Morte de torcedor 'raiz' coloca luz no debate sobre a exclusão social nos estádios brasileiros

Mauro Cezar Pereira, blogueiro do ESPN.com.br


Houve um tempo em que ir ao futebol era algo acessível para todos. O preço da arquibancada regulava com o do cinema, mais caro em jogos importantes, decisivos, como aos sábados e domingos nas salas de exibição. Mas baratinho em pelejas menores, como ocorre numa terça-feira à tarde para quem procura um filme bom ou que apenas divirta. Aos poucos, as cifras dispararam, e com as tais "arenas", transformaram o velho esporte bretão em programa da classe média, de quem vira sócio, tem dinheiro para pagar uma mensalidade e o bilhete caro. Agora, ao invés de puxar aquela nota amassada do bolso, o torcedor faz biometria. Elitizaram a paixão popular, tiraram o pobre dos estádios, sem dó, nem piedade.

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Zico comemora gol no Maracanã original: esses geraldinos pisam no New Maracanã?
Zico comemora gol no Maracanã original: esses geraldinos pisam no New Maracanã?

Eliminaram do Maracanã e do Mineirão, entre outras canchas, o lugar mais barato, a geral. Interessante é que a maioria dos que defendiam o fim daquele setor popular, democrático e repleto de personagens folclóricos jamais pisou ali. Nunca ficaram voluntariamente de pé os 90 minutos sob tempestade, segurando um guarda-chuva, apenas para ver o time em campo. Mas esses acadêmicos se acham capazes de falar a respeito, de dizer o que é bom ou não é. Sim, são aqueles que babaram pelas tais arenas antes da Copa, que afirmavam tolices como "o torcedor agora terá conforto", quando na realidade ele foi é arrancado do campo de futebol. Afastado pelo bolso, impedido de chegar perto de seu time de coração.

 
Ante o saudosismo causado pela inexistência da geral, surgem argumentos como o "culto ao desconforto", que os antigeral gostam de usar, como se nós, defensores do setor popular, associássemos a presença do pobre no estádio à localização. Mas o geraldino não reclamava. Quando vimos cartazes na geral pedido "mais conforto" ou algo assim? Ora, eles apenas queriam estar no estádio, perto dos ídolos, e a visão não tão boa do campo (aliás parecida com a de quem senta nas primeiras cadeiras de uma arena) era compensada pela emoção de estar ali, de participar. Se uns e outros não gostavam, por que impedir quem achava ótimo, ou preferia a geral do que o nada? Nem tal opção essa gente tem mais.

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Seu Expedito em Flamengo x Santos, pela Copa do Brasil
Seu Expedito em Flamengo x Santos, pela Copa do Brasil

Na geral havia, sim, sacos de mijo que explodiam nas costas de seus frequentadores. E quem jogava era o cara da arquibancada, que tinha mais dinheiro para o ingresso e menos educação e respeito pelo geraldino, a vítima, não o culpado. Alguns desses arquibaldos ainda estão lá em cima. Por que hoje em dia não jogam urina no torcedor das cadeiras inferiores? Talvez por não serem pobretões como boa parte dos frequentadores da velha geral. Eliminaram o setor popular por razões diversas, entre elas o fato de o torcedor com mais dinheiro humilhar o mais pobre, que foi afastado para que esse porco, um verme com mais reais na carteira pudesse seguir frequentando o estádio.

Líder do Brasileiro, o Corinthians tem no certame 80% de ocupação de sua Arena, ou quase 10 mil lugares vazios por jogo, em média. No Palmeiras sobram, por peleja, mais de 11 mil, com taxa de 74%. E no pequeno estádio onde atua o Flamengo ficam vazios, por cotejo, em torno de 8 mil, com os vergonhosos 60% de ocupação. São os três clubes que cobram os ingressos mais caros no país: R$ 60 no Allianz Parque, R$ 58 na Ilha do Urubu e R$ 55 em Itaquera, o preço médio. E mesmo sobrando milhares de lugares na maioria das partidas, ninguém pensa, tenta, estuda uma forma para reduzir os cifrões e, mesmo eventualmente, permitir a presença de alguns dos milhões de excluídos.

