O título de uma identidade

Renato Rodrigues, do DataESPN
GazetaPress
Fábio Carille e Cássio comemoram título após o Corinthians derrotar o Fluminense por 3 a 1, em Itaquera
Fábio Carille e Cássio comemoram título após o Corinthians derrotar o Fluminense por 3 a 1, em Itaquera

Foram altos e baixos durante o longo Brasileirão 2017. Um primeiro turno não só de um grande aproveitamento, mas também de um futebol bem jogado - inclusive propondo o jogo em vários momentos, ao contrário de quem afirma que o time de Fábio Carille só joga em contra-ataques. Um pouco antes da virada do turno, veio a queda brusca de desempenho. Uma crise técnica que se alastrou no segundo turno. 

Grandes atuações, clássicos vencidos e uma eficácia grande para se manter no topo. Partidas de um nível técnico para se esquecer, falhas defensivas, principalmente, em bolas paradas, intensidade baixa. Talvez as duas frases anteriores seja o resumo da campanha "montanha russa" alvinegra. Mas uma coisa ninguém pode negar: o Corinthians triunfou, mais uma vez, com uma identidade.

Uns acham pragmático, outros competitivo. Tem gente que critica, existem os que sãos só elogios. Faz parte do gosto futebolístico (ou clubístico) de cada um. Mas não tem como tirar méritos de uma equipe que ficou 30 rodadas na liderança de uma competição desgastante e difícil. Mais que isso, é preciso enxergar o futebol além do resultado. E podemos facilmente perceber elementos de um futebol sólido, rico em conceitos e, principalmente, priorizando o coletivo para elevar suas individualidades.

A grande marca não só deste título, mas de uma era com um DNA vitorioso, é o trabalho defensivo desenvolvido a anos no Corinthians. O conceito de linha defensiva de 4 trazido por Mano Menezes, desenvolvido por Tite e agora estabilizado por Fábio Carille é uma das referências do futebol praticado atualmente no Brasil. Jogo, aliás, que se desenvolveu muito nos últimos anos neste sentido, mas que ainda precisa dar um passo adiante na organização ofensiva.

Não à toa, foram várias as peças que construíram esta forte linha defensiva durante a campanha do título: Fagner, Léo Príncipe, Paulo Roberto, Arana, Moisés, Marciel, Pablo, Balbuena, Pedro Henrique, Léo Santos... Uns com grande desempenho, outros um pouco abaixo. Mas todos com o conhecimento da causa absorvido. Certos do que fazer e como se comportar sem a bola. Setor estreito, linhas de coberturas bem organizadas, movimentos de recuo e avanços coordenados. Cumprir função independente da posição.

Se formos mais além ainda podemos colocar nesta lista nomes como Gabriel, Maycon, Rodriguinho, Romero, Clayson e até Jô. Apesar de não serem laterais e nem zagueiros, em vários momentos ajudaram a linha defensiva no trabalho de compensação, outro grande ponto na organização defensiva alvinegra. Preencheram espaços de companheiros, "substituíram" algum colega que por algum motivo não estava ali posicionado momentaneamente (entenda no vídeo abaixo). Ajudaram a preservar firme um dos pilares desta identidade alvinegra: manter a última linha sempre sustentada.

Noção tática e companheirismo: DataESPN mostra o que faz do Corinthians um time diferente

"Perde e pressiona", "encurta o campo", "manter a bola coberta", "compensar posições", "pontas recompondo até o final e fechando o lado", "vigiar o funil (entrada da área)"... Todos estes foram elementos essenciais trabalhados no dia a dia e que, de tanto exercitados e falados, batem como um martelo na cabeça de cada peça do elenco alvinegro. Essência de um modelo de jogo enraizado na cultura do clube nos últimos anos (jogo contra o Grêmio, na análise abaixo, é um bom exemplo).

DataESPN: Calçade mostra movimentação defensiva do Corinthians contra o Grêmio

Com a bola o Corinthians também jogou. Atuações como contra o Vasco em São Januário, Bahia, São Paulo, Sport e Palmeiras na Arena, entre outras, provam que não foram só de contra-ataques que os alvinegros viveram. Na virada do turno, por exemplo, o Corinthians trazia consigo um número bastante curioso: mesmo não tendo uma grande média de posse de bola - número por vezes mal qualificado (clique e veja aqui) -, era a equipe que mais passava na competição. Evidência de um futebol vertical, e não reativo, que buscava passar rápido e não ter a bola apenas por ter. Triangulações pelos lados, infiltrações de Rodriguinho e Maycon, avanços de Fagner e Arana, mobilidade de Jô para abrir espaços... Os pilares da construção ofensiva que, apesar de ter oscilado, é o terceiro melhor ataque da competição (veja exemplos de construção nos vídeos abaixo).  

