A má interpretação da posse de bola e os enganos trazidos pelos números frios no Brasil

Renato Rodrigues, do DataESPN
Getty Images
Mourinho e Guardiola sempre travaram grandes duelos de times com e sem bola
Mourinho e Guardiola sempre travaram grandes duelos de times com e sem bola

O Campeonato Brasileiro de 2017 tem levantado um grande debate sobre a posse de bola. A discussão, que ganha destaque por nossa cultura que busca um futebol vistoso e primordialmente jogado com a bola, gera, na maioria das vezes, um tom bastante crítico. A grande questão, no entanto, é quando olhamos para estes números frios, que nunca dizem muita coisa. 

Aliás, este é um problema de como é tratada e feita a estatística no Brasil, quase sempre quantificando e não as qualificando as ações e eventos do jogo, o que geraria uma discussão muito mais profunda e conclusiva.

Cada vez mais se discute a qualificação do número no futebol pelo mundo. Em outros países a estatística já não é pautada simplesmente por desarmes, passes e finalizações, por exemplo. Conceitos de ExpG (expectativa de gol) e cálculos de velocidade de execução (tempo do domínio até a ação) são cada vez mais usados como métricas para se interpretar melhor os números e, consequentemente, o jogo em si. Mas ainda há muito a se explorar neste sentido, principalmente quando existem conceitos por trás de toda essa interpretação/elaboração dos números.

Então voltamos à posse de bola. 

São várias as falhas nas métricas deste quesito. O dado normalmente funciona com 63% para X e 37% para Y, por exemplo. Mas onde entra a bola que não está em jogo? Momentos em que equipes ainda se preparam para um lateral, um escanteio, tiro de meta ou mesmo o atendimento de um atleta lesionado. Não deveríamos então determinar algo para esse tipo de situação? E quando uma bola é quebrada no tiro de meta. Ela está viajando ainda, às vezes ainda fica viva em lances de 1ª e 2ª disputas. Onde computamos estes períodos no modelo que estruturamos tal dado?

Neste momento é de grande importância qualificar essa posse e isso pode ser feito de várias maneiras. 

Primeiro podemos abordar onde ela aconteceu. Este dado, aliás, apesar de ser medido por muitas plataformas, não é tão usado. Por exemplo, de nada adianta ficar com a bola se a circulação dela não chega ao último terço do campo - parte ofensiva se dividirmos o terreno de jogo em três (veja no vídeo abaixo). E porque também não classificar a entrada da posse nesta última parte do campo. Quanto de finalização foi gerada a partir disso? Quantas essa bola precisou ser tocada para trás? Por que isso aconteceu? Perdeu, errou ou mérito do adversário? São todas respostas bem vindas dentro de um processo e que saem do dado puro e simples. E podemos ir além. Quantos passe para frente, quantos para trás ou para o lado? Quantas vezes esses passes quebraram linhas de marcação?

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Outra pergunta interessante em cima da posse é: em qual velocidade a circulação da bola foi feita? No Brasil se passa muito, mas quase sempre se faz isso de forma lenta. Em entrevista ao blog, Roger Machado, ex-treinador de Grêmio e Atlético-MG, fala muito da necessidade dessa troca de passes alternar distância, velocidade e direção (clique aqui e veja). Vários estudos provam que, contra times bem organizados em fase defensiva, são estes mecanismos de alternâncias e movimentos que geram desequilíbrios e espaços para atacar (veja no vídeo abaixo o Corinthians com dificuldades para acelerar sua posse contra o Santos). 

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O exemplo acima do Corinthians de Fábio Carille também nos traz um outro questionamento. Durante o primeiro turno do Brasileirão os alvinegros, tidos com um estilo de jogo mais reativo, chegaram a ter um número intrigante: menos posse na maioria das partidas e maior número de troca de passes do campeonato. Mas como isso? O time que não gosta da bola é o que mais passa? Sim. Porque se passa rápido, muitas vezes de primeira e com muita objetividade. Não foram poucas as jogadas construídas assim e com a obrigação de se propor o jogo. Por serem ataques rápidos, muitas vezes essa posse do Corinthians era confundida com contra-ataque.

Mas forçar os passes, como dizem os treinadores, não é algo tão simples. Primeiro que a exigência técnica para fazer isso é alta. A confiança nas ações, principalmente no primeiro toque, domínio e passe, precisam estar num nível bastante desenvolvido. E isso bate muito com a naturalidade (ou não) do modelo de jogo da equipe, algo que só se consegue desenvolver com tempo e treinamento.

No Brasil, como bem sabemos, quando não se troca treinador a cada semestre (sendo bem otimista), se muda elenco. Então nem a coesão de uma forma de jogar é possível em várias ocasiões. Veja como tudo está interligado.

