Seleção brasileira mais cara da história custou R$ 2 bi, e times brasileiros ficaram só com migalhas

Paulo Cobos, blogueiro do ESPN.com.br
Guardiola se incomoda com valor da venda de Vinícius Jr: 'Este é o mercado hoje em dia'

O Brasil terá o goleiro mais caro da história, depois que o Manchester City oficializar a contratação de Ederson, por quem o clube inglês vai pagar o equivalente, pelo câmbio atual, a R$ 146 milhões.

Com dados do site especializado transfermarkt, o blog calculou então quanto seria o custo da seleção de jogadores brasileiros mais caros de todos os tempos, levando em conta o tradicional sistema 4-4-2. A escalação (com o time da transferência mais custosa): Ederson (City); Danilo (Real Madrid), Thiago Silva (PSG), David Luiz (PSG) e Alex Sandro (Juventus); Fernandinho (City); Anderson (Manchester United), Oscar (Shanghai SIPG) e Kaká (Real Madrid); Neymar (Barcelona) e Hulk (Shanghai SIPG).

Pelo câmbio atual, este time custou nada menos do que R$ 1,9 bilhão, uma média de quase R$ 180 milhões por jogador.

E quanto dessa montanha de dinheiro entrou nos cofres dos clubes brasileiros? Só migalhas.

Da seleção nacional mais cara de todos tempos, só um jogador, Neymar, foi de uma negociação com um clube brasileiro como vendedor. E ainda assim dos R$ 312 milhões do custo total da transação, menos de R$ 34 milhões ficaram com o Santos.

Todos os outros 10 integrantes da seleção brasileira mais valiosa de todos os tempos deram lucros enormes para times europeus, que os contrataram antes por valores baixos.

Aos clubes brasileiros resta contar com a boa vontade que os compradores cumpram as normas da Fifa e repassem até 5% do valor da transação que os clubes formadores têm direito. Ou procurar um advogado e brigar nos tribunais pelas migalhas.

Veja, em reais, o custo da seleção brasileira mais cara da história

Ederson, 146 milhões
Danilo, 126 milhões
David Luiz, 176 milhões
Thiago Silva, 150 milhões
Alex Sandro, 93 milhões
Fernandinho, 142 milhões
Anderson, 112 milhões
Oscar, 214 milhões
Kaká, 231 milhões
Neymar, 312 milhões
Hulk, 199 milhões

 

 

CR7 simpatia em Brasília, Luis Fabiano salvando Dunga e agora prisões: um jogo inesquecível da seleção

Paulo Cobos, blogueiro do ESPN.com.br
Reprodução
'Folha' de novembro de 2008 noticia investimento do governo do DF em amistoso em Brasília
'Folha' de novembro de 2008 noticia investimento do governo do DF em amistoso em Brasília

Tive a imensa sorte de trabalhar em jogos da seleção brasileira por mais de 10 anos. Vi no estádio, trabalhando, o pentacampeonato em Yokohama com Ronaldo como herói, e também as eliminações das três Copas seguintes, incluindo o 7 a 1 no Mineirão.

Mas, o que aconteceu nesta terça-feira, 23 de maio, na Espanha e em Brasília, me fez lembrar o que, pelo menos jornalisticamente, foi um jogo verdadeiramente inesquecível da seleção brasileira.

Era novembro de 2008. O Brasil fazia campanha pífia nas eliminatórias, Muricy Ramalho brilhava com o tricampeonato brasileiro no São Paulo e o país pedia a cabeça de Dunga. Dois dias antes do jogo, até funcionários graúdos da CBF davam como certa a queda do treinador.

O adversário era a seleção de Portugal, então comandada por Luiz Felipe Scolari. Na delegação, Cristiano Ronaldo, já estrela do futebol mundial. E para quem acha que o português é marra pura, ele foi absolutamente simpático em entrevista coletiva que ele raramente concede no Real Madrid.

Chegou o dia do jogo, e Luis Fabiano resolveu salvar o emprego do Dunga. Com três gols, ele foi o principal jogador em campo na goleada de 6 a 2 que deu fôlego para o treinador. O resto é a história: Dunga ganhou força, brilhou nas eliminatórias em 2009, ganhou a Copa das Confederações e virou "favoritaço" para o Mundial da África do Sul (e não passou das quartas de final).