DataESPN: Calçade mostra o jogo de aproximação e triangulação do Corinthians contra o Vasco
DataESPN: Tironi mostra segredo de criação de jogadas do Corinthians

Tudo isso jamais seria possível sem uma palavra: processo. Apesar dos desvios conceituais com Oswaldo de Oliveira e Cristóvão Borges, a diretoria do Corinthians, que assim como a maioria no Brasil carrega consigo seus defeitos, tem apostado na continuidade não só de treinadores, mas de ideias. Não tenho total convicção que tais decisões e escolhas foram tomadas com o discernimento e conhecimento futebolístico ideal, mas de fato as mesmas foram decisivas para atingir o atual patamar de conquistas recentes do clube.

Ao apostar em Carille - mesmo o antigo auxiliar não sendo a primeira opção da direção - Roberto de Andrade & Cia. devolveram ao Corinthians uma identidade. Algo já aceito pelo torcedor. A competitividade aliada à intensidade - que está longe daquela raça por raça, comum em equipes desorganizadas e que correm errado - é motivo de orgulho para o corintiano. Hoje o torcedor conhece e se identifica com uma maneira de jogar. Tem mais referências para se julgar e, inevitavelmente, cobrar.

E foi na fase ruim que isso ficou bastante evidente. O Corinthians pouco performou no segundo turno do campeonato. Melhorou nas últimas partidas, mas não conseguiu atingir o nível de desempenho do início da competição. Caiu inclusive na intensidade de seu jogo. Enquanto muitos cobravam medidas drásticas, como troca de sistema e até em elementos valiosos do modelo de jogo trabalhando desde a pré-temporada, Carille mudou características. Demorou um pouco até, mas viu em Camacho, Marquinhos Gabriel e Clayson as respostas que precisava dar à queda técnica em Jadson e Maycon. Terminou as partidas contra Avaí e Fluminense voltando ao 4-1-4-1 vencedor de Tite em 2015. Um ajuste posicional apenas (se considerando que o sistema base é o 4-2-3-1), mas que surtiu efeito em momentos difíceis.

Mas a temporada não foi só da revelação Fábio Carille. Foi também das ressurreições de Cássio e Jô. O primeiro, de herói do Mundial aos problemas com a balança e perda da posição, ao posto de goleiro de Seleção. Atuações e defesas decisivas, aliados à liderança desenvolvida com os seis de clube. Um dos poucos remanescentes da geração que conquistou a América e o mundo no Japão. O caso de Jô é mais emblemático ainda. De problemas fora de campo a um amenizador de ansiedades, principalmente dos mais jovens. Um termômetro do vestiário, sempre enaltecido pelo comandante. O artilheiro do Brasileirão (veja no vídeo abaixo um pouco da mobilidade do centroavante).

DataESPN: Hofman mostra movimentação de Jô para abrir espaço em jogadas do Corinthians

O futebol do Corinthians, queira você ou não, foi o melhor do Brasileirão. Está longe de ser uma equipe revolucionária, um conjunto que realmente eleve a qualidade do jogo por aqui. Traz consigo problemas estruturais como vários outros, principalmente quando falamos em se organizar para atacar. Esteve acima da pobreza conceitual que vivemos na atual edição do nosso maior campeonato e ainda tem um caminho a evoluir na próxima temporada. Foi um futebol de ideias, de respeito ao processo e, principalmente, de uma identidade forte. Uma identidade corintiana.  

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O Palmeiras do desempenho e o Corinthians da falsa convicção

Renato Rodrigues, do DataESPN
SERGIO BARZAGHI/Gazeta Press
Gabriel Expulso Corinthians Palmeiras Campeonato Paulista 22/02/2017
Gabriel Expulso Corinthians Palmeiras Campeonato Paulista 22/02/2017

Corinthians e Palmeiras se enfrentam no próximo domingo. Enquanto o lado alvinegro se vê em um cenário de pressão e decepção pelas últimas atuações, o sentimento alviverde é de confiança, independente da não vitória contra o Cruzeiro. E o que faz do time treinado por Alberto Valentim um forte concorrente ao título não é a pontuação. Longe disso. A palavra é desempenho.

Do outro lado da história o medo do torcedor corintiano nem chega a ser diretamente de seu arquirrival. Apesar dos seguidos tropeços, ainda são cinco pontos na frente. Se olharmos para qualquer campeonato no mundo com uma equipe em uma situação semelhante, falaríamos que o momento é de tranquilidade e título bem encaminhado. Mas não é por aí. Os motivos para se temer um trágico final de ano tem a ver com a mesma palavra: desempenho. 

Apesar do discurso de "foco no G4" e o empate dentro de casa contra o sempre organizado Cruzeiro, o Palmeiras está em franca evolução. Até de maneira surpreendente, já que o seu atual treinador (interino, inclusive) teve pouco tempo até aqui para construir ideias totalmente opostas ao que pensava Cuca. Conceitos e escolhas que, de certa forma, até custaram o empate por 2x2 no Allianz, justamente por ainda não estarem totalmente absorvidos pelo elenco. 

