Mauro Cezar Pereira

Mauro Cezar Pereira

Jornalista desde 1983, passou por diversas redações de rádios, jornais, revistas e sites. Lecionou em faculdades de jornalismo e hoje é comentarista dos canais ESPN

Rebaixamento não é a morte

Mauro Cezar Pereira, blogueiro do ESPN.com.br

A queda de um grande clube para a segunda divisão provoca reações extremas e repercussão gigantesca. Quem cai pela primeira vez em sua história sofre profundamente, se envergonha, entende como suprema humilhação. Exagero? Sim. Normal? Também. Consequência da paixão pelo futebol, por uma camisa.

Mas passa. Pouco a pouco diminuem as gozações rivais, os aparecimentos do "fantasma" da Série B, os corinhos de "ão ão ão, segunda divisão". E o time grande quase sempre sobe logo, não costuma demorar mais do que um ano. Machuca o torcedor, mas o aproxima da eterna paixão. Ele sofre, mas volta a exibir o símbolo com orgulho.

Lutar até o fim para não cair é preciso. Fazer o possível (em campo) para manter imaculado o currículo de quem nunca caiu é obrigação. Mas quando a queda se mostrar inevitável, ela não será fatal. O clube não morrerá, sua torcida não desaparecerá. Assim é em qualquer lugar do mundo. Pode ser dolorido, mas não mata.

Senhores, o rebaixamento não é a morte.

Fla-Flu do céu

Mauro Cezar Pereira, blogueiro do ESPN.com.br
Reprodução
Paulo Julio com Theo, Victorino com o pequeno Victorino, Deva com Mário Marra: Fla-Flu narrado do céu
Paulo Julio com Theo, Victorino com o pequeno Victorino, Deva com Mário Marra 

O pequeno Victorino Chermont Neto provocou no pai uma mudança de postura. Jornalista, cobrindo esportes, se afastou das arquibancadas, como ocorre com a maioria de nós. Coisas da profissão. Até que a paixão do menino pelo mesmo clube aflorou. E os dois passaram a ir juntos aos jogos do Flamengo no Maracanã.

Não trabalhei com Victorino, nos conhecíamos das emissoras nas quais trabalhávamos, ele na Sportv e posteriormente Fox e eu na ESPN. Nossos últimos encontros em coberturas foram marcados por boas conversas, numa espécie de aproximação natural ao descobrirmos que tínhamos um grande amigo em comum, Lúcio de Castro.

Paulo Julio Clement e eu nos conhecemos no final dos aos 1980, quando saí de O Globo para o Jornal dos Sports e ele deixava o JS para integrar a equipe do Jornal do Brasil. Nos encontrávamos no dia-a-dia dos clubes e mesmo sem dividir a mesma redação, marcávamos almoços de tempos em tempos para colocar o papo em dia.

Vim para São Paulo, ele passou por Brasília, também trabalhou na capital paulista e foi quem me acenou com uma oportunidade que muito me ajudaria. Em 2001, gerente de esportes do Sistema Globo de Rádio, PJ me convidou para comentar na CBN. Foi uma chance de ficar mais "íntimo" dos microfones, me desenvolver no que seria meu futuro.

Não permaneci por falta de vaga, essas coisas. Mas a escola me ajudou, muito. Em 2004, José Trajano me abriu as portas da ESPN e pensei: "Ficar falando de futebol ao vivo por horas eu já fiquei na CBN. Até que deu certo. O negócio aqui é aprender a lidar com as câmeras, agir como se não existissem". Acho que funcionou.

Mais tarde, Paulo Julio assumiu a redação do jornal Marca Brasil, me ofereceu um espaço como colunista e durante mais algum tempo tivemos a chance de conversar frequentemente, trabalhando próximos. De lá ele sairia para a Fox Sports e lembro bem de nosso almoço horas antes da final da Libertadores de 2012, que comentou.

Deva Pascovicci conheci das narrações pelo Sportv e depois na própria CBN, onde formava dupla com meu amigo Mário Marra. Quando soube que vencera o câncer e seguia narrando me impressionei com tamanha força e amor ao trabalho. Mais tarde derrotou novamente a doença em nova demostração de paixão pela vida.

