XV 100 anos: O dia em que Piracicaba rompeu a Cortina de Ferro

Vladimir Bianchini, da Rádio ESPN para o ESPN.com.br
Acervo Rocha Neto/Unimep
XV de Piracicaba 100 anos 14 de abril de 1964 Jogadores chegam à URSS e são recebidos com flores
14 de abril de 1964 - Jogadores do XV de Piracicaba são recebidos com flores na chegada à então União Soviética

Da tranquilidade do interior de São Paulo para o coração da Guerra Fria. A maior aventura do XV de Piracicaba, que completa hoje 100 anos, foi uma excursão de 62 dias pela Europa. Numa época em que não eram comuns viagens para o exterior, o time visitou países como Polônia, Suécia, Alemanha, Dinamarca e União Soviética.

Mesmo com as dificuldades financeiras e de transporte da época, o Nhô Quim foi o primeiro clube brasileiro a romper a Cortina de Ferro. O que torna essa história ainda mais inusitada é que ela aconteceu em um dos períodos mais conturbados da história do Brasil: poucos dias após o golpe militar de 1964."Dizem que o Flamengo era para ter ido, mas pela política tinham medo de ir para fora do país", recorda o ex-goleiro Orlando.

O ponto alto desta viagem foi no dia 21 de abril, quando o Quinzão enfrentou a poderosa seleção soviética, que seria quarta colocada na Copa do Mundo de 1966 na Inglaterra. O lendário goleiro Lev Yashin impressionou o brasileiro.

"Ele era mais alto que eu, deveria ter 1,95m. Era uma pessoa maravilhosa, nós não nos entendíamos, por causa do idioma, mas ele era muito simpático".

Uma simpatia que poderia ter um fundo de brincadeira. "O Yashin ria pra gente, mas nós não sabíamos se ele estava rindo para nós ou da nossa cara, porque nós estávamos tremendo de frio, enquanto ele estava tranquilo", se diverte Orlando.

As temperaturas foram tão difíceis de enfrentar quanto os adversários dentro de campo. "Saímos daqui com 30 graus e não estávamos preparados para lá, ficamos totalmente congelados. No começo, a gente só perdia. Até esquentar, já estava 2 a 0".

Mesmo assim, o XV ainda teve a chance de abrir o placar. Uma bola na trave que o atacante Warner acertou quando a partida estava empatada poderia ter mudado a história do jogo, que terminou com derrota. Ninguém conseguiu vazar o Aranha Negra, mas as lembranças permanecem até hoje.

Acervo Rocha Neto/Unimep
XV de Piracicaba 100 anos Foto de Jornal Praça Vermelha Moscou URSS
Foto de jornal mostra a Praça Vermelha, em Moscou

Brasileiro testemunha jogo das arquibancadas

Membros do Partido Comunista do Brasil moravam em Moscou naquela época. "Muitos estudantes, principalmente do Rio de Janeiro, aparecem no nosso hotel. Eles estavam com o passaporte retido e não podiam sair do país porque falaram mal do regime", diz Orlando. Alguns estiveram presentes na partida histórica, entre eles, o escritor gaúcho Sergio Faraco. Ele conta no livro Lágrimas na Chuva, a festa da pequena torcida adversária. "Éramos duas dezenas de brasileiros no estádio Lênin, mas tamanha foi a algazarra, que os russos deixavam de ver o jogo pra nos observar".

No fim de 1963, após conhecer Luis Carlos Prestes, Sérgio foi estudar na URSS e ficou lá pouco mais de um ano. Durante o período, teve discordâncias com o regime e ficou preso em uma clínica psiquiátrica, sob forte medicação, por mais de três meses a mando do governo totalitário. O jogo é uma das poucas recordações felizes que guarda do período. "O XV era um pedaço do Brasil a nos aquecer naquele país gelado e continuávamos gritando. Ao final, um dos jogadores veio à beira do gramado e cruzou os braços no peito, como se nos abraçasse. Essa singela atenção ao torcedor há de ser corriqueira na vida de um atleta profissional, e aquele , por certo, nunca soube o quanto seu abraço simbólico nos emocionou".

Mesmo após quase 50 anos, Sergio traz sequelas de sua experiência no país comunista. Procurado pela reportagem, ele respondeu. "Lamento, mas prefiro não falar. Já sofri inúmeras e sórdidas agressões por causa desse livro e então decidi não mais dar entrevistas. Aquela partida no Estádio Lênin foi um dos momentos mais emocionantes da minha difícil temporada na União Soviética".

O país surpreendeu Romeu Ítalo Rípoli, idealizador da excursão e presidente do Nhô Quim "O primeiro contato que tivemos com os russos, ainda no aeroporto, nos deu a impressão de pobreza, desde as próprias instalações em chocante desacordo com a condição de superpotência militar" escreveu no Jornal de Piracicaba em 1968.

Os piracicabanos puderam ter contato com uma cultura muito diferente. Além do militarismo, um culto a personalidade dos governantes. "É impressionante a Praça Vermelha, onde estava o túmulo do Lênin, muitas pessoas iam visitar. O Primeiro de Maio na Rússia também era espantoso, todo o exército desfilava e o povo ia atrás". Na Polônia, ele passou por uma situação ainda mais inusitada. "Os poloneses não estavam acostumados com negros, alguns passaram a mão em mim para ver se não era sujeira. Quando entrei numa igreja para fazer minhas orações, ela ficou lotada. Eu saí, mas o pessoal foi atrás de mim. Precisou a polícia me retirar para dentro do hotel, porque virei atração", finaliza Orlando.