O que aconteceu dentro de campo já bastava para fazer aquele amistoso difícil de esquecer. Mas foi o que aconteceu longe dos gramados que me fez lembrar do jogo neste 23 de maio.

JOEDSON ALVES/AFP/Getty Images
Cristiano Ronaldo Portugal Brasil Amistoso Bezerrão Brasília 19/11/2008
Cristiano Ronaldo é marcado por Gilberto Silva (dir) e Anderson durante o amistoso

Aquele jogo foi decisivo para a queda de Ricardo Teixeira da presidência da CBF e da prisão do ex-presidente do Barcelona Sandro Rosell nesta terça-feira. Os dois sempre foram íntimos, e uma empresa de Rosell era quem tocava a organização da partida.

Na época, já parecia absurdo o investimento de R$ 10 milhões do governo do Distrito Federal para organizar a partida, com direito a fretamento de um avião gigante com pelo "menos 36 lugares" de classe executiva para a seleção portuguesa e hospedagem hotéis 5 estrelas também para convidados.

Cinco anos depois houve acusação de superfaturamento nessas despesas. Foi o estopim para que os negócios de Teixeira e Rosell fossem investigados a fundo. Os dois perderam seus cargos, e agora o catalão está na cadeia e o brasileiro no alvo das autoridades espanholas (no Brasil segue livre).

Depois de David Luiz, quem mais merece a 'anistia' na seleção: Jô, Fred, os dois ou nenhum?

E quem pagou a conta foi o então governador José Roberto Arruda, preso também nesta terça-feira acusado, junto com seu sucessor, de superfaturamento nas obras do estádio Mané Garrincha. O amistoso contra o Portugal foi em outra estádio. O Bezerrão, que foi reformado por R$ 56 milhões (o orçamento inicial era de R$ 30 milhões) e foi inaugurado sete meses depois do previsto.

Um jogo inesquecível.

 

Brasil tem 14 campeões nas grandes ligas da Europa; o que saiu do país mais velho tinha 21 anos

Paulo Cobos, blogueiro do ESPN.com.br
Chelsea recebe a taça da Premier League; veja a festa dos jogadores

É a prova que o futebol do Brasil continua revelando grandes jogadores. Com a definição dos títulos na Itália e na Espanha, as quatro principais ligas da Europa tiveram clubes campeões que juntos somam nada menos do que 14 jogadores brasileiros (sendo que três deles também têm outra nacionalidade).

E também fica provado a falência do futebol brasileiro para segurar seus maiores talentos por um tempo minimamente possível para que o torcedor do país tenha a oportunidade de vê-los em alto nível.

O mais velho brasileiro campeão na Itália, Espanha, Alemanha ou Inglaterra nesta temporada deixou o país quando tinha apenas 21 anos (o goleiro Neto, da Juventus).

Outros quatro partiram para a Europa com 20 anos (David Luiz, Alex Sandro, Danilo e Casemiro). Cinco abandonaram o país com 19 (Kenedy, William, Daniel Alves, Rafinha e Douglas Costa). Marcelo e Pepe partiram para a Europa com apenas 18, e mais cedo ainda foi embora Diego Costa, com apenas 17. Thiago Alcântara então nem jogou em um clube brasileiro, já começando no Barcelona.

A maioria dessa constelação de brasileiros campeões nas grandes ligas da Europa mal teve tempo para virar ídolo no clube que o revelou (alguém lembra de uma partida de Marcelo, o melhor lateral esquerdo do mundo?). Outros saíram até sob a desconfiança de sua torcida, como Casemiro, que de "preguiçoso" no São Paulo foi a pilar do meio-campo do Real Madrid de Zidane.

Que todos eles continuem ganhando títulos na Europa. E que um dia os maiores craques do Brasil também comemorem títulos na terra natal.

O que é vexame? Ser eliminado em 'grupo da morte' ou faturar milhões e não pagar nem telhas?