A forma de jogar de uma equipe também é muito preponderante para se interpretar posse de bola. São várias as maneiras de se ganhar um jogo e por isso, obviamente, diversas maneiras de jogar. O treinador trabalha em cima de uma escolha de modelo, geralmente feita ainda lá na pré-temporada. E para isso, é necessário também entender as características do seu plantel. Se você tem jogadores rápidos e de muita capacidade de jogar em transições, mas que não trazem consigo grande facilidade no jogo curto, como buscar um modelo de posse a todo custo? E pode acontecer no caso contrário. Não se pode exigir de jogadores com um perfil de passe, controle da bola e jogo apoiado, vitalidade para se envolver em contra-ataques mortais.  

Isso nos leva a seguinte conclusão: não adianta simplesmente ter a bola, mas sim saber o que fazer com ela. Como, quando, por onde...

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Então podemos avançar a um próximo passo: a leitura do jogo. A posse precisa ser sempre contextualizada. Primeiramente na questão do placar. Sair na frente ou atrás é um fato importantíssimo para se entender o número bruto, principalmente quando o gol acontece cedo. É muito comum que, quem está atrás no marcador, amplie sua posse. Neste momento também entram questões estratégicas. Muitas vezes é pré-determinado tal comportamento a partir de algum evento chave, como no caso do gol. Já em outras situações a ordem às vezes nem é de recuar e dar a bola ao rival, mas sim por uma imposição do mesmo, que pode passar a acontecer por diversos motivos. Lembrem que existem duas equipes em campo e não só a sua.

Perceba como é complexa toda essa reflexão e que cada caso é um caso. Um jogo de futebol nunca é igual ao outro. São sempre narrativas e acontecimentos diferentes, quaisquer eles sejam, e que podem mudar toda a interpretação da posse de bola. O mais importante é tentar sempre enxergar isso tudo dentro de um conceito, tentar entender cada contexto e levantar diferentes hipóteses.

Até por isso algo tem sido muito recorrente no futebol, inclusive brasileiro, nos últimos anos. Ao invés de usar plataformas que disponibilizam toda essa "numeralha" praticamente em tempo real, os clubes estão buscando uma saída bastante interessante. Não são poucas as comissões técnicas que produzem suas próprias estatísticas e métricas de jogo. E é aí que entra a Análise de Desempenho que tanto é falada no mercado atual.

Entender e fazer parte do processo é de grande importância. Até para saber o que vai se avaliar nesse contexto estatístico. Por exemplo: o treinador deu uma orientação ao seu centroavante que, quando a bola é passada para trás na saída do adversário e lateral/zagueiros ficam de costas para o restante do campo, é tarefa dele ir pressioná-lo. Ele, neste sentido, servirá como um sinal para o restante da equipe subir suas linhas e encurtar o campo. Ao fazer essa pressão no zagueiro/lateral que, por sua vez, toca a bola para fora, este jogador precisa ser recompensado, certo? Pois é. Se levarmos a estatística fria, ela será apenas computada como um passe errado do jogador pressionado. Mas não seria uma recuperação de bola/desarme do centroavante? E o defensor, não estaria fazendo o correto já que não tem opções de apoio? 

É por tudo isso que sou um pouco reticente aos números no futebol. Principalmente quando não há conceitos por trás deles. Obviamente que a estatística é uma grande ferramenta para medir e se chegar à algumas conclusões, mas ela nunca pode fazer isso sozinha. O entendimento do jogo precisa estar sempre ao lado. Quem tenta explicar o jogo apenas com os números, simplesmente não entende o jogo. 

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A Seleção Brasileira de Tite e a banalização da variação tática

Renato Rodrigues, do DataESPN
Pedro Martins/Mowa Press
Tite faz boa campanha com a Seleção Brasileira nas Eliminatórias
Tite faz boa campanha com a Seleção Brasileira nas Eliminatórias

Classificada com antecedência para a Copa do Mundo de 2018, invicta em jogos oficiais sob o comando de Tite e dona da melhor defesa das Eliminatórias da América do Sul, a Seleção Brasileira, enfim, volta a passar ares de confiança. Tamanha tranquilidade, no entanto, traz à tona algumas discussões visando o futuro próximo. Os questionamentos agora passam pelas vagas no elenco e até a qualidade dos amistosos que virão pela frente. Todos debates bem importantes.

Mas uma destas questões chama bastante a atenção: a necessidade (quase uma imposição por boa parte da crítica) de "procurar e testar outras formas de jogar".

A preocupação é sempre apontada por conta dos diferentes cenários que Tite pode ter pela frente durante a Copa. Adversários mais retrancados e que amarram o jogo a todo custo ou mesmo rivais com um repertório técnico maior que o enfrentado até então. Uma abordagem que busca, acima de tudo, antecipar problemas. E dentro de toda essa discussão conseguimos notar um termo bastante usado nas argumentações: a variação tática.

Então vamos ao ponto. O primeiro passo desta reflexão é tentar definir tática. Muita gente acha que tática no futebol é, especificamente, as plataformas de jogo como 4-3-3, 4-4-2, 3-5-2... Mas tática é algo mais amplo e está muito mais próxima do modelo de jogo. Do todo em si. Algo bem mais complexo que os números de linha de ônibus como dizem por aí. 