Valentim veio para o duelo contra o Cruzeiro com uma proposta ousada. Depois de sair de um sistema de marcação com encaixes individuais e de um jogo mais direto com a posse de bola, o atual comandante alviverde foi além. Mais que posicionar seu time marcando de forma zonal (entenda um pouco deste conceito no vídeo abaixo), avançou sua linha defensiva em busca de um sufocamento celeste.  Queria, de fato, trabalhar sua transição defensiva ainda no campo do cruzeirense. Perdeu, pressiona, recupera e ataca. Perdeu, pressiona, recupera e ataca... Essa era a estratégia para superar Mano Menezes & Cia.

Nova formação, comportamento da defesa e movimentações: DataESPN analisa Palmeiras com Alberto Valentim

E aí veio o primeiro gol do Cruzeiro. Em um momento de não pressão ao portador da bola e um lançamento em profundidade, Valentim viu a sua linha defensiva demorar a correr para trás. Diogo Barbosa, nas costas de Mayke, cruzou. Juninho, "canhoto de tudo", preferiu mudar todo seu posicionamento corporal para tentar tirar a bola com a perna esquerda. O não uso da perna direita, gesto natural para a ocasião, custou caro. 

Bola descoberta, linha defensiva demorando a reagir e erro técnico de um jogador. Percebe como uma sucessão de problemas terminou em gol? Nos dois primeiros casos, problemas que já deveriam estar amadurecidos se não fosse as seguidas trocas de treinadores e, principalmente,  das ideias de jogo. Essa é a primeira dica de que quase nada no futebol tem um só culpado...

Do outro lado da cidade, o Corinthians tenta se desvencilhar de falsas convicções e recuperar uma confiança perdida após um 1º turno intacto. Quando Fábio Carille afirma que não vai mudar sua forma de jogar, ele não está mentindo. E mais, também não está errado. Poucas equipes no mundo tem uma maneira bem consolidada de jogar. Imagina desenvolver duas!? Isso, no entanto, não tira as responsabilidades do treinador, já que a queda de desempenho também tem a ver com algumas de suas escolhas. 

Vemos referências técnicas da equipe como Rodriguinho, Jadson, Maycon e Guilherme Arana  rendendo abaixo do que podem. A tomada de decisão tem sido um fator muito recorrente. Nível baixo de concentração e falta de confiança para arriscar também estão no meio de toda essa crise técnica e uma convicção ilusória em cima de jogadores que já não respondem bem aos problemas do jogo. Apesar de não ter um banco repleto de possibilidades, nomes como Clayson, Marquinhos Gabriel (lesionado no último jogo) e até Camacho podem ser a sobrevida que a equipe tanto busca. 

Assim como mesmo disse Carille, não se mexe na estrutura nesta altura do campeonato. Mas alternar as características pode ser um caminho. Mais que isso, tira peças importantes de suas zonas de conforto, estimulando, de forma saudável, mais competitividade por espaço no elenco. 

A construção ofensiva tem sido um sério problema, ainda mais que a maioria dos adversários tem buscado dar a bola ao Timão. Um time que sofre para se organizar com a bola (SIM, SE ORGANIZA PARA ATACAR TAMBÉM!). Contra a Ponte Preta foi possível ver os alvinegros iniciando as jogadas com cinco ou seis jogadores (zagueiros, laterais e volantes). Enquanto isso, o adversário pressionava no mesmo setor com um ou dois marcadores. Ampla superioridade numérica na primeira etapa de construção, mas que na frente acabava custando caro: pouca gente trabalhando entrelinhas e dando opções para passes mais verticais. De certa uma  forma um desequilíbrio, que trava a fluidez e a objetividade dos passes. Tudo isso, na maioria das vezes, acabando com a posse encaixotada em um dos lados do campo (veja o vídeo abaixo).

DataESPN: Renato Rodrigues identifica problemas na construção e na defesa do Corinthians

Sem a bola as coisas também não estão funcionando bem. O gol da Macaca (como você viu no vídeo acima) é uma das provas. Romero, fora de posição por conta da bola parada, não tem seu posicionamento compensando e, após recuperar a bola e acelerar, a Ponte chega com dois jogadores contra o sozinho Guilherme Arana na segunda trave. Um deles era Lucca. E o trabalho de compensação, tão bem coordenado na primeira metade da competição (vídeo abaixo explica um pouco sobre), ficou pelo caminho.

Noção tática e companheirismo: DataESPN mostra o que faz do Corinthians um time diferente

A intensidade de jogo também tem a ver com esse Dérbi que está por vir. Enquanto o Corinthians demora a reagir após perder a posse e compete cada vez menos pela bola, o Palmeiras agora corre certo. Largou suas longas perseguições e encaixes individuais que sacrificavam seus jogadores, para cobrir espaços e manter uma agressividade alta até os últimos minutos contra o Cruzeiro. Alviverdes aumentando e melhorando suas ações por jogo, Timão sem a força mostrada no primeiro turno para transitar pelos lados do campo. 

A melhora palmeirense não está vinculada a um só motivo. Muito menos a queda de desempenho do Corinthians, que agora "resolve jogar melhor" só depois de sair atrás, perdendo o controle e as rédias do jogo. Técnico, físico, comportamental, psicológico, confiança, dentro de campo, fora dele... Uma enormidade de fatores que são muito complexos para se identificar e, principalmente, corrigir com o barco em curso.  Tudo isso estará em jogo dentro da Arena em Itaquera. 

