Fla volta ao Maracanã dia 8. Fica a pergunta: estádio estava tão ruim assim?

Mauro Cezar Pereira, blogueiro do ESPN.com.br

O Flamengo corria contra o tempo para finalizar as reformas do estádio da Portuguesa, onde mandará jogos por pelo menos três anos. O objetivo era estrear na Copa Libertadores dia 8 de março, contra o San Lorenzo, na Ilha do Governador. Mas o tempo poderia ser curto para obtenção de todos os laudos e autorizações, com isso, era preciso encontrar outro estádio na cidade do Rio de Janeiro.

Se mandasse a peleja em Brasília, por exemplo, o clube correria o risco de ser obrigado a lá realizar os demais cotejos pela Libertadores. Dependeria de autorização da Confederação Sul-americana para alterar o local de suas partidas. Como os rivais Botafogo e Vasco não cederiam Engenhão e São Januário, os rubro-negros foram atrás do Maracanã. E conseguiram um acordo específico para este jogo.

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Alex Muralha, goleiro do Flamengo, em ação no último jogo oficial disputado no Maracanã, contra o Santos, em 27 de novembro
Muralha, do Flamengo, no último jogo oficial do Maracanã, contra o Santos, em 27 de novembro

As despesas para colocar o Maracanã em condições serão bancadas pelo Flamengo, que inspecionou o estádio. O clube poderá arrecadar mais do que se jogasse na Ilha (após a ampliação terá 20,5 mil lugares), mesmo com capacidade reduzida — é possível que o palco da final do Mundial 2014 seja reaberto para menos do que seus 78.838 lugares, devido aos problemas causados pelo abandono pós-olímpico.

A oportunidade de estrear na Libertadores no Maracanã vinha sido trabalhada há algum tempo pelos rubro-negros. Não por acaso, a Odebrecht convocou a empresa que cuida do gramado. Ela voltou a tratar do piso na sexta-feira. O prazo até o confronto com os argentinos é considerado suficiente para sua recuperação. O cenário era pior após a Olimpíada, que até buraco no campo deixou.

Colocando o Maracanã em condições para o dia 8, o Flamengo terá dado bela cartada, estreando no Rio de Janeiro, caracterizando a cidade com sua sede na Libertadores, atraindo mais torcedores e com chances de faturamento maior. Simultaneamente, poderá concluir calmamente as obras na Ilha, opção para a maioria das partidas, inclusive algumas do torneio sul-americano.

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Neymar e Zico no Jogo das Estrelas, última partida de futebol realizada no Maracanã, em 28 de dezembro
Neymar e Zico no Jogo das Estrelas, última partida no Maracanã, em 28 de dezembro de 2016

A questão passa a ser outra. Se em poucos dias o Maracanã for colocado em condições de uso, até que ponto são reais os relatos de que o estádio precisaria de investimentos de muitos milhões de reais para ser recuperado. Que estava se deteriorando, abandonado, largado, não resta dúvida. Mas será que os problemas da "arena" padrão Fifa são tão graves ou houve uma, digamos, dramatização?

Há ainda o Fluminense, que por contrato poderia jogar lá sem custo. Mas o estádio que não está à disposição dos tricolores receberá o Flamengo. Confuso, não? Em meio à disputa para saber quem ficará com o Maracanã, Lagardére ou CSM/GL Events, marcada por boatos e informações desencontradas, a volta repentina do futebol ao local despertará dúvidas, discussões, reflexões. E cálculos.

A matemática pode pesar mais um pouco em meio a lobbies e ao jogo político que envolve o estádio que custou R$ 1,2 bilhão.

'O templo desfigurado': Zico e Dudu Monsanto visitam o Maracanã 'abandonado' da pós-Olimpíada

'Abel é o manager no Fluminense, ele lidera', diz mais antigo diretor

Mauro Cezar Pereira, blogueiro do ESPN.com.br

Marcelo Teixeira é o dirigente que remontou a base do Fluminense durante as duas gestões do ex-presidente Peter Siemsen. Com Pedro Abad à frente do clube, sua importância no departamento de futebol aumentou, com a maior integração entre o elenco profissional e os atletas revelados no Centro de Treinamentos de Xerém.

Descobrir talentos, utilizá-los e vendê-los bemn, como aconteceu com Gérson e Kenedy, é vital para o bom funcionamento do clube das Laranjeiras. Marcelo Teixeira conversou com o blog e falou sobre o projeto tricolor na Europa, onde adquiriu um clube eslovavo, o "ŠTK Šamorín", intercâmbio de jovens jogadores e estrutura do futebol. Nela, afirma, Abel Braga é mais do que um técnico.

Mailson Santana/Fluminense
Abel Braga durante treinamento do Fluminense
Abel Braga durante treinamento do Fluminense: treinador tem amplos poderes no clube

Você é o responsável pela estruturação do departamento de futebol amador do Fluminense, que voltou a revelar bons jogadores, trazendo resultados técnicos e financeiros. Quando e como encontrou Xerém e o que foi feito desde então?
Cheguei ao Fluminense em 2011 e logo após veio o Rodrigo Caetano, que era o diretor executivo e eu o gerente de futebol. Ele me direcionou desde aquele momento para olhar o trabalho da base. Tínhamos toda a estrutura de comando em Xerém, com o Klauss (Câmara), que está no Cruzeiro, o Fernando Simone, e eu trabalhava acima pensando em projetos para a base do Fluminense, que não existiam. Desenvolvemos o internacional, plano de carreira, aula de inglês para os atletas, captação do Fluminense, montando o departamento que não existia... Fiquei responsável pela parte de estruturação de projetos especiais, pessoal, estrutura, foi aí que começamos a transformar e colocar o trabalho de Xerém numa linha de evolução muito bacana.

