O argumento de Neilton e a chave para se formar jogadores melhores no Brasil

Por Renato Rodrigues, do DataESPN
Reprodução ESPN
'Meninos da Vila' no Rio: conheça a escolinha do Santos que produz talentos em solos cariocas
O Santos, que formou Neilton, é um dos grandes formadores de craques no futebol brasileiro

Uma simples resposta em entrevista coletiva de um jovem atleta, que acaba de deixar um grande clube para jogar em um centro menor, nos leva a um debate aprofundado sobre a formação de jogadores no Brasil. Mais que isso, nos liga diretamente à chave para voltar a produzir craques em maior quantidade. Neilton, que não conseguiu se firmar no São Paulo e foi para o Vitória, se expressou da seguinte maneira ao ser questionado sobre o porquê de não ter atingindo um bom desempenho sob o comando de Rogério Ceni.

"Eu estava sendo usado fora das minhas características. Como todos já sabem, eu sou jogador de ponta, gosto de usar minha velocidade. No São Paulo, eu estava jogando como meia e não estava tão à vontade para jogar, e isso acabou pesando lá. Eu jogo de ponta e de velocidade, foi assim que eu joguei lá no Botafogo", disse o atacante, que também teve passagem apagada pelo Cruzeiro (veja a matéria inteira aqui).

Bom, se fizermos uma interpretação simples do seu argumento, chegamos à conclusão de que ele estava jogando em uma posição que não é a dele. Mas não é bem por aí. Vamos primeiro aos fatos: enquanto esteve no São Paulo, Neilton sempre jogou pelos lados do campo. Ou seja, atuou em sua posição. Mas a grande questão é a função que lhe foi atribuída, hoje mais importante do que ser "ponta",  "meia" ou "lateral". Falamos sobre o que foi exigido dele dentro de todo um contexto coletivo da equipe.

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Ficou claro, com esse diagnóstico, que o jogador não assimilou a ideia que seu treinador tinha para ele, que era ser um ponta, mas também flutuar pela região central do campo, principalmente quando o lateral de sua equipe avançava e abria o campo (amplitude) no momento ofensivo. Esta é, inclusive, uma das ideias marcantes do modelo de jogo que Rogério vem tentando implantar desde o início do ano. Cueva, por exemplo, que é um meia em sua essência, atua aberto pelo lado esquerdo em vários momentos. Mas também tem essa missão de flutuar para o centro e trabalhar nessa construção ofensiva. O plano é, com os laterais espetados, usar o jogo curto e com superioridade numérica pelo centro.

Djalma Vassão/Gazeta Press
Jogadores da escolinha tietaram os jogadores do Palmeiras
Jogadores da escolinha de futebol estiveram no treino do Palmeiras, na Academia de Futebol

As grandes pergunta são: Neilton entendeu tudo isso? O treinador passou essas ideias de maneira clara? Ele estava aberto a aprender alguns conceitos novos para ele até então?Será que desistiram muito rápido? Não dá para saber. A missão deste texto, inclusive, nem é criticar o jogador em si. Mas sim levantar uma questão ainda mais ampla e relevante.

É aí que mora o ponto mais importante: o nível intelectual dos jogadores que formamos atualmente. O foco aqui não é em conhecimentos gerais, grau escolar, faculdades, cursos... E sim no entendimento do jogo em si. De ser estimulado a ler melhor situações e se adaptar a elas. De saber como e quando se posicionar em um determinado espaço, da interatividade com os companheiros, da capacidade de resolver problemas num curto espaço... Existe hoje a necessidade de formarmos jogadores mais inteligentes no Brasil. 

O jogo está inserido em um conteto de se criar e resolver problemas dentro de um universo caótico. Movimento, contato físico, corrida, troca de direção, drible, desarme, tomada de decisão... Tudo isso em cada vez menos espaço e tempo. Então não adianta ter apenas capacidades técnicas e físicas para ser um bom jogador. Um atleta toma, em 90 minutos, 40% a mais de decisões que uma pessoa comum em um dia inteiro. Então é preciso desenvolver essa aptidão nele desde seus primeiros toques na bola. Claro que sem queimar etapas e respeitando a natureza humana de cada indivíduo.

Esse é um papel do treinador, dos treinamentos e do ambiente criado para este jovem. Se ele for condicionado a resolver problemas rapidamente e de forma mais eficaz, dará um grande passo para um dia competir em alto nível. É algo que se cria no dia a dia, com exercícios, regras e obstáculos. Acredito que estamos em uma evolução neste sentido. Hoje é possível ver profissionais atualizados e capacitados a isso pelos clubes. A questão segue sendo a cultura de imediatismo e as quebras de trabalhos por questões políticas.

A riqueza técnica e da capacidade de improviso que o Brasil produz vai ser sempre decisiva e buscada em todos os cantos do mundo. Mas quando você consegue transferir isso para todas as áreas do campo, aliado a um entendimento da situação que ali se ocorre, nós tendemos só a crescer. Sem perder nossa essência, mas sempre induzindo e estimulando nossos garotos ao aprendizado contínuo.

A educação é um problema do nosso país. De um modo geral, também influencia no desenvolvimento de um jogador que, acima de tudo é uma pessoa. Mas nem sempre essa questão é decisiva no entendimento do jogo. Claro que entender melhor o mundo pode trazer a um atleta uma maior capacidade de entender outras diversas coisas. Mas existem atletas que, apesar de não terem um nível intelectual altíssimo, trazem consigo ações totalmente intuitivas. Muitas delas, inclusive, trabalhadas ao longo de sua formação em campo. Outras, simplesmente, de experiências que teve ao longo de sua vida.