Resta ao Corinthians se blindar e pensar em desempenho antes de tudo. Só ele recolocará a equipe nos trilhos novamente.  Já o Palmeiras, ainda "sendo consertado" em movimento, tem a mobilização de seu promissor treinador como trunfo. 

Clássico é clássico, vice-versa e o Brasileirão agradece!

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A diferença entre não querer e não saber atacar no Brasil

Renato Rodrigues, do DataESPN
ESPN
Corinthians 0 x 0 Grêmio foi um jogo muito criticado pela qualidade do futebol apresentado
Corinthians 0 x 0 Grêmio foi um jogo muito criticado pela qualidade do futebol apresentado

Corinthians x Grêmio. Líder e vice-líder do Brasileirão 2017. 0 a 0, poucos chutes no alvo e mais um caminhão de críticas sobre qualidade do futebol que praticamos em solo brasileiro. Obviamente que não se mede a qualidade de um jogo por chances criadas ou mesmo o número de gols, mas a partida em Itaquera nos traz uma reflexão ainda mais ampla e que nos direciona ao tipo de produto que temos assistido em nossos estádios.

A primeira questão é tentar identificar o que foi tão criticado neste jogo e, principalmente, o que causou tanta desaprovação na Arena Corinthians. Talvez o fato mais explorado foi a falta de finalizações no alvo (Corinthians 0x3 Grêmio). Feito isso, o próximo passo é buscar os motivos para tantos erros e/ou a falta de criatividade. E é aí que o assunto começa a ficar maior e passa a ser de interesse não só de corintianos e gremistas.

Quando temos apenas o número X de finalizações, caímos naquele velho problema de apenas interpretar algo frio, que estaciona na informação e fica longe do conhecimento e sabedoria (já falamos sobre isso aqui no blog). Porque o mais importante não é o quanto, e sim como você finaliza. Por exemplo: você prefere que seu time finalize três vezes cara a cara do goleiro - o que aumenta as chances de marcar - ou um que dê 22 chutes, mas todos eles pressionados, sem ângulo ou mesmo de uma distância difícil de vencer o goleiro?

Agora sim entramos no assunto central deste texto. Muito tem se falado que no Brasil ninguém quer ter a bola e que todas as equipes abrem mão de atacar. Simplesmente escolhem isso e seja o que Deus quiser. Mas será realmente que todos optam por essa estratégia de maneira consciente? Vocês conseguem observar clubes que buscam ter a bola e, na maioria das vezes, não sabem o que fazer com ela? Fico com a segunda opção e explico o porquê.

Vivemos em nosso país uma transição (ainda que lenta) do futebol jogado de maneira aleatória e totalmente instintiva - ainda tem muito time jogando assim - para uma maior absorção de conceitos e ideias atuais. Mas é aí que entra a confusão dentro de todo este cenário. Ter um time organizado, na cabeça de grande parte das pessoas que acompanham futebol, é ter um time que defenda bem. Que jogue compactado quando é atacado, que consiga construir grandes fortalezas defensivas, característica predominante de alguns dos últimos campeões que vimos por aqui.

Mas é assim que realmente funciona? Uma equipe só deve se organizar para defender? Seria correto afirmar que na frente basta deixar com a habilidade do atacante e a visão de jogo do camisa 10 que tudo se resolve? 15 anos atrás talvez...

Definitivamente, não. Para atacar é cada vez mais necessário que se tenha uma organização, uma ideia e um plano por trás de tudo (o gol do Vasco na análise abaixo mostra um pouco disso). Principalmente pelo fato de as defesas, inclusive aqui no Brasil, estarem cada vez mais fortes. As famosas linhas de 5 defensores, que são tendência na Europa, partem para esse lado de controlar melhor os espaços e bloquear ataques milionários, onde não falta qualidade técnica. Tal medida se encaixa na mutação do esporte. Se cria ou melhora algo, se pensa e cria outra saída para neutralizar. Posição e sobreposição. Inventa, reinventa... 

Zé Ricardo já mudou a cara do Vasco? Com DataESPN, Calçade mostra lance contra o Atlético-GO e analisa

E olhando para o cenário brasileiro atualmente você consegue visualizar equipes que mostram uma boa coordenação de movimentos sem a bola. Times que defendem por zona, com blocos bem compactos e que causam dificuldades até para adversários mais fortes. Por outro lado fica cada vez mais claro que tem faltado a tal da organização ofensiva por aqui. Estratégias que miram a abertura de espaços e, principalmente, condicionem nossos jogadores a um drible ou mesmo uma finalização limpa e cristalina.

