Físico, adaptável, vertical e... Simples! Conheça os segredos do surpreendente Monaco de Leonardo Jardim

Por Renato Rodrigues, do DataESPN
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Leonardo Jardim durante treino do Monaco antes do duelo com o City
Leonardo Jardim, ex-treinador de handeboll, é um dos grandes responsáveis pelo grande momento do Monaco

Líder da Ligue 1 e na semifinal de Champions League. O Monaco, sem dúvidas, é uma das grandes surpresas da atual temporada europeia. Mas, enfim, o que faz de tão extraordinário o português Leonardo Jardim para levar sua equipe a resultados e desempenhos tão significativos? Trata-se de uma revolução na forma de se jogar futebol?

Por incrível que pareça, não. Trata-se de uma equipe "simples" em sua essência. E ser simples, neste caso, não é ruim. Longe disso! É um simples que eleva suas individualidades de forma coletiva e que se faz uma das equipes mais competitivas da atualidade. Um simples muito, mas muito mesmo, bem feito. E isso tem valor.

Leonardo Jardim brinca com confrontos na semi: 'Não gostaria de jogar com nenhum dos três'

Começamos pelo sistema utilizado: o 4-4-2 que quase nunca tem variações. Muito utilizado por equipes do mundo todo em seu momento defensivo, que se compactam com duas linhas de quatro, trata-se de uma plataforma pouco buscada quando se está no momento ofensivo. Quando ataca, o time do Principado chega até a se posicionar em um 4-2-2-2, naquele beabá do futebol que assistimos por muitos anos: dois volantes, dois meias e dois atacantes. Mas o que difere os Les Rouge et Blanc é a forma como conseguem se adaptar a diferentes situações e estratégias dentro de um jogo.

O Monaco tem alta capacidade de alternar ritmos. É, em sua essência, um time que se dá melhor quando reage. Tem em seu elenco jogadores verticais e de muita força física, que tendem sempre a colocar mais velocidade em suas ações. Conseguem, por vezes, propor bem o jogo, tanto que já viveram situações deste tipo dentro do próprio Campeonato Francês, mas dificilmente vão fugir das características de seus principais jogadores.

Sem a bola, também tem grande naturalidade para alternar sua marcação em bloco alto, médio ou baixo, que nada mais é que avançar, pressionar em uma zona intermediária ou marcar perto de sua área. E tudo isso, definitivamente, confunde seus adversários.

Contra o Manchester City, no Etihad Stadium, por exemplo, subiu suas linhas e complicou a equipe de Pep Guardiola na iniciação das jogadas, principalmente no primeiro tempo. Quando necessário, também trouxe esse bloco compacto para trás (como vemos na imagem abaixo). Já contra o Dortmund, na Alemanha, adotou uma proposta mais recuada. Nas duas ocasiões, no entanto,  a estratégia de Leonardo Jardim prevaleceu. Vale ressaltar que, independente da região do campo, a ideia de marcar sempre por zona prevalece. Fazem encaixes e perseguições apenas dentro do setor, sempre buscando pressionar ao máximo o portador da bola, mas sem grandes quebras na linha defensiva.

DataESPN
Monaco, que alterna muito o posicionamento de seu bloco defensivo, se defende contra o City de Guardiola
Monaco, que alterna muito o posicionamento de seu bloco defensivo, se defende contra o City de Guardiola

Quando perde a posse, o Monaco reage rápido. Em um primeiro momento, faz o "perde e pressiona", mas, ao perceber que a bola saiu dessa zona de pressão, rapidamente se coloca atrás da linha da bola, sustentando suas linhas. Uma transição defensiva muito bem feita e coordenada.

Outro ponto interessante é que, normalmente, buscam induzir seus adversários a construir suas jogadas pelos lados do campo. Quando isso acontece, fazem bem o preenchimento para pressionar o lado da bola (imagem abaixo explica um pouco disso). Também trazem uma grande organização nas linhas de cobertura. Mesmo que o adversário vença um lance pessoal sobre um de seus jogadores, existem sempre jogadores prontos e posicionados para neutralizar as jogadas.

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Monaco preenche muito bem setor da bola e faz pressão no lado. Repare onde Lemar, meia pela esquerda, está na jogada
Monaco preenche muito bem setor da bola e faz pressão no lado. Repare onde Lemar, meia pela esquerda, está na jogada

Ainda dentro do momento defensivo vale frisar a participação de seus dois atacantes (Mbappé e Falcao/Germain), que sempre pressionam e incomodam a saída de bola do adversário. Seja fechando o passe dos zagueiros ou mesmo limitando as ações dos meio-campistas que recuam para buscar a bola.

Agora voltamos aos momentos em que o Monaco tem a bola. Quando se instala no campo do adversário a equipe tem um padrão bem claro para construir suas jogadas. Fabinho é quem, normalmente, recua para buscar a bola e organizar o jogo por trás (veja na próximafoto). A primeira etapa de construção depende muito do brasileiro.

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Fabinho recua entre os zagueiros para fazer a saída de 3. Brasileiro é peça chave no funcionamento da equipe
Fabinho recua entre os zagueiros para fazer a saída de 3. Brasileiro é peça chave no funcionamento da equipe

Enquanto isso os laterais buscam avançar pelos corredores, gerando amplitude e, por vezes, profundidade pelos lados. Lemar e Bernardo Silva, os meias pela esquerda e direita respectivamente, flutuam para dentro para trabalhar o jogo curto e combinado (veja todo esse posicionamento e funcionamento abaixo).

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Posicionamento da equipe no momento ofensivo: laterais abrem e meias circulam pela região central
Posicionamento da equipe no momento ofensivo: laterais abrem e meias circulam pela região central


Quando avançam no campo, tentam a triangulação pelos lados. Trazem o oponente para a zona da bola para tirá-la rapidamente da pressão e acelerar o jogo no lado oposto. Como dito acima, até quando possuem a bola e se estabilizam com ela, criam alternativas para colocar a bola em zonas com mais espaço, onde ganham campo para seus atletas verticalizarem suas ações.

Muito por conta disso, contam com jogadores de grande infiltração e que atacam muito bem os espaços. Talvez a grande jogada da equipe seja a bola trazida de fora para dentro por Bernardo Silva, que, ao buscar sua perna boa (esquerda), estica na diagonal de Mbappé, que tem muita força de arranque para antecipar os zagueiros. A ilustração abaixo mostra um pouco dessa ideia:

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Lance muito corriqueiro no momento ofensivo do Monaco: bola na diagonal de Bernardo Silva para M'bappé
Lance muito corriqueiro no momento ofensivo do Monaco: bola na diagonal de Bernardo Silva para Mbappé

Quando apontamos o time do Principado como uma equipe que se dá melhor quando reage, atrelamos isso às suas transições ofensivas. Seus jogadores são treinados para tal e reagem muito bem à recuperação da bola. São vários os momentos na temporada que, ao recuperar a posse, bastam poucos passes para ir para dentro do gol adversário. O jovem Mbappé (18 anos) talvez seja a grande figura representativa disso. Tem uma explosão muito forte nestas corridas em direção à meta e já surpreende o mundo com sua capacidade e frieza de concluir as jogadas. Sem dúvidas, trata-se de um dos atacantes mais promissores do futebol mundial.

