O futebol de ataques rápidos e transições: por que a dificuldade em se propor o jogo só cresce no Brasil?

Renato Rodrigues, do DataESPN
Gazeta Press
O Botafogo de Jair Ventura, que derrubou gigantes na Libertadores, vai melhor com um estilo reativo
O Botafogo de Jair Ventura, que derrubou gigantes na Libertadores, vai melhor com um estilo reativo

Lá se foram três anos do 7 a 1 e alguns paradigmas, aos poucos, vão sendo quebrados no futebol brasileiro. É possível ver, mesmo que ainda sem a velocidade ideal, alguma evolução no esporte por aqui. E existe um movimento  de ruptura neste momento que fomenta determinadas discussões sobre o futebol no Brasil. Uma delas, e que começa a ganhar corpo nos últimos meses, é sobre a crescente dificuldade de se propor o jogo. E o nosso parâmetro, como não poderia ser diferente, é o Campeonato Brasileiro de 2017. 

Então vamos lá. Primeiro é bom ressaltar que essa reflexão fica ainda mais importante ao olharmos sob o ângulo do que é a cultura do futebol no Brasil. O jogar bem para nós está diretamente ligado ao fato de ter a bola, de se construir através do refinamento técnico de nossos jogadores. Toques rápidos, tabelas, dribles... Propor o jogo é o futebol ideal e chega a ser "obrigação" para qualquer brasileiro, principalmente quando se trata de equipes de maior expressão ou poderio financeiro. 

Por conta disso somos predispostos a torcer o nariz para equipes "defensivas". Vemos na retranca algo a ser combatido.  Sinceramente, não vejo nenhum problema em acreditar e executar tal estratégia. Simplesmente por que jogar bem, ao meu ver, está ligado à execução da proposta e das ideias, desde que elas existam. E sabemos que é rotineiro ver equipes que nem um plano parecem ter. Nestes casos o buraco é muito mais embaixo.

É possível jogar bem e ter o controle de um jogo sem a bola. Neste caso, equipes apostam em uma postura mais reativa, que nada mais é que não tomar as rédeas do jogo, mas sim responder às ações do oponente. Tento sempre enxergar o futebol de uma forma mais democrática, entendendo que existe espaço para todos e diferentes formas de se ganhar uma partida ou campeonato. No entanto, precisamos nos preocupar quando já não enxergamos com tanta clareza estas diferentes ideias de jogo. Já que elas são tão normais. A situação fica alarmante quando caminhamos (TODOS!) para a mesma direção. 

Vivemos sim um período de grande dificuldade em ter a bola. São cada vez mais raras as equipes que conseguem atuar de forma propositiva em solo brasileiro. Vemos, progressivamente, os gols sendo construídos por meio de contra-ataques. Não podemos confundi-los com ataques rápidos, que são uma situação diferente. Neste caso, temos um exemplo que tem acontecido muito: induz o adversário a defender uma zona do campo, tira essa bola da pressão e ataca com velocidade no lado oposto, já com o adversário desequilibrado. Apesar de ser uma construção mais trabalhada, ainda se trata da velocidade a qualquer custo. Os dois gols na partida entre Cruzeiro e Flamengo, no último domingo, são grandes exemplos do quanto falta espaço e repertório para se criar através de uma posse mais trabalhada (veja a análise abaixo).  

Ideias semelhantes na marcação e pressão; DataESPN analisa jogo entre Cruzeiro e Flamengo

O Grêmio talvez seja a equipe que melhor lida com a posse por aqui. Com um jogo de passes envolventes, seguidos movimentos de apoio, mobilidade e muita infiltração, o time de Renato Gaúcho é quem mais se aproxima do Jogo de Posição, conceito turbinado por Pep Guardiola desde os tempos de Barcelona. Usa vários fragmentos da ideia geral, talvez até mais próximo do conceito de Ataque Posicional (que é um braço do Jogo de Posição), mas como ponto principal do seu modelo a necessidade de ter a bola.

Líder do Brasileirão, o Corinthians ainda vive um momento de implantação de ideias. Iniciou o ano de uma maneira mais pragmática, preocupado primeiro em se defender bem. Temos também que levar em consideração que isso se deu muito pela necessidade de resultados imediatos, já que Fábio Carille, antes de tudo, precisava de segurança para ao menos pensar em construir alguma coisa no cargo. Atualmente, os alvinegros desenvolvem melhor essa construção ofensiva. Se baseia nas triangulações e ataque aos espaços para superar as defesas rivais.  Por conta de partidas como contra Palmeiras e Grêmio, ambas fora de casa e quando optou estrategicamente por dar a bola ao adversário, ainda sofre com o rótulo de retranca, coisa que já se distanciou a bastante tempo. 

O exemplo do Corinthians já nos traz um primeiro ponto importante sobre esta discussão. Sempre pressionados a entregar vitórias (e para ontem!), independentemente de como elas venham, nossos treinadores buscam os atalhos. Dançam conforme a música e se preocupam primeiro em se defender bem, já que ao menos o empate está garantido nesta ótica. Mesmo que sem desempenho, os resultados podem aparecer e dar sustentação para caminhos mais longos à frente dos clubes. Quando não aparecem, rua! Ou seja, a nossa cultura imediatista, de alguma forma, interfere diretamente na qualidade do nosso jogo.

Flamengo, Atlético-MG e Palmeiras, os maiores investimentos do país, ainda buscam suas identidades e oscilam justamente por não terem dominado totalmente essa fluidez ofensiva quando estão com a posse. No caso dos paulistas, temos que levar em conta a ruptura de um trabalho no meio do percurso. Trocar Eduardo Baptista por Cuca foi como substituir água por vinho. O mérito nem é sobre um ser melhor que outro, mas sim da imensidão de diferenças de as ideias entre eles. Então, temos um segundo ponto que entra nessa reflexão sobre propor melhor o jogo em território nacional. Os clubes, a cada contratação e demissão, comprovam que não sabem nem o tipo de futebol que querem praticar. Sem modelo, sem norte...

