Faixa roxa de jiu-jitsu e única mulher na seleção, baiana de 22 anos é campeã mundial de MMA amador

WORLD MMA AMATEUR
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O World MMA Amateur é o campeonato mundial de MMA amador, que pode abrir portas para eventos maiores e profissionais, como o Invicta e o tão conhecido UFC. Geralmente, a sede do campeonato é em Las Vegas. Mas neste ano, foi levado para a cidade de Manama, no Bahrein, e Michele foi a única mulher brasileira a embarcar com a seleção brasileira para disputar a competição. E além disso, foi a primeira luta dela fora do País.

Michele Oliveira é faixa roxa de jiu-jitsu, tem 22 anos, nascida em Conceição do Coité, na Bahia, moradora do Rio de Janeiro e atleta de MMA da Nova União.

Há um ano, ela revelava aqui sua transição do jiu-jitsu para o MMA. A atleta treinava na Cícero Costha, em São Paulo, e viu no Rio de Janeiro uma oportunidade para migrar para o MMA, tanto para ganhar dinheiro como, é claro, para sair na porrada, que era um desejo de Michele.

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Sua estreia foi em maio deste ano, pelo Shooto Brasil, e ela finalizou sua adversária com apenas 35 segundos de luta e parece que sua carreira deslanchou. 
Michele foi convidada a participar do World MMA Amateur e topou o desafio, lutando pelo pelo mosca (125lbs).

Estava em dia de sparring na Nova União e o meu mestre Dede Pederneiras pediu meu nome completo e informou que queria enviar uma pessoa para o Mundial, mas que não era nada certo. Dei meu nome, peso e deixei nas mãos de Deus. Continuei treinando como se tivesse certeza de que disputaria essa competição. Passei algumas semanas de ansiedade e no dia que estava descansando em casa recebi a ligação do meu mestre Oswaldo, que considero como pai, informando que eu estava confirmada no Bahrein. Uma das melhores notícias que poderia ter recebido!

Michele

Sua primeira luta na Arena Khalifa foi na última quarta-feira, e Michele venceu a irlandesa Dee Begley por nocaute técnico ainda no primeiro round.

A luta seguinte foi novamente vencida pela brasileira, dessa vez por uma finalização (katagatame) contra a romena Ghita Lulia Luiza.

Na semifinal, Michele cruzou com a húngara Alexandra Kovacs, que era favorita ao título, tendo em seu cartel 13 vitórias e sendo atual campeã mundial e bicampeã europeia. Mas a brasileira venceu por decisão unânime, avançando para a final.

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A decisão foi nesse sábado, e Michele venceu a irlandesa Danni Neilan por decisão unânime, dominando completamente os rounds e ficando com o título.

World MMA Amateur
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Após a vitória, Michele fez uma publicação muito emocionada em seu Instagram.

E ao chegar no Rio de Janeiro, foi recebida de braços abertos pelo público.

Falando além da luta, perguntei a Michele como foi para ela ter ido a um país em que sabemos que fazem vista grossa às mulheres, e ela contou que foi orientada antecipadamente a não se comunicar com homens e que isso a deixou com receio, principalmente por sua falta de experiência. Mas contou também que aconteceu algo muito inesperado. 

Eles amam o povo brasileiro e a cada luta que eu vencia muitas pessoas me cumprimentavam, tiravam fotos, algo surreal. E pra finalizar, ao ser consagrada campeã, o Sheikh responsável por todo evento veio me parabenizar e ainda tirou uma foto comigo. Foi diferente de tudo que pensei.

Michele

WORLD MMA AMATEUR
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Para a comunidade feminina das artes marciais no geral, podemos considerar que Michele teve uma grande conquista, não só para ela mas para todas nós, que pode continuar abrindo portas.

A atleta aproveitou para contar que ficou muito realizada com o título, dando o melhor de si e impressionando-se com a repercussão de sua luta.

É difícil, pois nós mulheres ainda somos vistas com alguns bloqueios, mas o mundo está mudando e na arte marcial existem diversas mulheres importantes. Posso falar pois vim do jiu-jitsu e lá temos boas referências femininas. Eu tentei e dei o melhor de mim, não esperava que fosse repercutir de forma tão grandiosa. Quero fazer mais e mais para o meu País e para as pessoas que desejam o meu sucesso.