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Geraldinos no Maracanã em noite chuvosa: setor existiu durante 55 anos
Geraldinos no Maracanã em noite chuvosa: setor existiu durante 55 anos

Os rubro-negros perderam dinheiro, pagaram para jogar em seus últimos compromissos na Ilha do Governador, contra Atlético Goianiense (-R$ 100.039,34) e Atlético Paranaense (-R$ 20.972,20). Públicos diminutos devido aos ingressos caríssimos (a partir de R$ 120 para o não associado sem direito à meia entrada), borderô no vermelho e a maioria da torcida afastada pelo bolso. Mas não se cogita cobrar bem pouco, ou nada, do sócio torcedor para ver essas partidas, e valores acessíveis dos demais. Preferem prejuízo e cadeiras vazias. Não seria melhor zerar a conta ou então ter o mesmo resultado financeiro com casa cheia, inclusive atraindo novos associados para o futuro? Não para os cartolas.

Em Flamengo 2 x 0 Santos, pela Copa do Brasil, a presença de um homem humilde, isolado num canto do estádio, chamou a atenção. Por mais bizarro que possa parecer, aquele que era o perfil típico do rubro-negro, do geraldino, e causou estranheza por estar ali, num espaço agora ocupado pelos "classe média" que podem pagar uma taxa todo mês e frequentam os jogos de hoje em dia. Era Seu Expedito, cuja foto viralizou na internet. Virou símbolo da exclusão na arquibancada. O site Coluna do Flamengo o homenageou (veja abaixo) e lhe presenteou com uma camisa personalizada. Ele morreu nesta sexta-feira. O clube respeitará um minuto de silêncio antes do jogo deste domingo, contra o Sport.

Como alguém que se diz Flamengo pode achar normal jogos do time mais querido do Brasil sem gente como Seu Expedito? Ainda mais em meio a tantas cadeiras vazias em tantos jogos sem casa cheia. Sua aparição (só estava no estádio por causa da gratuidade), com grande repercussão, deu vida ao debate sobre a exclusão social nos estádios brasileiros. Que não é exclusividade do Flamengo, mas choca ainda mais por ser o clube de maior torcida do país, por ser a camisa que mexe com o coração de mais gente pobre e sofrida do que qualquer outra. Esse povo é a essência do clube que conhecemos e milhões aprenderam a amar. O debate sobre o tema é o legado de Seu Expedito, um rubro-negro 'raiz'.

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Com organizadas, Eurico lança candidatura à reeleição no Vasco e ex-aliado promete não trabalhar com ele

Mauro Cezar Pereira, blogueiro do ESPN.com.br


Integrantes de organizadas do Vasco cantam em apoio a atual presidente

Ex-vice presidente geral do Vasco, Fernando Horta lançou sua candidatura à presidência do clube logo depois de se licenciar do cargo. Muitos questionam o rompimento com Eurico Miranda após anos e há quem desconfie de que possam voltar a atuar juntos. Se acontecer, o candidato estará indo contra uma promessa assumida e documentada.

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Lançamento da campanha de Eurico: bandeiras de torcidas organizadas no evento
Lançamento da campanha de Eurico: bandeiras de torcidas organizadas no evento

Nesta quinta-feira, Horta, que é presidente da escola de samba Unidos da Tijuca, registrou uma carta na qual se compromete a não ter em sua gestão, se eleito, Eurico e seus filhos (veja abaixo). A eleição presidencial no Vasco da Gama tem até 7 de outubro para que sejam oficializadas as chapas que concorrerão no pleito do dia 7 de novembro.

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Carta assinada pelo candidato Fernando Horta
Carta assinada pelo candidato Fernando Horta

Já o presidente Eurico Miranda lançou oficialmente sua candidatura à reeleição na noite desta quinta-feira. No evento, realizado na Casa de Tras Os Montes e Alto Douro, estavam presentes representantes de torcidas organizadas, exibindo suas bandeiras em apoio no salão que recebeu o dirigente vascaíno e seus aliados.

Otto de Carvalho, Júlio Brant, Alexandre Campello e Fernando Horta são os candidatos de oposição ao presidente Eurico Miranda, que tenta se reeleger. Otto presidia o Conselho Fiscal, Brant foi derrotado por Eurico nas eleições passadas, quando Eurico voltou ao poder.

