Uma história a ser contada: Treinamento para o Mundial de 1954 (parte 9)

Wlamir Marques, do ESPN.com.br

Wlamir Marques, 80 anos: veja a homenagem a um dos maiores nomes da história do basquete mundial

Logo após o 1º treinamento realizado no ginásio do Flamengo, ficamos para jantar no clube. Comida feita com capricho, afinal ali estavam os melhores jogadores de basquete do país. Lembro que era dia do meu aniversário.

Dia 16/07/54, eu estava completando 17 anos de vida. Logo após a comida fui surpreendido com um bolo de aniversário trazido pelos funcionários do clube à mando do técnico Kanela. Surpresa geral, ninguém sabia o motivo.

Não foi festa de aniversário, foi um encontro entre amigos em um dia tão especial. Pela 1ª vez estavamos todos juntos em uma quadra de basquete. Claro que naquele treino todos mostraram o seu melhor, eu fui um deles.

Para alguns dos convocados eu já era figurinha repetida, estivemos juntos em Mendoza no começo do ano, mas para outros eu era uma novidade. O técnico Kanela não deu instruções, apenas observou as movimentações.

Mesmo sem qualquer entrosamento e sem jogadas pré determinadas, o treino ficou à cargo das individualidades, dos trabalhos em duplas, sempre seguindo alguns conceitos básicos de ataque e defesa. Creio ter agradado.

Tanto assim que ao final o técnico me cumprimentou, disse palavras de estímulo e, culminando com aquela entrevista me colocando como titular da futura seleção brasileira para o Mundial. Afirmo que não me surpreendi.

Como disse antes, eu e o Amaury jogavamos um basquetebol diferenciado, aéreo, enterrando bolas, correndo muito com ou sem bola, arremessos perfeitos, jumps em harmonia com o basquete moderno. O técnico adorou.

O mais estranho na entrevista do técnico Kanela, é que ela ocorreu no dia 16/07, para um campeonato mundial a ser iniciado em Novembro, ou seja: 4 meses antes. Durante todo o tempo aquela formação jamais foi alterada.

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Durante toda a minha carreira essa foi a equipe mais bem treinada em toda a minha história de seleção brasileira. Angelim, Algodão, Mayr, Amaury e Wlamir foi o quinteto que deu inicio à evolução do basquetebol brasileiro.

Uma história a ser contada: Treinamento para o Mundial de 1954 (parte 8)

ESPN
Wlamir relembre a trajetória do Brasil ao título mundial de 1954
Wlamir relembre a trajetória do Brasil ao título mundial de 1954

No dia 15 de Julho de 1954, saí de Piracicaba em direção ao aeroporto de Congonhas na capital paulista. Tinha que me apresentar na cidade do Rio de Janeiro. Peguei um voo da Real Aerovias, era a empresa da época.

Como de praxe, a apresentação dos jogadores foi mais uma vez no Hotel Paissandú, na praia do Flamengo. Chegando encontrei vários conhecidos e outros desconhecidos, mas famosos. Eu era a novidade com 16 anos.

Logo fui me apresentando, afinal íamos ter um convívio muito longo e a amizade teria que prevalecer. Lembro que jantamos todos juntos no restaurante do hotel. Em seguida ouvi histórias antigas dos mais velhos.

No dia seguinte, dia 16 de julho de 1954, eu completava 17 anos, mas isso ninguém sabia e eu também não disse para ninguém. De manhã, logo após o café, chegou o ônibus do Flamengo que nos levaria para o primeiro treinamento.

Todos os treinos foram realizados no Ginásio do Flamengo, debaixo da  arquibancada do campo de futebol. Era piso de cimento com tabelas de acrilico. Não era um primor de ginásio, era apenas uma quadra coberta. 

Naquele tempo, o técnico Kanela era o responsável pela equipe principal do Flamengo e técnico da seleção brasileira. Chegamos prontos para o primeiro treino, cada qual com a sua roupa: Tênis, calção, sunga e camiseta.

Só para o treino da noite é que fomos receber o material da CBB. Nessa noite, o treinamento foi apenas coletivo para que o técnico pudesse observar as qualidades técnicas dos convocados. Me senti à vontade.

Após o treino, o técnico Kanela foi arguido pelos jornalistas com várias perguntas e, em uma delas respondeu: A equipe titular do Brasil para o mundial será composta pelo Algodão, Angelim, Mair, Amaury e Wlamir.

Com certeza ele se surpreendeu com 2 jovens jogando um basquete diferenciado dos demais: O Wlamir com 17 anos e o Amauy com 18. A noticia estourou como uma bomba. Esse quinteto foi mantido até o fim. 

Uma história para ser contada: convocação para o 2ª Campeonato Mundial (parte 7)

Wlamir Marques

No mês de Junho de 1954, saiu a lista dos jogadores brasileiros convocados para a disputa do 2º Campeonato Mundial de Basquetebol Masculino a ser realizado na cidade de São Paulo em comemoração ao seu 4º centenário.

O meu nome constava da lista. Ao todo mais de vinte jogadores foram chamados para os treinamentos à serem realizados na cidade do Rio de Janeiro. No dia 16 de julho iniciamos os treinamentos, era dia do meu aniversário.

A expectativa pela competição era enorme, a cidade se preparava para a maior festa do basquete mundial, inclusive com a construção do Ginásio do Ibirapuera que serviria de palco para as disputas finais da competição.