Michele

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Michele com seu time.
Michele com seu time.

E não há nada além de sucesso que possamos desejar à Michele, que tem planos e objetivos futuros muito maiores, sendo um deles manter-se firme no jiu-jitsu o quanto puder. E já está se preparando para competir o Campeonato Europeu, disputado todos os anos em Portugal, no mês de janeiro.

Estou aguardando uma nova oportunidade de lutar um evento tão grande quanto, mas desde já vou focar no Europeu. Eu amo o BJJ e sempre que puder quero participar de competições que antes eram mais difíceis pelas dificuldades que eu sempre passei. No MMA, agora vamos aguardar se farei mais lutas no amador ou se migro para uma estreia no profissional.  Isso vai depender do Dede, ele que manda.

Michele

E se antes as mulheres não eram levadas a sério no MMA, acho que a cada vitória e destaque só resta a Dana White rever cada vez mais seus conceitos de que mulheres não seriam recrutadas para os seus eventos. 

Que isso seja só o começo para a Michele! 

Obrigada!

Ela superou depressão e medo de perder. Hoje, é faixa roxa quase marrom, mas já dá trabalho para as pretas

GRAPPLE TV
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Eu acompanho a Thamara desde quando ela era faixa azul, tendo em vista que quando eu peguei a minha azul, ela já era graduada há um ano e eu podia cruzar com ela em algum campeonato por aí. E vendo seu desempenho em competições, sempre me perguntava como ela conseguia conciliar estudo, estágio e, ainda por cima, treinar e levar ouro em tudo.

Hoje, ela é faixa roxa e sua graduação de marrom está prevista para esta semana. Mas acontece que ela decidiu se arriscar em alguns campeonatos já usando a faixa marrom e já tem confrontado atletas de renome. Então, eu decidi conversar com ela e entender de onde vem esse talento todo!

Thamara Ferreira, 21 anos, ex-estudante de direito e atleta da PSLPB Cícero Costha.

Ela estudava direito de manhã, fazia estágio à tarde e ia treinar às 17h, na época, na equipe Barbosa.  "Eu tinha uma rotina muito puxada. Chegou uma hora que perdi a bolsa do curso. Achei que não era o jiu jitsu me atrapalhando, mas sim a faculdade, porque eu estava tão ligada ao jiu-jitsu, que não aceitava nada me atrapalhar", contou. Isso aconteceu quando ela ainda era faixa branca, quando ganhou o Campeonato Paulista no peso e absoluto. Além disso, ela contou que enquanto estava na faculdade ou no estágio, pensava que podia estar na academia e isso a prejudicava muito. Até que um dia, ela decidiu largar tudo e correr atrás do sonho de viver do jiu-jitsu

"Chegou o momento de dizer aos meus pais que não queria mais aquilo, ainda mais que papai, na época, queria pagar a faculdade para mim, depois de ter perdido a bolsa. Conversei com eles, e eles não aceitaram de cara. Mas depois que bati o pé e fui atrás de tudo, eles viram que não tinha jeito. Era aquilo ou eu não seria feliz. Tranquei a faculdade, larguei o estágio, e só fui treinar. Economizei um bom dinheiro ali no estágio, e dava para pagar algumas coisas até eu me acertar na minha nova fase".

Nunca é fácil, mas aos poucos Thamara mostrou aos pais que era isso que queria e, hoje, eles a apoiam muito.

instagram.com/thamarabjj
Thamara e suas parceiras da Cícero Costha
Thamara e suas parceiras da Cícero Costha

A mudança de equipe

Desde a faixa branca, Thamara treinava na Barbosa, mas foi na faixa azul e quando decidiu viver o jiu-jitsu que mudou para a equipe Cícero Costha.

Como tudo na vida, ela contou que a mudança não foi fácil, mas reconhece muito o valor da ex-equipe e de seu ex- professor, Marco Antônio Barbosa.