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Roger Machado caiu no Galo pelo desempenho em casa, quando precisou propor o jogo
Roger Machado caiu no Galo pelo desempenho em casa, quando precisou propor o jogo

Agora vamos aos pontos mais técnicos do assunto, que não estão diretamente ligados à má gestão e a cultura do nosso futebol. Está cada vez mais evidente que o futebol é algo cíclico. Novas ideias surgem, novos antídotos são criados. Se cria uma posse de bola mortal, aparecem organizações capazes de dizimá-las. Retrancas ganham, são furadas e depois perdem. Se joga com linhas defensivas de três, quatro e agora até cinco... Tudo dentro de se criar e resolver problemas, que é o que explica bem a lógica do futebol em si. E ainda com o "agravante" de que a velocidade e os números de ações por minuto só crescem na modalidade. É óbvio que, com o futebol mais veloz, as jogadas de gols tendem a ser mais rápidas. Mas existe alguns pontos a serem discutidos ainda.

Eis que sempre surge a velha expressão: "Destruir é bem mais fácil do que construir!". Não vejo deste modo. Encaro apenas como coisas distintas e que, sem conhecimento e conteúdo, nenhum treinador consegue desenvolver. Ambas são difíceis de fazer com máxima eficácia, mas são bem diferentes de serem trabalhadas. Defender, no futebol praticado atualmente, está muito atrelado ao conceito de se controlar espaços. Naturalmente acabam por ser movimentos mais mecânicos e combinados. Flutuação do bloco defensivo, linhas de coberturas, maneiras de induzir os adversários a atacar de uma certa forma ou lado... Todas ideias que, bem estimuladas e repetidas, costumam surtir efeitos mais imediatos. É mais racional e menos emocional.

Preocupados com seus empregos e em ter mais "tranquilidade" para atacar, os treinadores brasileiros absorveram mais rapidamente estas "fórmulas" para proteger suas metas. Hoje, definitivamente, defendemos muito melhor e de uma forma muito mais organizada se olharmos para cinco temporadas atrás. Tite, atual treinador da Seleção Brasileira e que sempre buscou na escola italiana os exercícios e comportamentos defensivos, talvez seja uma das maiores referências e inspirações no que se refere ao trabalho de linha defensiva no país. Junto de Mano Menezes, que também domina estes conceitos da linha de quatro, praticamente criou uma identidade para o Corinthians, que atualmente colhe seus frutos. De certa forma, isso virou uma influência por conta de todos os resultados atingidos. O problema é que, em várias situações, as influências são mal compreendidas.

Vemos por todos os cantos ideias, seguidores e execuções de maneiras totalmente diferentes. Afinal, as referências no futebol podem ser as mesmas, mas a forma como você as trabalha são sempre distintas. Temos sempre que levar em conta vários fatores do futebol, tanto internos quanto externos. Para quebrar qualquer argumento de que existe uma "cartilha da vitória", temos logo de cara o fato de que os atletas nunca são os mesmos. Nós, como indivíduos, não somos. Então não adianta copiar nada. Você pode sempre ter uma referência e trabalhar dentro dela, mas os resultados serão sempre heterogêneos. 

Atualmente Tite é um treinador mais completo. Já se colocou, mais uma vez, à frente do tempo por aqui. Agora compreende melhor os nuances da construção ofensiva. Seu trabalho à frente da Seleção e no Corinthians de 2015, já nos mostra um maior equilíbrio entre as diferentes fases do jogo. Um caminho que, mais cedo ou tarde, os outros treinadores vão começar a desbravar, já que atacar nos remete a outros conceitos e particularidades. Nem mais fácil nem mais difícil. 

A palavra criar, por si só, nos explica muita coisa. Atacar, gerar espaços, achar o improvável dentro de todo um sistema organizado, exige muito do senso imaginário dos jogadores. Do aleatório, da sua capacidade de improvisação para diferentes situações que terá pela frente. Serão frações de segundo para escolher uma decisão dentro de centenas possíveis. E isso sempre dentro de um contexto coletivo, com a necessidade de escolher a mesma coisa que o companheiro e, principalmente, que pegue seu oponente desprevenido. Trata-se de um conceito bastante complexo e que tive contato faz pouco tempo, chamado de Comunicação no Futebol. É uma ideia teorizada e aplicada na Periodização do Futebol, do holandês Raymond Verheijen.

Comunicar os atletas dentro de campo, em diferentes setores, exige tempo e muita repetição. Qualquer que seja o treinamento escolhido, trabalhar essa conexão é imprescindível. Principalmente por se tratar de uma comunicação não-verbal. Os movimentos, os sinais corporais, as reações dentro de um momento do jogo... Tudo isso pode e deve ser estimulado no dia a dia. Mas é praticamente impossível adquirir tamanha sintonia já que raramente é possível trabalhar com um só elenco durante toda uma temporada. Por aqui se constrói e se desfaz um plantel a cada seis meses. E sem falar na realidade do nosso calendário onde vivemos no ritmo do joga, recupera, joga, recupera... 

Todos estes argumentos usados até aqui, apesar de relevantes, também não podem servir como muletas para treinadores que não buscam esse algo a mais. Sabemos que alguns profissionais que vivem sentados nos nomes e nas conquistas passadas. Claro que cada caso é um caso, mas ter todo esse cenário difícil pela frente não pode ser uma desculpa definitiva para os problemas no dia a dia. Cabe a cobrança e o questionamento sobre o que tem sido desenvolvido em seus respectivos clubes. Para isso, é necessário um melhor entendimento do jogo de todos que o cercam: imprensa, gestores, dirigentes, torcedores, jogadores...  

Consegue perceber o quão complexo é toda essa discussão? O número de fatores que implica na qualidade do jogo que praticamos no Brasil? De como é impossível apontar um só vilão dentro de todo um universo caótico como este?  Cabe a nós, cada vez mais, pensar melhor o futebol e tirar nossas próprias conclusões. Afinal, você está contente com a qualidade que assiste de quarta e domingo? Eu não.


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Início, meio e fim: a trajetória de Rogério Ceni em uma visão mais sistêmica sobre o São Paulo

Renato Rodrigues, do DataESPN

Gazeta Press
Rogério Ceni não resistiu os resultados ruins e foi demitido do São Paulo
Rogério Ceni não resistiu os resultados ruins e foi demitido do São Paulo

Rogério Ceni caiu. O que muitos desacreditavam, principalmente por ser talvez o maior ídolo da história do São Paulo Futebol Clube, aconteceu. Mais um que vira estatística na cultura do futebol brasileiro que tritura um treinador atrás do outro. Mas foi correto demitir o ex-goleiro? Onde estão os erros dele? O que não funcionou em seu modelo de jogo? Só ele errou nestes seis meses de trabalho? Como detectar o que existe de certo e errado dentro de um ambiente tão complexo de se analisar? 