De que maneira essa experiência poderá ajudá-lo agora que assume novas responsabilidades, no futebol profissional tricolor?
Na verdade continuo sendo responsável pelas divisões de base do Fluminense e pelo projeto FluEuropa. A diferença é que hoje eu tenho mais responsabilidade porque faço parte de um comitê no qual se toma as decisões para o futebol do Fluminense. Claro que por ser o mais antigo, com seis anos de clube, é natural que tenha participação destacada, pois tenho experiência grande aqui e os demais chegaram agora, o presidente Pedro Abad, o vice de futebol Fernando Veiga, o Alexandre Torres, que é gerente de futebol responsável pelo dia a dia, e o Abel Braga (técnico). A diferença é que hoje tenho uma responsabilidade maior, mais próximo do profissional, frequentando treinas e alguns jogos, integrando um comitê que toma todas as decisões estratégicas relativas ao futebol do clube de maneira geral, profissional, base e Europa.

Como funciona a nova estrutura do departamento de futebol do Fluminense?
O grande conceito da estrutura de futebol do Fluminense é que não existe mais a figura centralizadora, o poderoso chefão, aquele que personifica todas as decisões e a cara do futebol. Se tivéssemos que personificar seria no Abel, que não é um técnico, ele atua como um manager participa de todas as decisões estratégicas do futebol. E ele encabeça. É o cara que tem a liderança e toma as principais decisões. Claro que existe a política e a filosofia do clube, o que foi conversado na chegada dele. A estrutura é bem simples. Abel e Torres tocam o profissional, eu fico com Europa e base, o vice-presidente de futebol coordena todo esse nosso trabalho, e as decisões estratégicas ficam com o comitê.

Quais os atletas mais próximos de aproveitamento entre os profissionais que o torcedor ainda conhecerá melhor?
É difícil citar nomes de jogadores que estão no Sub 20, mas existem os que estão chegando e começando a ser utilizados, como o Pedro, que já teve uma oportunidade contra o Criciúma e é uma atleta que no ano passado foi artilheiro da base no Brasil, teve um desempenho muito bom na equipe Sub 20. Tem o Marquinhos Calazans, que ainda não teve chance, mas deve estar jogando a qualquer momento, ele fez parte de nosso plano de carreira, jogou na Europa (Slovan Liberec da República Tcheca)e já tem um ano de experiência lá. O Ygor Nogueira, que fez um jogo ano passado e agora mais três ou quatro, mas é outro atleta que está recebendo oportunidades. Tem o Wesley Frazan, zagueiro que subimos dos juniores. São jogadores que estão no profissional e começam a ter chances.

Veja a entrevista de Marcelo Teixeira sobre a base do Fluminense, feita em 2015

Como Abel Braga tem lidado com essa situação, com esse momento do clube, mais voltado do que nunca, talvez, ao aproveitamento da base?
Sempre temos que exaltar o nome do Abel. A escolha do nome dele foi muito pensada em cima da filosofia que queremos implementar. Trabalhei com ele no Fluminense em 2011, 2012 e 2013. E conheço bem o Abel, que foi um atleta formado na base do clube, tem uma identificação muito grande com o Fluminense e sempre exalta seu caráter moldado aqui. É super vencedor e ganhou tudo quanto que é título em todos os lugares, venceu no Fluminense, e na passagem que teve aqui sempre se preocupou com a base. Então na primeira conversa que tivemos vimos que as duas filosofias eram praticamente idênticas, e o que ele pensava para 2017 era praticamente o que tínhamos em mente no planejamento. Foi um ajuste de sintonia entre as partes e ali se traçou uma ideia de trabalho que ele vem conduzindo de forma magistral.

Quais as maiores dificuldades enfrentadas na captação de jovens jogadores?
Antes e vir para o Fluminense trabalhei cinco anos como scout do Manchester United, cobrindo Brasil e América do Sul. Então já tinha um conhecimento bastante grande do processo de avaliação, identificação de talentos, captação. Aqui no Fluminense, a partir das ideias que aprendi no Manchester, montamos um departamento que hoje é bastante grande, totalmente integrado profissional e base. Desde o primeiro momento, de 2011 para 2012, fiz questão que fosse um processo único, como funcionava no Manchester United, e hoje é um departamento que funciona como um relógio, com 12 pessoas trabalhando, divididas entre profissional e base. Mas é claro que existem dificuldades porque ninguém é melhor do que ninguém e todos os outros clubes também possuem departamentos de captação e fazem trabalho forte nessa área. A concorrência é grande no Brasil, com 20 a 25 clubes grandes correndo atrás de atleta, os do exterior aqui captando, empresários... Essa é a dificuldade, a concorrência. Mas o Fluminense vem fazendo um trabalho forte e colhendo frutos. O Scarpa é um exemplo legal para ser citado, o Lucas Fernandes outro que podemos destacar, o Fabinho (Mônaco) chamado para a seleção brasileira também.