"A mudança foi complicada, há um tempo, estava pensando em sair. Foi uma equipe que me fez crescer muito, agradeço muito até hoje por tudo o que o Mestre Barbosa fez por mim, abrindo as portas pra eu treinar... E eu decidi sair"

Mas ao decidir sair, ela se viu sem equipe. Por conhecer muitas meninas de outros times, contou que elas a chamaram para treinar, mas ela decidiu que só optaria por uma equipe que a fizesse bem e que a fizesse se sentir em casa. "Eu treinei em várias, mas a Cícero foi onde mais me identifiquei." E lá está até hoje.

Ao se mudar, contou que ficou morando no TUF - que é o alojamento para os atletas da Cícero Costha. Na época, o TUF era misto e podiam morar homens e mulheres. Ela conta que tinha seu quarto com as meninas e que foi uma experiência ótima, em que ela aprendeu muito e que viu sua rotina mudar totalmente. 

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Thamara e a faixa preta Cinthia Mizobe
Thamara e a faixa preta Cinthia Mizobe

"A gente tinha uma rotina puxada, fazíamos três treinos por dia. Era 40 minutos andando de casa até a academia. Treinávamos às 9h, 10h30 e meio dia, voltávamos para a casa, almoçávamos, íamos para a academia e nem tínhamos quem nos auxiliasse, fazíamos nosso próprio treino de musculação. A gente ia levando. Eu morava com várias meninas lá e foi uma época em que cresci muito de todas as formas. Lá vi muita coisa que me deixou com mais vontade ainda de seguir em frente. Eu vi menino bem novo não ter quase nada pra comer, sabe? Não tinha dinheiro pra comer, chegava no fim de semana, o menino ia lá e era campeão Sul Americano, Brasileiro... Eu parava, pensava que se eles conseguiam, eu também conseguiria. Na época, minha família passou a me ajudar e eu vi que dava para seguir em frente. Essa fase me ajudou muito

Sobre as pessoas que treinam e que moraram com ela, ela diz que as admira muito porque são amigas de verdade. "Um ajuda o outro. Se for para dividir o prato de comida, eles dividem. São realmente humildes".

A faixa marrom vem aí: mas ela já tem dado o que falar na marrom + preta

E apesar de a Thamara estar lutando de faixa marrom nos campeonatos, ela ainda é faixa roxa, mas ela vai ser graduada no dia 18 deste mês, próximo sábado. Ela lutou o primeiro campeonato de marrom e preta juntas em Los Angeles (Grand Slam) e sua primeira luta foi com a Baby, de cara a atual campeã mundial de sua categoria na faixa preta. "Me deixou bem nervosa", destacou a atleta.

instagram.com/thamarabjj
Thamara x Baby, no Grand Slam em Los Angeles
Thamara x Baby, no Grand Slam em Los Angeles

Thamara perdeu e foi lutar a repescagem contra a Erin Herle, mas a vitória foi da americana e Thamara não medalhou.

"Eu sai de lá bem chateada, mas no outro dia estava enxergando de outro modo. Senti que poderia ir melhor nas próximas, só precisava treinar e melhorar minha cabeça e não havia motivo para ficar triste, sendo que era um campeonato grande com meninas experientes. O mais triste foi que travei nas duas lutas e não sabia muito bem o que estava fazendo"

Em seguida, ela lutou um campeonato não federado e venceu duas faixas pretas, entre elas, Ana Maria Índia, que além de faixa preta há anos é, também, atleta de MMA. 

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Thamara no pódio contra as faixas pretas.
Thamara no pódio contra as faixas pretas.

Seu segundo campeonato grande foi o Grand Slam, dessa vez no Rio de Janeiro, no último final da semana. Em sua chave, só havia meninas de peso e para as quais ela já tinha perdido algumas vezes.

"Estava nervosa, mas dessa vez era diferente, estava confiante! E graças a Deus deu tudo certo, como eu planejei de verdade. Sem travar (risos), alegre e com vontade de ganhar, de deixar meu melhor ali. Se fosse para perder, que eu perdesse lutando."

Sobre o Grand Slam do Rio de Janeiro

Foi acompanhando as chaves que percebi que eu precisava expor essa mulher (hahaha). No último final de semana, rolou o Grand Slam da UAEJJF no Rio de Janeiro e as categorias femininas eram faixas marrons e pretas misturadas. Thamara estava lá, competindo com grandes nomes como Ana Carolina Vieira, Erin Herle e Renata Marinho. E ainda assim, chegou até a final, contra a Ana Carolina "Baby". 