Não me lembro qual foi a última vez que o vi e cumprimetei. Ele estava ao lado do Mário, foi em algum jogo no Pacaembu. Apertamos as mãos e hoje acho que fiz mal, pois deveria lhe dar um forte abraço. Não na tentativa de prever o pior, que hoje sabemos, aconteceu, mas por respeito e admiração depois de seu "bi" contra o câncer.

Assim, como Victorino, o Paulo Julio também levava seu filho ao Maracanã. Fã de Gustavo Scarpa e colecionador de bonequinhos do mascote tricolor, Theo e ele iam aos jogos do time pelo qual o meu amigo era apaixonado. A cada aniversário o garoto ganha uma camisa do Fluminense com o número correspondente à sua idade às costas.

Espero que pelas mãos de outros rubro-negros e tricolores os meninos sigam frequentando a arquibancada, amando o futebol e seus clubes, como lhes ensinaram. Os pais deles vão acompanhar o Fla-Flu lá do céu. O Deva vai narrar.

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Mauro se emociona ao falar de colegas de profissão que estavam no voo da Chapecoense

Se Cuca for mesmo embora, Palmeiras já tem nome escolhido, mas disputará com o Flu

Mauro Cezar Pereira, blogueiro do ESPN.com.br

Palmeiras e Cuca voltarão a conversar, provavelmente ainda no começo da semana, sobre sua permanência, ou não, no clube em 2017. Como o blog informou na noite de domingo — clique aqui para ler —, o técnico pretende se afastar do trabalho no próximo ano e até o momento não dá sinais de que vá mudar de opinião.

Depois de tentar convencê-lo a seguir à frente do elenco, a tendência é por uma conversa definitiva, até para que o clube não demore a encontrar um substituto, se necessário. O primeiro da lista é Roger Machado, que voltou ontem da Europa. Sábado ele esteve no Santiago Bernabeu vendo Real Madrid 2 x 1 Sporting Gijón.

O ex-treinador do Grêmio também foi a Atlético de Madrid 0 x 3 Real Madrid, pelo campeonato espanhol, e Sporting 1 x 2 Real Madrid, pela Liga dos Campeões. Caso Cuca confirme a saída na última conversa, o telefone de Roger deverá tocar. Contudo, quem cuida das contratações ainda não tem contrato renovado: Alexandre Mattos.

O compromisso do diretor -executivo também se encerra ao final deste ano, e sem a certeza de sua permanência — o clube ainda não o procurou para conversar —, fica mais difícil acertar com um novo técnico, se for mesmo preciso. Com Paulo Nobre de saída, depende do novo presidente, Maurício Galiotte, a permanência de Mattos.

Eleito sábado novo presidente do Fluminense por três anos, Pedro Abad já procurou Roger, que quando jogador encerrou a carreira nas Laranjeiras, marcando, inclusive, o gol do título da Copa do Brasil em 2007. Se no Palmeiras ele trabalharia com o grupo já formado, no Rio de Janeiro a proposta é bem diferente.

O Fluminense quer contar com ele para reconstruir o elenco, com comissão técnica fixa, integração com a base e decisões colegiadas. Tricolores acreditam que isso possa convencê-lo a voltar para o clube onde fez 123 jogos oficiais, com 53 vitórias e 10 gols assinalados entre janeiro de 2006 e outubro de 2008.

MARCELLO FIM/FramePhoto/Gazeta Press
O novo presidente, Mauricio Galiotte, Cuca e Alexandre Mattos em treino do Palmeiras
O novo presidente, Mauricio Galiotte, Cuca e Alexandre Mattos em treino do Palmeiras

Cuca de saída: obstáculo familiar dificulta permanência do técnico no Palmeiras

Mauro Cezar Pereira, blogueiro do ESPN.com.br

Com o Palmeiras em crise e Marcelo Oliveira de saída, o diretor Alexandre Mattos foi a Curitiba. Lá, convenceu Cuca a assumir o time do Palmeiras em pleno período de descanso que pretendia levar ao longo de 2016.

Na oportunidade, disse ao técnico que, pelo elenco e pela estrutura que teria à disposição, seria a chance de conquistar seu primeiro título brasileiro. Isso após faturar uma Copa Libertadores com o Atlético Mineiro em 2013.

