Controle em Montevidéu: o que levou a Seleção a fazer uma partida impecável contra o Uruguai?

Por Renato Rodrigues, do DataESPN
DANTE FERNANDEZ/AFP
Tite durante a vitória do Brasil no estádio Centenário
Tite durante a vitória do Brasil contra o Uruguai, no estádio Centenário

Não inicio este texto falando da grande noite de Paulinho. Muito menos de um Neymar mais coletivo e leve em campo. Tampouco afirmando que a geração ruim ficou boa da noite para o dia. Deixemos isso para depois. Mas me desafie a definir a vitória da Seleção Brasileira sobre o Uruguai, em Montevidéu, por 4 a 1, em uma só palavra? Simples: controle.

Quando voltou às atividades pela Seleção Brasileira em 2017, após a virada do ano, Tite afirmou que o seu grande desafio era trazer aquele desempenho de novembro, que o levou à ponta das Eliminatórias, para março. Não era balela. Realmente era algo para se preocupar. Afinal, não se transfere tudo que foi construído em 2016, mesmo que em pouco tempo, de uma hora para outra e em quatro meses. 

Enfrentar o Uruguai dentro de sua casa não é e nunca foi das tarefas mais fáceis. Mas o Brasil, com todas suas preocupações, tornou o jogo fácil. Mais que isso, teve algo importantíssimo dentro do contexto que se encontrava. Ter o controle absoluto de uma partida é algo raro. Isso, inclusive, é muito confundido com ter a bola. Resumindo, você pode fazer isso com ou sem a posse. Ou em ambos os momentos, como foi o caso.

Estrategicamente, após muito estudo do adversário, Tite e comissão técnica iniciaram a partida com algumas missões. A primeira: preencher bem o setor da bola para gerar superioridade numérica sobre o adversário. Principalmente nas disputas de 1ª e 2ª bola, algo extremamente forte no time uruguaio. O gol celeste, inclusive, apesar da falha de Marcelo, sai após essa disputa aérea. A segunda: tirar o ritmo das transições do time de Tabárez, que usa sempre uma construção mais direta e vertical. Para isso, realizou o famoso "perde e pressiona" com algumas perseguições mais longas da linha defensiva, justamente para sempre pressionar o homem da bola. A terceira, não muito neutralizada: diminuir o volume de bolas paradas ofensivas do adversário, que é muito forte neste momento do jogo. Inclusive foi aí que criaram suas chances. No mais, pouco construíram.

De resto, nada mudou. A Seleção não fez nada muito diferente do que vinha fazendo. Buscou colocar a bola no chão, trabalhou as triangulações e conseguiu, muitas vezes, tirar a bola da pressão na iniciação das jogadas para ganhar campo e profundidade para atacar. A ideia uruguaia, de pressionar essa saída, caiu por terra rapidamente. O primeiro gol de Paulinho é um exemplo claro quando Neymar elimina uma sequência de adversários com a jogada pessoal e acha o ex-corintiano num espaço enorme na região central.

Vendo os brasileiros controlarem o meio-campo, Tabárez puxou Rolan para o lado direito e centralizou Sanchéz, trocando as duas linhas de quatro por um 4-5-1. Colocaram nove jogadores atrás da linha da bola e viram a Seleção Brasileira se compactar no momento ofensivo para propor o jogo. Em momento algum foi sentido o gol de Cavani. Prova de maturidade e confiança na forma de jogar que os atletas demonstram a cada partida.

Com a virada sacramentada, o Brasil deu mais a bola para o Uruguai, que, por outro lado, se desorganizou de vez. Foram várias as chances de contra-ataques brasileiros que, por detalhes, não encaixaram. Poderia ter sido mais. A pressão no lado da bola da equipe celeste, forte na primeira etapa, ficou totalmente aleatória. Os zagueiros, que não têm grande velocidade, atuando em uma faixa mais adiantada, coberturas quebradas...