Que fique bem claro que o futebol é técnico e tático. Mas também é, acima de tudo, mental. Os campinhos de terra, nossos formadores de craques durante décadas, estão cada vez mais raros de se encontrar. Mas é preciso uma adaptação, um entendimento de que as coisas evoluem e simplesmente mudam, como quase tudo na Terra. Formar pessoas inteligentes, sem dúvidas, é um grande passo para produzir melhores jogadores. 

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O encaixe, a marcação individual e a por zona. Mourinho e o título da Liga Europa nos explica

Por Renato Rodrigues, do DataESPN
Ian MacNicol/Getty Images
José Mourinho celebra o título da Europa League
José Mourinho celebra o título da Europa League contra o Ajax

Se tem uma palavra para definir a atuação do Manchester United contra o Ajax, pela final da Liga Europa, é estratégia. Goste ou não (com todo seu direito, inclusive) da proposta adotada por José Mourinho para a decisão, ela foi executada de maneira impecável. Além do plano, exclusivo para bater um adversário nesta exata situação em que foi encontrado, o técnico português nos levantou o debate sobre três situações extremas de agir sem a posse da bola: os encaixes, e as marcações por zona e individual.

É inegável que os inglesses tiveram o controle durante quase todo o jogo. E fez isso sem a bola. Mas algumas atitudes do treinador português ajudaram a ter o domínio e praticamente não sofrer dentro da partida. 

A primeira mudança adotada por Mourinho contra a equipe holandesa tem tudo a ver com o conceito do encaixe. Ao abrir mão do 4-1-4-1 que vinha utilizando em fase defensiva nas suas últimas partidas, para utilizar um 4-2-3-1, ele não muda sua forma de jogar. Mantém o modelo, mas adapta um posicionamento para criar um encontro territorial entre determinado jogadores. Como o Ajax atua em um 4-3-3 com um triângulo com a ponta para trás, ele também inverteu essa ponta para criar embates pessoais e, resumidamente, o tal do encaixe (veja na imagem abaixo).

DataESPN
Na primeira imagem vemos como seria os encaixes. Na segunda, a mudança de Mourinho para deixá-los mais claros
Na primeira imagem vemos como seria os encaixes. Na segunda, a mudança de Mourinho para deixá-los mais claros

Ele muda uma estrutura pré-definida por uma necessidade, neste caso de neutralizar esse tripé de jogadores do Ajax. Com isso, Felaini fica mais próximo de Schone, Pogba de Klassen e Herrera de Ziyech. Se não tivesse tomado tal atitude, teria de definir algum movimento para evitar superioridades numéricas neste setores em que os holandeses caiam.

Alguns encaixes comuns são quando um treinador inverte seus pontas por conta de um lado mais forte ou fraco do adversário. Uma troca entre os zagueiros também se configura como encaixe, assim quando um centroavante prioriza fechar um dos zagueiros rivais na iniciação da jogada. Resumindo, são escolhas estratégias para levar algum tipo de vantagem e criar problemas para seu adversário.

Vendo essa configuração acima, acabamos por confundir o conceito com a marcação individual, que não foi usada pelo Manchester United durante a final. Existe sim uma pré-disposição de um jogador marcar outro por conta desse encaixe, mas a essência de se cuidar de espaços foi a tônica defensiva dos ingleses.

Por mais que Herrera cuidava de Ziyech, justamente por ocuparem faixas parecidas do campo, ele não deixava de ocupar seu espaço. Assim que a bola saía do setor, ele retornava e sustentava a linha de marcação. Chamamos isso de zona pressionante. No vídeo abaixo temos um exemplo claro disso no primeiro lance. Dolberg, centroavante, está na zona de Smaling, que o mantém pressionado. Assim que o jovem camisa 25 flutua para outra zona, o zagueiro do Manchester para e volta a guardar sua posição. Com isso, é Blind que passa pressioná-lo e retorna para a linha quando a bola torna a sair da zona.

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Se fosse uma marcação individual, por exemplo, Smaling permaneceria em Dolberg até o final. Neste caso, um volante fecharia o espaço ou mesmo o lateral do seu lado, para que não houvesse um desequilíbrio da linha defensiva. Isso acontece pelo fato de, ao escolher marcar individualmente, você pré-estabelece quem pega quem antes mesmo da partida e isso se mantém até segunda ordem.

Claro que há trocas. "João, deixa o Zé para o Zeca e pega o Antônio agora", por exemplo. Uma situação clara de marcação individual foi quando Argel Fucks colocou Willian (que é lateral-direito) para marcar Lucas Lima, no duelo entre Internacional e Santos, pelo Brasileirão 2015. Onde o santista ia, o colorado acompanhava. 

Outro exemplo de marcação individual é o que faz Cuca no Palmeiras, principalmente em sua primeira passagem pelo clube, já que a intensidade que colocava em seus adversáriso dentro desta forma de marcar foi uma das grandes chaves para o título brasileiro. No vídeo abaixo, temos um exemplo claro disso. O lance mostra um momento em que o Verdão não fazia muito bem as compensações e sofria um pouco com essa forma de atuar sem a bola. Mas vale ressaltar que, com o passar do tempo, o treinador alviverde conseguiu corrigir esses espaços. Uma escolha como qualquer outra, que gerou problemas a serem resolvidos e que foram neutralizados com o trabalho no dia a dia.