O sistema tático é um dos braços, mas com ele traz comportamentos coletivos e individuais. O que faço quando tenho a bola? Vou construir por onde e a partir de que? E quando a perco a posse? Pressiono ou posiciono? E quando a recupero novamente? Todas estas perguntas precisam ser respondidas quando se cria um modelo, uma forma de jogar. 

Portanto a tática é o plano. É a estratégia completa para se chegar ao objetivo maior (o gol, obviamente) e, ao mesmo tempo, evitar que o adversário chegue ao mesmo. Ao estudar e analisar tática, não se olha apenas para o desenho que aquele time está posicionado. Se leva em conta ações técnicas, físicas e também de caráter psicológico. Por isso falar de tática é falar do todo. 

Então passemos a falar de variação tática. Tite, quando trocou Coutinho por Renato Augusto, fez uma alteração no sistema. Foi do 4-1-4-1 para o 4-2-3-1 em alguns momentos. Mas e quando não houve uma troca de plataforma? Se configura uma variação? Trocar um meia mais posicional, de ocupação de espaços e que organiza o jogo de trás por um outro mais agressivo, agudo e que usa o drible para criar situações, seria uma alteração do plano? Estaria o treinador pensando em uma outra forma de fazer algo pré-estabelecido anteriormente?

O objetivo segue o mesmo. A forma de como chegar a ele, de fato, sofre uma variação neste sentido. Chegar ao gol com Renato Augusto em campo é diferente de fazer o mesmo com Coutinho. Pense em uma grande máquina cheia de engrenagens e peças redondas no seu centro. Assim montada, ela funciona de uma maneira padrão. Ao tirar uma destas peças e usar um quadrada em seu lugar, inevitavelmente, altera o funcionamento desta máquina. A questão é que você pode variar de maneira mais radical ou com situações mais pontuais, sem grande impacto no todo.

Ao usar esta simples analogia, chegamos à conclusão que o futebol é um jogo feito de muitas e seguidas variações táticas. Seja na mudança de postura, de plataforma ou mesmo de atletas que, por si só, já se diferem por suas características únicas como indivíduos. Claro que existem as situações de troca "seis por meia duzia", quando você faz a opção por um jogador com individualidades e comportamentos parecidos com o que está em campo. Neste caso até vale a discussão se realmente se trata de uma variação tática, já que se trata de mudanças mais sutis. E isso realmente é algo recorrente.

Agora levemos essa reflexão para a Seleção Brasileira e, principalmente, levando em conta o contexto que ela está inserida. Mesmo que seja apenas trocando características de jogadores, Tite vem fazendo e testando variações táticas. Coutinho por Renato muda o plano inicial e a relação entre os jogadores dentro de campo. Firmino no lugar de Gabriel Jesus te traz outras alternativas. Agora, se você quer discutir o grau de audácia e do quanto são drásticos este testes, é outra história. Mas, de fato, são variações.   

De um modo geral Tite sempre se mostrou um treinador mais conservador. E isso não tem a ver com ser ofensivo ou defensivo, bom ou ruim... Mas sim de não abrir mão de algumas convicções e essências do seu modelo. Não é de seu feitio mudar tudo de uma hora para a outra por uma oscilação no caminho. A forma como ele trabalha a linha defensiva é um bom exemplo. Não espere de Tite uma mudança para três zagueiros. Ou mesmo um 3-4-3 no melhor estilo Antonio Conte, como muita gente pede. 

Temos sempre que levar em conta o quanto radical são estas alterações. Muda-se a ocupação dos espaços,  as linhas de coberturas... Não é algo tão simples de ser feito. 

A variação de plataformas de jogo talvez seja a que mais salte aos olhos de quem assiste futebol no Brasil. Mas não se trata de um processo fácil dentro de uma equipe, principalmente quando o treinador não tem o dia a dia de treinamentos de um clube. A Argentina de Jorge Sampaoli, como explico neste post (clique aqui), é um bom exemplo.

Se olharmos para o cenário mundial hoje, talvez os maiores "camaleões" do futebol sejam a Alemanha e a Juventus. Estas mudanças de sistemas, muitas vezes até se adaptando ao adversário e ao que o jogo pede, se mostraram (e mostram) bem eficazes nestes dois casos. É de fato algo fluído e espanta a naturalidade como são feitos estes movimentos e trocas.

Mas se olharmos bem afundo, existe uma particularidade bem importante nestes dois casos citados acima: o tempo de de trabalho dos treinadores. Enquanto Joachim Löw comanda os alemães desde 2006, Massimiliano Allegri está à frente da equipe de Turim desde julho de 2014. Ou seja, não é algo que se atinge em pouco tempo e, se mal feito, principalmente pouco absorvido por todos os jogadores, tende a ser bem desastroso. 