Fale sobre o projeto europeu do Fluminense, com o STK Fluminense Samorin da Eslováquia. O FluEuropa funciona como e quais frutos rende ou estar prestes a render?
O FluEuropa é um projeto do Fluminense que visa complementar trabalho que fazemos na formação e desenvolvimento dos jogadores. Começamos no Futsal e nas escolas de futebol, que são os "Guerreirinhos", que é o nosso jardim e infância e primário, depois os meninos vão para a academia do Fluminense em Xerém, que eu diria que é o nosso ginásio, nosso segundo grau e a nossa faculdade. E criamos agora a pós-graduação, que é um projeto na Europa no qual os meninos têm a oportunidade de vivenciar uma experiência diferente fora do campo, sempre buscando o lema do Fluminense, que é faça uma melhor pessoa e teremos um melhor jogador de futebol, e acabam vivendo também dentro do campo uma experiência ímpar para eles, já que vão jogar no futebol taticamente muito mais evoluído do que o brasileiro, a força física é muito maior, eles como jovens jogadores enfrentam outros mais velhos, experientes do que eles e rodados, então têm oportunidade de vivenciar um projeto no qual evolui como ser humano e atleta. E ainda conseguimos oferecer aos profissionais que trabalham na base do Fluminense um projeto no qual eles podem trabalhar no exterior como auxiliares técnicos, já que o treinador da equipe vai ser sempre europeu. Quatro profissionais do clube já estiveram na Europa e retornaram, mas é um projeto de médio e longo prazo, só começaremos a sentir o cheiro do que planejamos em alguns anos. O projeto é capitaneado pelo Marco Manso, ele é o diretor esportivo, radicado na Finlândia, onde foi o jogador brasileiro que obteve mais sucesso no país. Ele é meu grande parceiro nesse projeto, trabalha sob minha responsabilidade, mas é o cara que toca no dia a dia todas as atividades, já que ele conhece as dificuldades de viver e jogar num país europeu. 

Quantos jogadores revelados em Xerém e sem espaço por aqui estão espalhados pelo mundo e em quais países?
Hoje temos cerca de 20 jogadores formados na base do Fluminense que estão emprestados, no Brasil e na Europa, a concentração maior está no Samorin, claro, mas temos jogadores em Portugal, Estados Unidos e outros no Brasil. Nosso foco fora do país é muito direcionado ao Samorin.

Agora com um CT profissional, o que dizer da estrutura de Xerém? Satisfatória?
Fluminense tem um CT da base que não é ótimo, mas é bom, muito bom em muitas coisas, temos campos muito bons, campo de grama sintética, alimentação excelente, excelentes profissionais, mas sempre há espaço para aprimorar, seja em aparelhagem, em tecnologia, em infraestrutura. Temos alguns projetos para que nos próximos anos possamos melhorar a estrutura de Xerém.

Quais as metas do Fluminense para o futebol, da base ao profissional, na administração Pedro Abad, que está no começo?
O presidente atual chega com uma filosofia de mudar um pouco o futebol, começando por não ter mais aquela figura centralizadora. E uma das ideias dele é montaram projeto com a integração de tudo que fazemos na base com o futebol profissional. Então desenvolvemos vários projetos e a ideai é integrar todo esse trabalho com o time profissional. É claro que isso leva a um raciocínio lógico pelo maior aproveitamento dos atletas da base, mas eu diria que é um aproveitamento mais racional, pois hoje eles passam por um processo de amadurecimento fora, seja via plano de carreira ou em nosso time na Europa. Alguns saem da base para o profissional, mas muitos vão rodar em outros clubes. Assim que começamos a planejar o elenco desse ano com Abel e o Torres. Trouxemos de volta o Luiz Fernando, que estava no Samorin na Eslováquia e foi o principal destaque lá, já com 22 anos, atleta que conhecíamos bem da base; trouxemos de volta o Lucas Fernandes, que fez um ótimo campeonato brasileiro pelo Atlético Paranaense, mas já estava há quase dois anos sendo emprestado para maturar; trouxemos de volta o Léo Pelé, que foi um dos melhores laterais-esquerdo da Série B pelo Londrina; trouxemos de volta o zagueiro Reginaldo, que foi um destaque no Vila Nova. Isso tudo foi pensado para que não tenha que sair ao mercado e contratar jogador mediano e pagar valores altíssimos de comissão, luvas, salário. Você faz o jogador em casa, coloca no mercado, matura, deixa evoluir e traz de volta, pra dentro de casa. Então foram quatro jogadores que retornaram, que conhecemos da base do Fluminense e nos quais confiamos. Chegaram como reforços, pois foram destaques em outros clubes.

Torcida única chega ao Rio. Chamem o papa-defunto

Mauro Cezar Pereira, blogueiro do ESPN.com.br

Primeiro acabaram com o Maracanã, estuprado, agredido, realmente violentado pelos que o demoliram com toda sua história, mística e milhões de reais ali colocados em tantas reformas anteriores. O futebol carioca e brasileiro perdeu, muito, com a obra desnecessária capitaneada por um governador que no momento se encontra preso.

Mauro detona torcida única no RJ: 'A experiência de ir ao estádio fica cada vez mais pobre'

O golpe foi duro, mas o tal New Maracanan surgiu no mesmo local sagrado, e pelo menos em sua arquitetura padrão Fifa, permite que duas torcidas o frequentem ao mesmo tempo. Mas isso não deverá mais ocorrer, primeiro porque a tal arena segue fechada, se deteriorando, vítima do furacão Rio 2016, do governo estadual, do consórcio etc.