Torcedores do Vasco brigam em lançamento de candidatura de Eurico à presidência

Campello foi médico do Vasco durante 25 anos. Os dois últimos estão próximos de unificar suas chapas, assim como as de Otto e Horta. Hoje o cenário aponta a disputa entre três nomes: Eurico, Horta e Brant ou Campello, que deverão definir qual dos dois sairá candidato após uma prévia.

  

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A maldição dos 90% por 10% mata, rapidamente, os clássicos cariocas

Mauro Cezar Pereira, blogueiro do ESPN.com.br

A tradição do futebol brasileiro sempre foi de clássicos estaduais com duas torcidas. No Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte, Goiânia, Salvador, Fortaleza, Belém... Raros eram os estádios onde a divisão era como na Europa, os 90% de torcedores do time mandante com 10% do visitante. Ou percentuais próximos disso. Com o tempo mais essa cópia barata do que acontece lá fora foi tomando os Estados e os estádios. O futebol carioca era uma rara resistência a tal modismo.

Os clássicos no velho Maracanã lotado e suas tempestades de bandeiras, como dizia o narrador Waldir Amaral; ficaram no passado. Não só pelo estupro do templo, mas também pela opção cada vez maior de dirigentes pelo individualismo burro, que afasta o torcedor, esvazia ainda mais as arquibancadas e sufoca rapidamente "o maior espetáculo da terra", como tantos se referiram inúmeras vezes ao ritual das duas massas humanas em cada um dos lados da velha casa do torcedor.

Jogo com visitantes em menor número disputado entre rivais resulta num cenário mais violento. A atmosfera é tensa para quem vai em minoria a um clássico nessas condições, se comparado ao velho formato no qual as duas torcidas chegavam com a mesma quantidade, ou algo próximo disso. Com o Botafogo preferindo o Engenhão semi deserto a dividi-lo com Flamengo, Vasco e Fluminense e os vascaínos mandando clássicos em São Januário, o golpe final foi dado.


Flamengo e Fluminense seguiram o mesmo caminho, exceto quando se enfrentam. Os clássicos cariocas estão morrendo aos poucos. Pela banalização vista no Campeonato Estadual, repleto de duelos inúteis e sem graça entre os quatro grandes, e também pela maldição dos 90% por 10%. Apenas o Fla-Flu respira com o Maracanã aberto para tricolores e rubro-negros em idênticas condições. É o que resta de algo tão marcante da cultura do Rio de Janeiro e seu futebol.

Botafogo e Flamengo jogaram para 5.155 pagantes no domingo, com o preço médio do ingresso a R$ 55,87. Como o Flamengo cobrou R$ 150 a inteira e R$ 75 a meia entrada dos alvinegros na semifinal da Copa do Brasil, os botafoguenses repetiram tais preços para os rubro-negros que foram ao estádio Nílton Santos, o "Engenhão", apenas 238. Isso mesmo, a maior torcida do país, num clássico carioca, disputado na cidade do Rio de Janeiro, comprou 283 ingressos para ver seu time jogar.

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No borderô de Botafogo 2 X 0 Flamengo: 238 ingressos com os rubro-negros
No borderô de Botafogo 2 X 0 Flamengo: 238 ingressos com os rubro-negros

Podemos apontar as causas de algo tão ridículo, dos preços altos às partidas recentes entre os dois rivais. Da violência no Rio às brigas entre torcidas dos dois clubes. Mas não podemos fechar os olhos para a inutilidade de um sistema que limita uma torcida, dificulta seu acesso com preços absurdos e assume que prefere cadeiras vazias a tentar encher o estádio. Flamengo e Botafogo vêm fazendo isso. Os 90% por 10% e a incompetência dos cartolas asfixiam nossos clássicos.

PS: uma tese estapafúrdia surge nos comentários abaixo: "o Botafogo tem menos torcida do que o Flamengo e leva desvantagem". Ora, o New Maracanã recebe hoje em dia, no máximo, 70 mil pessoas. Não existem pelo menos, digamos, 30 mil botafoguenses? Óbvio que há muito mais. No passado, com públicos superiores a 150 mil pessoas, 60 mil, 70 mil alvinegros iam ao velho Maracanã ver seu time contra o rival. Tudo depende de se fazer as coisas direito, promovendo os clássicos e viabilizando a presença dos torcedores. Mas há quem prefira o clima de velório com um estádio para 45 mil pessoas recebendo menos de 6 mil. 