E toda essa reflexão nos leva a uma outra cobrança bem comum no nosso país: "mas essa equipe só tem um jeito de jogar!". Tal afirmação acontece muito quando times grandes enfrentam retrancas, por exemplo. Mas como um time, dentro de toda essa complexidade que é criar um modelo de jogo, consegue ter duas formas de jogar? Digo isso levando em conta que o papel do treinamento é estimular comportamentos dentro de uma ideia central.

E como trabalhar toda uma ideia e, de repente, falar aos jogadores: "bom agora vamos jogar assim para ter uma segunda forma de jogar"?. Consegue perceber todo o conflito de ideias que isso pode nos levar? Existem algumas saídas menos bruscas como criar mecanismos que alterne ritmos dentro deum jogo, escolher momentos de esperar ou propor... Opções para situações específicas. Mas é isso no máximo. E se você tiver um calendário como o brasileiro, por exemplo, multiplique toda essa dificuldade.

Dificilmente Tite sairá do 4-1-4-1 e 4-2-3-1 até a chegada da Copa do Mundo. Linha defensiva sólida, que flutue bem para o lado da bola. Triangulações e associações pelos lados. Muito ataque aos espaços. Preenchimento do funil, seja ofensivo ou defensivo. Estes são alguns dos pilares do seu trabalho. Acredito muito mais em fortalecer estes padrões do que propriamente investir em testes mais evasivos. É o momento de potencializar o que está dando certo e corrigir o que não vem fluindo tão bem - já que os últimos dois jogos, apesar do caráter atípico, mostraram algumas deficiências.

Claro que cabe ao treinador observar saídas e ajustes para diferentes cenários que virão pela frente. Entender o repertório e soluções que cada individualidade do elenco podem lhe trazer. Mas nada tão drástico. Quando você pedir variação tática a um treinador, lembre-se que elas estão ali a todo o tempo. Seja na Seleção ou no seu clube de coração. Se elas dão certo ou não, aí já é outra coisa. E quando você pedir para um time ter mais de uma maneira de jogar, fique atento, pois pode ser que ele não tenha nem uma forma bem estabelecida ainda.

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Das novas ideias às dificuldades na execução: a estreia oficial da Argentina de Jorge Sampaoli

Renato Rodrigues, do DataESPN

Power Sport Images/Getty
Argentina teve dificuldades na estreia de Sampaoli em jogos oficiais
Argentina teve dificuldades na estreia de Sampaoli em jogos oficiais

A 15ª rodada das Eliminatórias da América do Sul para a Copa do Mundo de 2018 trazia consigo uma grande expectativa em território argentino: a estreia oficial de Jorge Sampaoli à frente de sua seleção (antes, dois amistosos: Brasil e Singapura). Com Tite, Neymar & Cia. já classificados para a Rússia, o clássico contra o duro Uruguai acabou por ser a atração da noite no continente. Se por um lado o confronto em Montevidéu não foi dos melhores tecnicamente, por outro nos trouxe claramente algumas ideias que o novo treinador alviceleste planeja. Mas foi na execução destes conceitos que vieram os problemas.

A Argentina esteve longe de ser brilhante. Mas teve o controle na maior parte do jogo, com duas coisas sempre buscadas por Sampaoli em suas equipes: posse de bola e jogo no campo do adversário. Por outro lado, faltou a intensidade de jogo tão característica no seu Chile campeão Sul-Americano. No geral, tudo dentro de uma normalidade no início de um trabalho que, devemos sempre lembrar, não tem o dia a dia de clube como suporte. 

Treinar seleções, como sabemos bem, é uma faca de dois gumes: se trabalha com o melhor material humano,mas se perde com treinamentos, fator determinante para a criação de um modelo coeso e vitorioso. O Chile treinado pelo argentino, por exemplo, teve nada mais nada menos que 4 anos de projeto. A grande questão, no entanto, é o momento de sua chegada, que deixa tudo urgente. Hoje a Argentina, na quinta posição, teria uma repescagem pela frente. 

As mudanças já começaram na plataforma de jogo. Nada das variações de 4-4-2 e 4-2-3-1 que vinham sendo usadas por Edgardo Bauza. A ideia inicial de Sampaoli teve como base o sistema 3-4-2-1, uma leve variação do 3-4-3 tão usado com a seleção chilena (veja o posicionamento argentino na ilustração mais abaixo). 

Só a alteração da linha defensiva por si só já se trata de uma ruptura significativa na aplicação do jogo. Diferentes posturas sem a bola, maior espaço de coberturas e, principalmente, mais agressividade de seus três zagueiros. Todas ideias que foram até bem absorvidas defensivamente. De fato os hermanos pouco sofreram, sobretudo com os sempre perigosos contra-ataques uruguaios.

Sampaoli posicionou Fazio, o zagueiro com menos mobilidade e maior estatura, centralizado. O deixou em uma situação de menos exposição, com menos embates pessoais e mais ações de cobertura. Essa tarefa, principalmente na hora de desgarrar e pressionar o portador da bola, ficou nas mãos de Mercado (pela direita) e Otamendi (pela esquerda). Mais móveis e com melhor repertório no 1x1 e na troca de direção, ambos foram de grande importância para "abafar" as transições do adversário.