A palavra condicionar é a chave para toda essa discussão. Se reclama muito, por exemplo, que o futebol atual quer engessar ou mesmo robotizar os jogadores, tirando deles o drible e o improviso. Mas não é por aí. Um bom treinador neste caso não brecaria uma jogada individual, mas sim a potencializaria, colocando seu atleta em uma situação onde ele vai triplicar as condições de sair vitorioso nesse duelo. Nada adianta pegar um jogador, por mais habilidoso que seja, e mandar ele ir para cima de um oponente que tenha duas ou três coberturas atrás dele. É só se recordar de Neymar, ainda pelo Santos, quando enfrentou o Corinthians por Libertadores e Paulistão. Não era Alessandro que o neutralizava, e sim o bom trabalho de coberturas organizados por Tite. 

Neste caso, a sua equipe, de forma coletiva, precisa se mobilizar para deixá-lo em uma situação de 1 contra 1 de fato. Pode ser um simples movimento de apoio para gerar igualdade numérica no setor ou mesmo um movimento de outro companheiro que arraste uma das coberturas e crie um espaço a ser atacado. Podemos pontuar várias maneiras e mecanismos para se chegar ao mesmo fim. E eles são todos coletivos. A questão principal é: pensar, planejar, treinar e executar nas partidas.

O exemplo do drible vale para qualquer situação que envolva o futebol. Bons estímulos e ambientes bem estruturados, sempre induzindo o atleta à aprendizagem e desenvolvimento cognitivo, são capazes de melhorar tudo. Finalização, passe, cruzamento, lançamento... E leve isso em consideração inclusive para outras áreas profissionais fora do futebol.  Não é  a prática que nos leva a perfeição. A boa prática que nos eleva a maiores patamares.

Ao levar tudo isso em conta, voltamos ao jogo entre Corinthians e Grêmio, mas sem deixar de conectar todas as ideias olhando para todo campeonato. Está enganado quem diz que o Corinthians não quis ter a bola e preferiu jogar em contra-ataques. A questão foi o que fazer com a posse, gerar desequilíbrios e espaços.  Muitos erros de tomada de decisão e de acabamento das jogadas - das duas partes inclusive. Passes e mais passes que não conseguiam gerar vantagens em zonas importantes do campo. Falta até de confiança para executar um passe mais arriscado em alguns momentos (veja no vídeo abaixo)

Muitos em espaço pequeno e dificuldade para sair da pressão: Calçade e DataESPN analisam Corinthians e Grêmio

E tudo isso tem a ver com a posse de bola, tão questionada durante essa temporada. São Paulo de Rogério Ceni, Flamengo de Zé Ricardo, Santos de Dorival... Equipes e treinadores que, por algum momento, tentaram executar um modelo que priorizasse a posse de bola, mas que acabaram com trabalhos sucumbidos. Cada um com sua particularidade, mas todos arruinados por um jogo ofensivo que não fluiu. 

Vivemos tempos de passes óbvios. De fazer o mais fácil e não o melhor. De esperar uma furada do adversário para marcar um gol. Se a construção de um bom time para muitos começa lá de trás, já passou da hora de avançarmos para o campo de ataque. No fundo somos um país que gosta de atacar. O que falta é se organizar para isso.

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A má interpretação da posse de bola e os enganos trazidos pelos números frios no Brasil

Renato Rodrigues, do DataESPN
Getty Images
Mourinho e Guardiola sempre travaram grandes duelos de times com e sem bola
Mourinho e Guardiola sempre travaram grandes duelos de times com e sem bola

O Campeonato Brasileiro de 2017 tem levantado um grande debate sobre a posse de bola. A discussão, que ganha destaque por nossa cultura que busca um futebol vistoso e primordialmente jogado com a bola, gera, na maioria das vezes, um tom bastante crítico. A grande questão, no entanto, é quando olhamos para estes números frios, que nunca dizem muita coisa. 

Aliás, este é um problema de como é tratada e feita a estatística no Brasil, quase sempre quantificando e não as qualificando as ações e eventos do jogo, o que geraria uma discussão muito mais profunda e conclusiva.

Cada vez mais se discute a qualificação do número no futebol pelo mundo. Em outros países a estatística já não é pautada simplesmente por desarmes, passes e finalizações, por exemplo. Conceitos de ExpG (expectativa de gol) e cálculos de velocidade de execução (tempo do domínio até a ação) são cada vez mais usados como métricas para se interpretar melhor os números e, consequentemente, o jogo em si. Mas ainda há muito a se explorar neste sentido, principalmente quando existem conceitos por trás de toda essa interpretação/elaboração dos números.

Então voltamos à posse de bola. 

São várias as falhas nas métricas deste quesito. O dado normalmente funciona com 63% para X e 37% para Y, por exemplo. Mas onde entra a bola que não está em jogo? Momentos em que equipes ainda se preparam para um lateral, um escanteio, tiro de meta ou mesmo o atendimento de um atleta lesionado. Não deveríamos então determinar algo para esse tipo de situação? E quando uma bola é quebrada no tiro de meta. Ela está viajando ainda, às vezes ainda fica viva em lances de 1ª e 2ª disputas. Onde computamos estes períodos no modelo que estruturamos tal dado?

Neste momento é de grande importância qualificar essa posse e isso pode ser feito de várias maneiras. 