Pois bem. É fato que, no Brasil, estamos acostumados a sempre escolher um vilão para cada tragédia que vivemos. Treinador, presidente, diretor, zagueiro que falha... Tem até gente nadando contra toda essa maré que acaba entrando no balaio por ignorância de quem passa informação e cria opinião. Mas chegaremos neste ponto lá na frente. 

Olhar para o São Paulo hoje e tentar apontar um culpado ou mesmo um só problema dentro de tudo que se enxerga dentro de campo é praticamente impossível. Falaremos dos últimos seis meses, mas é fato que o Tricolor, que desde sua última conquista (Sul-Americana 2012) teve nada mais nada menos que 11 treinadores, tem vilões de todas cores, formas e estilos para escolhermos. Enquanto não enxergamos o futebol como algo sistêmico, com vários aspectos interligados, vamos continuar tratando apenas os sintomas, e não a doença. Aliás, reflexão válida para outras esferas da nossa vida.

Então vamos separar a trajetória do ex-capitão são-paulino como treinador em alguns tópicos. Tentar entender os objetivos, os erros, as questões de campo e fora dele. Olhar de uma forma mais abrangente, explorando questões táticas, ambiente, escolhas no modelo de jogo, planejamento, resultado x desempenho... Vamos nessa:


Início: a escolha do modelo de jogo como fator decisivo

Ao assumir a equipe, Rogério Ceni garantia, desde suas primeiras entrevistas, que o objetivo era construir um modelo de jogo ofensivo e de muita agressividade. Que gostaria de ter um time que jogasse no campo do adversário, com muita pressão na bola e passes rápidos para desequilibrar as defesas adversárias. No geral, ideias complexas para se colocar em prática com menos de um mês de pré-temporada. No fim, foram escolhas determinantes para o seu futuro.  Definições que, de certa forma, o levaram até a demissão.  Talvez muita informação ao mesmo tempo. Não ter ensinado primeiro o "A-E-I-O-U" para, só depois, tentar separar as sílabas.

Com o calendário brasileiro tão congestionado, escolher e trabalhar uma forma de jogar na pré-temporada se torna cada vez mais importante. Com o ritmo de quarta e domingo,  pouco se treina. O dia a dia acaba servindo para "lembrar" situações já treinadas e ajustar ideias. Olhe para a Europa e veja a relevância que os profissionais dão a este longo período de treinamentos. É nele que os pilares de um modelo de jogo são construídos, visando uma estrutura forte que suporte toda a temporada.

Ciente da sua inexperiência, sobretudo com treinamentos, Rogério trouxe Michel Beale. O auxiliar-técnico inglês, com passagens por Chelsea e Liverpool, chegava para ser um suporte ideológico na criação de uma identidade para a equipe. Ceni viu no contratado alguém que pudesse o ajudar na construção dos treinamentos e exercícios que estimulassem seus atletas a jogar dentro de um modelo totalmente novo, até mesmo no âmbito nacional. 

Empolgado com a chance de ser ídolo também fora das quatro linhas, estreitou sua relação com as categorias de base, estudou equipes que praticavam um futebol parecido com o que buscava,  se aproximou da Análise de Desempenho para dissecar adversários, buscar exemplos de jogadas, vídeos referenciais, ideias novas... Enfim, tudo que poderia ser feito para iniciar bem o novo desafio. Por conta disso, trazia consigo grandes expectativas.

Apesar de ter treinado formações com três zagueiros durante os amistosos pela Flórida Cup, até por conta do passado recente são-paulino e a tendência europeia neste sentido, escolheu o 4-3-3 como a plataforma base para o São Paulo. As variações eram mínimas, geralmente para o 4-2-3-1. A questão mais importante, no entanto, era o modelo e também o fato de optar por uma linha defensiva com quatro jogadores, algo que mudaria em certo momento da temporada. Rodrigo Caio, volante nos primeiros dias de trabalho, pediu para voltar a zaga. Com João Schmidt de malas prontas para a Europa, achou (e acertou) com Jucilei. Problema resolvido.

Em seu momento ofensivo, o Tricolor atuava com seus zagueiros bem adiantados, compactando a equipe para sufocar o oponente em seu campo. Juntos do primeiro volante, faziam o balanço defensivo e ajudavam na organização ofensiva. Saiam com passes mais agudos, quebrando linhas e buscando apoios verticais. Seus laterais, abertos rentes à linha lateral, geravam amplitude (abrindo o campo) e em alguns momentos até profundidade. Com isso, o treinador são-paulino centralizava seus pontas para gerar superioridade numérica por dentro e trabalhar o jogo curto com velocidade. 

Mas a grande identidade da equipe nos primeiros jogos era a pressão pós-perda da bola. Era um time que, ao perder a posse, atacava a bola com muita agressividade. Rogério cobrava isso incansavelmente. O São Paulo praticamente não entrava em fase defensiva, muito por trabalhar nessas transições mais agressivas, retomando a bola rapidamente e, de novo, acelerando o jogo próximo do último terço do campo. E foram nessas transições defensivas que os primeiros erros começaram a aparecer. 

A perda da intensidade, principalmente no segundo tempo, fazia do São Paulo um time que fazia muitos gols, mas que também sofria muitos. As transições defensivas, desorganizadas e por vezes "preguiçosas" por parte de alguns atletas, começavam a virar o tendão de Aquiles para Ceni. Se buscava uma pressão mais adiantada, mas, quando essa bola saía da pressão, via sua equipe dando campo e espaços para os adversários atacarem. No geral, o desempenho no mínimo satisfatório (veja no vídeo abaixo uma linha do tempo tática do São Paulo de Rogério Ceni)

DataESPN: Em 3 etapas, Calçade analisa os 6 meses de trabalho de Rogério Ceni no São Paulo

Meio: os problemas estruturais e o questionamento das convicções

Até então novidade, o São Paulo de Rogério Ceni passou a ser melhor compreendido por seus adversários. Os espaços para se acelerar o jogo no terço ofensivo, antes mais frequentes, foram desaparecendo. Os rivais passaram a dar a bola para o Tricolor. Equipes mais organizadas e com estilo reativo, apostando em contra-ataques e em bolas paradas, principalmente, começaram a se dar melhor nos confrontos. Mais posse de bola, mais volume ofensivo, mais escanteios, cruzamentos, finalizações... As estatísticas frias, que pouco explicam o futebol, jogavam ao lado do treinador. Por outro lado, os resultados não vinham, mesmo que com bom desempenho em alguns jogos.