Assim, Cuca prometeu à mulher que trabalharia apenas por uma temporada no Palmeiras e depois tiraria o ano de descanso. Num primeiro momento, mesmo com a emoção do título, o técnico não parece disposto a descumprir a palavra.

No sábado, Alexandre Mattos voltou a conversar com o treinador sobre sua permanência, tentando "dobrá-lo". Mas ele manteve sua decisão de se afastar ao final da temporada, como havia decidido ao dizer sim para o Palmeiras em 12 de março.

Se Cuca convencê-la de que o ano sabático pode esperar, poderá seguir no comando do time em 2017. Mas, no momento, esse é o obstáculo familiar que dificulta sua permanência no Palmeiras. Por isso, a priori, ele está de saída.

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Jogadores invadem coletiva de Cuca e 'dão banho' no treinador

Palmeiras campeão brasileiro. Indiscutível. Em pontos corridos não há injustiça, exceto quando o juiz ajuda o vencedor. Não foi o caso.

O triunfo do estilo adotado por Cuca é legítimo. Ninguém é obrigado a admirar, mas foi eficiente e ganhou merecidamente o título. Parabéns!

Em campo mais um jogo fraco contra o Chapecoense B, mas isso se tornou algo absolutamente secundário para os palmeirenses em geral.

Nos próximos dias, o novo presidente do Palmeiras, Maurício Galiotte, deverá avançar nas conversas para a renovação de Alexandre Mattos.

Alexandre Mattos, por sinal, chega a quatro títulos nacionais em quatro temporadas seguidas. Não é pouco, evidentemente.

A renovação de Alexandre Mattos é mais simples do que a de Cuca. Mas há clubes de olho no diretor. Acredito que ele ficará.

Gabriel Jesus parte agora para um novo desafio, no Manchester City de Pep Guardiola. Perspectivas sensacionais para essa joia a ser lapidada.

Na conversa que tive com Cuca depois da repercussão do meu comentário e post sobre o "Cucabol", disse a ele que evitaria o termo para não entenderem como provocação.

Infelizmente alguns colegas da imprensa ainda não compreenderam a reflexão proposta na ocasião. Inteligentes que são, provavelmente não leram, não viram a análise, tanto que discordam da tese usando argumentos que ela não contém.

Mas, sem qualquer provocação ao treinador campeão brasileiro, afirmo aqui que pelo menos neste momento, o Brasil é o "País do Cucabol".

Se isso é bom ou ruim, como escreveu certa vez um outro colega da imprensa esportiva brasileira, só o tempo dirá.

***

O Santos teve a bola, o Flamengo foi mais perigoso, vencendo bem e ainda perdendo chances incríveis com Guerrero. Oportunidades que os santistas não criaram.

Apesar do resultado, só uma vitória sobre o Atlético em Curitiba garantirá o vice-campeonato aos rubro-negros sem depender do placar de Santos x América.

Ser segundo colado no campeonato significa uma premiação R$ 3,4 milhões superior à do terceiro colocado — R$ 10,7 milhões contra R$ 7,3 milhões.

O Atlético tomou a virada do São Paulo em Belo Horizonte e agora só escapa dos mata-mata iniciais na Libertadores se conquistar a Copa do Brasil.

Segue vivo o sonho do Internacional. Mas nem a eventual sobrevivência na primeira divisão esconderá os erros absurdos cometidos por seus dirigentes.

Da mesma forma o sofrido acesso do Vasco não maquiou os equívocos cometidos por Eurico Miranda. A torcida promete continuar gritando para que vá embora.

O grande 'ato' do Botafogo

Mauro Cezar Pereira, blogueiro do ESPN.com.br

Grande surpresa do campeonato brasileiro, o Botafogo caminha para retornar à Copa Libertadores numa temporada em que seu objetivo era permanecer na primeira divisão. A bela campanha estabeleceu novas metas, mas assegurar sua posição na elite do futebol nacional era, de fato, fundamental dentro da reconstrução do clube.