Sua primeira luta foi contra Andressa Cintra, da Checkmat, que ela venceu pela quarta vez (elas já tiveram cinco confrontos) por 4x2, avançando para lutar contra a gringa Erin Herle (Alliance) pela segunda vez. Dessa vez, ela venceu por duas vantagens e foi para a final. "Eu fiz questão de representar o Brasil! Aqui não, risos" - conta - "Lutei mesmo de verdade, porque a primeira vez que lutei com ela eu não consegui me sentir bem, estava bem travada como falei. Dessa vez foi pra valer".

As lutas foram no sábado e as finais programadas para o domingo:

"É a segunda vez que luto com a Baby, é complicado explicar, eu gosto de lutar com ela, não de levar pressão risos. É alguém que eu acompanho desde quando comecei, parece que estou sonhando. 'Caraca, alguém me belisca, será que foi tão rápido assim eu da azul pra onde estou agora?!' risos. O tempo, para mim, passou muito rápido. Lutar com meninas de grande influência me deixa muito ansiosa e faz com que eu me dedique ainda mais para tudo continuar dando certo".

UAEJJF
Sua luta contra a Baby, este final de semana.
Sua luta contra a Baby, este final de semana.

Thamara ficou com o vice, após a vitória da Baby por um estrangulamento na final. Uma luta bem dura entre as duas!

Durante o campeonato, Thamara publicou em seu stories no Instagram um pedido de desculpas pela explosão de emoções no sábado e ela aproveitou para expor o motivo.

"Foi uma surpresa tão grande que toda luta que eu terminava, eu chorava. Parecia uma menina depressiva. Toda luta que eu fazia eu chorava. Eu agradecia. Eu estava com tanta vontade, que não conseguia expressar meus sentimentos na hora. Dava vontade de chorar de felicidade, meu Deus do céu, era tudo misturado"

E sem dúvidas, a emoção foi gigante e muitas vezes nem conseguimos nos expressar em palavras. No final, ela contou que está muito satisfeita com seu desempenho e que só está com mais e mais vontade de treinar e vencer.

"Foi incrível, eu já estava muito feliz por estar ali na final. Meu segundo campeonato grande de marrom e tudo deu certo como um dia eu pedi a Deus, fazer uma final dessas. Eu lutei muito bem, me soltei bem na luta, fiz guarda o tempo todo, o que eu gosto muito de fazer. Me sinto bem fazendo guarda, mas ela é passadora nata, precisava estar um pouco mais preparada e menos solta. Não posso vacilar me abrindo tanto, com a Baby então, nem um pouco (risos). Mas estava tão feliz e confiante, que não liguei em arriscar, em me soltar. Queria mesmo era lutar alegre e deixar o meu melhor ali no momento. Mostrar a muitas meninas que dei muitos passos para trás, perdendo na minha faixa roxa inteira, e olha onde estive! Tudo é possível!"

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1º Lugar: Baby; 2º Lugar: Thamara; 3º Lugar: Renata Marinho. Categoria até 70kg
1º Lugar: Baby; 2º Lugar: Thamara; 3º Lugar: Renata Marinho. Categoria até 70kg

Planos futuros e objetivo

Thamara tem muitos motivos para estar feliz, já que passou por momentos complicados durante a faixa roxa. Ela passou por um quadro de depressão, que foi onde teve muito medo de lutar e perder, mas hoje, já vem superando a má fase.

"Deus faz tudo perfeito. Eu sinto que estou chegando cada vez mais perto de tudo o que sonho. Não por ter ganhado de pessoas com grande influência, mas por voltar a lutar bem, depois de passar por alguns momentos difíceis na roxa, como depressão, medos absurdos de lutar e perder. Sendo que derrota sempre fará parte da nossa vida de atleta. Mas tudo isso foi muito importante para mim. Hoje, não tem medo de perder para ninguém, pois sei o quanto isso me ajudou um dia a entender o quanto preciso acreditar ali dentro. E se eu quero isso, eu vou conseguir, é só questão de tempo. Não temo mais nada"

Rodrigo Basaure
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O melhor de tudo é que ela se sente muito bem e que está muito feliz. Não há nada mais lindo do que ver uma mulher, tão nova, com tantas conquistas em seu currículo, estar inspirada a mostrar para outras mulheres que nós também podemos.