Paulo Cobos, blogueiro do ESPN.com.br
Antero, sobre finanças dos clubes: 'Ter contas em ordem é obrigação'

É verdade que o Flamengo tem muito mais dinheiro do que os adversários e um elenco bem mais estrelado. Mas também é verdade que o time estava no "grupo da morte" na Libertadores. E que o rival no jogo decisivo, fora de casa, era um grande da Argentina, que está na mesma prateleira que o futebol brasileiro.

Mas para a maioria de torcedores, incluindo os próprios flamenguistas, e crítica a queda na primeira fase da Libertadores foi um "vexame". Não importa que do outro lado estava o San Lorenzo, campeão do torneio há três anos e que briga pela liderança do Campeonato Argentino (está três pontos atrás do líder Boca Juniors).

O caso flamenguista não é isolado. Eliminações, algumas realmente inexplicáveis, e outras absolutamente normais, são taxadas de "vexame" e criam uma indignação que outros fatos do futebol bem mais enrolados são tratados como se fossem algo absolutamente normal.

É só cruzar a via Dutra e chegar no segundo clube mais popular do país. Nos últimos dias, o repórter Diego Garcia mostrou a série de ações que o Corinthians vem sofrendo na Justiça por falta de pagamentos. Primeiro foram calotes na compra de jogadores. O último foi por não cumprir o combinado de uma compra de apenas R$ 17 mil em uma loja de material de construção, onde adquiriu, entre outros itens, telhas.

Tironi: 'Flamengo está se especializando em passar vexame em torneios internacionais'

E, ao contrário de pais de família que perdem o emprego, o Corinthians não paga dívidas de milhões e tostões por causa da crise que o país sofre. O clube há poucas semanas anunciou que nunca faturou tanto como em 2016 (foram R$ 485 milhões). E que teve até superávit de R$ 31 milhões.

E mesmo não pagando os credores continua contratando, ao contrário das pessoas que não acertam suas contas e ficam sem crédito. E quem vende para o Corinthians, como a Ponte Preta fez nesta semana com Clayson, parece não se importar com a má fama de pagador corintiana.

Após eliminação do Flamengo, presidente prefere falar de política, não de futebol 

Como o Flamengo não é o único com "vexames" dentro de campo, o Corinthians não é o único clube grande que não paga o que deve. O próprio time carioca sabia bem o que é isso antes da administração atual, boa em arrumar suas finanças, mas que pena para ganhar títulos.

Mas basta ganhar uma taça que (quase) ninguém lembra que seu clube não paga o que deve.

Menos títulos e finais e recorde de eliminações na 1ª fase: cariocas não se entendem com Libertadores

Paulo Cobos, blogueiro do ESPN.com.br
Após eliminação na Libertadores, presidente do Fla nega demissões

A mais bela e famosa cidade da América do Sul não consegue se entender com a Taça Libertadores. A eliminação do Flamengo na edição de 2017, ainda na primeira fase, aumentou o abismo no desempenho dos grandes cariocas em relação às outras três grandes potências estaduais do futebol brasileiro na competição continental.

Mesmo sendo mais numerosos que gaúchos e mineiros, o que não significa maior número de participações per capita, os quatro grandes do Rio têm (também em relação aos paulistas) menos títulos e finais e o recorde negativo de eliminações na primeira fase, como aconteceu com o time flamenguista em Buenos Aires.

São apenas dois títulos (com os esquadrões do Flamengo, em 1981, e do Vasco, em 1998). Menos do que os três dos mineiros, oito dos paulistas e quatro dos gaúchos. O Rio disputou só outra final, com o Fluminense, contra dois vices dos times de Minas, sete dos de São Paulo e três dos do Rio Grande do Sul.

Sem contar o Botafogo de 2017, o time ainda não definiu sua vida na primeira fase, os grandes cariocas somam 31 participações na Libertadores, e em 11 delas, ou 35% do total, não passaram da primeira fase. Tanto em termos absolutos quanto relativos esses números são os piores entre os Estados potências do futebol brasileiro.

Na história, só 8% das participações dos grandes mineiros acabaram já na primeira fase, contra 17% do quarteto de grandes paulistas e 19% da dupla Gre-Nal.

É a hora dos cariocas pensarem no que precisa mudar na Libertadores.

* Sem levar em consideração 2017, quando ainda não definiram suas situações na 1ª fase
** Uma na primeira fase e outra na fase prévia

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