Em organização ofensiva, durante a iniciação das jogadas, quem estava no lado da bola tinha mais liberdade para avançar e buscar um passe mais vertical. Quando Mercado - que também atua como lateral-direito - assim fazia, Otamendi fechava por dentro no lado oposto. Tal estratégia servia para o outro zagueiro lateral também. 

Mas talvez tenha sido nessa primeira etapa de construção do jogo que a Argentina tenha revelado sua grande dificuldade na partida. Esse plano de saída acarretou em uma sequência de deficiências até o passe final. Junto deste trio de zagueiros, existia uma grande aproximação dos volantes Pizarro e Biglia. Com características mais posicionais e de organização por trás, faltou gente circulando próximo à entrada do terço ofensivo do campo. 

Pizarro e Biglia levantavam a cabeça e viam o seguinte cenário na fase ofensiva: Acuña (pela direita) e Di Maria (pela esquerda) bem avançados. Os alas, neste caso, tinham a missão de abrir o campo. Ao dar essa amplitude, muitas vezes também com profundidade, acabavam deixando de ser apoios relevantes. Quando essa bola entrava em um deles pelas beiradas, os uruguaios pressionavam com muita gente o setor e essa bola voltava a ser passada para trás. Enquanto isso, apenas Messi e Dybala trabalhavam entre as duas linhas de 4 do time de Óscar Tabárez (veja na segunda ilustração abaixo).

DataESPN
No primeiro campo, a Argentina na plataforma usada contra o Uruguai. Na segunda, a dificuldade para criar jogadas
No primeiro campo, a Argentina na plataforma usada contra o Uruguai. Na segunda, a dificuldade para criar jogadas

Esse posicionamento "encaixotado" vivido por Messi e Dybala - as grandes referências técnicas da equipe - foi um problema crucial para o volume ofensivo argentino não ter sido maior. Mais adiantado, Icardi tinha a responsabilidade de gerar profundidade, incomodando os zagueiros como pivô e, principalmente, arrastando a linha defensiva uruguaia para o mais perto do gol possível. Praticamente não saiu dali. Não dá para saber se foi uma ordem ou mesmo questão das características do centroavante, mas faltou uma dinâmica neste espaço.

Em vários momentos, até saindo da ideia de se posicionar entrelinhas, Messi recuava para buscar a bola e tentava uma jogada individual. Em uma ou outra escapada, sempre usando o duelo pessoal com dribles e arrancadas, o camisa 10 conseguiu desequilibrar a organização do adversário. Dybala, por outro lado, esteve bastante apagado. Se prendeu ao posicionamento entrelinhas e pouco encostou no lado esquerdo, deixando Di Maria sem apoios e situações para triangulação.

A falta de associações pelos lados do campo também passa a ser um problema a ser resolvido. Tanto Acunã como Di Maria sofreram neste quesito. Sem grande aproximação dos companheiros, acabaram apostando apenas em corridas em profundidade. Di Maria, por exemplo, explorou bem o espaços nas costas de Cáceres. Mas, de forma geral, pouco foi construído pelas faixas laterais. 

Quando a seleção argentina não tinha bola os alas alternavam momentos em que fechavam na linha defensiva. Não foi uma regra, mas feito quando necessário. O jogador do PSG, inclusive, foi muito exigido neste sentido e, de fato, deu uma boa resposta nestes retornos. Não é uma situação ideal, mas com adaptação e muito estímulo, Di Maria pode vir a ser uma peça importante nesta função.

Com todo este contexto desenhado até aqui: volantes trabalhando por trás, alas dando amplitude e Messi/Dybala neutralizados e em inferioridade numérica no setor que preenchiam, faltou mobilidade. Talvez a necessidade tenha sido de um jogador com características diferentes no setor dos volantes. Alguém até menos organizador, só que mais agressivo, infiltrador e dinâmico. Justamente para, em determinados momentos, se juntar à dupla "encaixotada" ou mesmo atacar espaços na área uruguaia vindo de trás. Outra saída poderia ter sido atuar com um 9 mais móvel, que saia da referência em alguns momentos e trabalhe o jogo curto por dentro, ajudando a criar espaços na linha defensiva. 

No geral não foi um grande desempenho da Argentina (muito menos do Uruguai). Mas foi possível observar alguns planos para curto/médio prazo. Já existe um modelo de jogo sendo colocado em prática, mesmo que ainda pouco absorvido pelos aletas. E Sampaoli agora corre contra o tempo para fazer deste grande apanhado de qualidades uma unidade sólida, criativa e competitiva. Na corrida pela vaga na Copa do Mundo,  ele precisará se desdobrar para achar saídas. Afinal, não tem longo prazo para quem pegou o bonde andando (e com mais da metade do caminho percorrido!). Qualidade para isso Sampaoli tem. 