As transições defensivas eram cada vez mais desastrosas. Cícero, por exemplo, mostrava grande dificuldade neste retorno. Não tinha forças para colocar pressão na bola e muito menos se colocar atrás da linha dela rapidamente. Se por um lado a sua característica de construção, do passe e da circulação da bola, era importante, suas atribuições defensivas eram cada vez menos eficazes dentro do contexto coletivo da equipe. Com o coletivo cada vez mais enfraquecido, começou um festival de falhas individuais, Lucão, Rodrigo Caio, Douglas, Maicon... Quase que uma por rodada. 

Não pressionar o portador da bola continuava a ser um problema. A intensidade sem bola, importantíssima nos movimentos de perde e pressiona, continuava caindo. De um modo geral, faltava ao São Paulo aprender a alternar ritmo durante os jogos. O São Paulo era uma equipe que, basicamente, acelerava, perdia e pressionava, e acelerava novamente. Alternar ritmo nada mais é que intercalar momentos de maior pressão e intensidade, com um jogo mais posicional. É tentar recuperar a posse e não acelerar a todo instante, cadenciar também, "descansar" com a bola. Manter a agressividade do modo que Ceni queria durante 90 minutos é impossível. Ninguém no mundo consegue. E poucos têm o calendário tão desgastante quanto o nosso. A primeira convicção de Rogério Ceni começava a ser quebrada.  

Outra questão muito importante que enguiçava a fluência do modelo de jogo são-paulino era o trabalho dos pontas. Ficava cada vez mais claro que, tirando Marcinho, as opções no elenco não conseguiam fazer esse trabalho mais curto por dentro, com toques rápidos e com grande velocidade de execução, principalmente por se tratar de uma zona muito pressionada no campo. A queda de desempenho de Cueva também era sentida, já que se trata do jogador com mais recurso técnico para tal função.

Ao mesmo tempo os contra-ataques adversários castigavam o São Paulo. As bolas paradas defensivas também chegaram a ser problema durante um período. Com tudo isso, a confiança e a força mental dos atletas iam ladeira abaixo. Fez da equipe de Rogério Ceni um time incapaz de reagir à situações desfavoráveis. Era cada vez mais nítido o abatimento com gols tomados. Foram várias os momentos de bom desempenho, gol sofrido e apagão geral. O time simplesmente parava de jogar. Resultado: duas eliminações em poucos dias. Paulistão, para o rival Corinthians, e Copa do Brasil, para o Cruzeiro.

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Veja o gráfico da oscilação do São Paulo de Rogério Ceni no Brasileirão
Veja o gráfico da oscilação do São Paulo de Rogério Ceni no Brasileirão

Fim: a ruptura na essência da equipe e os erros conceituais

Nem o desempenho vinha mais. Convencido de que não poderia manter o nível de intensidade que planejou no início do ano, Rogério mudou. Ao invés de conduzir sua equipe a um nível de entendimento para que se alternasse melhor o ritmo, entendeu que era o momento de buscar uma fase defensiva mais posicional. As transições defensivas, que antes eram marcadas por pressionar a bola, seja onde ela estivesse, passou a ser feita com intuito de colocar o máximo número de jogadores atrás da linha da bola. Marcar de forma mais zonal, controlando espaços. 

O sistema com três zagueiros também foi fixado e o São Paulo passou a defender em um 5-4-1. Tinha algumas leves variações nessa fase defensiva e na fase ofensiva usava o 3-4-3 (ou 3-4-2-1), soltando ainda mais os laterais. O balanço defensivo, por exemplo, não mudava tanto. Já que foi se trocado um zagueiro por um volante. Em certo momento, aliás, a equipe cresceu de produção. Passou a ter um desempenho melhor e conquistar vitórias. A mais emblemática delas contra o Palmeiras, dentro de casa.  Militão, com muita versatilidade, foi a boa notícia e era peça chave para variações para o 4-2-3-1.

Só que o São Paulo equilibrado passou a se transformar em um São Paulo pouco criativo. A falta de pressão ao portador da bola passou então a desencadear um outro tipo de erro: o posicionamento corporal da linha defensiva. A ideia de alinhas cinco jogadores neste momento, inclusive, é justamente para neutralizar infiltrações. Mas o resultado foi o inverso. Errando muito o conceito de bola coberta e descoberta, a linha defensiva era vazada a todo momento. O clássico contra o Corinthians é um grande exemplo. Portador da bola sem pressão, jogadores todos posicionados de frente e não lateralmente, complicando a troca de direção. Os 15 primeiros minutos na Arena do rival foi praticamente um massacre, todo criado em cima dessa situação conceitual, básica até. Algo que cabia ao treinador explicar aos atletas e corrigir nos treinamentos.

Outro fato muito equivocado era a formação dessa linha, principalmente em bolas que poderiam resultar em impedimentos dos atacantes adversários. Por estar sempre torta, com jogadores saindo e outros ficando, deixava os rivais sempre em condições para chegar na cara do gol. Resumindo, já não se pressionava o adversário mais a frente, mas também não se controlava espaços como o proposto.  A mistura de ideias causou uma desordem geral.

O fato de ter tentado construir a equipe a partir do ataque e não da defesa, também pode ter influenciado para tamanha confusão. Talvez a inexperiência tenha sido decisiva neste momento. Ao meu ver, de fato, o ídolo poderia ter investido mais em conhecimento, se resguardado por um período maior e, principalmente, pegado um pouco mais de rodagem, seja como auxiliar, nas categorias de base, clubes menores...

A ruptura de comportamentos criados lá no início custava caro. Os atletas não desenvolveram a antiga ideia e nem absorveram por completo a nova. Enquanto isso, jogadores chegando, outros saindo... Um mercado livre dentro do clube, que complicou ainda mais a construção de uma nova ideia. Sendo bem claro, foi uma tentativa de se trocar de pneu e de carro ao mesmo tempo, com ambos em movimento. Um caos, uma situação praticamente impossível de administrar com bom desempenho em campo. 
 