Resumindo, foi uma atuação para quebrar qualquer tipo de dúvidas quanto ao trabalho desenvolvido. Confesso que também fiquei com o pé atrás quando Renato Augusto e Paulinho, ambos na China, foram convocados pela primeira vez. Mas suas duas primeiras partidas já desmistificaram a crítica. É nítido o quanto a dupla foi intensa como o jogo pedia. Inclusive, em todas as partidas com Tite. Jogaram bem e, por fim, mostram a necessidade de quebrarmos grandes paradigmas dentro do futebol brasileiro.

Outro rótulo importante para deixarmos de lado é a questão do centroavante. Não foram poucos que torceram o nariz ao ver Roberto Firmino iniciando a partida entre os 11. Claro que, para muitos, ele não foi bem. Afinal, o camisa 9 é pago para que? Há quem diz que sua aparição se deu apenas no chute que resultou o segundo gol. Mas não é por aí. O camisa 21 foi muito importante dentro de um plano maior. Se movimentou, atacou espaços com inteligência e abriu brechas para infiltrações. Sem a bola, foi agressivo e prejudicou a iniciação uruguaia. Fez o seu papel. Aliás, trata-se apenas de uma peça dentro de uma engrenagem maior, lembra?

Neymar já não é mais um problema e sim uma solução. Joga mais "leve". Muito próximo da função executada no Barcelona e sem a responsabilidade de resolver sozinho um jogo que é extremamente coletivo. Organizar uma equipe serve para, nada mais nada menos, potencializar o individual. Com Tite no banco, Coutinho jogando bem, Gabriel Jesus explodindo para o futebol, sem a braçadeira de capitão... O camisa 10 se soltou. Quando se preocupa em apenas jogar futebol, vira uma arma letal.

A caminhada da Seleção Brasileira segue firme rumo à Rússia 2018. As expectativas são enormes. Por outro lado, grandes adversários ainda aparecerão pelo caminho. O grande desafio agora, talvez, é  manter esses pés no chão e seguir uma evolução como time. A partida desta quinta-feira, 23 de março de 2017, é uma referência a ser seguida. Não foi um feito simples.

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Análise: afinal, aonde o São Paulo está errando nas bolas paradas defensivas?

Por Renato Rodrigues, do DataESPN
Tironi e DataESPN apontam falhas de marcação do São Paulo em gols sofridos em bola parada

Após tomar dois gols de bola parada para o ABC, em jogos válidos pela Copa do Brasil, Rogério Ceni reclamou das falhas do São Paulo neste momento do jogo. O treinador, em tom de ironia, disse até que "não treinaria mais" esse tipo de situação.

Em 2017 o Tricolor tomou cinco gols de bola parada, sendo quatro deles em escanteios defensivos e um de falta alçada na áera. Muito confundem estes tipos de lances com "bola aérea", mas nesse caso se dá o nome de bola parada pelo simples fato de o jogo parar para a execução. Ou seja, pelo fato de ter tempo de se organizar, transforma-se em uma jogada bem mais estratégia do que uma bola cruzada e cabecada para o gol, o que de fato seria uma jogada aérea. Não por menos, grandes teóricos do futebol separam a bola parada como o quinto momento do jogo, junto ao ofensivo, defensivo e as duas transições.

Em grande parte da temporada o São Paulo tem marcado de forma mista (VEJA A ANÁLISE DOS QUATRO GOLS SOFRIDOS ACIMA). Isso nada mais é que enquanto alguns são-paulinos fazem um duelo individual, outros cuidam de alguns espaços de forma mais zonal. Você pode ainda marcar todo mundo individualmente, todos por zona, zona com bloqueio...

No caso do Tricolor existe um padrão bem claro neste sentido. O jogador rival que conclui as jogadas nestes gols sofridos é sempre o cara que não está sendo marcado da maneira individual. Com isso acaba por explorar o espaços na marcação por zona, sempre embalando e atacando a bola.

É nítido que existe uma ideia e uma forma treinada. Inclusive, a opção de marcar da maneira mista é uma das mais usadas e eficazes pelo mundo. A questão aí é muito mais de ajustes no treinamento e de necessitar de uma postura mais agressiva dos atletas quando essa bola é alçada na área defensiva. 

