Santos vai ter de pagar por Leandro Damião, diz Doyen Sports

Camila Mattoso, do ESPN.com.br
Getty
Leandro Damião vai ser apresentado nesta quinta-feira na Vila Belmiro
Leandro Damião vai ser apresentado nesta quinta-feira na Vila Belmiro

O Santos está apostando em parceiros para reforçar o time na temporada. Com o fundo maltês Doyen Sports, a diretoria contratou Leandro Damião, o primeiro a inaugurar essa nova fase na Vila Belmiro. Com a justificativa de que não pode falar dos contratos, o clube não tem divulgado o principal detalhe da chegada do atacante: que vai ter de devolver os R$ 42 milhões para o grupo de investidores.

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É, pelo menos, o que informa a Doyen Sports, por meio de um release oficial em seu site. De acordo com o texto, a empresa diz que não é dona de nenhum pedaço dos direitos econômicos do jogador e que a operação feita entre as duas partes trata-se, na verdade, de um financiamento oferecido pelo fundo ao time paulista. Os termos para a devolução já estão definidos, segundo a nota, mas não são detalhados.

"Agora que o processo está concluído entre a Doyen e o Santos, a Doyen Sports pode confirmar o seu envolvimento na maior transferência, até esta data, entre clubes brasileiros. Ao contrário de alguns relatos, a Doyen não tem especificamente nenhuma porcentagem (third party ownership) de Leandro Damião ou de qualquer outro jogador de futebol. Acordo sim uma fonte transparente de financiamento para o Santos poder suportar o valor da transferência, estando acordado os termos para a devolução ao longo de um determinado período", esclarece a nota, na íntegra, no página oficial na internet. 

Em termos ainda mais simplificados, segundo especialistas em direito desportivo ouvidos pelo ESPN.com.br, o Santos fez um empréstimo e combinou com o grupo como vai devolver o dinheiro, formato um pouco diferente de quando há a participação de terceiros como detentores dos direitos econômicos. 

"As partes identificam um jogador, mas o clube não tem como pagar. Em vez de adiantar direito de TV, pedir empréstimo em banco ou comprometer bilheteria, eles vão lá e procuram um investidor, que a gente chama de sócio-capitalista. O fundo vai lá, financia e coloca o atleta no clube, que serve como hospedeiro", explica o advogado Marcos Motta, sobre as relações entre clubes e investidores, de forma genérica.

"Isso chama empréstimo. Qualquer fundo tem o objetivo de recuperar o investimento. Eu não vi o contrato, mas o clube pode estar vinculando alguma receita. Acaba funcionando como um banco. Geralmente, no Brasil, a garantia está relacionada aos direitos econômicos do jogador. Como o grupo está dizendo que não é isso, pode ser alguma outra receita. Sem dúvida deve ter juros na operação, até porque o valor do dinheiro muda. Quando há a garantia vinculada aos direitos econômicos não há juros, pois o investidor também assume os riscos. Nesse modelo, o clube assume os riscos sozinho. Não sei sobre o contrato", completa Pedro Trengrouse, especialista em gestão e professor da GV.

Outra informação apurada pela reportagem é que se o Santos conseguir vender o jogador por mais de R$ 42 milhões, ele receberá uma porcentagem, de cerca de 20%, do lucro obtido. Ou seja, se Damião for comprado por R$ 50 milhões, o clube terá direito a receber uma parte dos R$ 8 milhões da chamada "mais-valia".

Procurado, o presidente do Santos, Odílio Rodrigues, não retornou às ligações da reportagem. Renato Duprat, representante do fundo no Brasil, em entrevista para o ESPN.com.br, nesta terça-feira, não respondeu as questões sobre o contrato, por causa de uma cláusula de confidencialidade, bem como outros diretores do clube que também foram contatados. 

O Conselho Deliberativo da Vila Belmiro ainda não teve contato com o documento, mas espera tê-lo em mãos nos próximos dias, conforme garante o estatuto do clube.

Fugindo da Fifa

Entre dirigentes, há quem diga que a justificativa da Doyen serve apenas para mostrar a legalidade da operação, mas que os direitos econômicos pertencem, mesmo que com outra roupagem, à empresa. 

Com esse modelo de contrato, o fundo já estaria se prevenindo de qualquer mudança que a Fifa queira fazer no futuro em relação à participação de terceiros nos direitos econômicos dos jogadores. 

Atualmente, a entidade máxima do futebol aceita a situação, mas só aceita que a transferência do dinheiro seja feita entre clubes. Inglaterra, Polônia e França, por outro lado, não permitem.

De acordo com o especialista em direito desportivo Marcos Motta, não há motivos para isso. "A Fifa não quer mudar. Ela vai continuar permitindo a participação de terceiros. Se houver alguma mudança vai ser para dificultar ainda mais qualquer interferência desportiva e técnica que os investidores queiram ter na vida dos atletas. A Fifa já não deixa que haja interferência, mas sabe que tem e pode querer diminuir", afirmou.

Aposta do Santos

Sem o clube disponibilizar informações sobre a maior transferência entre clubes brasileiros da história não há como se aprofundar nos detalhes do acordo que existe entre a Doyen e o Santos, além do que foi publicado pelo grupo. 

Se não houver nada diferente do que pensam os advogados especialistas ouvidos pelo ESPN.com.br, o clube paulista vai ter de torcer para conseguir vender Damião por um valor maior do que os R$ 42 milhões da compra. Assim, não teria de desviar outras receitas.

Poucos times conseguiram o feito, no entanto. Segundo levantamento recente do site, a lista conta apenas com Fred, Nilmar, Neymar, Geovanni, Pato, Robinho, Denilson, Paulinho, Oscar e Lucas.