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Então fica claro que, individual e por zona são opostos, e o encaixe, independentemente destes dois conceitos, é algo à parte. Quando você tem um lateral e o adversário um ponta, naturalmente você já enxerga um encaixe. Se você traz o lateral para dentro para que o seu ponta bata com o ponta do rival, você está modificando sua estrutura para combinar um encaixe que, automaticamente, você entende como benéfico. Foi isso que Mourinho fez contra o Ajax.

E mais, o Manchester apenas trocou o sistema para se adequar a encaixes. Não por isso deixou de marcar por zona, algo que fez durante toda a temporada. Cuca, com o Palmeiras campeão brasileiro, também variava posicionamentos para ter encaixes vantajosos, mas usava a marcação individual. No fim das contas, uma coisa não depende da outra. O que se é necessário neste momento é a estratégia, que deve ser montada em cima das dificuldades e virtudes do seu adversário.

Por fim, que fique bem claro que o grande intuito deste post não foi apontar o que é melhor ou pior. Afinal, canso de dizer que na maioria das vezes não existe certo ou errado no futebol. Existem escolhas apenas. Inclusive, acredito que é possível jogar bem com qualquer um dos conceitos apontados (individual ou zonal), claro que bem treinados e assimilados pelos atletas. O que devemos, acima de tudo, é tentar separar uma coisa da outra. Assim conseguimos ter uma leitura mais clara das ideias de cada treinador.

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A maturidade do Atlético-MG e a discussão sobre tempo e trabalho no futebol

Por Renato Rodrigues, do DataESPN
Gazeta Press
Jogadores do Atlético-MG abraçam Cazares após gol contra o Godoy Cruz
Jogadores do Atlético-MG abraçam Cazares após gol contra o Godoy Cruz

Roger Machado chegou a Belo Horizonte com a missão de comandar um forte elenco em grandes competições em 2017. Mais que isso, trocar a identidade de um Atlético-MG que alcançou grandes resultados nos últimos anos, mas que sempre teve a sensação de que podia mais. As oscilações no início da temporada criaram uma forte pressão no treinador que, aos poucos, vai colhendo os frutos de toda uma transformação. E o tempo, como quase tudo nas nossas vidas, vai dando as respostas que tanto se espera.

"Mas quem é o Godoy Cruz?", "O que esses caras ganharam?", "Tem mais que atropelar mesmo"... Estes talvez sejam os argumentos de quem viu a goleada por 4 a 1 e ainda não percebeu que a organização tem, cada vez mais, feito diferença no futebol jogado atualmente. E seja para o bem ou para o mal. Quantas vezes, nos últimos anos, equipes tecnicamente bem inferiores e sem tradição, complicaram a vida de grandes brasileiros? Guaraní-PAR, Jorge Wilsteman, The Strongest... Não são poucos os exemplos. 

Cada vez mais maduro e seguro do que fazer dentro de campo, o Galo tornou fácil um jogo que poderia ser difícil. É hoje um time equilibrado e que sabe se comportar nos diferentes momentos do jogo. Ainda mais importante, de forma coletiva.

Sem a posse, por exemplo, se coloca bem atrás da linha bola com duas linhas de quatro. Flutua e fecha os lados do campo de acordo com a posição da bola, sempre a usando como referência. Em certo ponto chega até a dar os lados do campo para o adversário, mas sempre protegendo muito bem a área, com um linha defensiva estreita e sempre sustentada. Quando Marcos Rocha ou Fábio Santos ainda estão em transição defensiva, por exemplo, a linha de 4 é compensada por algum volante/meia.

Controla bem os espaços defensivos sem a posse. Deixou a ideia de se marcar individualmente, característica de seus últimos treinadores, para marcar de forma zonal. Perceba como raramente a linha de 4 se quebra com perseguições mais longas. Seus jogadores pressionam a bola apenas quando a mesma entra no setor. Se ela sai, voltam a se posicionar no espaço pré-estabelecido.

Tamanho sincronismo, ainda mais com um elenco que estava acostumado a se comportar de uma maneira totalmente diferente, não se atinge da noite para o dia. É só com o tal do treino que se estimula e cria estes tipos de comportamentos nos atletas.

Mas é com a bola que o crescimento do Atlético-MG tem sido mais nítido. Com todo esse respaldo citado acima, o senso criativo dos jogadores vai se aflorando. Com as repetições, os movimentos ficam cada vez mais naturais e "soltos". A ideia de jogo mais apoiado com a bola, base do modelo perseguido por Roger Machado (clique aqui e veja sua entrevista exclusiva ao blog), tem ganhado toques de agressividade. Foram vários os momentos de apoio vertical contra o Godoy Cruz. Conceito que foge de ter a posse simplesmente por ter.

Esse apoio vertical aconteceu seguidas vezes nas construções ofensivas. Sempre com passes agudos, que progrediam no campo, quebrando linhas e gerando espaços no sistema defensivo argentino. O gol de Elias é um "mix" de todos estes conceitos: passe, movimento e ataque ao espaço. O "puro creme" do futebol atual e objetivo, sem perder a essência brasileira que tanto buscamos nos últimos tempos.

Falar da evolução e transformação atleticana sem falar de tempo é impossível. Muitos de nós cobramos que treinadores tenham períodos maiores em seus cargos. Mas cada caso é um caso. Existem situações, por exemplo, que é dado o tempo, mas que você não consegue, por mais que se esforce, enxergar ideias. Por isso manter ou não um treinador é uma tomada de decisão complexa, muitas vezes feita por pessoas que não tem o entendimento do jogo necessário para tal. O caso do treinador atleticano é totalmente diferente.