Torcida única: Mauro mostra na Assembléia Legislativa de SP como hooligans são combatidos

Pior, a determinação de um juiz, após pedido do Ministério Público, gera a adoção da torcida única. Num Estado falido, com ex-governador preso, o atual balançando e servidores que não recebem salários, a polícia não foi às ruas como seria normal, dois grupos brigaram, uma pessoa morreu e o futebol vai pagar a conta.

Para Mauro, torcida única é paliativo e não garante segurança: 'Não vai levar a lugar nenhum'

Torcida única é a falência da sociedade, a admissão de incapacidade ante gangues de brigões. Obviamente não resolve, mas será adotada no Rio, como já foi em São Paulo, até que uma tragédia aconteça mesmo com torcedores de um só clube podendo entrar no estádio. Paliativo que apenas dá uma satisfação à sociedade.

Ministério Público de SP volta a defender a torcida única; veja como foi a audiência em 2016

Colocaram um band-aid numa perna com fratura exposta. Obviamente não resolve. E o nosso esporte morre aos poucos. Era o que faltava para o castigado Rio de Janeiro. Está na hora, chamem o papa-defunto. Os coveiros do futebol vão se esbaldar.

Mauro detona violência e organização entre Botafogo x Fla: 'Foi uma incompetência'

O que você não sabe (mas precisa saber) sobre o épico feito do Atlético Tucumán

Por Joza Novalis*

Nesta quinta-feira, às 20h15, o Atlético Tucumán continuará sua aventura rumo à fase de grupo da Copa Libertadores. O adversário será o Junior Barranquilla, na Colômbia. As atenções estarão novamente voltadas para o pequeno clube argentino após a épica classificação do time no Equador, vencendo não só El Nacional, mas uma série de obstáculos e dificuldades inimagináveis. Você certamente ouviu e leu muito sobre o que se passou em Quito, ou no caminho até lá. Mas provavelmente não conhece partes importantes dessa incível aventura, que Joza Novalis relata no texto abaixo.

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Divulgação
Jogadores do Atlético Tucumán no embarque para o Equador
Jogadores do Atlético Tucumán no embarque para o Equador: risco de WO

A história de El Nacional x Atlético de Tucumán é a história de várias batalhas vencidas pela equipe argentina e sua gloriosa torcida. A primeira delas ocorreu nos bastidores, contra interesses de gente poderosa: nada menos que os cartolas da AFA e dirigentes de alguns cubes grandes do país. Ocorre que a conquista da vaga pelo Tucumán coincidiu com a maior crise institucional da entidade e com uma temporada de pesadelos para Boca e River. Ao menos um deles ficaria de fora da Libertadores.

Pelo regulamento do campeonato argentino, a última vaga à maior competição continental ficaria com o Atlético Tucumán. Porém, de repente, concluíram que o regulamento não valia nada e que o critério deveria mudar. A vaga que fora definida pela melhor pontuação na tabela passou a ser daquele que tivesse o melhor retrospecto histórico na Conmebol. A situação estava clara: venceria quem demonstrasse mais força nos bastidores. Todavia, como um pequeno clube do Norte peitaria um Boca ou River?

Divulgação / Atlético Tucumán
Atlético Tucumpan quase não chegou para a partida por conta de problemas com voo fretado
Atlético Tucumán quase não chegou para a partida por conta de problemas com voo fretado

Oficialmente fundado em 1902, o Clube Atlético de Tucumán realizava atividades desportivas pelo menos 15 anos antes. Nasceu em um lugar que tem quase nada da Argentina que a maior parte das pessoas conhece. E tampouco nasceu para disputar jogo contra os gigantes do futebol do país. Por um lado, era como se o seu país fosse o desconhecido Norte da Argentina e, por outro, que sua Libertadores dos sonhos fosse a disputa da primeira divisão do futebol de nossos Hermanos.

Mas isso nos tempos atuais; no início, era bem diferente. Vejamos. Segunda menor província do país, Tucumán tem pouco mais de 22 mil quilômetros quadrados, só alguns a mais do que a gelada Tierra del Fuego, na Patagônia. Em sua perspectiva, seus vizinhos são gigantes: Santiago del Estero possui 136,5 mil km²; Catamarca, com 102,6 mil e República de Salta, 155,5 mil km² quadrados. Encravada entre eles, Tucumán é fruto de circunstâncias fortuitas e históricas.

JUAN CEVALLOS/AFP/Getty Images
Tucuman Comemora Classificação El Nacional Libertadores 07/02/2017
Atletas do Atlético Tucumán comemoram a classificação sobre El Nacional na Libertadores

Socialmente é uma das cinco mais pobres, dentre as 24 divisões administrativas da nação de San Martín. No total, são 11 províncias ao norte com seus clubes respirando o futebol. Se todas elas são gigantes frente a Tucumán, era natural que seus clubes também fossem maiores do que o Decano do Norte. Neste sentido, a missão primária do pequeno clube era tão-somente a de se manter vivo.

Contudo, ele soube se constituir como grande não apenas nos limites de sua província. Superou a todos os rivais do Norte e foi o único historicamente a ser notado e, em alguns casos, respeitado pelos portenhos de Buenos Aires e de La Plata. No entanto, se conseguiu ser um clube relevante, isto aconteceu no que se conhece no país como uma outra Argentina. Sendo assim, a força de bastidores do Atlético era a de uma formiga diante de elefantes. Então, voltamos à pergunta, se poderosos desejavam pegar a vaga do Atlético, como ele poderia lutar para mantê-la?