Primeiro podemos abordar onde ela aconteceu. Este dado, aliás, apesar de ser medido por muitas plataformas, não é tão usado. Por exemplo, de nada adianta ficar com a bola se a circulação dela não chega ao último terço do campo - parte ofensiva se dividirmos o terreno de jogo em três (veja no vídeo abaixo). E porque também não classificar a entrada da posse nesta última parte do campo. Quanto de finalização foi gerada a partir disso? Quantas essa bola precisou ser tocada para trás? Por que isso aconteceu? Perdeu, errou ou mérito do adversário? São todas respostas bem vindas dentro de um processo e que saem do dado puro e simples. E podemos ir além. Quantos passe para frente, quantos para trás ou para o lado? Quantas vezes esses passes quebraram linhas de marcação?

DataESPN: Bertozzi mostra com o São Paulo fica com a posse de bola, mas sem objetividade

Outra pergunta interessante em cima da posse é: em qual velocidade a circulação da bola foi feita? No Brasil se passa muito, mas quase sempre se faz isso de forma lenta. Em entrevista ao blog, Roger Machado, ex-treinador de Grêmio e Atlético-MG, fala muito da necessidade dessa troca de passes alternar distância, velocidade e direção (clique aqui e veja). Vários estudos provam que, contra times bem organizados em fase defensiva, são estes mecanismos de alternâncias e movimentos que geram desequilíbrios e espaços para atacar (veja no vídeo abaixo o Corinthians com dificuldades para acelerar sua posse contra o Santos). 

Deu a bola e armou escape de Bruno Henrique: Calçade e DataESPN mostram como Santos bateu Corinthians


O exemplo acima do Corinthians de Fábio Carille também nos traz um outro questionamento. Durante o primeiro turno do Brasileirão os alvinegros, tidos com um estilo de jogo mais reativo, chegaram a ter um número intrigante: menos posse na maioria das partidas e maior número de troca de passes do campeonato. Mas como isso? O time que não gosta da bola é o que mais passa? Sim. Porque se passa rápido, muitas vezes de primeira e com muita objetividade. Não foram poucas as jogadas construídas assim e com a obrigação de se propor o jogo. Por serem ataques rápidos, muitas vezes essa posse do Corinthians era confundida com contra-ataque.

Mas forçar os passes, como dizem os treinadores, não é algo tão simples. Primeiro que a exigência técnica para fazer isso é alta. A confiança nas ações, principalmente no primeiro toque, domínio e passe, precisam estar num nível bastante desenvolvido. E isso bate muito com a naturalidade (ou não) do modelo de jogo da equipe, algo que só se consegue desenvolver com tempo e treinamento.

No Brasil, como bem sabemos, quando não se troca treinador a cada semestre (sendo bem otimista), se muda elenco. Então nem a coesão de uma forma de jogar é possível em várias ocasiões. Veja como tudo está interligado.

A forma de jogar de uma equipe também é muito preponderante para se interpretar posse de bola. São várias as maneiras de se ganhar um jogo e por isso, obviamente, diversas maneiras de jogar. O treinador trabalha em cima de uma escolha de modelo, geralmente feita ainda lá na pré-temporada. E para isso, é necessário também entender as características do seu plantel. Se você tem jogadores rápidos e de muita capacidade de jogar em transições, mas que não trazem consigo grande facilidade no jogo curto, como buscar um modelo de posse a todo custo? E pode acontecer no caso contrário. Não se pode exigir de jogadores com um perfil de passe, controle da bola e jogo apoiado, vitalidade para se envolver em contra-ataques mortais.  

Isso nos leva a seguinte conclusão: não adianta simplesmente ter a bola, mas sim saber o que fazer com ela. Como, quando, por onde...

Muita posse, mas sem criação: Calçade e DataESPN apontam dificuldades do Cruzeiro no Brasileiro

Então podemos avançar a um próximo passo: a leitura do jogo. A posse precisa ser sempre contextualizada. Primeiramente na questão do placar. Sair na frente ou atrás é um fato importantíssimo para se entender o número bruto, principalmente quando o gol acontece cedo. É muito comum que, quem está atrás no marcador, amplie sua posse. Neste momento também entram questões estratégicas. Muitas vezes é pré-determinado tal comportamento a partir de algum evento chave, como no caso do gol. Já em outras situações a ordem às vezes nem é de recuar e dar a bola ao rival, mas sim por uma imposição do mesmo, que pode passar a acontecer por diversos motivos. Lembrem que existem duas equipes em campo e não só a sua.

Perceba como é complexa toda essa reflexão e que cada caso é um caso. Um jogo de futebol nunca é igual ao outro. São sempre narrativas e acontecimentos diferentes, quaisquer eles sejam, e que podem mudar toda a interpretação da posse de bola. O mais importante é tentar sempre enxergar isso tudo dentro de um conceito, tentar entender cada contexto e levantar diferentes hipóteses.