 

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Controle x jogo reativo: Santos e Palmeiras divergem estratégias em clássico bem jogado na Vila

Por Renato Rodrigues, do DataESPN
Gazeta Press
Lucas Lima recebe marcação de Felipe Melo
Lucas Lima pressionado por Felipe Melo durante o clássico na Vila Belmiro

Acima de tudo, um bom jogo de futebol. Santos e Palmeiras fizeram um duelo rico de ideias na Vila Belmiro. Com estratégias diferentes, porém bem definidas desde o primeiro minuto, acabou prevalecendo a verticalidade da equipe de Eduardo Baptista. O time da casa, por outro lado, fez questão de ter a bola e fazer valer o modelo mais "controlador" adotado por Dorival Júnior. É fato que, dentro das propostas apresentadas, tivemos bons desempenhos.

Mais que analisar o 2 a 1 para o Palmeiras, o jogo em si nos trás uma reflexão bem importante: existem diversos caminhos e estratégias para se ganhar uma partida. Em vários casos nem se trata de "certo ou errado". Tanto que, pelo jogo em si, ficou bem claro que a vitória poderia ter sido para qualquer um dos lados.

A proposta santista foi mais incisiva. A equipe criou e mostrou um bom volume ofensivo durante quase toda partida. No fim das contas, apesar da derrota, o Santos teve uma boa atuação. Bolas na trave, bom aproveitamento de passes e muita construção baseada no jogo curto.

Já o Verdão de Eduardo Baptista, apesar de demonstrar grande evolução em propor o jogo em seus últimos compromissos, algo que o treinador tenta estimular em seus atletas desde o início do seu trabalho, preferiu voltar às suas origens da temporada passada.

Enquanto tinha a bola o Peixe buscava de forma incessante os movimentos de apoio e triangulações. Já os alviverdes abriram mão da posse. Mas assim que a bola era retomada, a estratégia era clara: acelerar o jogo e chegar o mais rápido possível no último terço do campo. Esse jogo mais reativo, inclusive, foi uma das grandes características da equipe treinada por Cuca no último Brasileirão.

Com Lucas Lima bem móvel e flutuando pelas beiradas, o Santos buscou a construção pelos lados do campo (veja a imagem abaixo). As principais jogadas aconteciam pela direita. Com Vitor Bueno, Victor Ferraz, Lucas Lima e algumas vezes até Renato, procurou gerar superioridade numérica no setor para chegar ao fundo do campo. Quando Bueno abria, Ferraz infiltrava por dentro. Já nos momentos que o meia-atacante centralizava a jogada, era vez do lateral explorar o corredor aberto. Foram diversas chances criadas assim. Faltou um melhor aproveitamento na conclusão.

DataESPN
Santos busca a triangulação para criar oportunidades pelas beiradas. Lado direito foi muito forte no clássico
Santos busca a triangulação para criar oportunidades pelas beiradas. Lado direito foi muito forte no clássico

A opção de Eduardo em colocar Keno na vaga de Michel Bastos já era uma grande mostra da proposta escolhida para o jogo. Junto com Dudu, Tchê Tchê e Borja, o atacante era um dos escapes nestas transições ofensivas. Atrás no placar, o Palmeiras chegou ao empate recuperando a posse ainda no campo ofensivo (veja na próxima imagem). 

DataESPN
Jean pressiona e recupera a bola ainda no campo ofensivo. Rápida tabela com Roger Guedes rende o gol de empate
Jean pressiona e recupera a bola ainda no campo ofensivo. Rápida tabela com Roger Guedes rende o gol de empate

Em uma partida de 36 finalizações, sendo 20 delas certas (segundo o Footstats), os goleiros trabalharam muito. O Palmeiras, defesa menos vazada da competição, demonstrou alguns movimentos interessantes no seu momento defensivo/transição defensiva. Em um momento que Mina tentou carregar a bola para espaço vazio e a perdeu, usou bem compensação (perceba na imagem abaixo). Felipe Melo, por vezes, manteve a linha defensiva sustentada e "substituindo" o zagueiro. Manter a linha organizada, aliás, é algo que Eduardo Baptista tem tentado estabelecer desde sua chegada.