EFE/Rolando Enríquez
El Nacional Atletico Tucuman Libertadores 07/02/2017
Time jogou com uniformes da Seleção Argentina Sub-20, que disputava torneio em Quito

Foi aí que sua torcida mostrou porque o Decano é diferente. Assim que percebeu que os dirigentes não conseguiriam sozinhos, ela foi para as ruas com o objetivo de exigir que se cumprisse o regulamento. Foram 20 dias ininterruptos de protestos, que tiveram no presidente Macri e na AFA os principais alvejados. No início, ninguém deu à mínima. Mas aos poucos o movimento tomava proporções épicas, se enraizando por toda a província e ameaçando outras estruturas da sociedade local.

A radicalização tomava as ruas e se fazia anunciar nos quatro cantos do mundo. Foi então que os dirigentes da AFA, também pressionados pelo Gabinete do Governo de Macri, decidiram pelo respeito ao que estava escrito. Após a conquista da vaga em campo, ela agora era reafirmada e legitimada pela torcida. Após o feito, os torcedores retornaram às ruas, mas então apenas para celebração do novo triunfo: o Atlético Tucumán era o primeiro clube do Norte do país que iria à Libertadores da América.

A aventura épica em etapas - primeira parte: frustração dentro de casa

A estreia do Decano ocorreu diante do El Nacional, clube grande no Equador e já experiente na disputa da Libertadores. A recepção não poderia ser melhor. Mais de 35 mil pessoas estiveram no estádio Monumental José Fierro para receberem o seu querido "el Deca". O vídeo abaixo mostra um pouco disso.

Porém, na primeira partida, muita coisa não funcionou. Motivada pela vibrante recepção, a equipe local saiu na frente logo no início com um gol de Zampedri, mas com a assinatura de um de seus maiores ídolos históricos: Luís "la Pulguita" Rodríguez. Ele cobrou uma falta em que a pelota contou com o leve desvio no corpo do artilheiro antes de parar no arco equatoriano. Tudo parecia fácil, mas essa não foi a história do jogo.

O Tucumán levou o empate, retomou a liderança do placar até que, no final, quando buscava ampliar o marcador, sua defesa falhou novamente e permitiu um novo empate do rival. O resultado final de 2x2 se refletia na frustração que tomou as faces dos torcedores na cancha do Decano. Sua brava equipe teria o desafio de vencer um grande equatoriano, em sua casa, a mais de 2800 metros de altitude e a mais de 4600 quilômetros de distância.

A aventura épica - a da torcida a da torcida

Mal acabou o primeiro jogo e muitos torcedores se ocuparam da viagem até Quito para o duelo de volta. Não há voos diretos e a opção de charter é tão cara que ficaria mais fácil atravessar o mundo, desembarcar em Tóquio do que chegar à capital do Equador. Pela forma convencional, os torcedores teriam de conhecer o Panamá e a cidade de Lima, antes de desembarcarem em Quito.

Sendo assim, alguns torcedores resolveram se aventurar em seus carros; no caso, a viagem seria de 96 horas, considerando alternativas ao volante e não considerando paradas para refeições ou descanso. Se razoável, essa viagem demoraria no mínimo cinco dias. Mais confortável seria a viagem convencional por ônibus. Mas, considerando todas as paradas e horários pelos diversos lugares, haveria o risco de demorar até sete dias.

Ou seja, caso não saíssem imediatamente após o jogo em Tucumán, não chegariam a Quito, para o duelo da volta. Muitos optariam por ônibus flertado. Mas o flerte só poderia ocorrer dentro da própria Argentina. Que fosse! Viajariam pelo longo percurso de Tucumán a Salta até os limites do país com o Chile. Então, atravessariam a primeira fronteira até a distante cidade de Iquique, passando pelo sorrateiro deserto do Atacama. Dalí, viajariam até Arica e seguiriam para o povoado de Chacalluta, na fronteira com o Peru.

Mauro destaca feito dos jogadores do Atlético Tucumán: roteiro de filme 

Atravessar toda a extensão desse país não seria qualquer coisa. Primeiro teriam de chegar à Lima, situada no meio da nação inca, e depois atingir a sua fronteira, ao Norte. Subindo e descendo a Cordilheira dos Andes, passariam por Tacna, Trujillo, Chiclayo até Maracá, na fronteira com o Equador. Dali, precisariam chegar em Machalla, Cuenca Milagro e Guayaquill.

Para aqueles que superassem todas essas etapas, a cidade de Quito estaria a apenas seis horas de viagem; ou seja, um café-pequeno para os bravos torcedores do Decano. No espírito deles, a alegria e a certeza: "Não vai ser somente um jogo, vai ser uma jornada de carnaval. Levaremos nossos bumbos para que a música esteja conosco na viagem e dentro do estádio".

A aventura épica - a viagem da equipe

Embora fosse a primeira aventura internacional oficial, a direção do Atlético não cometeu os erros que alguns pensam. Como o jogo era na altitude de Quito, seus dirigentes concluíram que o melhor seria acomodar o elenco em Guayaquil e apenas desembarca-lo em Quito uma hora antes do jogo. Chegaram no domingo à cidade equatoriana, dois dias antes da partida decisiva.