Apesar dos percalços no caminho, Roger Machado dá mostras dessa evolução desde os primeiros jogos no ano. Depois de assimilar as ideias, os atletas têm conseguido cada vez mais executá-las com eficiência. Talvez o único ajuste necessário que eu apontaria, usando a partida contra o Godoy Cruz como base, é em algumas recomposições defensivas. Em certos momentos, quando Robinho ou Cazares (que se revezaram na função) deixavam de retornar, a linha de três volantes sofria percorrendo espaços maiores na hora de flutuar para o lado da bola. Os hermanos, ligados nisso, até criaram algumas situações atacando o lado oposto.

Por fim, é justo dizer que o tempo e o trabalho estão caminhando juntos a Roger. Uma equipe repleta de grandes individualidades, com organização e ideias, trilha o caminho da solidez e de etapas mais ricas. Com o coletivo mais fortalecido do que nunca, Fred, Robinho, Cazares & Cia. tendem sempre a resolver. Sem a estrutura criada por trás deles, fica mais difícil...

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Rogério Ceni cede a alguns princípios, mas São Paulo não entrega resultado. É hora de equilíbrio!

Por Renato Rodrigues, do DataESPN
Adriana Spaca/Getty Images
Rogerio Ceni Sao Paulo Defensa y Justicia Copa Sul-Americana 11/05/2017
Rogerio Ceni sofre com críticas e seguidas eliminações na temporada pelo São Paulo

São Paulo e Rogério Ceni estrearam no Campeonato Brasileiro com derrota. Pela frente, o sempre duro Cruzeiro dentro do Mineirão. Depois de uma partida para se esquecer contra o Defensia y Justicia-ARG, na última quarta-feira, os paulistas até tiveram uma melhora no seu desempenho - principalmente no 1º tempo -, mas, mais uma vez, não conseguiram entregar o resultado, tão necessário para estancar a pressão após as seguidas eliminações no Paulistão, Copa do Brasil e Copa Sul-Americana.

Rogério, enfim, cedeu a alguns conceitos de jogo que não abria mão. Boas ideias, mas que não vinham sendo bem executadas. E essas mudanças não se deram apenas na estrutura posicional da equipe, que foi a campo com três zagueiros, distribuída em um 3-4-2-1 (ou mesmo um 3-4-3, veja abaixo). Vai muito além. O comportamento coletivo nas transições defensivas teve um maior equilíbrio. As reações, que até então eram de se pressionar rapidamente a bola após a perda, foram alternadas e a os são-paulinos tiveram menos problemas com contra-ataques.

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Com a bola, manteve a saída com três jogadores. Alas davam amplitude e trio de ataque circulava por dentro
Com a bola, manteve a saída com três jogadores. Alas davam amplitude e trio de ataque circulava por dentro

Manteve a ideia de pressionar, algo forte em seu modelo de jogo, mas também buscou um retorno mais rápido para atrás da linha da bola (veja na próxima imagem). O mais importante: entendeu que pode alternar estes tipos de situações e que isso pode se tornar um bem coletivo. Soube os momentos certos de fazer ou não, sabendo dosar a intensidade, tão característica no início da temporada.

Com esse ajuste de ideias, o São Paulo conseguiu controlar mais espaços e, principalmente, não se desgastar fisicamente em momentos desnecessários. Foi um avanço significativo, principalmente na questão conceitual e de futuro para o trabalho.

DataESPN
Em seu momento defensivo, o São Paulo posicionou mais jogadores atrás da linha da bola
Em seu momento defensivo, o São Paulo posicionou mais jogadores atrás da linha da bola

E este controle ficou nítido nos primeiros 45 minutos. Na primeira etapa, teve pelo menos três chances claras de fazer o gol. Talvez a maior delas com Cueva, que individualmente não vive um grande momento. O gol sofrido, por um lance de falta de concentração e seguidas falhas de cobertura, trouxe o Tricolor para a sua dura realidade: propor o jogo contra sistemas defensivos organizados. E isso Mano Menezes sabe fazer como ninguém.

O segundo tempo voltou a ser um parto para os são-paulinos que, assim como em grande parte da temporada, tiveram a bola, mas não conseguiam verticalizá-la. Passes laterais, bola rodando sem alternância de velocidade e direção, nada de infiltração... O tempo passava e os velhos erros voltavam à tona.

O pouco êxito na troca de passes dentro do último terço - região mais próxima do gol adversário se dividimos o campo em três - fez com que os cruzamentos antecipados, sempre mais fáceis para os zagueiros rebaterem, já que chegam de frente para o cabeceio, voltaram a ser explorados. No momento em que o São Paulo necessita de criatividade, passes mais rápidos e dinâmica, a insistência em dois centroavantes voltou a acontecer. Apesar de Pratto sair mais e tentar dar essa veia mais organizadora ao setor, pouco foi criado daí em diante.

O São Paulo atualmente é uma equipe confusa, ainda tentando se estabelecer. Tem muitas ideias, mas pouca execução delas. Viveu situações de todos os tipos na temporada: já ganhou sem entregar desempenho, já perdeu jogando bem e também já conseguiu não entregar nem resultado e nem desempenho, como contra o Defensia. Tudo que se discute sobre a equipe se é elevado ao máximo, seja para o bem quanto para o mal. E sabemos muito bem que não é uma coisa nem outra. E quando se vê a imagem de talvez o maior ídolo de sua história do clube à frente de tudo isso, as coisas se afloram ainda mais.