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A torcida do Vasco e um sentimento que não para

Mauro Cezar Pereira, blogueiro do ESPN.com.br
Gazeta Press
Torcida vascaína do lado de fora de São Januário no jogo contra o Grêmio
Torcida vascaína do lado de fora de São Januário no jogo contra o Grêmio

O que pode ser mais importante para um torcedor do que ver seu time jogar? A resposta é simples: apoiar sua equipe, mesmo que não possa vê-la na cancha.

Devido ao tumulto registrado no clássico com o Flamengo, os vascaínos ficarem impossibilitados de adentrar São Januário no duelo com o Grêmio, neste sábado. Tudo bem. Foram para as ruas que cercam o velho estádio e protagonizaram o grande momento da rodada deste Campeonato Brasileiro.

Dentro do campo, os jogadores ouviam ou gritos de "Vasco" que vinham lá de fora, como os rojões que começaram a explodir à tarde e invadiram a noite. Colina em festa com a vitória sobre o forte adversário na estreia do técnico Zé Ricardo. O complemento da grande jornada promovida pelos vascaínos.

Eles mostraram algo que jamais poderá desaparecer, sob pena de acabar com o futebol, o apoio incondicional a uma camisa. Time e torcida não se viram, separados por portões lacrados pelo tribunal, mas sentiram e compartilharam a energia que fez a equipe se superar para bater um rival mais forte.

Rival que dificilmente cairia, não fosse o apoio que saiu das ruas para dentro de São Januário. Um dia histórico a ser lembrado para sempre por uma imensa torcida, hoje, bem feliz. Se o sentimento não para, o futebol não morre.

PA: me antecipo aos óbvios comentários, alguns de viés clubístico, friso que sou sempre contra esse tipo de punição, jogos com portões fechados, exceto se ficar comprovada a participação do clube naquilo que motivaria a pena. Não podemos rotular todos os vascaínos como “vândalos” devido ao comportamento violento de parte da torcida no clássico com o Flamengo. Sem generalização.


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Invasão foi anunciada nas redes sociais. Entenda a confusão no Maracanã e saiba o que dizem PM e organizada

Mauro Cezar Pereira, blogueiro do ESPN.com.br
Briga e invasão: veja imagens da confusão no Maracanã na noite do 1º jogo final da Copa do Brasil

Muitos torcedores entraram sem pagar no Maracanã, na noite de Flamengo 1 x 1 Cruzeiro, primeira partida decisiva da Copa do Brasil. O setor Sul (entrada C) foi o alvo do "bonde" anunciado em redes sociais e concretizado antes da partida, enquanto integrantes de duas torcidas organizadas do time carioca (velhas rivais, embora usem as mesmas cores) brigavam nos arredores do estádio.

A Torcida Jovem (TJF) está banida dos jogos até 2020, desde a morte de um torcedor do Botafogo em conflito com rubro-negros no dia 12 de fevereiro, do lado de fora do Estádio Nilton Santos, também conhecido como Engenhão. Na noite de quinta-feira, componentes da organizada fundada em 1967 enfrentaram seus velhos adversários da Raça Rubro-Negra, criada uma década depois.

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Convocação para 'invasão' do Maracanã publicada em rede social
Convocação para 'invasão' do Maracanã publicada em rede social

Como anunciado pelas redes sociais, houve tentativas de invasão em vários portões do Maracanã. Desta vez não conseguiram no acesso ao norte, onde se concentram as organizadas, tampouco na leste superior, mais próximo para então acessar o tradicional e preferido lado à esquerda das cabines de rádio e TV, saltando apenas uma grade e alcançando o ponto desejado na arquibancada.

Na sul, tanto forçaram que entraram (veja vídeo acima) pelo menos centenas sem ingresso. Já acontecera invasão no jogo semifinal diante do Botafogo, algo celebrado em redes sociais (veja abaixo), com referência a um cântico conhecido da Torcida Jovem do Flamengo — "Um dois, três, solta os bichos de uma vez". A tática é a de sempre, o chamado "cavalo doido", com uma multidão forçando a entrada em determinado portão de uma só vez, até romper a barreira.