DataESPN
Felipe Melo faz a compensação de Mina, que está fora da linha defensiva. Conceito é muito importante
Felipe Melo faz a compensação de Mina, que está fora da linha defensiva. Conceito é muito importante

Antes muito questionado, o treinador alviverde vai, aos poucos, encaixando suas ideias e ganhando notoriedade em seu trabalho. O desempenho em clássicos, inclusive, tem sido decisivo para essa continuidade.

No lado do Santos, o trabalho tem que continuar. Mesmo com oscilações dentro da temporada, os alvinegros nunca abriram mão da sua forma de jogar. O resultado não veio, mas o desempenho neste domingo foi satisfatório. Que isso seja decisivo na hora de cartolas e torcida se posicionarem. Não é hora de "ligar a frigideira" para cima de Dorival. 

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4-2-3-1, 4-1-4-1, 3-4-3... Afinal, qual é a verdadeira importância dos esquemas táticos no futebol?

Por Renato Rodrigues, do DataESPN
Mike Egerton/PA Images via Getty Images
Guardiola Manchester City Huddersfield Town FA Cup 18/02/2017
Pep Guardiola é um grande exemplo: fiel ao seu modelo de jogo e não ao um esquema tático

O 7 a 1 mudou muita coisa. Queiramos ou não admitir, demos alguns passos importantes no futebol brasileiro. Rotular aquela atuação como vexatória não se dá apenas pelo resultado, mas pelo fato de estarmos, naquele 8 de julho de 2014, praticando um esporte totalmente diferente do apresentado pela Alemanha e outras seleções durante a Copa do Mundo. Definitivamente, foi o fundo do poço. Ali foi escancarado o quanto atrasados estávamos dentro do que se era feito aqui e no restante do mundo com relação ao esporte.

O histórico revés abriu muitos olhos. A discussão sobre pensar mais e melhor o futebol, seja entre treinadores, imprensa ou mesmo torcedores, ganhou novos ares. Claro que ainda se ouve, se assiste e se observa muitos absurdos. Ainda temos uma longa estrada pela frente e, infelizmente, não foram todos os olhos que se abriram. Mas a grande prova dessa preocupação nos últimos tempos são os vários debates sobre os esquemas táticos. "Mas o 4-1-4-1 é bom", "melhor mudar para o 3-5-2", "porque esse treinador insiste nesse esquema"...

Em vários momentos é possível presenciar esse tipo de discussão. Mas, enfim, o esquema tático é tão relevante assim no futebol?

Borussia de Tuchel tem um modelo de jogo bem definido, indenpendente do esquema e da dificuldade em que passa

Sim e não. A plataforma de jogo é, nada mais nada menos, que a referência posicional de onde cada jogador deve se posicionar. Se isso tem alguma importância? Claro. Mas, definitivamente, não é o mais importante para o funcionamento de uma equipe. É somente um braço de todo um organismo vivo, dentro do contexto caótico que é uma partida de futebol. De fato temos dado uma relevância muito maior do que deveríamos para este tipo de discussão, muitas vezes até acaloradas (acima o Borussia Dortdmundo de Thomas Tuchel).

Como uma peça dentro de uma grande engrenagem, que deve estar posicionada no local e da maneira correta, o jogador tem também tem suas funções dentro de todo este conjunto de grande complexidade (veja o vídeo abaixo). Ficar parado ali, onde foi treinado, não vai adiantar muita coisa. Essas são chamadas as funções individuais, mais importantes que a posição em si - como já abordado aqui no blog. Elas se e dão razão ao próximo passo para o bom funcionamento de uma equipe: os comportamentos coletivos.

Sergio Rico, o goleiro de Sanpaoli no Sevilla, tem funções bem claras dentro do modelo de jogo da equipe

Escolher um esquema tático é mais uma tarefa no grande processo que é montar um time de futebol. Para tomar essa decisão, antes de tudo, é necessário definir o tipo de futebol que você quer praticar. E isso está totalmente ligado às características dos jogadores que você tem em mãos, que está relacionado ao o sistema de jogo, que está ligado à forma que você treina... Como uma roda viva, um ciclo.