Ceni é um jovem treinador. Talvez deveria ter tido mais experiências na função antes de assumir tamanho desafio. Mas está feito. Cabe ele agora manter sua convicções (isso sempre, e é algo que eu diria para qualquer treinador), mas também saber ajustar alguns princípios para tornar o caminho daqui em diante mais tranquilo.

Suas escolhas na partida deste domingo mostram que é possível. A cobrança não é de uma rutpura brusca na maneira de se jogar. Isso, inclusive, é utopia. Não embarco na ideia que equipes precisam ter mais de uma maneira de jogar. Isso não existe em lugar nenhum do mundo.

Talvez seja o momento de dar alguns passos para trás para depois avançar. Digo isso nas ideias de jogo que Ceni tanto busca. É hora de recuperar a confiança dos jogadores que, visivelmente, estão mentalmente abaixo do que poderiam estar.

O jogo que o treinador são-paulino tenta implantar é complexo e inevitavelmente se choca com a cultura de futebol que temos no país. Não é demérito dançar conforme a música em um momento tão crítico. A palavra mais importante para o ex-goleiro agora é equilíbrio. Em todas as esferas de seu trabalho.   

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Entrevista do mês: Zago se inspira no futebol italiano, diz não abrir mão da bola e garante: 'Ex-jogadores precisam se preparar para serem treinadores'

Por Renato Rodrigues, do DataESPN
Ricardo Duarte/Internacional
Antônio Carlos Zago comandou treino nesta quarta
Antônio Carlos Zago quer fazer do Internacional forte para o Brasileirão Série B

O Sport Club Internacional tem uma grande missão para a temporada 2017: se recolocar na primeira divisão do futebol brasileiro. Depois de um 2016 de muita turbulência dentro e fora de campo, quando teve nada mais nada menos que quatro treinadores sob o comando da equipe, agora aposta em Antonio Carlos Zago para ter dias melhores e apagar o período mais nebuloso do clube dentro de sua história vitoriosa e centenária.

Um dos grandes zagueiros do cenário mundial nos anos 90, Zago, apesar de ser um treinador jovem, coleciona vários tipos de vivência dentro do futebol. Se viu, logo após o término da carreira, aceitando o desafio de ajudar o Corinthians a superar uma Série B como diretor técnico. Ainda sem a preparação necessária, foi treinador de São Caetano, Palmeiras, Grêmio Barueri, Audax... Até que, em certo momento da vida, precisou parar, pensar e chegar a conclusão que só a prática do campo não o faria vencedor na nova profissão: "Na verdade qualquer jogador pode pensar que, assim que acabar sua carreira, pode ser treinador, diretor... Mas isso é impossível", garante ele, que foi auxiliar-técnico do Shakhtar-UCR e Roma-ITA.

Nessa longa entrevista exclusiva ao blog, o treinador colorado ainda fala da final contra o Novo Hamburgo, das ideias e o do modelo de jogo que deseja implantar no Inter, os planos para Cirino e Potker e também dos problemas que as trocas de treinadores no Beira-Rio influenciaram para o rebaixamento da equipe. Também revelou se inspirar e trazer muitos aspectos do futebol italiano para sua carreira e também sobre o desabafo de Eduardo Baptista, agora ex-treinador do Palmeiras, que se viu exaltado em uma entrevista coletiva após vencer o Peñarol, no Uruguai. Confira na íntegra:

 

Como tem sido essa semana antes do jogo contra o Novo Hamburgo? O quanto é importante ter um tempo livre assim de treinamento, coisa rara no calendário brasileiro? No que você tem focado?

Você consegue trabalhar algumas coisas com relação ao adversário, né? Importante ter a semana mais livre. Você consegue descansar mais os atletas, fazer treinos que não consegue fazer desde a pré-temporada, por conta do tempo. Até a semana passada, até o jogo da semifinal, nós desde o início do ano tivemos uma ou duas semanas livres para fazer isso. Ainda tivemos uma pré-temporada mais curta. Então foi difícil para reconstruir a equipe, passar nossas ideias... Nessas horas a gente, por conta de toda a dificuldade que o Inter passou no ano passado, tentamo ir mais na conversa, com vídeos e um ou outro treinamento mais aprofundado que a gente consegue fazer.

Com todas essas dificuldades de tempo, em qual estágio você vê o seu trabalho hoje no Internacional? Já consegue visualizar algumas questões do seu modelo de jogo? O que ainda falta de comportamentos individuais e coletivos?

Vejo que estamos avançando bem. Melhores do que o início do ano, buscando mais. A pré-temporada foi curta, mas conseguimos aproveitar os 15 dias antes do primeiro jogo. O modelo de jogo eu procurei encaixar dentro do que são as características dos jogadores. Hoje a gente tem atuado em um 4-3-2-1. Na maioria dos clubes que eu dirigi busquei jogar no 4-4-2 ou no 4-2-3-1. Gosto dessas variações que no final me possibilitam usar duas linhas de 4. Não consegui utilizar estes sistemas, mas a gente sabe que tem que levar em conta as características dos atletas. Acho que a gente tem evoluído bem. Acho que estamos em um estágio avançado porque ninguém esperava que chegássemos na final do Campeonato Gaúcho, que passasse pelo Corinthians na Copa do Brasil, bem na Primeira Liga... Estamos trabalhando forte para ir avançando. Temos que chegar bem para o principal objetivo da temporada, que é voltar para a primeira divisão. Estamos, aos poucos, colocando todo elenco junto. Cirino já está aqui. Potker chega nas próximas semanas. Com todo mundo no elenco, vamos trabalhar para encaixar ainda mais e chegar forte na Série B.