Tudo estava saindo dentro do planejado até o momento do segundo embarque, em Guayaquil. A companhia aérea chilena que conduziria o elenco não recebeu autorização para a cabotagem. Até o momento, ninguém entendeu bem os motivos. O principal dizia que a altitude era superior à capacidade da aeronave em percorrê-la. Neste caso, o argumento contrário foi o de que a mesma aeronave havia sobrevoado altitude muito superiores, dias antes.

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Não adiantou. E detalhe, todos os jogadores já estavam dentro do avião, onde ficaram sob um calor infernal por quase três horas. Começou o drama. Não havia um outro voo capaz de acomodar todo o elenco argentino e suas bagagens. Todas as tentativas de resolver o problema não surtiam o efeito desejado. O desespero se aprofundou diante da possibilidade de suspensão do encontro. Aqui no Brasil, muitos comentaristas e pessoas comuns diziam que deveriam suspender o jogo, pois na Europa é assim que funciona.

Enquanto isso, as emoções explodiam dentro da aeronave, mas assim que algum jogador deixava o pessimismo aparecer outros diziam: "Nós iremos conseguir, estamos aqui para vencer o jogo e fazer a nossa história". Contudo, o tempo passava e o medo do WO aumentava ainda mais. Além disso, os cartolas estavam todos envolvidos na solução do problema e não conseguiam retornar à aeronave para informar sobre o que estava acontecendo.

Um grito de desespero soou baixo no meio dos jogadores. Mas vale lembrar que um grupo de torcedores estava no mesmo voo e portanto na mesma aeronave. Do seio dele, um garoto de oito anos apareceu e disse: "Logo o nosso avião vai sair e nosso time vai ganhar o campeonato, não é? Eu não me importo em esperar porque sei que vamos ganhar".

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Neste momento, "La Pulguita" Rodríguez reuniu o elenco e pediu calma: "Se um menino consegue se controlar por que estamos assim? Precisamos levar nossa loucura para o campo, mas neste momento, necessitamos de calma e concentração". E continuou: "Peço que pensemos apenas no jogo e na nossa vitória, nada mais", caso ninguém consiga se concentrar, pense somente nas palavras, ‘nós vamos chegar e vamos ganhar'".

Ficaram assim por longo tempo até que os dirigentes entraram na aeronave. Eles haviam conseguido um voo emergencial para Quito. Todos saíram correndo para o trâmite do novo embarque. Contudo, o avião só poderia levar o elenco, nem a bagagem, nem parte dos dirigentes e nem os 120 torcedores poderiam acompanhar os jogadores. Quando soube disso, o elenco foi tomado por um novo baque emocional.

O lateral Fernando Evangelista disse: "Já é demais, não consigo, não deixarei os torcedores aqui", então se juntou a eles, no que foi seguido pelo meia Guille Acosta. Ninguém sabia o que fazer e o raciocínio já fortemente abalado não apresentava solução para um problema aparentemente tão pequeno. Novamente os torcedores apareceram para animar o elenco e sugerir que fossem para o jogo.

O pequeno Matías, de 12 anos, disse: "Que cheguem lá e vençam o jogo por nós, precisam ir agora". Bem, a história desses torcedores daria um filme. Todos conseguiram chegar ao estádio Atahualpa; alguns no intervalo, outros com alguns minutos da etapa final. Teve caso de um pai que chegou com o filho, sem um único centavo no bolso, pois todo o seu dinheiro foi aplicado na odisseia para descobrir onde ficava o estádio, após se perder na capital equatoriana.

Quando lá chegou, não o deixaram entrar, alegando que o setor reservado à torcida já estava fechado. Nos seus braços, o esgotado Juan, de 10 anos, chorava e dizia, "Eu só quero ver o meu Deca", ainda que um pouquinho". Por sorte, o presidente do clube, que se colocou a postos para tais problemas, salvou pai e filho conduzindo-os ao setor onde estavam os dirigentes. 

Tiveram sorte, a mesma que faltou para um grupo de 57 torcedores que ficou preso em Machalla, a 500 quilômetros de Quito, pois seus membros foram roubados por uma agência de viagem. Fizeram dois vídeos, um deles para tranquilizar seus familiares. No outro, muitas horas mais tarde, para pedir as pessoas que divulgassem o acontecimento. No relato, o garoto chora por ter frustrada a chance de ver e alentar sua equipe na primeira viagem pela Libertadores.
  

A aventura épica - parte final
Quando entraram no novo avião, os jogadores estavam marcados por um novo stress emocional. Não sabiam o que seria feito com as suas bagagens, pertences pessoais e sobretudo com o fato de não terem o uniforme para o jogo. E mesmo se um uniforme aparecesse, receberiam a autorização para vesti-lo? Além disso, sabiam que o jogo já deveria ocorrer muito tempo antes e que a qualquer momento o árbitro aplicaria o WO.

Eles não sabiam, mas o embaixador argentino se desdobrava para resolver esses problemas no estádio. Além disso, também garantia que uma escolta policial acompanhasse o ônibus do aeroporto até o estádio Atahualpa. Tudo era feito na correria. Assim que desembarcaram, tiveram que correr para o veículo. Um deles, o zagueiro Di Plácido, sentiu os efeitos da altitude e acusou uma queda: era um aviso a todos sobre o local onde estavam.