Mais importante que esta plataforma de números, o tipo de jogo que você quer desenvolver é o norte de qualquer trabalho. Isso é chamado de modelo de jogo. Ele é, acima de tudo, um mantra, o rumo dentro de todo um planejamento bem sucedido: modelo de jogo, características dos atletas, esquema tático e treinamento... E assim sucessivamente.

O São Paulo de Rogério Ceni tem uma maneira bem ousada de jogar. E não abre mão deste modelo em 2017

Explicar e entender o modelo de jogo não é uma missão tão simples. Ele está totalmente ligado aos momentos do jogo. De acordo com a literatura portuguesa, uma das mais avançadas e importantes do futebol, o jogo pode ser dividido em cinco partes: momento ofensivo (quando você está instalado e posicionado em campo para atacar), transição defensiva (ações tomadas após à perda da posse), momento defensivo (quando você está instalado e posicionado para defender), transição ofensiva (ações tomadas após à recuperação da bola) e bolas paradas (escanteios, faltas e laterais, sejam eles contra ou a favor). Esta é apenas uma divisão que ajuda entender o todo.

Então fica claro que o seu modelo de jogo está muito direcionado às suas formas de reagir a cada fragmento de uma partida de futebol. Quando eu tenho a bola: eu procuro um jogo vertical? Ou mais paciente e apoiado? Como eu abro o campo? Como gero profundidade? Quais são os setores que vou fazer superioridade numérica? E quando eu perco essa posse: pressiono imediatamente ou transito minha equipe o mais rápido possível para atrás da linha da bola? E quando a recupero? Mantenho o controle com passes mais curtos ou arrisco um jogo mais direto?

Já o Fluminense de Abel mostra ideias diferentes, mesmo usando o 4-1-4-1, que pode ser usado de várias maneiras

Todas essas são perguntas fundamentais na construção de uma equipe e que precisam ser respondidas independentemente do esquema tático que você está usando.

Ou seja, você pode ser uma equipe reativa, que defende atrás da linha da bola e que utiliza passes mais diretos no 4-4-2, no 4-2-3-1, no 5-4-1... Não importa o sistema, e sim o que você faz com a bola e sem ela dentro destes momentos do jogo. Essas ideias, que nada mais são que as frações de toda essa causa, dão razão e funcionamento a um modelo de jogo bem executado.

Agora pense nisso tudo abordado acima dentro de um ambiente de 11 contra 11. De comissões técnicas, diretorias, reservas, famílias, diferentes culturas... Por isso o futebol é um esporte tão caótico e ao mesmo tempo apaixonante. Simplesmente porque é humano. Não é apenas tático, técnico e físico. E fazer esse todo funcionar, com todos esses quesitos diretamente ligados ao desempenho individual e coletivo de uma equipe, não é uma tarefa das mais fáceis, ainda mais se levarmos em conta que os treinadores quase não têm tempo para desenvolver trabalhos aqui no Brasil.

Por isso cada tomada de decisão é decisiva dentro de todo este processo. Escolhas normalmente resolvem e criam problemas. Muitas vezes não existe certo e errado dentro de uma discussão dessas. Existem, simplesmente, escolhas. E a capacidade de resolver e neutralizar estes problemas ao longo de um trabalho é que fazem de um treinador alguém vitorioso. 

Enquanto isso é cada vez mais necessário enxergarmos o futebol como algo sistêmico e em constante mutação, com vários elementos entrelaçados e que precisam caminhar juntos em um trilho só. No fim, futebol é simples e não é ao mesmo tempo. E entendê-lo melhor só nos faz gostar ainda mais dele.

 

Flamengo supera dificuldades na construção ofensiva e goleia San Lorenzo. Mas não foi tão fácil assim...