"Sempre esperei por esse momento, me preparei demais para isso. Dizem que tudo acontece na faixa marrom, estou preparada para viver momentos incríveis e ganhar muitas coisas. Para mim, a responsabilidade não aumenta, o que aumenta é a vontade de sair na mão e ser uma referência também um dia, isso sim. Quero mostrar a muitas meninas que conheço, que todas nós podemos, só é preciso trabalhar duro e querer mais do que qualquer um."

Sobre ser referência um dia: Thamara, considere-se referência. Oss e que a história dela sirva de inspiração para tantas outras!

Viajei sozinha, conheci a sede da minha equipe nos EUA e treinei com uma mão só, dias depois de operar

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ATOS HQ
ATOS HQ

Alerta de post pessoal detectado, mas não tem como não falar disso.

Desde os 15 anos, eu tinha um sonho: ir para a Califórnia. Antes, era só por ir, conhecer e fazer um intercâmbio. Há uns 10 anos, a Califórnia não era um lugar que recebia grandes nomes e equipes de jiu-jitsu. E eu também, nesse meio tempo, não fui tão do jiu-jitsu assim (fiquei seis anos afastada).

Mas quando voltei a treinar e comecei de fato a acompanhar o crescimento do jiu-jitsu, comecei a perceber que as pessoas estavam migrando para lá. E que outras, já tinham migrado. A Califórnia passou a ser um estado que abriga grandes equipes, atletas e o mais importante campeonato mundial.

Então, meu sonho não podia mais ser adiado, depois de quase 10 anos pensando ou procurando uma companhia ou sempre dando a desculpa de que a grana estava curta. Ele passou a ser prioridade. Hoje, sou faixa roxa da Ono, que pertence a Atos, equipe que tem sua sede lá em San Diego. Eu sempre quis treinar nessa equipe, justamente por ser a melhor do mundo. 

Detentora de importantes títulos, conquistou, neste ano, o Mundial da IBJJF, tirando o reinado de outra grande equipe depois de nove anos no topo - ainda que a Atos só tenha sido fundada em 2008.  Aqui no Brasil, temos poucas filiais e eu dei a sorte de achar uma relativamente perto de casa. Isso fez com que eu me sentisse realizada e que tivesse ainda mais vontade de ir até San Diego e saber de onde vem tudo isso o que a gente vê pelos vídeos e redes sociais.

Além disso, também sou daquelas admiradoras da Art Of Jiu-Jitsu (AOJ), que também pertence a Atos e que, veja só, tem sua sede em Costa Mesa (cerca de uma hora e meia de San Diego). Ou seja, dava para fazer tudo.

LISA ALBON
Open mat na Barum Jiu-Jitsu
Open mat na Barum Jiu-Jitsu

Eu estava decidida a ir até lá visitar o estado que sempre quis, treinar onde sempre quis e, claro, gravar com pessoas que sempre almejei. Mas infelizmente, eu tive uma lesão no dedo durante um treino, cerca de três semanas antes de viajar e isso me rendeu uma cirurgia. Consequentemente, afastamento dos tatames. 

Parece que foi uma prova de fogo, mas embora eu estivesse com menos uma mão, ainda estava apta a viajar e gravar. E assim fui! Um dia antes de embarcar, tirei os pontos do dedo e cheguei a Los Angeles. A viagem durou 15 dias. A primeira semana foi completamente a passeio e, em seguida, eu intercalava entre academia (para gravar) e passeio, claro.

Eu tinha passado um pouco de perrengue quando cheguei por conta da língua. Eu nunca tinha saído do Brasil, nunca tinha ficado tanto tempo imersa no inglês. Também tive dificuldade de ficar em hostel (que não foi ruim, no final! E eu super recomendo), bem como de estacionar o carro ou de comer. 

Mas eu cheguei na Atos pela primeira vez e a maior dificuldade foi estar lá dentro, um lugar que sempre sonhei, e não poder fazer o que mais amo. Mas vida que segue e comecei minha saga de entrevistas por Lucas Barbosa (Hulk) e Kaynan Duarte, dois atletas brasileiros que moram em San Diego e treinam na Atos. Não vou contar mais porque tem vídeo, hahaha.