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Vertical, infiltrador e mutável no meio: o que esperar de Reinaldo Rueda no Flamengo?

Renato Rodrigues, do DataESPN
Gazeta Press
Rueda chegou ao Flamengo com a missão de 'reviver' o time
Rueda chegou ao Flamengo com a missão de 'reviver' o time

Apresentado como novo treinador do Flamengo nesta segunda-feira, Reinaldo Rueda chega ao Brasil credenciado ao sucesso que fez no Atlético Nacional da Colômbia. Por lá construiu praticamente uma hegemonia: Libertadores, Recopa, Campeonatos Colombianos, Copa... Não foram poucos os títulos conquistados na cidade de Medellín. Mas, afinal, o que esperar do treinador colombiano nesta sua passagem pelo futebol brasileiro?

O primeiro ponto a se destacar é o choque cultural que ele pode vir a trazer ao futebol brasileiro. E vamos tirar como parâmetro a sua passagem pelo Atlético Nacional, onde praticou um futebol altamente vertical, intenso e até "mutável". Rueda pensa o jogo de uma maneira um pouco diferente da que estamos acostumados e, sem tempo para colocar tais ideias em prática, pode ser queimado como os "Aguirres", "Garecas" e outros gringos que por aqui passaram. 

Demonizado por boa parte da crítica, o tal do rodízio de jogadores fez parte do seu dia a dia durante este período vencedor no Atlético Nacional. Juan Carlos Osório seu antecessor, por exemplo, sofreu certa rejeição por conta disso no São Paulo. Rueda, no entanto, não é um "improvisador nato". Não fazia tantas trocas, mas gostava de usar as características de seus atletas, principalmente no meio, para levar vantagem sobre adversários. 

Estas alterações nos 11 sempre passavam pelas necessidades estratégicas do jogo. Mas foram raros os momentos em que o colombiano escolheu usar um volante mais marcador na sua essência - caso de Márcio Araújo. Na grande maioria das vezes, o novo comandante do Fla sempre buscou ter meio-campistas mais construtores na linha de 2 à frente da linha defensiva do 4-2-3-1. Na época Mejía, Sebástian Pérez e até Alejandro Guerra (meia de origem) eram escalados na função. Cabia a eles dar maior qualidade na iniciação das jogadas. Agora ele terá em mãos Cuellar, Willian Arão e até o jovem Ronaldo, que teve poucas oportunidades com Zé Ricardo.

E esses primeiros passes na primeira etapa de construção eram importantíssimos para a fluidez ofensiva da sua equipe. Rueda pratica um futebol apoiado. Tenta fazer com que o portador da bola tenha sempre duas ou três opções para jogar. No entanto, busca apoios mais longos e verticais. Por conta disso, seus volantes tinham um forte passe de ruptura, que quebravam as primeiras linhas de marcação. A busca era sempre achar os espaços entrelinhas, seja em Macnelly Torres (meia, mas com boa retenção da bola) ou mesmo nos pontas que, em alguns momentos, também circulavam por uma região mais central. Esse jogo mais direto e objetivo, inclusive, é um dos pontos que a equipe rubro-negra, acostumada a longas posses sem grande efetividade em 2017,  precisar evoluir.

Ainda dentro deste rodízio de jogadores, o treinador variava o uso de dois pontas mais agudos (Éverton, Berrio e Geuvânio, por exemplo) com um meia mais organizador por um dos lados do campo. O agora palmeirense Guerra, por exemplo, fez de tudo sob seu comando. Atuou mais recuado como volante, jogou como meia central e também como ponta-construtor - função preferida de Éverton Ribeiro.  O jovem Marlos Moreno, mais tarde vendido ao Manchester City e ainda sendo emprestado para equipes menores da Europa, também cumpria mais de uma função. Com Rueda, atuou aberto pela esquerda e também como um 9 mais móvel. 

Toda essa variação de características e escolhas para determinadas partidas pode casar muito com o plantel que o Flamengo tem em mãos hoje. Afinal, trata-se de um dos elencos com mais profundidade do Brasil e que, dentro destas ideias do treinador, terá uma rotatividade interessante.

Apesar de ter usado o 4-2-3-1 como plataforma base para sua equipe, Rueda também não se prende muito ao sistema. Variou para o 4-1-4-1 e até para formações com três zagueiros em partidas fora de casa. O mais importante é, independentemente da formação, é que sempre tentou manter suas ideias centrais de jogo. O que prova o quanto o sistema, mera referência posicional, tem perdido sua relevância com o passar do tempo. Sua prioridade sempre foi encaixar características e fazer com que seus jogadores se completassem.

Um dos pilares do seu modelo de jogo para atacar o gol do adversário era a infiltração. Com incessantes movimentos em profundidade e passes verticais vindos dos volantes, o Atlético Nacional de Rueda era muito móvel na construção do jogo. Toca e projeta no espaço, toca e projeta no espaço... Diagonais dos pontas e corridas em profundidade dos centroavantes (principalmente com Borja, forte nessa corrida no ponto futuro da bola) eram seus movimentos preferidos. Era um time que acelerava a qualquer custo.