Até por isso algo tem sido muito recorrente no futebol, inclusive brasileiro, nos últimos anos. Ao invés de usar plataformas que disponibilizam toda essa "numeralha" praticamente em tempo real, os clubes estão buscando uma saída bastante interessante. Não são poucas as comissões técnicas que produzem suas próprias estatísticas e métricas de jogo. E é aí que entra a Análise de Desempenho que tanto é falada no mercado atual.

Entender e fazer parte do processo é de grande importância. Até para saber o que vai se avaliar nesse contexto estatístico. Por exemplo: o treinador deu uma orientação ao seu centroavante que, quando a bola é passada para trás na saída do adversário e lateral/zagueiros ficam de costas para o restante do campo, é tarefa dele ir pressioná-lo. Ele, neste sentido, servirá como um sinal para o restante da equipe subir suas linhas e encurtar o campo. Ao fazer essa pressão no zagueiro/lateral que, por sua vez, toca a bola para fora, este jogador precisa ser recompensado, certo? Pois é. Se levarmos a estatística fria, ela será apenas computada como um passe errado do jogador pressionado. Mas não seria uma recuperação de bola/desarme do centroavante? E o defensor, não estaria fazendo o correto já que não tem opções de apoio? 

É por tudo isso que sou um pouco reticente aos números no futebol. Principalmente quando não há conceitos por trás deles. Obviamente que a estatística é uma grande ferramenta para medir e se chegar à algumas conclusões, mas ela nunca pode fazer isso sozinha. O entendimento do jogo precisa estar sempre ao lado. Quem tenta explicar o jogo apenas com os números, simplesmente não entende o jogo. 

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A Seleção Brasileira de Tite e a banalização da variação tática

Renato Rodrigues, do DataESPN
Pedro Martins/Mowa Press
Tite faz boa campanha com a Seleção Brasileira nas Eliminatórias
Tite faz boa campanha com a Seleção Brasileira nas Eliminatórias

Classificada com antecedência para a Copa do Mundo de 2018, invicta em jogos oficiais sob o comando de Tite e dona da melhor defesa das Eliminatórias da América do Sul, a Seleção Brasileira, enfim, volta a passar ares de confiança. Tamanha tranquilidade, no entanto, traz à tona algumas discussões visando o futuro próximo. Os questionamentos agora passam pelas vagas no elenco e até a qualidade dos amistosos que virão pela frente. Todos debates bem importantes.

Mas uma destas questões chama bastante a atenção: a necessidade (quase uma imposição por boa parte da crítica) de "procurar e testar outras formas de jogar".

A preocupação é sempre apontada por conta dos diferentes cenários que Tite pode ter pela frente durante a Copa. Adversários mais retrancados e que amarram o jogo a todo custo ou mesmo rivais com um repertório técnico maior que o enfrentado até então. Uma abordagem que busca, acima de tudo, antecipar problemas. E dentro de toda essa discussão conseguimos notar um termo bastante usado nas argumentações: a variação tática.

Então vamos ao ponto. O primeiro passo desta reflexão é tentar definir tática. Muita gente acha que tática no futebol é, especificamente, as plataformas de jogo como 4-3-3, 4-4-2, 3-5-2... Mas tática é algo mais amplo e está muito mais próxima do modelo de jogo. Do todo em si. Algo bem mais complexo que os números de linha de ônibus como dizem por aí. 

O sistema tático é um dos braços, mas com ele traz comportamentos coletivos e individuais. O que faço quando tenho a bola? Vou construir por onde e a partir de que? E quando a perco a posse? Pressiono ou posiciono? E quando a recupero novamente? Todas estas perguntas precisam ser respondidas quando se cria um modelo, uma forma de jogar. 

Portanto a tática é o plano. É a estratégia completa para se chegar ao objetivo maior (o gol, obviamente) e, ao mesmo tempo, evitar que o adversário chegue ao mesmo. Ao estudar e analisar tática, não se olha apenas para o desenho que aquele time está posicionado. Se leva em conta ações técnicas, físicas e também de caráter psicológico. Por isso falar de tática é falar do todo. 

Então passemos a falar de variação tática. Tite, quando trocou Coutinho por Renato Augusto, fez uma alteração no sistema. Foi do 4-1-4-1 para o 4-2-3-1 em alguns momentos. Mas e quando não houve uma troca de plataforma? Se configura uma variação? Trocar um meia mais posicional, de ocupação de espaços e que organiza o jogo de trás por um outro mais agressivo, agudo e que usa o drible para criar situações, seria uma alteração do plano? Estaria o treinador pensando em uma outra forma de fazer algo pré-estabelecido anteriormente?

O objetivo segue o mesmo. A forma de como chegar a ele, de fato, sofre uma variação neste sentido. Chegar ao gol com Renato Augusto em campo é diferente de fazer o mesmo com Coutinho. Pense em uma grande máquina cheia de engrenagens e peças redondas no seu centro. Assim montada, ela funciona de uma maneira padrão. Ao tirar uma destas peças e usar um quadrada em seu lugar, inevitavelmente, altera o funcionamento desta máquina. A questão é que você pode variar de maneira mais radical ou com situações mais pontuais, sem grande impacto no todo.