Enquanto treinávamos no Rio, o ginásio estava sendo construído. Faltando um mês para o inicio dos jogos a cúpula do ginásio desabou, não dando tempo hábil para sua restauração. O mundial foi transferido para o Rio.

Em substituição ao Ginásio do Ibirapuera, foi utilizado o Maracanãzinho, que também encontrava-se em obras. O mundial foi disputado em um local semi pronto, com uma quadra de madeira improvisada em sua arena.

Ainda cheio de pregos e madeiras pelo chão,  arquibancada em cimento rústico e com cadeiras improvisadas, a competição foi um sucesso, com o povo carióca torcendo avidamente pelas cores da nossa seleção brasileira.

O Maracañazinho lotava todas as noites e, com a sequência de vitórias da seleção brasileira o numero de torcedores aumentava. Por ser ainda um espaço em construção, não haviam limites para a sua total lotação.

Depois de um longo período de treinamentos com o técnico Kanela, a seleção brasileira chegou ao final da competição disputando o título contra os EUA mas perdendo o jogo final. Pela 1ª vez, fomos vice campeões mundiais.

À partir desse mundial deu-se o início da renovação no basquete nacional, com o surgimento de novos jogadores altamente técnicos, substituindo os mais antigos.  Mais tarde todos foram consagrados conquistando inúmeros títulos internacionais.

Uma história a ser contada: jogo contra a União Soviética em 1954 (parte 6)

Wlamir Marques, blogueiro do ESPN.com.br

Wlamir Marques, 80 anos: veja a homenagem a um dos maiores nomes da história do basquete mundial

No mês de Maio de 1954 a seleção da União Soviética veio ao Brasil para uma série de jogos amistosos. A cidade de São Paulo foi escolhida para um dos jogos. Era uma total novidade. A partida foi realizada no Ginásio do Pacaembu.

Nesse tempo, ainda com 16 anos, fui convocado pelo técnico Daiuto para fazer parte de uma seleção paulista adulta, formada em cima da hora para  enfrentar os poderosos soviéticos. A expectativa era muito grande.


Era a 1ª vez que os soviéticos vinham para a América do Sul, e o Brasil pelo seu prestigio internacional foi um dos países escolhidos para um desses confrontos. Foi uma grande noite para o basquete paulista e brasileiro.

O ginásio lotado pode torcer e apreciar uma grande vitória dos paulistas. Fui titular jogando de pivô, minha posição original na época. Ali a torcida paulistana viu o jovem Wlamir Marques nascido em São Vicente.

Pode parecer estranho um jovem com 16 anos ousar disputar rebotes e confrontos físicos contra corpos mais avantajados. Confesso que nunca me preocupei com isso. Desde cedo fui intrometido no meio dos adultos.

Poucas vezes joguei ao lado de garotos com a minha idade. Sem perceber fui um ousado guerreiro e cara feia não me incomodava. Minha inocência não me permitia confrontos distantes da minha índole, eu só jogava.

Ali eu começava uma carreira que se mostrava envolvente e cativante. Assumi desde cedo certas responsabilidades precoces aos jovens daqueles tempos. Como se diz na gíria  "meti a cara". Jamais senti receios da luta.

Wlamir Marques é homenageado pelo Corinthians e se emociona com ginásio com seu nome

Infelizmente não possuo dados estatísticos e nem o resultado do jogo. A minha cabeça tenta encontrar vários momentos esquecidos, mas ainda em tempo de recordar a minha juventude atlética: sempre ingênua e juvenil. 

Uma história a ser contada: começo piracicabano (parte 5)

Wlamir Marques, blogueiro do ESPN.com.br

Piracicaba era uma típica cidade do interior de São Paulo. Seus costumes modificaram meus hábitos e as minhas convicções pessoais, até por estar residindo longe dos meus pais e da maravilhosa praia de São Vicente.

Acostumado a andar só de calção e peito aberto, fui obrigado a vestir calça, camisa social e andar solenemente de sapato, já que fui um garoto quase sempre de pé no chão. Mas logo aderi aos hábitos sociais; novos tempos.

Aos poucos tive que providenciar novos trajes, exemplo: Fui obrigado a confeccionar um paletó porque não era permitido entrar no cinema sem o mesmo. Comprei também um sapato, alem da gravata; era moda vigente.

Com o desenrolar do tempo fui sendo reconhecido na cidade. Onde eu ia ou passava, sempre havia um comentário à meu respeito. Afinal, ali vivia  um atleta vestindo a camiseta da nossa seleção brasileira de basquete.

Aquilo tudo era novidade pra mim e pra eles. Embora a cidade já fosse famosa por possuir uma equipe de futebol profissional: o famoso XV de Novembro de Piracicaba, 1º clube a vencer a lei de acesso em 1948.

Aos poucos, os torcedores compareciam aos nossos jogos. Jogavamos no Ginásio da Agronomia, pois não havia outro ginásio na cidade. Em 1955 foi inaugurado um novo ginásio para os Jogos Abertos do Interior.

É claro que não fui sózinho para a seleção piracicabana de basquete, outros jogadores chegavam e a equipe ia cada vez mais se fortalecendo. Lá chegaram o Pecente, Paula Mota, Buck e Mané (jogador e técnico). Esse era o quinteto principal do XV, fora os jogadores feitos na cidade que completavam a equipe. Mais tarde, após os Jogos Abertos, a equipe foi mantida e outros grandes jogadores vieram reforçar o famoso XV.

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