Tanto que, parte dos gols marcados, acontecia por uma ação sem a bola muito nítida no modelo: o perde e pressiona. O novo treinador do Flamengo nunca escondeu o seu desejo em recuperar a bola o mais rápido possível. Perdeu a posse, ataca a bola, agride e coloca intensidade. Por vezes a bola era recuperada ainda no campo ofensivo e com o adversário desequilibrado, ainda tentando entrar em organização ofensiva. Esta era uma das grandes marcas daquele Atlético Nacional.

Por outro lado, essa pressão imediata expunha dava uma certa exposição à linha defensiva. Sempre que o adversário conseguia tirar essa bola da pressão, ganhando campo para atacar, os zagueiros desgarravam em encaixes individuais para caçar os atacantes. Por conta disso, Rueda não tinha em seus laterais jogadores com grande liberdade ofensiva. Ambos construíam mais por trás e tinham bons movimentos na transição defensiva, o que ajudava nessa situação com os zagueiros, gerando boas coberturas e superioridade numérica na volta. A situação se tornava ainda mais perigosa com Henriquez, zagueiro de pouca mobilidade e troca de direção - casos de Réver e Juan no elenco rubro-negro.

Assim como qualquer treinador, Rueda tem pontos fortes e fracos. A questão vai ser tentar enxergar a realidade em que ele agora está inserido e se adequar às características do elenco que tem em mãos. Toda essa análise tem como base seu último trabalho, mas, num local e jogadores diferentes, não quer dizer que todas estas ideias serão repetidas e "copiadas". Que o colombiano tenha tempo para quebrar de vez esse paradigma dos estrangeiros por aqui.

Afinal, trata-se de um profissional de qualidade já comprovada. E, ao invés de vez reclamar da falta de espaço para treinadores brasileiros, temos que encarar essa chegada como uma nova oportunidade de trocar experiências. Nosso crescimento também passa por isso.


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Egídio, a raça e o Palmeiras que correu errado na Libertadores

Renato Rodrigues, do DataESPN

Cesar Greco/Divulgação
Time comandado pelo técnico Cuca foi eliminado na Libertadores
Time comandado pelo técnico Cuca foi eliminado na Libertadores

A cobrança começou e vai ser mais forte. O Palmeiras, de grandes investimentos para 2017, não ganhou o Paulista, caiu precocemente da Copa do Brasil e Libertadores, e agora se vê longe do líder e arquirrival Corinthians no Brasileirão. Como de costume dentro de uma cultura de futebol "resultadista" e individualista, a caça às bruxas também promete ser feroz. E já temos um candidato a vilão: Egídio. Um só (UM!) culpado por uma derrota dentro de um esporte altamente coletivo, onde mais 40 pessoas estão envolvidas em todo um processo que interfere no resultado e no desempenho dentro de campo. 

Mas a ideia central aqui é falar de desempenho. Tratar o futebol como coletivo. Com isso ficam as seguintes perguntas: você, palmeirense, mesmo que tivesse passado pelo Barcelona-ECU, com Jailson defendendo três ou quatro penais, uma vitória épica dentro de casa, torcida empurrando, time lutando... Ainda assim estaria satisfeito com o futebol do seu time? Realmente acha que ganhou está tudo bem e perdeu não serve? Acredita piamente que este elenco - apesar dos seus desequilíbrios (chegaremos a isso lá na frente) - não pode praticar um futebol melhor e mais atual? Se sim, pare por aqui. Se não, vamos em frente...

Falar de garra, de raça ou de entrega neste momento é beirar a preguiça. Já cortamos isso por aqui. Apesar da doída eliminação, o que não faltou foi vontade. O Palmeiras correu, correu, correu... A grande questão é: correu certo? Existia uma organização por trás de tanta raça? Vamos tratar de erros e acertos, de virtudes e deficiências, boas e más escolhas. Fugir do 8 ou 80. 

É nítido que Cuca tem um modelo de jogo para sua equipe. É possível enxergar as ideias de jogo que o treinador busca: intensidade e agressividade, ações verticais e muita aposta em duelos pessoais, seja defendendo ou atacando. Tem consigo uma ideia de futebol totalmente estratégico. De estudar, se adaptar e atacar as fraquezas dos adversários. Não pensa duas vezes em alterar sistema ou escalação para privilegiar algum encaixe ou proposta de jogo.  Trata-se de um treinador altamente engenhoso e inquieto quando as coisas não vão tão bem. Qualidades importantes para a profissão.