Mas não havia tempo para tais preocupações. Entraram no ônibus e rumaram para o estádio a mais de 100 quilômetros por hora: "Uma tragédia poderia ter ocorrido pela forma como o coletivo se manejava", disse Bruno Bianchi. E continuou: "Temos família e com as coisas que ocorreram ultimamente é natural que fiquemos assustados, mas sabíamos que precisávamos chegar e que a partir do momento em que isto acontecesse, nossa missão passaria a ser a vitória em campo a qualquer custo".

Um pouco antes de chegarem ao estádio, os jogadores souberam que usariam o uniforme da seleção Sub-20, que disputa o Sul-Americano em Quito. Desembarcaram e foram diretamente para o vestiário. Tudo em velocidade. "Chegamos suados e apenas com a roupa do corpo. Estávamos famintos, mas em virtude do tempo o único que poderíamos fazer era beber um pouco d'água", disse Bianchi. "Por sorte, os garotos da Sub-20 estavam lá e nos entregaram os seus uniformes. Algumas chuteiras serviram; outras não. Então, alguns jogaram com chuteiras folgadas, enquanto outros com chuteiras que faziam os pés doerem por todo o jogo".

No cenário do Atahualpa, os torcedores de ambas as equipes estavam cansados, mas ninguém protestava pela demora da equipe argentina. Quando ela finalmente entrou em campo, seus jogadores se deram conta de que o grande barulho que havia era o que vinha de um setor afastado da arquibancada: era cânticos de seus torcedores.

Tudo indicava que a equipe local venceria com tranquilidade. E a classificação ocorreria com o empate em zero ou pela contagem de um gol. Além disso, era improvável que na altitude de Quito um elenco desgastado, faminto e estressado emocionalmente conseguisse resistir. Porém, o que se viu em campo foi assustador.

O Tucumán dominou a partida do começo ao fim. Sobrava disposição física, velocidade e entrega nos seus jogadores. Contudo, o mais notável era a maneira como eles conseguiam preencher suas linhas com um ajuste raro para os olhos dos rivais equatorianos. Mesmo os erros defensivos da primeira partida não se apresentaram desta vez. 

Ainda assim, os equatorianos apostavam que na segunda etapa as coisas seriam diferentes. Quando o elenco argentino chegou ao vestiário, havia frutas e outros alimentos para que fizesse uma refeição. Preferiram beber somente água para evitar problemas. Um comunicado foi passado aos jogadores: poucos minutos após partirem no voo alternativo, as autoridades do tráfico aéreo do Equador liberaram a aeronave original para sobrevoar e desembarcar no aeroporto de Quito.

Já o ótimo técnico Pablo Lavallén deixou de lado a orientação técnica e pediu aos jogadores que se lembrassem dos torcedores que ficaram no aeroporto de Guayaquil, que se lembrassem principalmente dos mais velhos e das crianças. Precisavam vencer por suas famílias e carreiras, pelo clube, mas principalmente por aquelas pessoas.

Os jogadores entenderam o recado e seguiram com a pressão para cima de um El Nacional assustado e sem reação. As chances de gol apareciam, mas o placar estava classificando o conjunto local. Mesmo vendo que sua esquipe poderia fazer o gol a qualquer momento, o técnico Lavallén resolveu torna-la ainda mais ofensiva. Retirou o volante Rodrigo Aliendro e colocou o centroavante Cristian Menéndez.

Três minutos depois, o cérebro da equipe, e melhor em campo, David Barbona, fez o passe perfeito para o incansável lateral Fernando Evangelista. Praticamente em cima da linha ele conseguiu cruzar para o cabeceio certeiro do artilheiro Fernando Zampedri guardar a pelota no arco do guarda-metas equatoriano. Sem saber o que fazer, saiu correndo feito um louco e percorreu longa distância até cair no chão e chorar.

"Eu corria para achar os meus torcedores, mas não conseguia vê-los na arquibancada. Me dei conta de onde estava e da alegria que aquele gol provocaria em todos eles. Eu não conseguia vê-los, mas estava profundamente conectado com cada um deles". 

Com o apito final do árbitro, os jogadores tiveram força para comemorar dentro do estádio e com seus bravos torcedores. Quando chegaram ao vestiário caíram exaustos, sendo que alguns deles apenas naquele momento sentiram os efeitos da altitude. Muitos tinham os pés ensanguentados pela pressão das chuteiras apertadas. Alguns não tinham força sequer para comemorar enquanto outros falavam coisa com coisa, claramente perdendo o senso da realidade.

Esses jogadores seriam recebidos dois dias depois por uma imensa festa de acolhimento de sua torcida. Enquanto isso, muitos daqueles que os acompanharam na viagem ainda estavam no caminho de volta e só chegariam em casa no começo da outra semana. Por certo que não se importam com isso, pois fizeram parte de uma aventura que coloca o Atlético Tucumán na história da Libertadores.



Joza Novalis, autor deste texto, escreve no site Futebol Portenho

No caos do Rio de Janeiro, Botafogo, Flamengo e as trapalhadas de seus dirigentes

Mauro Cezar Pereira, blogueiro do ESPN.com.br

O caos no Rio de Janeiro não é segredo. Estado falido que não paga os servidores, ex-governador preso, atual cassado, Polícia Militar protestando e atuando abaixo do seu efetivo. É evidente que o futebol não teria como escapar disso. Se a falta de segurança estimula a ação de criminosos, óbvio que sabendo do baixo efetivo da PM, os brigões de sempre iriam pra porrada, mesmo com algumas organizadas proibidas nos estádios.