E não é só no camisa 29 que está a juventude do Monaco: Sidibé (24), Mendy (22) - laterais físicos, porém com recursos técnicos -, Jemerson (24), Jorge (21), Bernardo Silva (22), Bakayoko (22), Boschilia (21), Lemar (21)... Atualmente o clube é um dos maiores celeiros de promessas. Depois de investir em grandes nomes anos atrás, agora miram para esse modelo de gestão: buscar em todo o mundo grandes valores, melhorá-los e vendê-los por altos valores. É muito provável, inclusive, que algumas saídas aconteçam na próxima janela de transferências.

Resumir este surpreente Monaco nesta temporada não é uma tarefa tão difícil. O que dá trabalho é executar tantas coisas de forma tão bem e regular ao mesmo tempo. É um time físico, de muita força, chegadas em velocidade e, principalmente, letal. Sua alta capacidade em se adaptar a diferentes situações é o que, de fato, faz a diferença. 

 

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Raio-X do Majestoso: por onde e como Corinthians e São Paulo construíram seus gols no Paulistão?

Por Renato Rodrigues, do DataESPN
Montagem/Gazeta
Ceni x Carille Montagem
Ceni x Carille se enfrentam pelas semifinais do Campeonato Paulista de 2017

Corinthians e São Paulo, enfim, vão protagonizar uma decisão com clássico no Paulistão 2017. Com maneiras diferentes de jogar, mas eficazes dentro de cada proposta que os treinadores trouxeram até agora na temporada, as duas equipes têm tudo para protagonizar uma semifinal rica em ideias e conceitos de jogo.

Para tentar decifrar estes modelos de jogo tão distintos que Fábio Carille e Rogério Ceni desenvolveram até agora, fizemos um estudo minucioso dos gols marcados por ambas equipes até aqui. Com 32 anotados, o Tricolor ostenta um ataque forte, mas ainda se ajusta para diminuir o número de gols sofridos (20). Já o Timão, que voltou a praticar um futebol de grande solidez defensiva com apenas 9 tentos tomados, ainda sofre na construção ofensiva (15 anotados). Mas existem padrões nestes gols?

A ideia com este estudo é usar a estatística de maneira muito mais qualitativa do que quantitativa. Trazê-la com uma abordagem mais técnica e interpretativa dentro do jogo, deixando de lado o número mais frio, que muitas vezes não passam de dados sem nenhum tipo de sabedoria. Aplicando conhecimento em cima destas estatísticas chegamos a padrões interessantes que dizem um pouco (NÃO TUDO) sobre como cada equipe tem construído suas jogadas que resultaram em gols.

É importante frisar que excluímos os gols de pênaltis deste conteúdo. Também trabalhamos a bola parada (escanteios, faltas e laterais) de maneira apenas quantitativa, interpretando apenas cada situação. Este momento do jogo, inclusive, merece uma análise particupar, de tão complexo e distinto do jogo. Portanto, os dados do estudo se caracterizam pelos gols construídos com bola rolando. 

 

CORINTHIANS

De auxiliar em 2016 para treinador na atual temporada, Fábio Carille, aos poucos vai dando uma identidade ao Timão. E para isso o jovem treinador se espelha muito em Tite, com quem trabalhou muito nos últimos anos e alcançou grandes conquistas.

Com a bola o Corinthians ainda não é uma equipe que tem um jogo fluído. É possível enxergar as ideias, principalmente a questão da aproximação e a busca por um jogo mais apoiado. No entanto, muito por conta da má execução destes movimentos, até atreada à confiança dos atletas, a equipe tem tido dificuldade para ter um volume ofensivo satisfatório. Por conta disso, tem se dado melhor quando dá a bola ao adversário, controla os espaços com muita compactação e aposta em um jogo mais reativo.

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Mapa de calor do caminho dos gols do Timão marcados durante o estadual
Mapa de calor do caminho dos gols do Timão marcados durante o estadual

Na imagem acima vemos um padrão bem claro nessa construção ofensiva da equipe: os lados do campo. Quanto mais "quente" (ou próxima do vermelho) a região do campo, mais usado é espaço para se chegar aos gols. Enquanto Guilherme Arana vive um ótimo ano, Fagner, aos poucos, vai recuperando sua boa forma que o fez um dos principais laterais-direitos do Brasil em 2015. Abaixo você vê as entradas no último terço do campo da equipe alvinegra. E os lados do campo, mais uma vez, se destacam:

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Olhe por onde o Corinthians entra no terço final do campo em jogadas que resultaram em gols
Olhe por onde o Corinthians entra no terço final do campo em jogadas que resultaram em gols

Na ilustração abaixo, vemos de onde saíram as assistências (quando elas aconteceram, claro) para os gols alvinegros. Mais uma vez o padrão dessa quase sempre bola sair pelos corredores laterais e uma construção por dentro quase nula. O resultado disso são seis gols de cabeça marcados até então.

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Veja de onde saíram os passes que viraram assistências do Corinthians neste Paulistão
Veja de onde saíram os passes que viraram assistências do Corinthians neste Paulistão

Também detalhamos o contexto de como estes gols saíram e a bola parada ganha destaque neste sentido. Ao todo foram cinco tentos assim: um de falta direta, um de falta alçada e três de escanteios. Logo atrás vem a construção baseada no jogo apoiado com quatro gols. Completamos ainda com três anotados em contra-ataques (constatado quando se pega o adversário desequilibrado) e mais dois com uma construção através de um jogo mais vertical. 

Outro quesito que chama muito a atenção neste time de Carille é a região do campo em que as bolas são roubadas. Em oito oportunidades a posse foi recuperada ainda no campo ofensivo, ou seja, perto da meta dos adversários. Se levarmos em conta o tanto de gols marcados até aqui, trata-se de um padrão bem expressivo.

Na ilustração abaixo vemos um pouco do papel individual dos jogadores dentro das tramas ofensivas corintianas. No primeiro ranking, que tem a liderança de Jô, está a participação dentro dos gols. O segundo quesito, com Maycon na frente, está a quantidade de passes que cada jogador deu antes de gols. No último vemos Guilherme Arana como maior assistente da equipe. Os dois últimos, ambos formados nas categorias de base do Corinthians, são canhotos e atuam mais pelo lado esquerdo do campo.