Por outro lado, trata-se de um modelo que, apesar dos resultados da última temporada - onde atingiu um desempenho muito satisfatório, principalmente no 1º turno -, está longe de ser atual. Chegamos a essa conclusão quando observamos o tipo de futebol que é praticado nos grandes centros do planeta. Um modelo que tem exposto falhas e deficiências que, ao contrário do ano passado, ainda não foram corrigidas e são exploradas pelos adversários. O Cruzeiro, por exemplo, explorou como ninguém as quebras da linha defensiva alviverde, que acontecem por conta dos encaixes individuais e longas perseguições na fase defensiva. Arrastou zagueiros e laterais para longe da área e atacou espaços por eles deixados. O rival Corinthians, nos dois gols marcados no Allianz, fez a mesma coisa.

O Palmeiras ataca a todo custo. E ataca muito sem a bola. Escolhe como estratégia em algumas partidas pressionar a saída de bola do adversário, como fez contra o Barcelona. Mas não é condicionado a isso. Sobe seus atacantes, mas apenas pressiona a bola. Não consegue, em muitos momentos, fechar linhas de passe, cobrir espaços... Pressionam a bola e quem está com ela. Corridas de frente, sem fechar o passe. Os atletas se desdobram, mostram empenho de sobra, mas correm errado. Sabe aquela velha expressão de que "fulano só corre errado"? Os primeiros 45 minutos do Verdão contra o rival equatoriano é o melhor exemplo disso.

Ainda em cima dessa tentativa de sufocar o adversário, principalmente nos primeiros minutos, o Palmeiras se mostra um time espaçado. Atacantes e meias avançam, tiram espaço na iniciação do rival. A ideia é recuperar a posse o mais próximo do gol e reagir com velocidade. Na temporada passada, os alviverdes fizeram grande parte de seus gols recuperando a bola no campo ofensivo. 

Mas e quando esse adversário consegue tirar a bola dessa pressão? A linha defensiva, ao invés de avançar e diminuir o campo, como fazem as grandes equipes que optam por esse conceito, fica posicionada em bloco médio/baixo. Com isso o adversário tem campo e espaço para atacar. Se um lateral já foi batido no caminho por que saiu para caçar, a linha nem sustentada está mais. Com a velocidade como grande característica, o Barcelona chegou em condições de concluir jogadas na área palmeirense em vários momentos. 

Falta repertório ofensivo. E a questão aqui nem são os laterais na área. Se bem treinados, podem, sem demérito algum, ser um recurso. Mas em alguns jogos o Palmeiras mostra uma grande dificuldade para propor o jogo, criar, ter a bola... Contra o Barcelona cruzou bolas totalmente aleatórias. Não condicionou o time a um bom cruzamento. Alçou bolas na área de forma antecipada, com a bola vindo de frente para os zagueiros rebaterem. Muitas vezes nem preencheu bem o setor para finalizar. Fora as faltas de quase o meio de campo que foram jogadas na área. O Palmeiras abriu mão de colocar a bola no chão, de circular, movimentar, abrir espaços... Foi uma partida pautada nas transições. Recupera e acelera, recupera e acelera, recupera e acelera... Os equatorianos, por conta de suas características, entraram na onda.

Cuca não tem culpa de não ter seus meias em perfeitas condições para a decisão. Mas tem culpa por não trabalhar jogadores para cumprirem funções. Por reservas não entregarem o mesmo que seus titulares. Corinthians e Grêmio, por vezes desfalcados, conseguem manter nível parecido com quem entra e cumpre as obrigações do titular. Claro que a qualidade pode cair um pouco, normal. São jogadores diferentes. Mas não dá para esperar mais de 6 meses por Moisés para o time ficar mais criativo.

Sobre Egídio, a implicância tem algum sentido se olharmos algumas atuações individuais do jogador. Trata-se de um lateral-esquerdo que tem suas dificuldades, principalmente defensivas. Mas, por incrível que pareça, trata-se de melhor lateral-esquerdo do elenco. E aí que vem o desequilíbrio. Cuca já testou Michel Bastos (que não foi bem), Zé Roberto (que tem dificuldades posicionais na linha defensiva) e nada. Na direita, jogou com Tchê Tchê. O Palmeiras gastou com dois centroavantes, meia, volante, zagueiro... Porque não laterais de maior qualidade? Então existe um erro no planejamento, na montagem do elenco. Então a diretoria também tem sua parcela.

A questão aqui não é defender ou criticar X ou Y. Egídio está dentro de todo um contexto complexo que é uma equipe de futebol. Ali está por decisões técnicas. Que ali também está por questões administrativas. Errou ele, errou Cuca, errou a direção... Uma eliminação, um ano ruim ou uma crise nunca tem um só culpado. Normalmente são vários e vários os motivos para a as coisas não encaixarem. 

Que essa derrota sirva como reflexão para o Palmeiras e o palmeirense. Como a chance para se pensar melhor seu jogo e que tipo de futebol quer se praticar na Academia. Para Cuca crescer como profissional. Ou mesmo para o clube se fortalecer como um todo. O trabalho dos últimos anos, de reconquistar o prestígio e orgulho de seu torcedor, tem grandes virtudes. 

O Palmeiras perdeu por que joga mal. E já faz um tempo. Nada além disso. Então cabe a nós enxergar o que é e não o que quer. 

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