juca de Oliveira, que vendiam roupas e gravatas usadas para se sustentar no país estrangeiro. Rufino, apaixonado pelo futebol e bom peladeiro até hoje, arrumou outro meio de se sustentar nas montanhas bolivianas: jogando futebol.

Por 100 dólares por semana, Joel Rufino virou o novo meio campo do Municipal de La Paz, campeão boliviano em 1965.

"Dava apertado para pagar a comida. Eu jogava com a 'oito'. Deixa eu contar um fato para fazer justiça. Tinha um menino nissei que jogava muito, e antes de eu chegar era o titular do time. Eu não conseguiria tirar a vaga dele jogando, mas o técnico era um brasileiro comunista exilado. Daí não precisa falar mais, né? Ele ganhava 1000 dólares por semana e eu 100 dólares, mas quem jogava era eu".

O técnico de Joel no Municipal de La Paz era um velho conhecido. Vinícius Ruas estudara Educação Física enquanto ele estudou História na mesma faculdade, e fora presidente do Diretório Acadêmico. Na época da eleição, o treinador tinha um slogan peculiar, motivo de seu exílio posterior: "Comunista, porém honesto".

Da Bolívia, onde encerrou sua breve carreira profissional no esporte, Joel Rufino se exilou no Chile. De lá, por amor ao filho que ainda não conhecia e por achar que precisava voltar para a luta no campo da política, voltou ao Brasil ainda durante o regime militar. Foi preso. E torturado. Ficou de 1972 a 1974 na prisão e, quando solto, ingressou na luta armada. Após o fim do regime virou um dos maiores expoentes na luta contra o racismo no país, o que faz até os dias atuais.

Arquivo Público Mineiro
Joel Rufino e o político José Serra (à esq. da foto) durante o período de exílio na Bolívia
Joel Rufino e o político José Serra (à esq. da foto) durante o período de exílio na Bolívia

Gilberto Gil encantou-se pelo Chelsea durante o exílio em Londres
Quando se fala dos artistas que foram exilados durante o período da ditadura militar no Brasil, os nomes de Chico Buarque, Gilberto Gil e Caetano Veloso se destacam, tanto pela produção durante este período, quanto pelas histórias que viveram. Todos saíram do país após o AI-5, em 1968, ato institucional que deixou a ditadura ainda mais autoritária.

A relação de Caetano Veloso e Gilberto Gil com o Esporte Clube Bahia já é conhecida. O que poucos sabem é que ambos fizeram um show juntos em julho de 1969, no Teatro Castro Alves, em Salvador. O show, nomeado "Barra 69", precedeu a ida dos cantores para Londres, onde ficariam exilados. Como despedida, na última música, para dar o adeus à Salvador, os cantores, acompanhados pela plateia, cantaram o Hino do Bahia, em um pout pourri que também teve as famosas "Alegria, Alegria", de Caetano, e "Aquele Abraço", de Gil.

Ouça a gravação do show de Gil e Caetano:


E foi em Londres que Gil adquiriu uma improvável paixão. O cantor brasileiro encantou-se pelas cores e cantos da torcida do Chelsea. Na época, um time com torcida fanática, pouco dinheiro e poucos títulos. A primeira residência de Gil e Caetano na cidade foi justamente no bairro de Chelsea.

Arquivo Público Mineiro
Caetano e Gil, no Big Ben, em Londres
Caetano e Gil, no Big Ben, em Londres

Foi em 1969 que, caminhando em dias de jogo pelos arredores do Stamford Bridge, que o cantor baiano se encantou por uma mensagem de apoio dos torcedores aos Blues: "Por cima ou por baixo, mas sempre de azul". A poesia fez o torcedor.

"Sempre via aquelas pessoas indo para o campo do Chelsea, perto de casa, sempre otimistas. Aquele azul foi algo importante. Tanto que hoje no Brasil eu sou Cruzeiro", revelou Gil durante um show em Olinda.

A Copa do Mundo de 1970, constante assunto quando se associa futebol e ditadura, também foi marcante para o cantor. Principalmente o jogo contra a Inglaterra, vencido por 1 a 0, gol de Jairzinho, como afirma no filme "Canções do Exílio: A labareda que lambeu tudo", de Geneton Moraes.

"Não sabia se torcia pelo Brasil ou contra, pois torcendo a favor estava dando força à ditadura. Mas o coração, o amor pela terra foi mais forte e eu e um grupo de exilados torcemos, gritamos, vibramos pelo Brasil, que ganhou da Inglaterra de 1 a 0. Onde eu morava, no bairro Chelsea, onde tem o time de futebol e seu estádio, no outro dia após a vitória do Brasil as ruas amanheceram pichadas com a inscrição "Rivelino revelation", numa alusão ao grande jogador brasileiro Rivelino, que eles, os londrinos, consideraram a grande revelação daquela Copa que foi nossa".

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Chico Buarque e Garrincha, uma parceria de "exilados"
Outra passagem interessante envolvendo um artista brasileiro exilado durante a Ditadura Militar envolveu dois craques, Chico Buarque, das letras e música; e Garrincha, do futebol e do drible.

Como narra Ruy Castro na biografia que escreveu sobre o craque do Botafogo, o encontro ocorreu na Itália, país em que Chico escolheu para fugir dos horrores e da censura do governo militar. Garrincha não estava exilado, mas, já em fim de carreira, se via expulso, sem espaço no futebol brasileiro. Ganhava uns trocados jogando em alguns times amadores. Para as partidas, Garrincha tinha Chico Buarque de ilustre motorista em seu carro.

Com o tempo, os dois ganharam alguma intimidade e Garrincha chegou a visitar o cantor. Tomavam grappa, bebida alcóolica de origem italiana, e o cantor se disse surpreso com o conhecimento do jogador acerca da música. Preferia, na maioria das vezes, conversar sobre bossa nova do que sobre futebol, conta Ruy Castro, que entrevistou Chico para biografar o "Anjo das Pernas Tortas".

Histórias boas de um tempo nada bom, que, ainda bem, não volta nunca mais. Ao menos, é o que se espera.