Ao usar esta simples analogia, chegamos à conclusão que o futebol é um jogo feito de muitas e seguidas variações táticas. Seja na mudança de postura, de plataforma ou mesmo de atletas que, por si só, já se diferem por suas características únicas como indivíduos. Claro que existem as situações de troca "seis por meia duzia", quando você faz a opção por um jogador com individualidades e comportamentos parecidos com o que está em campo. Neste caso até vale a discussão se realmente se trata de uma variação tática, já que se trata de mudanças mais sutis. E isso realmente é algo recorrente.

Agora levemos essa reflexão para a Seleção Brasileira e, principalmente, levando em conta o contexto que ela está inserida. Mesmo que seja apenas trocando características de jogadores, Tite vem fazendo e testando variações táticas. Coutinho por Renato muda o plano inicial e a relação entre os jogadores dentro de campo. Firmino no lugar de Gabriel Jesus te traz outras alternativas. Agora, se você quer discutir o grau de audácia e do quanto são drásticos este testes, é outra história. Mas, de fato, são variações.   

De um modo geral Tite sempre se mostrou um treinador mais conservador. E isso não tem a ver com ser ofensivo ou defensivo, bom ou ruim... Mas sim de não abrir mão de algumas convicções e essências do seu modelo. Não é de seu feitio mudar tudo de uma hora para a outra por uma oscilação no caminho. A forma como ele trabalha a linha defensiva é um bom exemplo. Não espere de Tite uma mudança para três zagueiros. Ou mesmo um 3-4-3 no melhor estilo Antonio Conte, como muita gente pede. 

Temos sempre que levar em conta o quanto radical são estas alterações. Muda-se a ocupação dos espaços,  as linhas de coberturas... Não é algo tão simples de ser feito. 

A variação de plataformas de jogo talvez seja a que mais salte aos olhos de quem assiste futebol no Brasil. Mas não se trata de um processo fácil dentro de uma equipe, principalmente quando o treinador não tem o dia a dia de treinamentos de um clube. A Argentina de Jorge Sampaoli, como explico neste post (clique aqui), é um bom exemplo.

Se olharmos para o cenário mundial hoje, talvez os maiores "camaleões" do futebol sejam a Alemanha e a Juventus. Estas mudanças de sistemas, muitas vezes até se adaptando ao adversário e ao que o jogo pede, se mostraram (e mostram) bem eficazes nestes dois casos. É de fato algo fluído e espanta a naturalidade como são feitos estes movimentos e trocas.

Mas se olharmos bem afundo, existe uma particularidade bem importante nestes dois casos citados acima: o tempo de de trabalho dos treinadores. Enquanto Joachim Löw comanda os alemães desde 2006, Massimiliano Allegri está à frente da equipe de Turim desde julho de 2014. Ou seja, não é algo que se atinge em pouco tempo e, se mal feito, principalmente pouco absorvido por todos os jogadores, tende a ser bem desastroso. 

E toda essa reflexão nos leva a uma outra cobrança bem comum no nosso país: "mas essa equipe só tem um jeito de jogar!". Tal afirmação acontece muito quando times grandes enfrentam retrancas, por exemplo. Mas como um time, dentro de toda essa complexidade que é criar um modelo de jogo, consegue ter duas formas de jogar? Digo isso levando em conta que o papel do treinamento é estimular comportamentos dentro de uma ideia central.

E como trabalhar toda uma ideia e, de repente, falar aos jogadores: "bom agora vamos jogar assim para ter uma segunda forma de jogar"?. Consegue perceber todo o conflito de ideias que isso pode nos levar? Existem algumas saídas menos bruscas como criar mecanismos que alterne ritmos dentro deum jogo, escolher momentos de esperar ou propor... Opções para situações específicas. Mas é isso no máximo. E se você tiver um calendário como o brasileiro, por exemplo, multiplique toda essa dificuldade.

Dificilmente Tite sairá do 4-1-4-1 e 4-2-3-1 até a chegada da Copa do Mundo. Linha defensiva sólida, que flutue bem para o lado da bola. Triangulações e associações pelos lados. Muito ataque aos espaços. Preenchimento do funil, seja ofensivo ou defensivo. Estes são alguns dos pilares do seu trabalho. Acredito muito mais em fortalecer estes padrões do que propriamente investir em testes mais evasivos. É o momento de potencializar o que está dando certo e corrigir o que não vem fluindo tão bem - já que os últimos dois jogos, apesar do caráter atípico, mostraram algumas deficiências.

Claro que cabe ao treinador observar saídas e ajustes para diferentes cenários que virão pela frente. Entender o repertório e soluções que cada individualidade do elenco podem lhe trazer. Mas nada tão drástico. Quando você pedir variação tática a um treinador, lembre-se que elas estão ali a todo o tempo. Seja na Seleção ou no seu clube de coração. Se elas dão certo ou não, aí já é outra coisa. E quando você pedir para um time ter mais de uma maneira de jogar, fique atento, pois pode ser que ele não tenha nem uma forma bem estabelecida ainda.

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