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Confira os rankings de participações em gols dos jogadores alvinegros
Confira os rankings de participações em gols dos jogadores alvinegros

Por fim, outros números gerais mostram algumas características importantes deste Corinthians de Fábio Carille. Começamos pela média de posse de bola para se chegar ao gol: 13,4 segundos. Este dado mostra o quão direto é o jogo da equipe até aqui. Não se tratam de circulações longas, de paciência e ritmo mais baixo. É um time que busca acelerar, independente da faixa do campo que esteja. Outro dado que aponta isso é a quantidade média de jogadores envolvidos nestas tramas: 3,73. Ou seja, não é necessário tanta gente para construí-lo.

A média de passes para cada tento anotado nos leva para o mesmo caminho (4,13). Por outro lado, é uma equipe que evita muitas progressões com a bola e prefere o passe como ferramenta para avançar no campo adversário. Neste sentido, O Timão não chega nem a uma média de uma condução longa de bola por jogo: 0,2.

 

SÃO PAULO

Em seu primeiro trabalho como treinador no futebol, Rogério Ceni aposta em um jogo ofensivo. Não esconde de ninguém que escolheu correr riscos para praticar um futebol com essa essência. Por conta disso, demorou para equilibrar o seu time, que só se estabilizou defensivamente nas últimas rodadas.

O ex-goleiro e capitão do Tricolor tem a intensidade com um dos pilares de seu modelo de jogo. Baseia sua forma de jogar em reações rápidas e muita pressão após a perda da bola. Por conta disso, tem, quase sempre, maior posse que seus adversários. Tem na compactação ofensiva dentro do campo do adversário um dos seus pontos fortes até aqui, buscando um jogo curto, vertical e agressivo no último terço do campo. 

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Mapa de calor do caminho dos gols do Tricolor marcados durante o estadual
Mapa de calor do caminho dos gols do Tricolor marcados durante o estadual

No mapa acima vemos muito do quanto o São Paulo tem circulado a bola antes de chegar no seus gols. E não tem uma região favorita para isso. Trabalha com facilidade tanto por dentro como por fora. Tem uma segunda etapa de construção forte pela esquerda e uma penúltima bola constante pela direita, como vemos no gráfico abaixo, que aponta os corredores de entrada no último terço do campo nestes gols analisados. 

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Olhe por onde o São Paulo entra no terço final do campo em jogadas que resultaram em gols
Olhe por onde o São Paulo entra no terço final do campo em jogadas que resultaram em gols

Na arte abaixo vemos esse último passe para gol e de onde eles estão saindo. Mais uma vez temos comprovado como os tricolores, ao contrário do rival deste domingo, usam também a região central para dar esse passe vertical que deixa o companheiro em situação de gol. As marcações por dentro são resultado de uma característica bem forte deste time, que é a bola em profundidade para infiltrações de seus atacantes.

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Veja de onde saíram os passes que viraram assistências do São Paulo neste Paulistão
Veja de onde saíram os passes que viraram assistências do São Paulo neste Paulistão

Dentro de cada contexto que estes gols foram construídos chegamos a um número bastante significativo: 12 gols são-paulinos aconteceram através de uma construção mais vertical. Os contra-ataques, com seis no total, mostram o quanto essa equipe tem como essência trabalhar a bola com objetividade. Inclusive é um padrão bem claro. O Tricolor trabalha uma iniciação das jogadas mais lenta e paciente, mas quando acha uma bola que quebra as primeiras linhas de marcação, acelera muito em direção ao gol. E consegue ser bem letal assim.

Ainda temos cinco tentos de construção mais apoiada e um gol originado de um lançamento mais longo, usando a velocidade e a profundidade de seus atacantes. Nas bolas paradas ofensivas, outro ponto alto do trabalho de Ceni: as jogadas ensaiadas. São dois gols de escanteio curto, um de falta alçada na área e três de escanteios diretos.

Nos rankings individuais temos mais alguns padrões fortes. De encostado e questionado, Gilberto é o jogador que mais tem participações em gols e comprova sua utilidade mesmo na reserva. Christian Cueva é o grande termômetro desta equipe. É quem mais passou a bola nesta construção. Por fim, Luiz Araújo é o maior assistente do time, mesmo com uma queda nítida de rendimento nas últimas semanas após um início de temporada avassalador.

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Confira os rankings de participações em gols dos jogadores do time de Rogério Ceni
Confira os rankings de participações em gols dos jogadores do time de Rogério Ceni

Nos números gerais dessa avalanche de gols marcados pelo São Paulo no Paulistão vemos algumas diferenças se compararmos o rival Corinthians. O tempo de posse média para se construir os gols é bem maior: 20,5 segundos. A média de passes também: 5,35. O número de jogadores envolvidos também está à frente: 4,52. Outro ponto que chama a atenção é a característica dos são-paulinos em carregar a bola antes de concluir. A cada gol marcado acontece pelo menos uma progressão longa com a bola.

 

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O seu time está jogando bem?

Por Renato Rodrigues, do DataESPN
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Torcida Leicester
Torcida Leicester parece aceitar bem o tipo de futebol que sua equipe pratica. Afinal, é tudo questão de gosto

Quatro meses de 2017 já se foram. Muitos trabalhos foram iniciados. Já outros vieram da última temporada. Alguns apresentam grandes resultados e outros pouco desempenho. Muitos não têm uma coisa e nem outra. A grande questão, no entanto, é entender como "medir" isso. Algo que chega a ser imensurável e muito dependente da interpretação de cada indivíduo. Muitas vezes não se consegue ao menos explicar, mesmo tendo uma opinião formada. Eu acho e ponto!

Mas vamos desenvolver este raciocínio. Primeiramente é impossível entrarmos nesta reflexão sem fazermos a seguinte pergunta para nós mesmos: afinal, o que é jogar bem?

Confesso que esta é uma das questões que envolvem o futebol que mais quebrei a cabeça para ter uma conclusão. Inclusive posso (por que não?) mudar de ideia, já que estamos falando de um esporte altamente cíclico e em constante evolução. Mas hoje, ao meu ver, jogar bem nada mais é que executar de forma precisa o que você se propôs a fazer, seja dentro de uma partida, competição ou temporada. Ou seja, é colocar em prática tudo que foi pensado e treinado para aquela situação. Desenvolver de forma coesa essas convicções e resolver os problemas que o jogo lhe traz.

Por fim e mais importante, fazer com que tudo isso apontado acima te leve a marcar mais gols que seu adversário. Neste caso, porém, é algo que muitas vezes foge do seu controle, mesmo que você esteja, de fato, jogando bem. O que nos leva à uma situação recorrente no futebol: equipes que apresentam bons desempenhos, mas por um ou outro detalhe, não atingem os resultados esperados.

Chegar a esta conclusão sobre o assunto nos leva a um universo ainda maior. Mostra que existem inúmeras maneiras de se jogar bem. O que é muito diferente do "jogar bonito", algo extramente pessoal. O que lhe agrada é seu. São impressões e experiências que você carrega consigo em toda sua vivência que envolve o futebol.