O futebol (ou falta dele) no São Paulo

Se olharmos para outras comissões técnicas pelo país afora fica claro que o São Paulo tem problemas. Além de um estafe reduzido, Rogério tinha ao seu lado poucas pessoas pensando futebol. Beale e Pintado eram os auxiliares. O primeiro já teve seu perfil pontuado aqui. Já o ex-volante são-paulino tem características totalmente diferentes. Após grande rodagem como treinador, chegou ao clube por conta da sua identificação e por ter um caráter mais agregador, com a ideia de ser uma ponte entre comissão e jogadores. Em sua vasta carreira pelo interior paulista como técnico, no entanto, Pintado sempre apresentou conceitos e ideias de jogo totalmente diferentes das tentadas por Ceni.

A Análise de Desempenho, diferente do que muitos pensam, não tem o poder de tomar grandes decisões dentro do contexto de um clube futebol. Chegou de maneira mais profissional ao São Paulo somente em 2015 (2015!!!). E muito se fala sobre essa nova profissão, principalmente ligando ela às contratações de jogadores. Mas não é por aí. Trata-se apenas de um braço de todo processo. Estes departamentos, definitivamente, não contratam ninguém. Ajudam na varredura do mercado, na análise e na prospecção de nomes para serem observados, os identifica e, junto com a comissão técnica, os acompanha. Depois disso ainda é necessário o crivo da diretoria. Sem contar que ainda existem as negociações, as concorrências, os interesses de empresários ou mesmo de dirigentes... 

No meio de todo essa bagunça, até estes tipos de profissionais, que ainda têm a função de analisar adversários, treinamentos e a própria equipe, entram no balaio de forma injusta. Apesar de serem muito bem qualificados, estão apenas em dois por lá. O Corinthians, por exemplo, conta com seis profissionais e usa a mesma metodologia desde 2008, tamanha a demanda e importância do trabalho. O Palmeiras tem quatro, ou seja, o dobro do São Paulo.

Ao mesmo tempo também não se tem um gestor técnico capacitado para tomar decisões ligadas ao jogo. Uma pessoa que tenha, além da administração do dia a dia, um olhar técnico. Que possa observar treinamentos e entender pelo menos parte do trabalho diário no campo. Afinal, não é só durante as partidas que se deve analisar e chegar à conclusão sobre o trabalho de um treinador. O dia a dia pesa muito. A relação dele com os jogadores, o desenvolvimento dos treinamentos, a evolução ou mesmo interpretar questões como resultado e desempenho. Tudo isso estaria embaixo do guarda-chuva desse profissional, que traria essa visão mais sistêmica para o ambiente.

O São Paulo não tem uma gestão profissional do seu departamento de futebol. O Palmeiras, usando mais um rival para a comparação, conta com um diretor de futebol e um gerente de futebol. Sem falar que conta com um Coordenador Científico e mais de um preparador físico. Atualmente é um dos clubes que mais investe em pessoas, em mão de obra qualificada dentro do departamento. Os resultados, aos poucos, vão aparecendo. Não se faz futebol sem qualidade de pessoas. Não adianta ter os melhores equipamentos do mundo sem elas para manuseá-los. A diferença se faz assim.

Com ou sem Rogério Ceni, já passou da hora do São Paulo se estruturar melhor neste sentido. Apostar em pessoas mais atualizadas, em ideias e conceitos de futebol que dão resultados. Criar uma identidade de jogo para o clube e trabalhar em prol disso. Outra etapa importante nessa retomada é construir um ambiente mais leve, mais vencedor e profissional. Não são poucas as pessoas que passam pelo Morumbi que reclamam do dia a dia, da metodologia e do ar hostil que foi criado nos últimos anos.

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O Flamengo e sua busca por uma identidade

Por Renato Rodrigues, do DataESPN
Gilvan de Souza/Fla Imagem
Ze Ricardo Treino Flamengo 26/11/2016
Ze Ricardo vive de altos e baixos e o Flamengo ainda busca uma maneira para se jogar

Muito tem se falado do Flamengo após duas vitórias seguidas no Brasileirão. Contra a Chapecoense, quando talvez tenha atingido seu melhor desempenho no ano, e frente ao Bahia, que, apesar do resultado, a performance não foi convincente. São apenas dois jogos, claro, mas que mostram muito da realidade rubro-negra durante uma temporada cheia de oscilação. Bons momentos, apagões, jogos mornos... A verdade é que Fla ainda não achou e, muito menos construiu, uma identidade.

Falar em identidade no futebol soa até subjetivo para algumas pessoas. Mas ela deveria estar ligada à cultura do clube. Na maneira que enxergamos, cobrimos e gerimos o futebol no Brasil chega a ser até utópico em alguns casos. Equipes como Corinthians, Ponte Preta e Chapecoense, ainda que engatinhando neste sentido, dão ares de que é possível alcançar uma estabilidade no tipo de jogo que se deseja fazer e manter essa ideia por longos períodos. Pode ser defensivo, ofensivo, direto... A questão é, você consegue enxergar o modelo de jogo, a proposta, as ideias. Goste ou não destas escolhas, elas estão ali.

E é nesse vazio que o Flamengo tem caminhado desde a última temporada. Apesar de estar sempre reforçando seu elenco com jogadores de qualidade, ainda não é possível se enxergar um norte na Gávea. No último Brasileirão, entre agosto e setembro, veio a esperança. Depois de alguns momentos de oscilação, o trabalho de Zé Ricardo ganhou corpo. Fechado dentro da ideia de seu 4-2-3-1 e já com Diego no elenco, a equipe carioca não só venceu, mas alcançou ótimos desempenhos. O 1 a 1 contra o Palmeiras, que mais tarde seria campeão, é um dos grandes exemplos, mesmo sem conquistar três pontos.

A ideia de seu treinador, que defensivamente sempre mostrou maior regularidade, sempre foi de propor o jogo. Controlar com a bola, gerar superioridade numérica pelos lados e usar as triangulações para a construção ofensiva. Por outro lado, seu melhor Flamengo foi o que reagiu, o que criou suas melhores chances após retomar a posse e verticalizar as jogadas. Muito pelas características de seus jogadores: Everton, Gabriel, Mancuello, Ederson... Jogadores que, sem dúvida alguma, trabalham melhor em transições.