O blog conversou com Domingos Flores Fleury da Rocha, vice-presidente jurídico do Botafogo. Ele explica como os alvinegros, então com as finanças asfixiadas por ações trabalhistas e compromissos não cumpridos, saíram do buraco no qual a antiga administração deixou o clube a partir da posse do presidente Carlos Eduardo Pereira.

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Domingos Fleury, vice jurídico do Botafogo
Fleury, vice jurídico do Botafogo: austeridade por mais 10 anos

Qual era a situação do Botafogo quando a atual gestão assumiu o clube no que se refere às questões trabalhistas, processos na justiça, não recolhimento de tributos, profissionais não registrados etc?
Domingos Fleury - A situação do clube era a pior possível: sem dinheiro em caixa, a única receita do clube no final de 2014 (direitos de TV) encontrava-se integralmente penhorada em processos trabalhistas. Salários de funcionários e atletas estavam há vários meses sem pagamento; FGTS, impostos e tributos em geral há mais de dois anos sem pagamento; acordos de dívidas cíveis descumpridos, atletas conseguindo na Justiça do Trabalho a rescisão indireta dos contratos por força dos atrasos nos pagamentos. Um verdadeiro caos.

O ex-presidente abandonou o ato trabalhista. Como o Botafogo conseguiu retomá-lo?
Domingos Fleury - O ex-presidente sonegou receitas do ato trabalhista e desmoralizou o clube perante o TRT do Rio de Janeiro. Está foi a tarefa mais difícil, restaurar a credibilidade do clube. O novo presidente Carlos Eduardo Pereira se colocou à frente desta missão e juntamente com os vices geral e jurídico, se reuniu com o presidente do TRT e demais autoridades pedindo um voto de confiança na nova gestão do clube e apresentando um plano de pagamento das dívidas trabalhista em 10 anos. A grandeza e a história do Botafogo pesaram a nosso favor, conseguimos um novo ato, já pagamos mais de R$ 25 milhões e estamos rigorosamente em dia. Atualmente o clube desembolsa R$ 1.650.000 mensais no ato trabalhista.


Qual a importância do ato trabalhista dentro da reestruturação do clube?
Domingos Fleury - É fundamental a manutenção do clube no ato trabalhista. Só assim tem sido possível planejar e executar as atividades do clube, utilizando as receitas remanescentes após o pagamento da parcela mensal. Sem o ato trabalhista todas as nossas receitas estariam penhoradas, inviabilizando o funcionamento do clube.

Qual a situação atual do Botafogo quanto à justiça do trabalho?
Domingos Fleury - Alguns credores recorreram contra a decisão do Presidente do TRT que concedeu um novo ato ao Botafogo. Recorreram porque o presidente anterior do clube assinou acordos com estes credores, acordos que não cumpriu, renunciando expressamente ao direito de o Botafogo pagar as dívidas para com eles através de ato trabalhista. O recurso será julgado pelo Órgão Especial do TRT, isto é, por todos os desembargadores que fazem parte do Tribunal. No momento o resultado está igual, um voto para cada lado. O julgamento será concluído em 2017.

Havia pagamento de FGTS perdidos e que foram recuperados. Poderia detalhar esse caso?
Domingos Fleury - O presidente Carlos Eduardo Pereira contratou uma empresa especializada na recuperação de FGTS, a qual pesquisou todos os processos trabalhistas encerrados nos últimos 40 anos e apurou montantes substanciais do Fundo de Garantia depositados judicialmente e não transferidos para a Caixa Econômica Federal. Já foram descobertos aproximadamente R$ 10.000,000, mas existem mais valores a serem aproveitados. O montante já quitou as parcelas do Profut (Programa de Modernização da Gestão e de Responsabilidade Fiscal do Futebol Brasileiro) referentes ao FGTS até janeiro de 2019.

E o futuro do Botafogo?
Domingos Fleury - A situação do clube ainda é delicada, pois além do Ato Trabalhista, temos o Profut e financiamentos de dívidas municipais. No total, pagamos aproximadamente R$ 2.200.000 por mês, não incluídas todas as obrigações correntes do clube. Em suma, o Botafogo necessitará de gestões austeras pelos próximos 10 anos, no mínimo, para continuar sua gloriosa história no futebol.

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