Gazeta Press
Houve confusão do lado de fora do Engenhão
Houve confusão do lado de fora do Engenhão antes do clássico Botafogo x Flamengo

Cenário previsível, que poderia ser evitado com medidas antecipadas, como o adiamento do clássico entre Botafogo e Flamengo. Mas não instantes antes do horário marcado para o pontapé inicial, e sim na quinta-feira ou sexta. Por mais que sejam bem-intencionados e estejam, cada um à sua maneira, tentando tirar seus clubes do buraco, os dirigentes protagonizaram um show de horrores em meio a essa barafunda.

O domingo no Nilton Santos, o Engenhão, teve tudo de errado. De falhas operacionais a oportunismo barato e arrogância. Na incerteza de disponibilidade do efetivo da PM e a informação de que policiais do Gepe (o grupamento que faz a segurança nos estádios do Rio de Janeiro) ficaram presos no batalhão de Deodoro, incluindo seu comandante, o Major Silvio, o adiamento deveria entrar em pauta, não tão tardiamente.

Assista aos gols da vitória do Flamengo sobre o Botafogo por 2 a 1!

Mas a ideia só cresceu quando mais de 20 mil pessoas já estavam no local do cotejo ou a caminho. Não realizar o jogo àquela altura poderia ser pior, acirrando os ânimos e obrigando todas aqueles torcedores a retornarem para casa antes do previsto, em meio a uma atmosfera tensa e absolutamente insegura. À última hora, o fato de um dos times atuar com reservas pode ter pesado na postura de cada lado.

Com pouco policiamento, torcidas se enfrentam no entorno do Engenhão antes de clássico

Então surge dirigente alvinegro dando entrevista com camisa de clube e informações desencontradas. Outro, rubro-negro, faz ironias sobre mais PMs no Engenhão do que torcedores do time rival. O presidente do Flamengo, desinformado, fala sobre questões de segurança pública, garantindo condições, sendo que não era o mandante e três torcedores seriam baleados. Um morreria.

Com sensibilidade paquidérmica, perfil do Flamengo no Twitter solta uma comemoração exagerada após o triunfo apertado ante os reservas do Botafogo, cuja conta na rede social, por sua vez, vai além e insinua que a do rival estaria fazendo apologia à violência. A do Vasco, cujas organizadas historicamente se unem com os botafoguenses em brigas com os rubro-negros; entra na discussão virtual. Bizarro!

E segue. Vice flamenguista defende a postura do clube em seu perfil pessoal, e o @Flamengo trata o assassinato de um alvinegro de forma desproporcional com um "Lamentamos a morte do torcedor e os ocorridos no Engenhão..." Óbvio que se trata de um problema de segurança pública refletido no futebol, mas isso não justifica banalização e reações. Em meio ao caos, os clubes passaram o domingo brigando.

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Pelo Twitter, provocações fora de hora
Pelo Twitter, provocações e confronto fora de hora

Mas a relação de certa conivência entre torcidas organizadas, mesmo quando exibem seu lado mais agressivo, e a presença de clubes em redes sociais, é algo comum até. O próprio perfil do Botafogo no Twitter destacou a Fúria Jovem, que reapareceu recentemente nos jogos após suspensão, quando da partida com o Colo Colo pela Libertadores, no Rio. A frase do tuíte integra uma música, um cântico que se volta em sua letra a brigas com rivais de outras torcidas.

Cartolas de Flamengo e Botafogo vêm alimentando rivalidades tolas fora do campo. Quando reforçam isso em declarações por redes sociais ou entrevistas, só atrapalham em rasgos de amadorismo que beiram a irresponsabilidade. Falta a esses apaixonados torcedores de arquibancada compreender a diferença da conversa de bar para o momento no qual representam seus clubes. Eles agora são dirigentes. É diferente.

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Tuitada do perfil do Botafogo quando da volta da Fúria Jovem aos jogos, diante do Colo Colo
Tuitada do perfil do Botafogo quando da volta da Fúria Jovem aos jogos, diante do Colo Colo

Num mundo ideal o Rio de Janeiro não estaria falido, os servidores receberiam em dia, o Maracanã não teria sido estuprado e o ex-governador preso andaria pelas ruas sendo cumprimentado pelos eleitores por uma ótima gestão. Também nesse ambiente imaginário, os presidentes de Flamengo e Botafogo se reuniriam, dariam um ponto final a essa briga tola que há tempos seus clubes alimentam. Pois com ela todos perdem e só têm mais a perder.

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Nação 12 se solidarizou com a Bravo 52 e seu integrante agredido durante o clássico
Nação 12 se solidarizou com a Bravo 52 e seu integrante agredido durante o clássico

PS: uma semana antes, Pedro Scudi, 23 anos, integrante da pacífica barra do Fluminense Bravo 52 foi espancado nas imediações do Maracanã quando voltava do jogo com a Portuguesa, em Xerém. Passou por cirurgia na cabeça, gente com camisas de todas as cores foi até o hospital doar sangue, mas segue internado. Enquanto organizadas de Flamengo e Botafogo se matavam e dirigentes não se entendiam, a Nação 12, a barra rubro-negra, exibia no Engenhão um trapo, uma faixa dando apoio ao jovem tricolor que há oito dias luta pela vida. Se você quiser saber mais o que são as barras, clique aqui

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