O plano de ter a bola continua, mas com uma execução abaixo do ideal. Devemos levar em consideração o fato de jogadores importantes estarem chegando agora e ainda precisarem de tempo para se adaptar às ideias de Zé. A pressão por resultados imediatistas, ainda mais em cima de um treinador que vive entre a cruz e a espada toda semana, também é um fato dentro de toda essa realidade. Mas ainda é pouco para o Flamengo.

Em seu momento ofensivo, o Fla sofre para conseguir uma infiltração. Se em seu melhor momento com a camisa rubro-negra Willian Arão iniciava a construção por trás e ainda tinha leitura e fôlego para se infiltrar na área, hoje a equipe quase nunca constrói por dentro. Trabalha com pouca mobilidade no último terço do campo. Não se envolve em movimentos de infiltração, estes muito importantes mesmo que a bola não seja lançada, já que pode desequilibrar os adversários, abrir espaços, quebrar defesas.

Os primeiros 15 minutos contra o Bahia deram um pouco desta ideia. Com Éverton Ribeiro e Diego alternando posições, Arão (apesar da atuação ruim) atacava espaços e Matheus Sávio tentava as diagonais. Tudo parecia correr para um bom caminho. Um time mais vivo em campo, mais intenso com a bola. Mas foi só a equipe da casa perder um jogador e se retrair para todos os velhos problemas voltarem. Ligaram então a "chave" dos cruzamentos automáticos. Inicia com os zagueiros, busca a ultrapassagem dos laterais, preenche da área e... cruza! Situações fáceis de se observar e se neutralizar. Basta o adversário analisar minimamente o atual modeo de jogo do Flamengo.

Os bons momentos de Diego e Éverton Ribeiro na má atuação do Fla na Bahia; Mauro analisa com Data ES

Muitas vezes são cruzamentos antecipados, vindos bem da entrada do último terço. Bolas que, como chegam de frente para os zagueiros, são mais fáceis de rebater. Também se abusa das bolas mais viajadas, que dão tempo para o rival se organizar. Não quer cruzar bolas na área seja algo ruim. Mas é preciso condicionar a equipe a fazer isso de uma maneira mais eficaz. Triangula, busca o fundo, aposte em uma bola rápida, sempre mais complicada para os zagueiros. É necessária uma pitada de ideias até mesmo quando se escolhe jogar no bom e velho chutão. Existem várias formas de se jogar bem. Mas se você não potencializa isso, não condiciona seus jogadores a um plano, de nada adianta.

Zé Ricardo ainda errou em outro sentido em Salvador. Com o adversário mais fechado, apostou na boa e velha "substituição ofensiva", cria do senso comum . Caiu na clamação popular de a equipe de atacantes (Renato Portaluppi fez o mesmo no jogo entre Grêmio x Corinthians). Quando o oponente se fecha ele, automaticamente, te dá a bola. Neste momento, você precisa de jogadores em campo (de preferência no meio) que elevem a qualidade de seu passe, com bolas mais agudas, mais criativas... E não de jogadores agudos, como no caso de Berrio e Vinicíus Jr. Domina a região central, circula mais rapidamente a posse e infiltra. Colocar mais gente na área nada mais é que povoar uma região que não se cria nada no futebol.

E tudo isso vale como uma reflexão daqui para frente. Com a força que tem no cenário nacional e em seu elenco, o Flamengo vai ser obrigado a propor quase todos os jogos de uma temporada. Por isso, precisa apostar em jogadores que tenham mais qualidade com a bola e, obviamente, no passe. Com Éverton Ribeiro, por exemplo, a tendência é de crescimento. A recuperação do bom futebol de Willian Arão, que pode produzir bem mais, também é um desafio para Zé nas próximas semanas. Com o volante bem, o Fla ganha mais um belo organizador de jogadas, com passes agudos e boa chegada ao ataque.

Os resultados, que normalmente desligam a grande máquina de triturar treinadores no Brasil, ajudaram Zé Ricardo. Agora cabe ao treinador, com mais tranquilidade, começar a estimular seus jogadores a novos comportamentos. Novas saídas, novas ideias e conceitos. Uma ruptura no meio do trabalho neste momento não seria vantajosa para ninguém. Ao contrário, traria todo um recomeço para o clube. Mas está mais do que na hora de o Flamengo ter uma cara. Seja lá qual ela seja.

 

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Lucão e São Paulo: de quem é a culpa?

Por Renato Rodrigues, do DataESPN
ALE VIANNA/Agência Eleven/Gazeta Press
Lucão São Paulo Atletico-MG Campeonato Brasileiro 19/06/2017
Lucão errou em lance decisivo e São Paulo perdeu em casa para o Atlético-MG

A primeira vez que vi Lucão jogando foi em 2013, pelo Sul-Americano sub-17, ainda no primeiro semestre do ano. Na oportunidade, com a camisa da Seleção e ao lado de Auro e Boschilia, também vindos de Cotia, o zagueiro são-paulino fez uma ótima partida contra o Uruguai. Vi um jovem com boa estatura para a idade, aliado à força física e recurso técnico para iniciar as jogadas. Na época, busquei algumas referências do jovem nascido em Brasília. Atuando com a camisa verde e amarela desde a categoria sub-15, sempre deixou boa impressão. Quem trabalhava com ele desde muito novo, sempre o viu como um grande potencial futuro.

Chegou ao sub-20 do Tricolor, para a disputa de sua primeira Copa São Paulo, ainda com 16 anos. Por toda a esperança que lhe cercava, ganhou um dos melhores contratos da base são-paulina na época. Isso, inclusive, gerou alguns ciúmes de outros jogadores da ótima geração 96 de Cotia mais tarde. Treinadores, coordenadores, membros de comissões técnicas... Todos que haviam trabalhado com o zagueiro apostavam em seu futuro.

Então veio o futebol profissional. Junto dele, a transição da base para a equipe adulta, sempre a parte mais crítica na formação de atletas em solo brasileiro. A todo o momento o tiveram como um atleta que maturou fisicamente de maneira precoce e que, bem guiado, poderia superar as barreiras que viria pela frente.