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Depois da semifinal Flamengo x Botafogo, invasão foi celebrada
Depois da semifinal Flamengo x Botafogo, invasão foi celebrada


A conclusão da Polícia Militar é: integrantes da Jovem Fla que já eram violentos, agora que a organizada está banida, fora do programa sócio torcedor corporativo e sem acesso à compra de ingressos, têm comportamento ainda pior. Estaria sem liderança, seu último presidente segue foragido sob acusação de homicídio — clique aqui e leia —, e ainda mais incontrolável.

"Criou-se uma facção, é assim que eles têm se comportado nesses dias de evento", resume o Major Carlos Vidal Martin, Chefe da Seção de Planejamento Operacional do 6° Batalhão, que comandou o policiamento externo na noite de quinta.

Para ele, parte da organizada vem agindo sem medo de punição, afinal, a torcida está banida e não há mais o que se fazer, na prática, contra ela. Assim, grupos que seriam da TJF enfrentam seguranças, polícia, força os portões externos e invade setores internamente com o objetivo de chegar ao seu local tradicional, atrás do gol à esquerda, no norte do Maracanã. Mais uma evidência de que a punição deve ser ao indivíduo, não ao grupo, algo claramente ineficaz.

Já a Raça, que tem longa rivalidade de brigas com a Jovem, não está banida, o Gepe (Grupamento Especial de Policiamento em Estádios da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro) tem autorizado instrumentos e camisas. Quando na noite da final da Copa do Brasil os dois grupos protagonizaram batalha nas ruas próximas ao estádio, tivemos mais uma evidência do quão inútil é a torcida única, pois o conflito não envolvia cruzeirenses.

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Em rede social, invasão do Maracanã é elogiada
Em rede social, invasão do Maracanã é elogiada


Pessoas que se identificam como componentes da Jovem promoveram a mobilização para invadir o Maracanã. Entre os que se manifestaram celebrando o êxito na investida, gente conhecida no meio como líderes destes chamados "bondes". Utilizar as imagens das câmeras do estádio para identificar e punir é necessário, como forçar líderes desses movimentos que se apresentem à polícia em horários e dias de jogos.

"Nós fomos acompanhando e monitorando a movimentação da Jovem, que circulava o estádio e era barrada pela PM em diferentes portões. Tentaram entrar para o norte pelo lado da Uerj e foi barrada, e assim em outros portões. Então a turba foi se deslocando, até achar um local onde conseguisse entrar", relata o Major, que pelo rádio se comunicava com os policiais em deslocamento na tentativa de deter os invasores, o que em dado momento não aconteceu.

Durante a transmissão da partida pela TV, companheiros de emissoras que nela trabalhavam não tinham ideia do que estava acontecendo no anel superior, onde a confusão se formara. Torcedores no setor sul, à direita das cabines, querendo ver o jogo na área central, na leste, como chegou a ser dito? Óbvio que não. Eram invasores sem ingresso que entraram pelo sul e queriam (alguns conseguiram), atravessar na marra da sul para a leste e posteriormente da leste para a norte.

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Torcedores comentam invasão do Maracanã em rede social
Torcedores comentam invasão do Maracanã em rede social


Estava claro aquilo para qualquer pessoa que conheça o Maracanã e suas torcidas, que entenda e observe o ambiente onde está inserida e o comportamento desses torcedores/invasores. Um jogo que teve todos os ingressos vendidos para sócios torcedores dificilmente teria tais ações de vandalismo, quebra de grade e confronto com seguranças apenas pelo angulo de visão da partida. Havia algo mais ali, claro.

"Eles queriam não só entrar no estádio, como ocupar o local tradicional onde sempre ficou a Torcida Jovem, é uma defesa de território, também", acrescenta o Major Martin, que considerou o efetivo de 270 homens na parte externa adequado. "Esses locais de encontro e contato entre torcidas que brigam estão sendo monitorados pela PM, temos desenvolvido ações em locais de confronto, e os participantes precisam sofrer as sanções do código penal", diz.