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Você teve muita dificuldade para colocar suas ideias por conta de uma temporada passada com muitos treinadores? Acha que essa troca de treinadores, que ao mesmo tempo teve uma sequência de rupturas de ideias, afetou o elenco? Como pegou estes jogadores que trabalharam em diferentes realidades em um só ano?

Na minha opinião, essa sequência de trocas no comando do Internacional, que aconteceu no ano passado, influenciou muito. Foi uma das causas para que o clube fosse rebaixado. Não tenho dúvidas disso. Foram praticamente quatro treinadores. No momento que o treinador começa a desenvolver, na hora que os jogadores passam a assimilar alguma coisa, era trocado. Falcão ficou aqui cinco jogos. Não dá para ver nada do trabalho de um treinador em cinco jogos. Não dá para mostrar quase nada neste tempo. Depois uma sequência maior com o Roth, que também saiu. Aí vem o Lisca para o final... Isso aí atrapalhou muito os jogadores. Quando a direção começa a trocar muito o treinador, ela começa passar para os jogadores uma relação de desconfiança. Passam a não confiar mais no trabalho da diretoria. E foi o que aconteceu aqui no ano passado. Alguns treinadores que passaram por aqui, até pegando o ano retrasado, tinham uma forma de trabalhar marcando individualmente. Encaixando meio de campo, linha defensiva... Zagueiro correndo atrás do atacante para lá e para cá. É uma coisa que a gente mudou esse ano. A gente trabalha marcando a zona, a referência é sempre a bola. Tentar sempre deixar a bola entre você e o adversário. A gente vem treinando muito em cima destes conceitos. Os jogadores, aos poucos, vão assimilando e melhorando.

O que você pensa para o Internacional este ano como modelo de jogo?

Eu penso muito visando o campeonato que temos pela frente, onde acredito que o Internacional, sendo uma das principais equipes da competição, vai precisar quase sempre propor o jogo. Buscando ter o controle da partida com a posse de bola. Se você pegar desde o início do ano até agora, na grande maioria das vezes a gente teve mais posse. Você propondo o jogo, tem que ter uma transição defensiva rápida e bem coordenada. Vamos acabar ficando mais expostos aos contra-ataques, não tem jeito. Atacar marcando, que é o que a gente passa muito para os jogadores aqui. Tentar neutralizar essas equipes que vão jogar contra-atacando a gente. Vai ser difícil alguém tentar outra estratégia contra nós. Ter uma transição ofensiva também. A partir do momento que nós sairmos na frente do placar, pode ser uma situação interessante. Então é isso que a gente vem trabalhando.

Como tem trabalhado a formação das duas linhas de 4 no momento defensivo? Em alguns momentos a segunda linha demora um pouco para se formar. Já detectaram isso?

Neste 4-3-2-1, os dois atrás do centroavante tem como referência os dois volantes adversários. O tripé mais atrás balançando, pegando as saídas dos laterais. É neste sentido que a gente vem trabalhando. Talvez haja uma mudança ou outra. Com as chegadas do Potker e Cirino a gente ganha a opção de jogar pelas beiradas, por serem jogadores de força e velocidade. Às vezes até alternar para um 4-3-3 ou 4-1-4-1 para marcar, já que são sistemas que se assemelham.

O quanto este sistema escolhido tem a ver com dar mais sustentação para o D'Alessandro jogar mais solto? Quem, neste caso, vai ser o cara com a função de fechar na segunda linha?

Dependendo da saída de jogo do adversário. Se eles saem pelo lado esquerdo, por exemplo, a gente coloca o volante do tripé fechando o lateral-esquerdo do adversário. Os outros dois de dentro fecham e quem estiver mais próximo, dentro destes dois caras que jogam atrás do atacante, fecha esse lado oposto da bola. Se estiver muito longe, esse cara do tripé do outro lado abre e esse jogador fecha por dentro para compensar e formar essa linha de 4. Então a gente vai variando, buscando sempre manter ela sustentada, mas evitando de fazer com que estes jogadores de frente corram sem necessidade e se se desgastem fisicamente.

Não é algo parecido com um losango no meio?


Às vezes aparenta isso mesmo porque o D'Alessandro tem muita liberdade de se movimentar e o cara com ele, geralmente atacante, avança um pouco mais. A gente dá essa liberdade para ele cair por vários setores. É o cara mais solto ali. Mas quando a gente se recompõem é ele ou o Nico, ou mesmo o Roberson, que acabam entrando e fazendo esse quarto homem do meio.

DataESPN e Calçade analisam o momento ofensivo e defensivo do Internacional


Cirino e do Potker são jogadores de velocidade e com fortes características para um jogo mais reativo. A busca por eles foi com que ideia? Acha que trazem mais profundidade ao elenco?

A gente vinha nessa busca de equilibrar o elenco antes mesmo do Cirino e do Potker. O Nico Lopez mesmo é um jogador que cresceu nos últimos meses. O Carlos, que se lesionou e está retornando, dá profundidade para nosso ataque. Temos o Diego, que é um menino da base, que vem evoluindo, treinando bem... Teve uma lesão também, perdeu treinos, isso influencia. Mas por outro lado temos os caras que seguram mais a bola. É o caso do Roberson, do D'Alessandro... Teve a chegada do Edenilson também, que dá um ritmo mais forte para a equipe. Estava no futebol italiano, onde colocam uma intensidade muito grande no jogo. Hoje temos boas alternativas dentro do elenco que nos faz ter esperanças de fazer uma grande Série B.