Essa crença veio muito por conta de sua força mental. Apesar de ser visto com dificuldades na troca de direção e estar longe de um zagueiro de rápida recuperação, era tido como alguém intelectualmente acima da média para aprender novas situações do jogo e, inevitavelmente, evoluir como jogador. A personalidade forte, que nunca foi problema dentro do vestiário, acabou vindo à tona após a falha contra o Atlético-MG, com uma declaração audaciosa. De certo modo até inconsequente.

- Além de ser um bom jogador, é um baita cara, extramente de grupo. Tem uma boa qualidade técnica para iniciar o momento ofensivo. Executa bem esses passes. Tem qualidade para isso. É um cara que tem entendimento para absorver o que o treinador pede em termos táticos. Também tem um bom biotipo. A única questão dele é a velocidade, por não ser tão rápido. Atuou comigo ao lado do Marlon, que é mais veloz. Mas ele compensava de outras formas. Acho uma pena tudo que vem acontecendo com ele. Na verdade ela ainda é um jogador em transição, no processo final de formação. Acho que vai amadurecer muito ainda - afirma Rogério Micale, treinador de Lucão na Seleção Sub-20 durante o Mundial da categoria em 2015, ao blog.

Sua primeira oportunidade no profissional do São Paulo foi ainda com Paulo Autuori. Era um torneio amistoso, a Audi Cup, "só" contra o Bayern de Munique de Pep Guardiola. O 2 a 0 para os alemães contou com um erro de Rogério Ceni em cobrança de pênalti. O ídolo são-paulino é atualmente seu treinador.

O tempo foi passando e as críticas sobre suas atuações pelo clube começaram a ganhar força em 2015, quando foi titular em 25 partidas pelo Campeonato Brasileiro.

Mas voltamos ao momento de sua transição da base para o profissional. Desde lá, Lucão teve nada mais nada menos que 10 treinadores. Isso, sem dúvidas, já é um fato importante para se levar em conta na hora de analisar o desenvolvimento de um jovem atleta. Apesar de estar no time de cima a quatro anos, lembremos que Lucão acabou de completar 21 anos. Desde que foi promovido, certamente não chegou a trabalhar uma temporada inteira dentro de uma só metologia e modelo de jogo.

Agora pense: você acabou de entrar em uma empresa, ainda muito jovem, e trocam seus chefes a cada quatro meses. Todo processo que você aprendeu, inclusive para trabalhar em grupo, mudam de pato para ganso. Acredita ser algo confortável para seu desenvolvimento profissional?

Lucão ainda viveu nestes quatro anos (metade de 2013, 2014, 2015, 2016 e meio 2017) tempos de muita instabilidade política no São Paulo, seca de títulos em um clube com grandes conquistas em sua história, debandadas de jogadores e comissões técnicas. Tudo isso em um momento que seria crucial para a sua ascensão como jogador de futebol profissional. Período que, ao invés de ser lançado para resolver, desenvolveria os últimos detalhes da sua maturação física e técnica, para evoluir seu entendimento de jogo e, principalmente, absorver a realidade de se competir em um nível muito maior que a base. Continua achando pouco?

Agora vamos abordar o jogo em si. Qual foi o último time do São Paulo com grande organização defensiva? Qual foi o último treinador que emplacou um modelo de jogo terminado, bem absorvido e competitivo no Tricolor? Bom, está bem claro que o ambiente e os estímulos para se formar um jogador melhor não tem sido ideal desde a sua subida ao profissional. Rodrigo Caio, inclusive, é outro exemplo.

Não são poucos que esperavam um salto maior de qualidade de seu companheiro do outro zagueiro formado em casa. Sofreu por muito tempo com o fato de ser lateral, volante e zagueiro. Da geração de Lucão ainda temos que Boschilia precisou sair para se firmar. Vendido a preço de banana. Mesmo caso de Gustavo Hebling, que atualmente pe jogador do PSG, mas emprestado ao PEC Zwolle-HOL.

Outro quesito que vem martelando o desempenho de Lucão nas últimas temporadas é a pressão externa. Apesar de continuar ganhando chances e ao mesmo tempo falhando em momentos cruciais, o zagueiro tem grande rejeição da torcida. O fato, inclusive, o tirou de partidas dentro do Morumbi por um tempo. Rogério e sua comissão, de maneira inteligente, atuou estrategicamente neste sentido, tentando recuperá-lo longe de casa para, só depois, colocá-lo em uma situação de mais pressão. O planejamento, apesar de bem intencionado e correto, acabou não dando certo.

Mas vamos à realidade da equipe atual do São Paulo. Ceni ainda tem uma equipe instável em campo. Tenta emplacar um modelo de jogo, mas que ainda está longe de ser totalmente absorvido pelo elenco. Até a troca da linha defensiva de 4 para 5 (com três zagueiros) não é algo simples de se fazer e que leva tempo para ficar natural.

As oscilações durante o ano, mais os ajustes de ideias do treinador, que acabaram por serem feitos durante um calendário caótico que vivemos, são as provas. Lucão errou. Errou muito. Em alguns casos até errou sozinho. Mas, na maioria das vezes, a sua falha era apenas a ponta de todo um processo, com outras pequenas ou grandes falhas que vinham se desencadeando e desequilibrando todo um sistema (veja na análise abaixo).

DataESPN e Tironi analisam falhas de Lucão: 'É a ponta final de uma sucessão de erros'

Jogar com uma linha de 5 jogadores no momento defensivo, por exemplo, não tem sido o bastante para evitar infiltrações. Muitas vezes o posicionamento corporal de todos atletas envolvidos está errado. Olhe na análise abaixo, todos estão mal posicionados. Mais um motivo e fato de que o coletivo não tem funcionado e, inevitavelmente, jogando as individualidades para baixo.

Calçade analisa as falhas da defesa do São Paulo no clássico e posicionamento corintiano

Maicon, Rodrigo Caio, Bruno, Buffarini, Junior Tavares... Todos jogadores que comportam esta faixa do campo, que normalmente fica mais visível a erros. Todos, uns mais e outros menos, cometeram erros individuais. E isso vale para o inverso também. Uma equipe organizada, mesmo não tendo grandes individualidades, acaba por extrair mais de jogadores que, de medianos, viram bons.