Um exemplo: o Grêmio e sua torcida, historicamente, se satisfaz com um estilo mais copeiro, brigado, de intensidade... Já o torcedor do Santos só se satisfaz com um futebol ofensivo, de dribles e muita aposta nas categorias de base. Na Itália se gosta de defesas intransponíveis e na Holanda não se abre mão da ofensividade. Agora é fato que, dentro de todas essas vertentes, se pode jogar bem. Concorda?

Muito dessa discussão envolve o atual momento do Corinthians. As críticas, por vezes, caem pesadas pelo fato de a equipe não estar jogando bem. Então passe a olhar pela ótica de tudo que desenvolvemos até agora no texto. Você continua achando que o time da Fábio Carille não joga bem?

Compactação e recomposição: Mauro e DataESPN analisam sistema defensivo do Corinthians

O foco tem que ser em procurar entender o que o treinador quer e treina para sua equipe. É nítido que Carille não abre mão da organização e de um sistema defensivo sólido. O Timão, por sua vez, tem executado muito bem essas ideias. Acaba por se dar melhor quando encaixa um jogo mais reativo, mas suas transições não têm sido tão letais. Então já temos uma situação que não é totalmente bem executada. Outra questão é que o técnico alvinegro não quer basear seu jogo em apenas isso. Quer sim, mais rendimento ao propor o jogo. Então, de fato, ainda faltam etapas para o Corinthians, enfim, jogar bem.

Um exemplo que pode ser parecido mas, definitivamente, não é: o Leicester da última temporada. Te asseguro, com toda convicção, que a equipe de Claudio Ranieri jogou bem. É o futebol que mais nos agrada? Na maioria das opiniões, não. Mas, dentro do que foi planejado e proposto, não existiu execução mais perfeita dentro da Premier League 2015/2016. Não importa a posse. Eles não queriam a bola. Também tanto faz o aproveitamento dos passes. Eles não queriam passar toda hora, queriam toques rápidos, verticais e longos, o que normalmente te traz mais riscos e, evidentemente, mais erros.

Consegue agora visualizar que tudo está atrelado ao nosso preconceito? Um "pré conceito" de alguma coisa que está estigmatizada dentro de nós. A busca pelo cenário ideal que nos mais agrada. A necessidade de enxergar um jogo que, acima de tudo, traz prazer aos nossos olhos. O brasileiro, por si só, tem uma forma histórica de jogar. Queremos ter a bola, fazer maravilhas com ela e não só vencer, convencer! E não há nada de errado nisso.

Claro que vamos cansar de ver equipes que não tem sequer uma estrategia bem definida para uma partida. Outras que tem uma proposta, mas que não conseguem executá-las por diversos fatores. Também se joga mal por aí. A questão é conseguir fazer essa leitura antes de formar sua opinião.

Abra a sua cabeça para o diferente. Afinal, que tipo de futebol seu time quer jogar? Muitas vezes pode ser o tipo que você não gosta. Infelizmente.

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Chelsea x Manchester City e as várias maneiras de se ganhar no futebol

Por Renato Rodrigues, do DataESPN
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Antonio Conte vive grande fase no Chelsea
Antonio Conte vive grande fase no Chelsea, que está bem perto de conquistar o título inglês

Ter ou não ter a bola. Talvez essa seja uma das grandes discussões que pairam entre os amantes e estudiosos do futebol pelo mundo. Nesta quarta-feira, em Stamford Bridge, tivemos mais um grande exemplo deste eterno dilema. Em um claro choque de ideias entre seus teinadores, Chelsea e Manchester City provaram, mais uma vez, que o futebol se trata muito mais de um esporte de escolhas do que de certo ou errado. Afinal, existem várias maneiras de se vencer.

Cada vez mais próximo do título da Premier League, o Chelsea de Antonio Conte não tem vergonha de não querer a bola. Ao contrário. É, em sua essência, uma equipe que se comporta muito melhor reagindo às ações dos adversários do que propriamente tendo a posse e propondo o jogo. Contra grandes adversários isso fica ainda mais evidente, seja fora ou dentro de casa. No fim das contas os Blues tiveram 36,5% de posse de bola contra 60,5% do Manchester City.

DataESPN: veja como funciona o sistema defensivo do Chelsea, líder da Premier League

Do outro lado, Pep Guardiola. Este que, por onde passou, sempre foi obcecado em ter a bola. Foi assim no Barcelona, Bayern de Munique e agora no Manchester City. Mas a grande questão que envolveu o duelo desta quarta-feira foi: o que cada um fez com a bola enquanto a teve? No final, foi isso que acabou fazendo a diferença na vitória por 2 a 1 do time mandante.

No primeiro tempo, o Manchester City buscou pressionar a saída de bola do rival e conseguiu, por vezes, essa recuperação (veja na imagem abaixo). Em alguns momentos, inclusive, conseguiu sair da pressão inicial dos londrinos e ganhar campo para atacar. Algumas boas combinações na base do apoio e jogo curto surtiram efeito e as chances a apareceram. Os citizens seguem com o problema de, apesar de muitas vezes ter um volume ofensivo satisfatório, não conseguirem concluir isso em gols.

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Veja na imagem o City fazendo o conceito que chamamos de
Veja na imagem o City fazendo o conceito que chamamos de "pressing" e fechando as linhas passe na saída de bola

O Chelsea por sua vez, teve o controle do jogo. Aliás, em pouquíssimos momentos, deixou de tê-lo. Mesmo sem a bola, se compactou em seu 5-4-1 no momento defensivo e, sempre que pôde, acelerou o jogo após recuperar a posse. Em alguns momentos, inclusive, buscou pressionar a saída de bola do adversário. No segundo tempo quase não passou apuros. Dominou e negou espaços no terço defensivo do campo. Com a bola como referência, flutuou suas linhas e gerou superioridade numérica no setor da bola à todo momento (veja abaixo).

DataESPN
Com a bola como referência, o Chelsea flutua as linhas para o setor que ela está e faz superioridade numérica
Com a bola como referência, o Chelsea flutua as linhas para o setor que ela está e faz superioridade numérica

A posse de bola do City na segunda etapa foi praticamente nula. Bem a cara do termo "tiki taka" que Guardiola tanto odeia, muito por se tratar de um rótulo que aponta um time que passa a bola por passar, sem grande objetividade, com poucos passes verticais. Foram raros os momentos que alguém conseguiu quebrar as linhas de marcação dos Blues com uma bola mais aguda, que gerasse desequilíbrio defensivo no adversário. Foi um controle totalmente enganoso e que, sem dúvidas, deve estar tirando o sono do seu treinador.