Para o chefe do policiamento, a briga entre TJF e RRN ocorreu quando pessoas que seriam da Jovem chegaram à Rua General Canabarro, área frequentada pela Raça. "Foram num pequeno grupo para lá e houve a briga, tinham a intenção de praticar delitos e foram repelidos por torcedores que seriam da Raça Rubro-Negra. Mas ali havia também familiares que gostam de ficar perto da bateria, cantando, curtindo de maneira saudável, isso tem que ser incentivado", explica.

O policiamento se instalou em pontos estratégicos, como nas saídas do metrô, e ao mesmo tempo procurava ficar mais atento aos novos deslocamentos de grupos. Numa espécie de clandestinidade, a Jovem, ou quem dela seria integrante, se transformou num problema ainda maior. Se oficialmente ela não existe mais, na prática mantém sua capacidade de mobilização, tornando o trabalho do policiamento ainda mais difícil nessas ocasiões.

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Momento em que invasores tentam avançar do sul para o leste
Momento em que invasores tentam avançar do sul para o leste

"A Jovem funciona como várias células, grupos regionais, os pelotões, com lideranças próprias que precisam ser identificadas. Precisamos pegar os de segundo escalão, que se comunicam entre si e têm capacidade de organização, jogar um holofote, identificá-los e prendê-los, isso é trabalho de investigação, da polícia civil. Precisa haver quebra de sigilo telefônico, etc", sugere o Major do 6º Batalhão.

Marin acrescenta que, sobre a Raça, o Gepe já está com uma representação em andamento, junto ao Jecrim (Juizado Especial Criminal). Ele pede que o clube também se envolva e seja cobrado, pois essa torcida ainda compra ingressos direto do Flamengo, como outras organizadas, por intermédio do chamam de Sócio Torcedor Corporativo — clique aqui e saiba mais. O blog questionou, via assessoria de imprensa rubro-negra, a respeito do que pode acontecer com a RRN devido à briga de quinta-feira, mas  ainda não obteve resposta.

Marcos Vidal, que é o presidente interino da Torcida Jovem do Flamengo, rebate as acusações sobre o grupo. "Quem nos acusa deve provar que eram componentes da Jovem nessas confusões. Entendo que pelo histórico da torcida as pessoas nos apontem como responsáveis. Eventualmente pode ser um ex-integrante ou alguém que nunca foi da torcida", alega ele, que, assegura, não foi ao jogo.

Para o líder da organizada, nem mesmo tendo uma tatuagem da Jovem o sujeito prova ser dela integrante. "Se eu fizer uma da PM, nem por isso serei da Polícia Militar. Conheço um cara que tem tatuagem da Jovem, uma da Raça e outra Urubuzada. Se ele fizer algo errado as três torcidas serão penalizadas?", questiona.

O presidente interino da TJF defende a punição aos indivíduos. "Em qualquer classe a pessoa responde sozinha, exceto se ficar comprovado o erro coletivo, seja policiais, médicos, professores". Nisso ele e o Major Martin concordam: "A única saída é tratar pelo código penal, não pelo estatuto do torcedor, que é muito brando para casos como esses", afirma.

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Funcionária da Sunset deu chave de perna e imobilizou invasor. Natali Góes foi premiada com uma diária a mais pelo ato. Segurança de banco, nas folgas trabalha no Maracanã
Funcionária da Sunset deu chave de perna e imobilizou invasor. Natali Góes foi premiada com uma diária a mais pelo ato. Segurança de banco, nas folgas trabalha no Maracanã

O chefe do policiamento lamentou o fato de o Jecrim só funcionar no Maracanã na hora do jogo. "A PM atua de forma preventiva, tanto que seis horas antes da partida já havia policiamento. E tivemos muita apreensão de ingressos falsos desde cedo. Mas sem o Jecrim o cambista é detido cedo e fica horas lá dentro, aguardando. Isso nos obriga a tirar um policial da rua para acompanhá-lo até a hora em que o juizado começa a operar. Perco um policial, que sai da rua para tomar conta do cambista. Precisamos aprimorar isso urgentemente", adverte.

Problemas de difícil solução num Estado que tem outros ainda maiores e não sabe como solucioná-los. O Maracanã, sua situação confusa quanto à gestão, e os tumultos que marcam alguns de seus jogos mais concorridos apenas refletem o que se passa no Brasil e mais especificamente no Rio de Janeiro. Em meio ao caos, como o futebol poderia ficar de fora? 

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