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Tá sem foco, mas foi o que deu! Hahaha
Tá sem foco, mas foi o que deu! Hahaha

Lá em San Diego, um dos planos era conhecer a Lisa e já vínhamos nos falando há um tempo. Ela é fotógrafa, está sempre presente em grandes campeonatos e trabalha no meio de marcas de jiu-jitsu. Aqui no Brasil, ela é carinhosamente conhecida como Lisalisapics (haha) por conta de seu Instagram e, dentre tantas coisas incríveis que passei com essa mulher incrível, ela me levou para conhecer a Barum Jiu-Jitsu, do professor Alfredo. 

Não tive tempo de gravar, mas foi lá que decidi treinar com uma mão só, porque a energia estava contagiante. Aos domingos, Alfredo abre seu tatame para um open mat, em que todas as pessoas, de todas as graduações e todas as bandeiras, são bem vindas: é só chegar e treinar. Alfredo me contou que foi para os Estados Unidos na intenção de ficar um ano e, hoje, mora lá há dezesseis.

A próxima parada foi a AOJ, lá em Costa Mesa. Eu já fiz aqui uma entrevista com as irmãs Sophia e Isabella, mais conhecidas como Flores Sisters, mas fui até lá para conversarmos pessoalmente e, também, para que eu conhecesse melhor a vida delas, de pertinho. 

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Sophia e Isabella
Sophia e Isabella

Algo que também não vou falar mais que isso, já que logo o vídeo estará disponível em meu canal. Mas se tem uma coisa que não posso deixar de falar é na Madalena, mais uma das Flores. Ela tem seu próprio instagram e é muito queridinha por aqui! Ela é muito simpática e adora uma câmera, também treina e só tem cinco anos ("and a half" - como ela me lembrou).

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Madalena Flores
Madalena Flores

Lá na AOJ, também tive a oportunidade de conversar com o Guilherme Mendes, que junto com seu irmão Rafael é responsável pela Art Of Jiu-Jitsu, que me contou como o foco de ambos os levaram tão além e me mostrou como funciona por trás daquelas paredes, tatames e kimonos brancos. Em breve, tem vídeo também!

Uns dias depois, voltei à Atos para finalmente entrevistar os mestres: André e Angélica Galvão. Mas como já tinha treinado com uma mão só mesmo, decidi aproveitar e treinar de novo (não façam isso).  Além da entrevista com os dois, também conheci algumas mulheres duríssimas, entre elas a Heather Raftery, faixa preta e a Heather Morgan, faixa roxa, que embora esteja há apenas três meses de faixa roxa, é alguém que não desejo que esteja em minha categoria nos campeonatos, hahaha.

Juliana Hanna
As duas Heathers
As duas Heathers

O papo com a Angélica e o André também foi incrível e inspirador.

É muito maravilhoso ver que grandes projetos de sucesso começam de uma maneira pequena e que, para ir longe, acreditar e correr atrás são grandes passos. Hoje, tanto os irmãos Mendes como Angélica e André estão vivendo algo muito grande e muito além do jiu-jitsu, e é por acreditarem e seguirem que foram além. Não há ninguém no meio do jiu-jitsu que não saiba quem são eles, que não se inspire, que não veja vídeos ou que não saiba pelo menos um percentual de sua história.

Juliana Hanna
Entrevista com Angélica
Entrevista com Angélica

E essa foi minha história de passagem pelas academias da Califórnia, algo que eu sempre quis. Claro que eu gostaria de ter feito muito mais, inclusive treinado de verdade - eu estava me preparando para isso -, mas o fato de estar lá e conhecer como o jiu-jitsu funciona fora do Brasil, foi incrível. 

A maior diferença de tudo é que as pessoas respeitam e dão muito valor quando se diz "sou brasileira, treino jiu-jitsu" e deve ser por isso que o esporte está se desenvolvendo muito mais lá fora do que aqui ou então porque as pessoas escolhem migrar para lá.

Seria incrível se o Brasil pudesse carregar o BJJ como é no nome e ostentar o orgulho que dá fazer parte do jiu-jitsu brasileiro. Mas ao mesmo tempo, é incrível ver que o esporte está se espalhando mundo a fora. 