Pelo lado do Chelsea, as transições ofensivas também não foram tão eficazes como de costume. Com isso, a qualidade do jogo sofreu uma queda no segundo tempo. As duas grandes chances de empate do City vieram através de bola parada, mas nada feito.

A alma deste confronto foi exatamente este duelo de propostas. As diferenças dos meios para chegar ao mesmo fim. E que nós, muitas vezes por entender o bom futebol de uma maneira, acabamos fechando os olhos para as maneiras de se conquistar resultados, mesmo que seja com bom desempenho.

Antonio Conte e Pep Guardiola são grandes no que fazem. Mas não são iguais. No futebol você pode vencer com bola parada, no contra-ataque ou tocando de pé em pé. Não importa a maneira. Jogar bem, ter um bom desempenho, nada mais é que fazer bem que você se propõem a fazer. Deixe o preconceito de lado, amigo!

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Entrevista do mês: Roger Machado fala sobre Atlético-MG, Grêmio e em explorar essência do futebol brasileiro: 'Todos beberam da nossa água'

Por Renato Rodrigues, do DataESPN
Bruno Cantini/Clube Atlético Mineiro
Roger Machado Treino Atletico-MG 28/02/2017
Roger Machado ao lado de seu auxiliar Roberto Ribas, durante treinamento na Cidade do Galo

No dia 26 de maio de 2015 Roger Machado recebia sua primeira oportunidade como treinador de uma equipe da elite do futebol brasileiro. Assumia o comando do Grêmio após passagens por Juventude e Novo Hamburgo. Antes havia sido auxiliar do próprio Tricolor, clube que carregava grande identficação ainda dos tempos de jogador.

Foram quase dois anos de lá para cá. Erros, acertos, aprendizagem e muita busca por evolução... Após grandes desempenhos que fizeram do Grêmio uma das mais fortes do Brasil em 2015, acabou deixando Porto Alegre após uma queda de rendimento em 2016.

Veio então um breve período sabático, usado para descansar e, principalmente, se atualizar. Roger Machado, após muita especulação de interesses de vários clubes, escolheu seu próximo destino: o Atlético-MG. Nessa longa entrevista exclusiva para o blog, o treinador abriu o jogo sobre como trabalha e pensa o futebol. Falou sobre o atual estágio do trabalho no Galo e o que vislumbra para sua  equipe nesta temporada.

O gaúcho ainda nos trouxe muitas reflexões importantes sobre o futebol. Falou em buscar referências no futebol das décadas de 70 e 80, de priorizar a essência do futebol brasileiro, sobre o que priorizou em seu período sabático...

Os problemas nas bolas paradas defensivas no Grêmio também foi assunto. Outra situação muito bem pontuada foi sobre o momento do futebol brasileiro, do interesse maior "em pensar melhor o jogo" e, principalmente, formar jogadores cada vez mais inteligentes dentro do país. Confira:

 

Em que estágio vê o trabalho no Atlético-MG e o que você tem cobrado mais dos atletas neste início de ano?

Bom, a gente se propôs, desde o primeiro momento que chegamos aqui, a transformar a equipe do Atlético-MG que no ano passado foi extremamente ofensiva, com um ataque que marcou muitos gols durante a temporada passada. Por outro lado, também sofreu muitos gols. A proposta inicial foi encontrar esse equilíbrio necessário. Manter a produção ofensiva, mas criando alguns mecanismos para que gente chegasse nesse equilíbrio maior entre as ações com e sem a bola. É difícil você construir um time que tenha o melhor ataque mas que a defesa não esteja pelo menos entre as três melhores do campeonato. É difícil você construir uma equipe que postule ao título sem ter esses dois lados forte, que é o que aconteceu em 2016. O Palmeiras que foi campeão tinha números e variações muito parecidas neste sentido. Na parte defensiva, se não foi o primeiro, acho que esteve perto. Então partimos em direção disso, tentando atacar por dois lados: o primeiro, quando você está em processo de organização ofensiva, já que atacamos com bastante gente, tão logo a gente reaja rápido à perda da bola e caso não retome essa posse perto do gol do adversário, consiga fazer com que ele tome uma decisão inicial para que não ataque profundidade explorando o contra-ataque. Isso no momento ofensivo. Agora, quando você está em organização defensiva, a ideia é conseguir ter pelo menos oito jogadores atrás da linha da bola o quanto antes. Direcionar o adversário para o lado que você quer e pressionar a linha lateral usando um jogador a mais e, assim que acontece a retomada, fazer a transição ofensiva. Antes disso ainda conseguir, na transição ataque/defesa, fazer bons retornos, com um número bom atrás da linha da bola para montar o bloco defensivo. Isso acaba minimizando os efeitos de um time muito ofensivo em sua essência. Também para que não percamos essas capacidades de atacar e buscar o gol com muita frequência.

Sua ideia de modelo de jogo exige uma transformação muito grande tanto nos comportamentos individuais como coletivos do elenco atleticano. Quais são essas dificuldades neste pouco tempo de trabalho? Aonde acha que a equipe ainda precisa encaixar? Onde se surpreendeu positivamente?

Sua pergunta já traz um pouco da resposta. Realmente, gerar comportamentos demanda um pouco de tempo e continuidade das atividades, do dia a dia com os atletas... O nosso campeonato regional, felizmente, é bem organizado. E a fórmula da Libertadores, agora mais diluída, permitiu e tem permitido que nós tenhamos semanas abertas de trabalho. Com isso você começa a bater em cima de alguns princípios para gerar estes comportamentos. Questões como pressão na bola, de encurtamento na bola, de ocupação de espaço, seja para marcar ou mesmo para jogar. Tem também o comportamento de você tentar gerar superioridade numérica no setor onde a bola está. Isso te ajuda no momento ofensivo, mas consequentemente, se você está perto para jogar, você também está perto para recuperar a posse caso a perca. Defensivamente você começa a criar os comportamentos para linhas de cobertura, no processo de marcar o seu gol. É importante ter esse mecanismo em caso de falhas, em ter essa cobertura bem feita. Isso tudo demanda tempo. O bom de tudo isso é que muitos jogadores aqui são experientes, já viveram isso em outros momentos. É o caso do Robinho, do Fred... Jogadores que trazem até uma vivência de fora do Brasil. Acabam por entender muito rápido essas ideias e ajudam no processo de entendimento de passar isso para os mais jovens ou que não tiveram essa experiência durante a carreira. Vejo muitas coisas positivas. Nada que foi passado até aqui os atletas estão deixando de fazer. Agora que as coisas já foram mostradas e treinadas é preciso repeti-las e aumentar a regularidade disso dentro do campo.

Desde o Grêmio vemos que você tem algumas ideias nítidas dentro de seu modelo de jogo. Sabemos que você assiste muito futebol, busca se atualizar e estudar. Quais são suas referências? Da onde vem suas inspirações para todo esse processo?