Por Renato Rodrigues, do DataESPN
GazetaPress
Diego comemora gol de falta do Flamengo contra o San Lorenzo, no Maracanã. Foi o destaque do Fla na partida
Diego comemora gol de falta do Flamengo contra o San Lorenzo, no Maracanã. Foi o destaque do Fla na partida

Após superar um primeiro tempo de muitas dificuldades na construção ofensiva, o Flamengo iniciou sua caminhada na Libertadores 2017 vencendo um duro San Lorenzo no Maracanã. Apesar do resultado elástico (4 a 0) dizer o contrário, não foi uma jornada tranquila como muitos pensam.

Mais intenso na segunda etapa, somado a uma noite inspirada de Diego, a equipe rubro-negra deslanchou quando conseguiu encaixar sua velocidade nas transições ofensivas.

Mesmo não tendo fluidez em seu jogo na primeira metade do jogo, a equipe rubro-negra nunca deixou de ter o controle da partida. Na verdade os argentinos pouco ameaçaram a meta de Muralha. Optaram por uma marcação em bloco médio. Deixavam a bola circulando com os zagueiros do Fla, que não colocavam objetividade nas suas tomadas de decisão. Por outro lado. também nunca conseguiam colocar sua estratégia em prática, que era recuperar a posse e encaixar uma saída mais rápida.

Os lapsos da equipe da casa durante a primeira etapa se deram quando Rever e Vaz encaixaram passes mais verticais, geralmente achando Diego flutuando entre as linhas do San Lorenzo. Arão e Rômulo, buscando preencher mais o campo do adversário e gerar superioridade numérica por dentro, se posicionaram um pouco mais adiantados. Em um certo momento ambos passavam a recuar na tentativa de melhorar essa iniciação. Até um trabalho com os laterais por dentro foi tentado.

Com os argentinos fechando bem os espaços e amarrando o jogo com faltinhas, o Flamengo pecava nos movimentos apoio. Sem grande aproximação e uma certa distância entre os jogadores no setor da bola, o Flamengo passou a arriscar mais nos lançamentos. A criação ficava muito dependente da disputa física de Guerrero, sempre muito forte na retenção e contato físico.

A entrada de Berrío na vaga de Mancuello, ainda aos 32 do 1ºT, deixou a equipe mais vertical e elétrica, mas o desempenho na construção continuava abaixo do esperado.

Na volta para o segundo tempo o Flamengo conseguiu, enfim, trabalhar um pouco melhor a bola. Mais intenso em suas ações em campo e ágil na execução, fez seu controle ter mais relevância. O gol de falta de Diego, logo de cara, tirou um pouco da nítida ansiedade da equipe e foi dando um novo caminho ao jogo. Mesmo que a equipe seguisse sem grande inspiração com a bola, o gol de Trauco, de uma vez por todas, deu outros ares à partida.

Atrás no placar, o San Lorenzo se viu obrigado mudar sua estratégia e propor mais o jogo. Aos poucos foi perdendo ritmo e intensidade, muito pela falta de jogos (futebol argentino estava de greve e vinha de um longo tempo de inatividade). Essa queda física ficou clara e ajudou o Flamengo a ter sucesso em uma nova proposta para o jogo.

Sempre muito bem organizado defensivamente, principalmente quando o adversário se coloca na posição de propor o jogo, o Flamengo não sofreu atrás e passou a investir nas transições ofensivas mais rápidas com Éverton e Berrío. O terceiro e quarto gol foram consequências disso. Contra um adversário desorganizado, os rubro-negros cresceram.

Falar em placar enganoso chega a ser exagerado. Mas a partida no Maracanã mostrou uma deficiência da equipe rubro-negra que é recorrente e precisa ser melhorada por Zé Ricardo: a construção ofensiva. Ainda faltam movimentos de apoio, um jogo curto, mais rápido no passe e uma saída de bola mais qualificada. O resultado também não reflete com a organização demonstrada pelo duro San Lorenzo em boa parte do jogo.

Com um elenco de muita qualidade em mãos, a tendência é de melhora daqui para frente. Estrear em uma competição desta importância nunca é fácil. E, neste caso, dentro de um grupo difícil, o resultado era muito necessário no Rio de Janeiro. O cenário atual não é nem céu e nem inferno... É de pé no chão. Afinal, ninguém iniciou a Libertadores pronto.

 

 

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