Foi falado no início do ano que você chegou a treinar com linha de três zagueiros. Aconteceu mesmo isso? Se sim, por que não foi utilizado nas partidas até agora?


Não, não foi bem assim. Algumas pessoas até comentaram sobre isso. Mas foi um treino que eu dei de superioridade numérica que causou um pouco dessa confusão. A gente fez 3 contra 2 e depois passamos para 4 contra 3. Foi neste momento que liberaram a entrada da imprensa. Aí se levantou esse entendimento de que estávamos treinando com uma linha de três zagueiros. A gente não cogitou isso ainda neste ano. Mas é um esquema que eu gosto. Joguei três anos com o Capello desta forma. Agora o Antonio Conte no Chelsea faz isso e é uma equipe bem ofensiva. Para o futuro a gente pode buscar algo parecido com esse 3-4-3. Não descarto. Mas por enquanto não.

Qual a importância do treinamento para você? O que mais busca neste momento? Que tipo de conteúdo você trouxe depois de sua passagem na Europa?

Primeiro que a gente tem buscado monitorar todos os treinamentos. A gente usa muito o analista de desempenho para fazer esse trabalho. Enquanto está rolando a atividade, ele está ali trazendo dados, acompanhando os movimentos, vendo a intensidade dos jogadores... Isso tem nos ajudado bastante. Eu cobro muito a intensidade deles. A gente planeja a semana como se fosse uma pirâmide. Iniciamos com os treinos mais fortes e conforme vai chegando perto do jogo vamos diminuindo a carga. Isso em uma semana cheia, claro. Essa semana mesmo na terça treinamos forte, quarta a gente aumenta. Na quinta nós abrimos mais o campo, fazemos mais coisas voltadas para o adversário. Na sexta diminui um pouco a carga. No sábado parecido, intensidade bem semelhante. Não sou muito adepto do rachão. Uma ou outra vez eu acabo fazendo. Até porque temos essa cultura aqui do Brasil de fazer o dois toques, a roda de bobinho... Claro que você pede mais movimento, para que a atividade ganhe mais intensidade. Tem que fazer assim, às vezes abrir mão do rachão se dá por você perder intensidade, vira um pouco de pelada. Até a concentração do jogo fica diferente quando você abre mão de um exercício mais sério. Tento levar aquilo que aprendi na minha carreira também como jogador. Dentro daquilo que eu estudei e acompanhei de outros clubes fora do Brasil e vem dando certo. Tivemos poucas lesões até aqui. Acho que o caminho está correto.

Você ficou muito tempo fora do Brasil, seja fazendo cursos ou mesmo como auxiliar de algumas equipes. Como tem visualizado o momento do futebol brasileiro? Acha que estamos em um momento de ruptura?

Acho que a questão tática, principalmente depois de 2014, tem crescido. Tenho visto que quase todo mundo começou a se movimentar. Treinadores buscando se atualizar dentro do que tem acontecido no futebol. É lógico que temos um calendário bem diferente do europeu, mas na minha opinião a parte tática aqui no Brasil ainda é bem aquém do que há de melhor lá fora. Os jogadores de lá chegam em um clube e não levam tanto tempo para entender e se adaptar à parte tática. Não podemos fazer isso aqui no Brasil? Por que não cobrar mais dos atletas isso? Cobrar também dos nossos treinadores. Todos temos que melhorar. Antigamente a gente tinha estes treinadores trabalhando em cima da parte técnica, buscando potencializar os jogadores que faziam a diferença. Hoje eu já acho que o treinador contribui muito mais coletivamente, durante a semana de trabalho, que para mim é a maior parte, e também dentro das partidas. Houve um crescimento nisso nos últimos anos, isso é nítido. Pessoal está buscando novas ideias. Temos um curso na CBF, que apesar de ainda não ser o ideal, já é importante. Dá para você ir buscando alguma coisa online também. Atualmente é mais fácil um de nós ir para a Europa. Então é bom que alguns façam isso. Não acho certo o cara ir para lá só para assistir jogos. Na minha opinião você aprende mesmo acompanhando o dia a dia. Ver a semana, o planejamento... Para mim o mais importante, sem dúvidas, é ver gente tentando se aprimorar dentro dessa profissão tão complexa que nós temos.

O quanto foi importante para você buscar todo esse conteúdo? Você foi um jogador de grande nível, jogou em grandes equipes... Já não poderia ter sido o suficiente? Por toda essa convivência que você teve com grande profissionais e em vários lugares?

Na verdade qualquer jogador pode pensar que, assim que acabar sua carreira, pode ser treinador, diretor... Mas isso é impossível. É uma diferença da água para o vinho você jogar e treinar uma equipe. É muito diferente. Todo ex-jogador que quiser virar treinador precisa se aprimorar primeiro, estudar... Tem que buscar a parte teórica. Mas também sou contra vários treinadores que só estudaram e não tiveram a vivência, que nunca jogaram. Então precisa buscar isso, ter um certo tempo para praticar e viver. Passar por um processo de dirigir uma categoria de base, ser auxilar de treinadores com mais experiência, para aí sim depois ser treinador. Falo dos caras que nunca estiveram dentro de campo, mas que também tem toda condição de chegar a ótimos níveis. Sempre é preciso equilibrar. Para o cara que tem a prática pela vida inteira às vezes falta a parte teórica. O que é bom de teoria não tem muita prática. Isso é normal. Por isso existe o estudo e também esse processo de amadurecimento na sua vida. Eu tenho essa ideia, de crescer, de buscar mais... Tudo precisa ser complementado.