Pois é. Por incrível que pareça eu não tenho uma referência forte com um treinador em si. Nem estrangeiro. Na verdade eu gostaria de ter mais com treinadores brasileiros. Talvez o grande pecado é que os nossos grandes treinadores que construíram a história do futebol brasileiro, caso do Telê Santana, Ênio Andrade e tantos outros que contribuíram para o crescimento do futebol. A verdade é que tem pouca coisa escrita sobre modelos táticos. Temos uma literatura mais voltada para grandes conquistas e grandes equipes. Sempre que encontro alguém de mais idade e que viveu no período desses caras e que teve contato com eles. Sempre busco saber como eles pensavam o futebol para ver se posso assimilar alguma coisa. Mas de toda forma, se tu quer entender bem o processo defensivo, por exemplo, tem que procurar, inevitavelmente, a escola italiana. Fazem e desenvolvem isso como ninguém. Se a gente quiser o jogo ofensivo, de vitória pessoal, a gente tem que buscar isso no nosso jogo. A gente, historicamente, levou para o mundo essa forma de jogar. A Espanha, que também tem um jogo bastante ofensivo, dá para dar uma olhada. A Alemanha com um jogo forte de transição, de marcar alto... Então, mais que os treinadores, as culturas, sobretudo, acaba te ajudando. Eu quero na verdade ter um novo olhar sobre o nosso jogo. Da nossa cultura, do futebol brasileiro... Afinal de contas, todo mundo bebeu da nossa água. Nós vemos na raiz, na essência de várias culturas, um pouco do nosso jogo. Por isso eu gosto muito de ver grandes times da década de 70, 80... Procurar entender alguma coisa daquele jogo e atribuir os conceitos mais contemporâneos, na forma de jogar atualmente, com um futebol mais intenso, mais rápido. Mas tentar extrair do nosso jogo as qualidades para construir as equipes. E como treinador, por mais que eu tenha conseguido montar time no trabalho anterior com características peculiares, eu tenho que perceber o material humano que está nas minhas mãos e tenho que me adaptar muito ao que estes jogadores vão me oferecer em campo. Preciso descobrir que tipo de jogo eu posso praticar com os atletas que tenho em mãos.

Jogo apoiado, aproximação, passes curtos e rápidos, abertura de linhas de passe... Talvez esta tenha sido a grande característica do seu Grêmio e que aos poucos o Galo vai tentando colocar em prática. Qual a importância disso na sua forma de pensar futebol? É algo muito treinador? Como você tem cobrado e estimulado isso com este grupo novo de atletas?

Sim. Se eu quero que essas ideais sejam transferidas para o jogo, eu preciso, antes de tudo, treiná-las. E faço isso quase que diariamente. Dois fundamentos básicos do futebol são o passe e o domínio, o controle da bola. Quando tem isso, já tem parte do jogo dominado. Então eu trabalho o passe dentro de uma estrutura de apoio, de jogo apoiado. Por que o jogo apoiado é a minha concepção de jogo? Porque existem duas formas de se levar vantagem sobre o adversário: pela superioridade numérica no setor da bola ou com habilidade. Eu desejo que, em uma fase de construção, eu ganhe campo e ultrapasse os obstáculos que o meu oponente vai me oferecer pela aproximação e essa superioridade no setor. A medida que eu consigo transferir isso para um jogador que tem como virtude a vitória pessoal no 1x1, vou brigar por essa habilidade na hora e no lugar certo. Então a gente trabalha muito passe e apoio. Não a posse pela posse. A posse como meio para você desestruturar o adversário e atacar profundidade. Quando você consegue jogar apoiado, sempre com boas linhas de passe, principalmente com diagonais muito próximas ao portador da bola, você consegue progredir no campo e atacar a área com um número maior de jogadores. Você pode optar por uma profundidade mais direta, com jogadas de um tempo só. Nesse caso você terá uma velocidade maior, mas talvez sem um número relevante de jogadores à frente da linha da bola.

Superioridade na esquerda e movimentação de Luan

Muitas equipes brasileiras mostram alguma dificuldade na iniciação das jogadas e o Atlético-MG chegou a ter problemas neste sentido em alguns momentos da temporada. Por outro lado, nos grandes centros, os zagueiros estão virando até peça chave nessa construção ofensiva, com passes mais agudos e que quebram linhas. O quanto você acha importante estimular os zagueiros a dar esse tipo de passe mais vertical?

Hoje o goleiro no futebol mundial já é uma peça importante no início da construção ofensiva. No Brasil ainda não temos esse hábito. E em alguns momentos, quando você pega um campeonato estadual, por exemplo, que a qualidade dos gramados não é tão boa, por vezes você não consegue usar a figura do goleiro. Agora os zagueiros já não participam apenas do momento defensivo da partida. A medida que você precisa colocar mais gente atrás da primeira linha do adversário, muito em função do encurtamento do campo, de um bloco mais baixo, esses jogadores acabam participando do processo de iniciação, principalmente no terço central do campo. Porém, em alguns momentos, algumas situações fazem com que os zagueiros tenham que abrir lateralmente muito para dar uma opção de passe, com uma linha de três para gerar desequilíbrio no adversário. Mas tem também o processo de transição defensiva, que eles estariam longe do centro da ação e podendo ter um pouco mais de dificuldade em intervir de forma precisa no jogo defensivo. Talvez usar isso com um pouco de cuidado, muitas vezes dou uma preferência de formar uma linha com três com um volante ou até mesmo rodando o time e fazendo uma saída com três usando um lateral. Isso para que os zagueiros fiquem onde eles podem ser mais úteis na sua principal característica, que surgem no momento de guardar o gol e defender bem a nossa meta.

Antes de assumir o Atlético-MG você ficou um tempo parado. Que tipo de experiência você buscou nesse período? Vemos que o Tite, por exemplo, buscou muitas referências na construção ofensiva enquanto esteve parado. Quais necessidades você via como melhoria para sua carreira? Tentou absorver mais coisas que o te fizessem dar um passo adiante na carreira?

De um modo geral a gente busca observar um pouco de cada coisa. Sempre existe espaço para você observar, mesmo que você entenda que dentro do princípio do seu jogo você consiga construir bem, sempre tem espaço para evoluir. Seja no que for. No ano passado, em alguns momentos, ainda no Grêmio, a gente sofreu com as bolas paradas defensivas e isso me fez refletir, busca algumas questões relacionadas a isso. Observar as variações no processo, as diferentes culturas, ver as respostas em cada forma de marcar, seja por zona, mista, zona com bloqueio... Para agregar um pouco mais mesmo. E também dentro do processo ofensivo, a forma como você chega ao gol, como constrói esse momento. Com quantos jogadores as equipes estão atacando a profundidade, como faz esse desequilíbrio no adversário, quanto de posse para isso, a busca por um momento adequado para fazer esse ataque... Isso tudo você vê em culturas diferentes e às vezes vê que ter a bola não significa que você tem o controle do jogo. Que por vezes você pode oferecer a bola para o adversário e controlá-lo também, porque você está controlando os espaços. Essas coisas eu busquei bastante.