Até a semana que vem!

Mulheres faixas pretas dividem valor do prêmio em campeonato mundial de jiu-jitsu

Grapple TV
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Hoje estou aqui para falar sobre um assunto que divide opiniões: a premiação feminina em campeonatos. Eu já falei sobre isso aqui no BJJ Fórum, mas acho que é válido falar de novo por conta de um episódio que aconteceu nesse final de semana e gerou uma mobilidade muito grande nas redes sociais.

Nos Estados Unidos (Long Beach, Califórnia), rolou o Campeonato Mundial da Sport Jiu-Jitsu International Federation (SJJIF), em que o absoluto faixa preta masculino e feminino ofereciam a mesma premiação: 15 mil dólares para a campeã. Mas é claro, desde que houvesse 12 atletas inscritas, no mínimo. Resultado? Algumas atletas espalhadas em suas categorias, um total de 13 faixas pretas, mas na hora do absoluto, cinco inscritas.

Isso gerou uma grande revolta por parte das meninas. Tayane Porfírio, por sua vez, decidiu publicar, falando sobre a competição (e sua conquista) em suas redes sociais.

Em seguida, ela publicou novamente uma foto das faixas pretas que estavam presentes no absoluto e, na legenda, contou sobre uma divisão de prêmio entre elas.

Então, decidi juntar algumas das atletas que participaram do absoluto e conversar sobre o que aconteceu. As participantes foram Jéssica Flowers, Tayane Porfírio, Ana Carolina Vieira (Baby), Nathiely de Jesus e Claudia do Val.

Segundo a Tayane, elas dividiram o dinheiro por estarem na mesma situação. "Todas nós tiramos dinheiro do bolso para vir lutar, estávamos todas na mesma situação. Então, decidimos dividir o prêmio", contou.

Claudia do Val também disse que a divisão da premiação tinha sido feita de uma maneira não muito boa. "Para começar, tinha que haver, no mínimo, quatro atletas para ter premiação, mas o feminino só tinha quatro categorias. E com menos de 12 meninas, só a primeira colocada ganhava dinheiro. Acho que o organizador pode não ter pensado bem, mas conversamos sobre tudo isso com ele."

Por conta de a categoria não ter atingido 12 mulheres, a premiação foi de cinco mil dólares, divididos entre elas. Uma atitude maravilhosa que não é algo que esperamos ver por aí.

Infelizmente, muitos comentários ofensivos apareceram nas redes sociais, de todos os lados, o que é uma pena e apenas enfraquece o nosso esporte. Estamos lutando todos os dias para que a divisão feminina cresça e a tendência é essa, desde que andemos sempre juntas. 

O que aconteceu no final de semana, apesar de um gesto bonito, é uma pena, porque poderia ter sido 15 mil dólares, o que provavelmente cobriria todo o gasto que a campeã teve com o deslocamento para lutar. Isso sem contar as outras colocadas.

O evento da SJJIF foi muito generoso em ter optado por uma premiação igual, levando em consideração que a categoria masculina tinha 145 inscritos na faixa preta e a feminina, apenas 13. Isso mostra que no masculino, caso todos lutassem o absoluto, a premiação de 15 mil dólares seria quitada só com os valores de inscrição, e o feminino estaria bem longe disso - lembrando que também houve premiação em dinheiro para as categorias. 

Todas as informações sobre chaves, premiações e entradas podem ser encontradas aqui. Também não podemos culpar apenas as mulheres por não estarem lá. Vi muitas delas dizendo que não sabiam sobre o evento, o que talvez tenha sido apenas um erro de direcionamento, mas que também serve para os próximos, já que tudo de novo é acerto e erro. Foi o primeiro evento que ofereceu a mesma premiação para ambas as categorias, e isso é um grande marco.

Como eu já disse no texto que escrevi anteriormente, o lado do organizador conta muito na hora de definir uma premiação. Muitas pessoas reclamam sobre pagamentos diferentes, mas se esquecem de parar para analisar os números e o que vale mais a pena para quem está, de certa forma, lucrando. A realidade é essa: mais inscritos, mais público, mais dinheiro. E vice versa. 