Como você encarou o desabafo do Eduardo Baptista? Apesar das queixas dele ter um direcionamento específico, se discutiu muito a forma como a imprensa trata o futebol atualmente.

Eu penso que a gente não pode radicalizar dentro de nenhuma profissão. Acho que tem gente competente na imprensa para analisar uma partida de futebol. Concordo com ele na questão da fonte, de não revelar... Às vezes os caras criam caso onde não tem. Criam pelo em ovo. Acho isso errado pelo fato de acabar expondo o treinador. Tem que dizer sempre a verdade. Vejo muitos repórteres, quando vão fazer uma análise do jogo, sempre fazem em cima da questão individual. Não se apegam à questão coletiva, da parte tática, que também são importantes. Neste caso acho que precisa ter uma preparação melhor. Às vezes a preocupação é porque se colocou o João e não o José. Se você pegar a maioria das entrevistas coletivas as perguntas são quase sempre assim. Aí você fala que o João treinou melhor e acaba passando por antipático. Tem também a questão de que fulano jogou mal. Mas aí você tem que levar em conta que pode ser um dia ruim do cara. Mas é normal que um jogador uma hora ou outra vá jogar mal. Ninguém joga bem sempre. O cara precisa se empenhar dentro de campo. Mas no geral eu acho que estamos melhorando. A questão do Eduardo foi um desabafo mesmo. Foi daquilo que ele encarou como uma mentira que colocaram em seu elenco. Tem o direito dele. Mas todo mundo vem melhorando, inclusive a imprensa. Você vê a cobrança com relação aos treinadores com mais profundidade. As coisas estão mais profissionais e embasadas.

Costuma assistir futebol internacional? Qual a liga que você mais gosta?

Todo mundo gosta muito de ver a Premier League. Tem grandes jogadores lá, realmente. Mas eu gosto muito do Campeonato Italiano. Eu joguei muito tempo lá. Depois fui auxiliar por um ano, fiz os cursos tudo na Itália. Na minha opinião é o lugar que os treinadores estão mais preparados taticamente. Vejo jogo do Crotone, Sassuolo, Genoa... Estou sempre atento a isso porque sei que são caras que se prepararam, alguns até fizeram os cursos comigo lá. Sempre aparece, em termos táticos, algo novo. Se a gente for ver hoje o melhor treinador europeu é italiano. O Conte chegou na Premier League e é líder jogando com esse 3-4-3 que vira linha de 5 atrás. Varia bastante. Ele mudou muitos conceitos que tinham na Inglaterra colocando três zagueiros e fazendo o time jogar bonito, para frente. Gosto do Campeonato Italiano por achar ele mais competitivo. Vejo mais entrega em campo. O futebol espanhol, por exemplo, eu não gosto muito. Acho que deixam jogar mais, não marcam tanto. Não tenho como exemplo o Barcelona porque acho que ali é um caso à parte. Tem jogadores que se conhecem desde criancinha, por isso fazem o futebol que fazem. O futebol italiano, sem dúvidas, é o que mais agrega à minha carreira.

Vivemos uma onda de melhores resultados para quem pratica um futebol mais reativo? Como encara essa tendência?

Eu acho que é cíclico mesmo. Mas eu, desde a época que jogava, eu sempre gostei de controlar o jogo tendo a bola. Claro que você ter sempre maior posse de bola não quer dizer que você vai vencer sempre. Mas se você souber verticalizar na hora certa, saber fazer os movimentos corretos dentro do campo, acho que dá certo. No Juventude mesmo eu trabalhava isso. Lógico que quando você enfrenta equipes maiores você muda um pouco a estratégia. De esperar mais, sair rápido. Mas a posse de bola, quando bem feita, organizada, acho que contribui bastante para uma equipe conquistar grandes resultados. Tem a questão da bola parada também, que você tem que se preparar cada vez mais. Mas eu sempre deixei claro que eu quero minhas equipes vencendo jogando com a bola, em uma jogada trabalhada, com apoio, aproximação... Prefiro ganhar assim do que com uma bola de escanteio, por exemplo. Muitas vezes você vence assim mesmo tendo feito uma partida desastrosa. Eu prego sempre pelo bom futebol. Às vezes pode não dar certo, mas é o que eu procuro passar para as minhas equipes. Quero sempre ter a bola.

O que é jogar bem para você?

Jogar bem para mim é um resumo do que eu falei até aqui. É você ter a posse de bola, mas não a posse sem objetividade. É os jogadores fazerem os movimentos corretos, colocarem em prática tudo aquilo que você trabalha durante a semana. É fazer bem tudo que você colocou como ideias para sua equipe. Na primeira final contra o Novo Hamburgo, por exemplo, tivemos 71% de posse de bola. Nós jogamos no campo deles. Quase 50% da posse foi no campo do adversário. Então você estava ali, jogando, buscando... A gente perdia a bola e com uma transição rápida a gente já recuperava. Tivemos o controle sempre, dentro do campo deles. Mas aí tomamos dois gols de bola parada. Finalizamos mais, mas não fomos tão efetivos. Mesmo assim acho que fizemos uma boa apresentação.

 

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