DataESPN analisa marcação aérea por zona do Grêmio e deficiência na bola parada

Hoje, depois de ter visto outras maneiras de marcar, outros processos, você consegue identificar melhor o por quê teve tanto problema com bola parada defensiva no Grêmio? Você chegou a trocar as maneiras de marcar esse tipo de situação, tentou mudar, ajustar... Já era algo detectado naquela época?

Na verdade, a média de gols de bola parada que a gente sofreu no ano passado, não foi maior que a média mundial deste tipo de gol. A questão é que alguns jogos importantes foram decididos nessa bola parada. Por conta disso, chamava mais a atenção. Se a gente pegar o último mundial, 40% dos gols foram feitos de bola parada. Seja de forma direta, com cruzamentos e cabeceios, por exemplo, ou em um segundo lance após ganhar segunda bola, que acabavam se transformando em gol. Ainda com as equipes em organização de bola parada. Então mais que a questão da forma de marcar, seja individual, mista ou por zona, talvez seja muito mais a questão do hábito diário, do número de sessões de treino que tu disponibiliza para este tipo de ação. Se a gente entender que de 30 a 40% dos gols acontecem assim, pelo menos 30% das minhas sessões de treinamento eu devo direcionar para trabalhar essas variáveis. Acho que é muito de identificar o perfil dos jogadores. Por vezes um atleta pode não ser bom no enfrentamento individual, no corpo a corpo, mas ataca bem a bola em um ponto mais alto. Detectar essas características e tomar a decisão em qual tipo de marcação você pode investir. Às vezes você não tem um time muito alto, mas com jogadores de imposição física, você acaba fazendo uma mista com bloqueio... Eu vi muito e de várias formas isso. Li muitos artigos falando das diferenças desse tipo de marcação, qual a incidência e o percentual de acerto dessas variáveis. Esse ano no Atlético-MG foram dois gols assim e estamos abaixo da média. E eu tenho feito o mesmo tipo de marcação, que é a zona com bloqueio. Isso para que os caras que podem embalar e na velocidade lançada acavalar na minha linha, não consigam ter vantagem contra meus jogadores de zona, que vão atacar o ponto mais alto.

Em seu trabalho no Grêmio, durante momento defensivo, você usou muito o conceito de marcação zonal. Já o Atlético-MG, nos últimos anos, sempre usou um sistema de encaixes individuais, com perseguições longas e desgarres da linha defensiva. O futebol vem mudando bastante nos últimos anos, antes com essa individual forte, depois bem zona, agora um pouco de cada uma... Como você vê toda essa mudança constante no futebol?

Bom, eu costumo caracterizar como marcação de encaixe com perseguição curta, média ou longa. Uma marcação zona, mas com encaixe por setor, se desfazer muito das linhas porque quanto mais eu conseguir que minha equipe se mantenha organizada para tomar a posse do adversário, mas os jogadores estarão nas suas posições para iniciar o processo ofensivo. Hoje todos jogadores conseguem visualizar isso. Os jovens já sobem da base com esse conceito de marcação por zona. Os mais velhos com uma experiência no exterior também já viveram muito disso. O que eu vejo nessa questão é que a zona te dá muita capacidade de tu fazer uma leitura do espaço, jogar em aproximação, atacar as profundidades e ocupação dos espaços. Já a marcação encaixada te permite muitos duelos individuais, e aí a capacidade de vitória pessoal tanto ofensiva quanto defensiva diz muita coisa. Mas para mim não existe um certo e um errado. A por zona te dá algumas coisas e tira outras, assim como na individual. Agora, se você acredita mais em uma do que na outra, trabalhando muito bem e fazendo com que os jogadores tenham o entendimento necessário, das duas formas podem acontecer. Eu vejo o futebol como algo muito cíclico. Acredito que a marcação de forma mais zonal tenha vinda de outros esportes para sobrepor a capacidade individual do nosso jogador, que tem muito da vitória pessoal. A partir do momento que você faz por zona, com boas coberturas de suporte, fica mais difícil para que ele execute e vença nesse 1x1 contra uma sombra mais dobrada. É acreditar e trabalhar. Não tenho preconceito com nenhuma ideia, mas tenho por preferência uma marcação mais zonal, com pressão ao portador da bola, cuidando bem dos espaços, induzindo o adversário para alguma faixa determinada do campo e roubando a bola de forma mais organizada.

No futebol sabemos o quanto é necessário circular a bola com velocidade para desequilibrar seu oponente e achar espaços para serem atacados. Essa melhora na velocidade de execução de seus atletas é algo que você continua buscando? Mantém um sistema de métrica e metas para os jogadores atingirem neste sentido?

Sim. A gente tem essas métricas e temos alguns parâmetros para alcançar. Na verdade a troca de passes precisa ter alternância de distância, de velocidade e de direção. Na medida que eu não mude a velocidade do passe, seja ele mais rápido ou mais lento, o adversário consegue identificar e passa a se comportar da mesma forma. Se for na mesma direção, acontece a mesma coisa. Então é preciso ter essa alternância nestes três quesitos que me referi. Isso para que você consiga fazer com que o adversário fique focado no objeto central do jogo, que é a bola, e perca a noção do entorno, onde você pode se aproveitar dos espaços que vão aparecendo. Pode ser atacando entrelinha, seja em profundidade... A gente tem feito muito esse trabalho aqui no Atlético. Algumas coisas bem definidas, como o pós-perda, a velocidade dessa troca de passes, o tempo dessa retomada da posse... Quatro ou cinco variáveis, seja ofensivas ou defensivas, a gente tem mapeado e acompanhado a evolução disso nos jogos e treinamentos.

Muito em cima dessa última resposta, o quão necessário você vê que no Brasil a gente passe a trabalhar cada vez mais a questão cognitiva dos atletas? Qual a importância de formarmos jogadores mais inteligentes?