Por fim, cito a colocação de Rogério Ceni após a partida contra o Atlético-MG. Claro que o treinador não deve passar a mão na cabeça de seu jogador que, além de errar no jogo, fez o mesmo ao dar a polêmica declaração que estaria indo embora. Mas a exposição pública é errada. Que se chute mais pranchetas, que a bronca seja dura... Tudo isso, inclusive, é bem normal dentro de um vestiário. Mas na hora de falar para fora, deveria guardá-lo. De blindar um jovem jogador e patrimônio do clube em que trabalha. Será assim com todos os atletas após um erro individual ou mesmo declaração infeliz? Não há gestão de pessoas, neste caso jogadores de futebol, que aguente.

Creio que é unanimidade que Lucão não deve mais jogar pelo São Paulo. Talvez essa seja a única coisa que eu e você que está lendo concordamos. A saída dele, contudo, deveria ter acontecido até antes. Não tinha necessidade do tamanho desgaste que, ao meu ver, é praticamente irreversível. Que o atleta busque novos ares e tenha sucesso. Assim como o São Paulo, que ainda busca seu melhor nível. Só não nos esqueçamos de uma só coisa: o futebol é, acima de tudo, coletivo.

 

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Por que os últimos 30 minutos de Corinthians x Cruzeiro têm muito a nos dizer?

Por Renato Rodrigues, do DataESPN
Sergio Barzaghi/Gazeta Press
Balbuena foi parabenizado por seu parceiro de zaga após a cabeçada certeira
Balbuena foi parabenizado por seu parceiro de zaga após a cabeçada certeira

No duelo entre cria e um de seus criadores, Fábio Carille e Mano Menezes têm motivos para comemorar, mesmo com o fato de o Corinthians ter saído vencedor contra o Cruzeiro. E os últimos 30 minutos da partida na capital paulista são bastante importantes para falarmos do confronto em si. Mas para chegar na parte final do jogo precisamos contextualizá-la.

Os alvinegros foram melhores no primeiro tempo. Com um bom início, tentaram sempre concentrar o jogo em um dos lados do campo, fazer a triangulação e tirar a bola da pressão, para tentar gerar desequilíbrio no lado oposto, principalmente buscando as ultrapassagens de Guilherme Arana. Os mineiros, por sua vez, ligados nesta jogada bem padrão, buscaram povoar o meio e flutuar rapidamente suas linhas de marcação, fazendo superioridade numérica pelas beiradas.

O ímpeto corintiano foi caindo conforme o tempo corria e, mesmo sem a bola, o Cruzeiro passava a controlar o jogo. Negava espaços e fazia o adversário circular a bola longe do terço defensivo. Por outro lado, também não fazia questão de jogar quando tinha a bola (Mano até afirmou fazer parte da estratégia para o jogo). Esta talvez seja a grande crítica e cobrança em cima do trabalho de Mano: ter mais capacidade de alternar ritmos e propor o jogo com mais qualidade, principalmente por ter grande capacidade técnica no elenco.

Em um lance de bola parada, já no final da primeira etapa, veio o castigo para a equipe que não fez a menor questão de jogar até então. Balbuena ameaçou puxar para a primeira trave, mas atacou a segunda, sozinho. E este gol de escanteio talvez tenha sido a chave da necessária mudança no jogo e de posturas.

Reprodução ESPN
Dentro da pequena área, Ramón Ábila perde gol feito contra o Corinthians
Dentro da pequena área, Ramón Ábila perdeu gol feito contra o Corinthians

Na volta para o segundo tempo, Mano abriu mão de Henrique e colocou o agudo Allison em campo. Depois de 25 minutos de mais equilíbrio, inclusive com o Corinthians chegando em mais dois lances de bola parada ofensiva, vieram os minutos mais preciosos e conclusivos para ambos os treinadores. Não pela maior intensidade que a partida ganhou, mas por sintetizarem situações pouco vividas pelas equipes até aqui.

Essa meia hora diz muito sobre resultado e desempenho. Se por um lado o Corinthians chegou a 20 jogos de invencibilidade e disparou ainda mais na liderança do Brasileirão, por outro viveu momentos de grande risco. O empate, é justo dizer, não saiu por detalhe. 

Com o adversário em cima, criando um enorme volume ofensivo, o Timão viveu o famoso termo "aprender a sofrer". Não que isso seja positivo, já que foram momentos difíceis, de pouco retenção de bola no ataque e de nenhum controle, coisa que os alvinegros vinham fazendo como ninguém até aqui na competição. Mas se tratam de lições, algo muito importante na construção de uma equipe vencedora.

É o tipo de situação que pode recolocar um grupo de volta a órbita. Jogadores, muitos deles jovens, cheios de confiança, retornando a uma realidade longa e dura que é a disputa do Brasileiro. É sim uma referência negativa para ser usada daqui para frente. Um caminho a não seguir. Afinal, não são poucas as equipes que se perdem na ideia de que "podem vencer a hora que querem". É uma sacudida. Precisa ser.

Tenho convicção de que Fábio Carille usará tais momentos para atingir esses objetivos.

Do lado do Cruzeiro a palavra é acreditar. Talvez tenha sido os 30 melhores minutos da equipe neste Brasileirão. O resultado não veio, mas o desempenho, mais importante quando pensamos em mirar coisas maiores e, principalmente, uma regularidade, esteve ali. É um momento para servir de inspiração a Mano Menezes. Do poder jogar mais, do ter que jogar mais.

Defender bem de nada tem a ver com não atacar. E Mano sabe disso. Suas melhores equipes eram, acima de tudo, equilibradas. Na parte final do jogo, inclusive, quase não sofreu com os contra-ataques que poderiam até ser normais com tamanho afinco que seus atletas foram para cima do líder do campeonato. A mobilidade ofensiva, mesmo com Ábila em campo, voltou a aparecer. Um time agressivo, intenso e, principalmente, agudo. A busca pelo gol foi frenética. Fez até quem torcia contra acreditar que o tento era só questão de tempo.

Foi só um jogo na Arena Corinthians. Uma rodada de 38. Mas 30 minutos que podem mostrar um norte, um caminho a se trilhar daqui para frente. Importantes para Carile e Mano Menezes, que se conhecem tão bem, passarem a conhecer melhor a si mesmos. Que seja proveitoso!

 

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