Porém, temos, também, que parar para pensar no nosso papel dentro disso tudo. Nosso papel como mulheres e atletas. Eu nunca gostei de lutar absoluto por me sentir leve demais, mas por outro lado, eu não vivo de dinheiro de campeonatos e treino jiu-jitsu por hobby. A primeira vez que decidi entrar foi recentemente porque, ao sair do pódio da minha premiação na categoria, a organizadora perguntou a todas quem lutaria o absoluto. Todas as meninas iam respondendo "não" e, quando chegou em mim, ela falou "depois vocês reclamam que não tem premiação" - o campeonato estava oferecendo uma premiação generosa, que bancaria um pouco mais do que a inscrição, ainda que não tivéssemos atingido o mínimo de atletas estipulado anteriormente. 

Parece que isso me fez virar uma chavinha na cabeça e pensar que eu poderia estar prejudicando outras adversárias, que por sua vez, poderiam estar lá só por conta do prêmio, e eu decidi me inscrever e fazer minha parte. O que me motivou foi que, por ser uma defensora do jiu-jitsu feminino, inclusive publicamente, não seria justo fazer diferente na hora da luta. Estou lá para me divertir, se ganhar, ótimo, senão, ficarei feliz em ter ajudado quem realmente estava dependendo daquela grana.

Então, a reflexão que quero deixar hoje para você, seja homem ou mulher, independentemente de faixa e bandeira é: o que te motiva a lutar um absoluto? O que te desanima? Todas nós estamos atrás do mesmo objetivo, mesmo que de maneiras diferentes, e temos que caminhar juntas. 

Que a parceria das faixas pretas do final de semana sirva de exemplo para a união no meio do jiu-jitsu. Que a iniciativa da SJJIF sirva de exemplo para outras. Mas que tudo isso sirva mais ainda de exemplo para incentivar cada vez as mulheres a estarem nos tatames, competindo e mostrando que realmente estamos crescendo. As portas estão abertas, pode ser que não totalmente, mas estão se abrindo aos poucos, e precisamos tirar disso o melhor para todas nós.

Para acompanhar as postagens das meninas citadas no texto, é só clicar no link do Instagram delas: Tayane PorfírioNathielyAna CarolinaJéssica Flowers e Claudia do Val.

Até semana que vem!

Prepare-se para o primeiro campeonato feminino de jiu-jitsu de São Paulo

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Muito se fala sobre eventos só para mulheres e, de fato, ultimamente, a procura vem aumentado muito. 

Por conta disso, temos muitos treinões e seminários, por exemplo, que são destinados apenas para mulher. Muita gente acredita ser segregação, mas na verdade é uma forma de atrair a mulherada para treinar e aderir ao esporte, uma vez que muitas delas têm receio de treinar por se assustarem ao ver aquele monte de marmanjo no tatame. Sendo assim, a iniciativa de um campeonato feminino é super válida e promete ser um sucesso.

Foi pensando nisso que a LMK Eventos teve a iniciativa de criar um campeonato só para nós, mulheres.

Então, anota aí que ainda dá tempo.

Quando? Dia 22 de outubro de 2017 (domingo)
Onde?  Na Unítalo, em Santo Amaro. O endereço é Avenida João Dias, 2046.
E as inscrições? Vão até dia 17 de outubro e pode ser feita pelo site Sou Competidor.

As categorias vão de mirim a master e terá peso e absoluto, sendo que o absoluto será dividido entre leve e pesado. E o melhor: com premiação em dinheiro! Para a premiação ser 100% validada, é preciso que o absoluto conte com mais de oito atletas e, caso o número seja inferior, será pago 50% do prêmio.

As premiações serão kimono para o absoluto juvenil, tanto faixa azul quanto branca. Para o adulto faixa branca, R$300. Adulto faixa azul, R$400. Adulto faixa roxa, R$500. E para faixa marrom e preta, que lutam juntas, a premiação é de R$700.

Divulgação
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Além disso, o evento contará com a presença da atleta faixa preta Bianca Basílio,  que você pode conhecer melhor clicando aqui, relembrando nossa série sobre ela.

A entrada para o público custa R$5.

É uma ótima oportunidade de mostrar o que é o jiu-jitsu feminino.

Preparadas? Então corre lá para se inscrever!

O campeonato tem apoio total do BJJ Girls Mag

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