A verdade é que braços e pernas são apenas ferramentas. O jogo em si é cognitivo de um modo geral. Aliás, muito cognitivo. O jogador de futebol toma, em 90 minutos, 40% a mais de decisões que uma pessoa comum em um dia inteiro. Então é um esporte altamente cognitivo. Uns usam mais suas virtudes físicas, outros essa capacidade cognitiva para decidir as ações do jogo. Então, você produzir problemas através do treinamento para que o atleta solucione, e que estes problemas sejam condizentes com os que acontecem dentro de uma partida, para mim é você instrumentalizar para que ele possa tomar as melhores decisões. O talento do brasileiro, do nosso jogador, que improvisa, que por vezes faz um jogo mais plástico, vai ser sempre decisivo. Mas, na medida que esse jogo se transfere para todas as áreas do campo, e cada vez mais com a velocidade muito maior, tomar decisões mais rápidas vai tornar aquele que conseguir executar bem muito mais valioso para o esporte. E a gente tem que tomar cuidado para não perder a característica do nosso jogador, que é habilidoso, faz um jogo muitas vezes mais intuitivo, que é muito importante. Porque é dado ao atleta um problema dentro do campo, ele tem três ou quatro resoluções, mas é através dessa capacidade que ele vai achar uma saída que não foi treinada e quem ninguém imaginava que poderia acontecer. Então é criar problemas no treinamento e estimulá-los a resolver em campo da melhor forma.

O que faz de Fred tão especial? DataESPN um pouco disso e a inteligência de jogo do centroavante


Como vê o atual momento do futebol brasileiro? Acha que é um período de ruptura e quebras de paradigma em várias áreas que envolvem o esporte?

É preciso entender o futebol como um fenômeno. Desde muito tempo é analisado e estudado os eventos do jogo, só que agora de uma forma mais profunda e com um conhecimento maior. Isso por ter surgido também novas ferramentas para te trazer um pouco melhor o que acontece dentro de uma partida. Hoje se tem muito conteúdo sendo produzido. É só olhar para as estatísticas, as métricas... Vejo isso com bastante otimismo, mas também com um pouco de cuidado porque quantitativamente a gente tem muitos dados, mas é preciso também olhar e analisar de forma qualitativa. Algumas coisas que não aparecem na estatística, você precisa observar de forma mais qualitativa estes dados. Temos elementos táticos envolvidos. Tem o adversário que impõem uma dificuldade, por exemplo. Muitas vezes o número puro não te traduz o que acontece dentro do jogo. São muitas variáveis envolvidas. Mas é bacana perceber que há um interesse muito maior, que existe um envolvimento dos clubes cada vez maior desenvolvendo departamentos, que os profissionais do campo estão usando, a tecnologia sendo desenvolvida... Aí você também vê o interesse em entender a importância não só de quem fez o gol. Pessoas querendo entender um pouco desse nosso esporte que é tão rico.

Vemos cada vez mais equipes que não têm grande tradição e poderio financeiro complicando as coisas para clubes maiores. A Libertadores mesmo é um grande exemplo para vocês do Atlético-MG. Como enxerga este tipo de situação? É difícil lidar com a cultura do brasileiro que acha uma "obrigação" golear essas equipes menores?

Você pode, muitas vezes, não ter jogadores brilhantes individualmente, mas construir grandes equipes coletivamente. O talento vai sempre decidir, porém, se você não tem isso individualmente, você pode criar grandes dificuldades no aspecto coletivo. E hoje você tem todos esses países que não tinham uma cultura muito forte dentro de uma competição com a Libertadores muito mais evoluídos. Não ter a tradição de não disputar a competição não quer dizer muito. Se você chegou à competição é porque no anterior você se capacitou e se credenciou a disputar uma competição desse tamanho. Com isso tem se mesclado cada vez mais grandes clubes com outros de pouca tradição, mas que fizeram grandes temporadas em seus respectivos países. É um pouco de arrogância da nossa parte imaginar que, por produzirmos grandes jogadores e historicamente ter tradição na Libertadores, não vamos enfrentar dificuldades. É um campeonato muito duro, que se decide rapidamente em 14 rodadas. E às vezes, em um momento bom que a equipe está pode fazer toda diferença na hora de avançar e buscar um título.

Qual liga no mundo você gosta mais de ver? Existe um campeonato que te atrai mais? Por que?

Eu gosto de ver vários níveis e várias escolas. Em alguns momentos você vê em campeonatos com menos tradição treinadores mais jovens, mais atualizados, e que estão pensando algumas coisas diferentes. Caras que podem fazer história no futuro. Gosto de ver de tudo, não tenho uma grande preferência ou um mercado em si. Até porque você olha um Campeonato Espanhol, por exemplo, onde a questão financeira acaba determinando, você pode não encontrar um tipo de organização que demonstre uma forma diferente de se jogar. Os jogos acabam sendo muito decididos com talento individual, nos grandes nomes que estes times têm em seu elenco. Vejo todos e também gosto de ver outros esportes. Assisto muito o rúgbi, porque vejo um jogo coletivo muito forte, situações muito próximas com as que acontecem no futebol. Gosto muito de ver o basquete, o handebol também, pelo fato de o princípio do jogo ser muito parecido. Assisto um pouco do futebol americano também. Por ter o processo ofensivo e o defensivo bem diferente, separados por duas equipes e você consegue enxergar bem algumas coisas nestes momentos do jogo. Resumindo, vejo de tudo.

O que é jogar bem para você?

Pois é, cara. O que é jogar bem? Vamos lá. O princípio do jogo de futebol é você fazer gols e não tomá-los. O jogo tem fases e momentos, organização ofensiva, defensiva, transições e as bolas paradas. Você pode muito bem acreditar nisso e fazer um jogo que priorize totalmente o momento da bola parada. De usar bem os tiros de meta, os laterais mais longos, escanteios, faltas laterais... Você pode acreditar em ter a bola e tentar dominar o jogo e o adversário com 80% de posse. Por outro lado você pode abrir mão da bola, ter 40% de posse, apostar nas transições defesa/ataque e chegar no gol do seu oponente em menos de 10 segundos. Às vezes até com pouquíssimos toques na bola. Nós como treinadores precisamos estar sempre muito aberto e prestando bastante a atenção no que você tem de material humano. Jogar bem é vencer e vencer significa fazer gols e não tomar gols. Agora, a forma que você faz, plasticamente pode ser mais bonita, jogando com a bola no chão e envolvendo o adversário. Por outro lado você pode usar a característica de um jogador de área, por exemplo. Eu joguei em um time na década de 90 (Grêmio) que tinha o Jardel de centroavante. Ele pedia para gente não tocar a bola no pé dele, que não era para tentar uma tabela. Ele queria bola no alto, bola para disputar de cabeça. Era chegar no lado do campo e alçar bem essa bola para área. Ele pedia para chutar na cabeça dele. A gente fazia e lá dentro ele acabava resolvendo. Então o jogar bem é relativo. O esporte é um espetáculo. Para mim, prestigia o espetáculo é ter o maior tempo possível de bola rolando. E você pode fazer isso de várias formas. Pode ser com a bola, sem a bola, transição... Acho que o que está na regra do jogo a gente deve usar. Existem várias maneiras de se ganhar e várias de se jogar bem. Você pode ter uma bola e ser eficiente. Pode criar dez chances e não conseguir marcar, passando a ser considerado um ataque pouco eficiente por você ter concluído mal perto das chances que você criou. Então depende, depende muito...

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