Mauro Cezar Pereira

Mauro Cezar Pereira

Jornalista desde 1983, passou por diversas redações de rádios, jornais, revistas e sites. Lecionou em faculdades de jornalismo e hoje é comentarista dos canais ESPN

Paga em dia ou contrata de qualquer jeito? Afinal, o que parte da imprensa quer dos clubes?

Mauro Cezar Pereira, blogueiro do ESPN.com.br

Os famosos meses de 90, 120 dias foram incorporados ao noticiário. Clubes grandes se acostumaram a assumir compromissos com jogadores e não respeitá-los, atrasando salários por muito tempo. Assim, surgiram histórias que entraram para o folclore, como o fingir que joga porque os cartolas fingiam que pagavam.

Alguns acham engraçada tal frase, embora ela seja patética. Se o atleta não recebe, que reivindique a rescisão do contrato. Porque o torcedor que vai ao estádio paga pelo ingresso e não o faz esperando que alguém finja que está jogando pra valer. Mas em setores da mídia esportiva tal comportamento arranca até gargalhadas.

A imprensa critica, de maneira pertinente, o dirigente que não mantém as contas em dia. Discursamos em defesa da melhor estrutura do futebol, pelo fim dos pagamentos a cada trimestre, contra o acúmulo de dívidas, as contas estouradas que corroem os cofres dos clubes. Ações absurdas que os empobrecem.

Toda essa linha de raciocínio é esquecida quando um time grande precisa de reforços e admite que sai em busca de novos jogadores. A pedida do pseudo craque é sempre elevada, surreal até. Jogadores em declínio, distantes de seus melhores momentos, que ficaram para trás, propõem ordenados no padrão europeu.

Nenhum clube brasileiro administrado com seriedade pode se submeter a uma remuneração de, digamos, R$ 1 milhão mensais para um só atleta. Ele teria que ser, ainda, um jogadore de primeira linha, com mercado em clubes grandes no futebol internacional, capaz de fazer muita diferença em campo. E dar retorno fora dele.

Não é o caso dos que atuam no Brasil. Mas e daí? Os clichês não saem da pauta. "O time tal não pode ter um elenco desses". "A torcida não aceita um time tão fraco". "Compre que a galera paga". "O dirigente tem que contratar, está demorando demais". Nem os empresários dos atletas fariam serviço melhor. Para eles mesmos.

Mas alas da mídia se agarram a essa argumentação fácil, rasteira, distante da realidade daqueles que têm o compromissos e desejam honrá-los. Assim, estimulam os cartolas a serem irresponsáveis. Dão aval para que o dirigente cometa loucuras econômicas fazendo média com o torcedor fanático e de visão curta.

Quanto custa um jogador desses? Não por mês, mas pelo contrato inteiro. Realizamos um cálculo há poucos dias em outro post — clique aqui e confira. Quem faz essa continha básica? Quem se preocupa em jogar as cifras da nova contratação dentro da planilha de custos do departamento de futebol para ver se elas cabem?

O ator americano Leonardo DiCaprio embolsou US$ 25 milhões pelo filme "O Lobo de Wall Street", de Martin Scorsese. Já Sandra Bullock assegurou US$ 20 milhões para atuar em "Gravidade". E levou mais US$ 50 milhões porque o contrato lhe garantia uma participação nos lucros. E o filme rendeu US$ 716 milhões!

Só por ter o nome "Tom Hanks" no letreiro, o pífio "Náufrago" arrecadou US$ 429 milhões. Salários não têm limites, desde que proporcionais ao retorno que o profissional gera. E no caso de Hollywood, estúdios pagam tais fortunas aos seus astros porque eles têm responsabilidade direta nos lucros, atraem a bilheteria.

Na reestréia de Robinho pelo Santos, ano passado, o time perdeu para o Corinthians (0 a 1) e a renda na Vila Belmiro foi de R$ 357.125. No jogo seguinte em casa, 2 a 0 sobre o Atlético Paranaense. Apenas 4.612 torcedores foram vê-lo em ação, deixando só R$ 129.285. Como falar em salários de milhões num futebol assim?

Já passou da hora de os clubes serem administrados de maneira responsável. E se a linha de raciocínio da imprensa for coerente, quem defende o pagamento de salários em dia e a quitação de dívidas não pode clamar por reforços a qualquer custo. Porque nessas horas, parece que é o jornalista que tenta fazer média com a torcida.

Divulgação
Sandra Bullock em Gravidade: US$ 70 milhões com participação na bilheteria
Sandra Bullock em "Gravidade": US$ 70 milhões com participação na bilheteria

Rota de colisão com Fred acelerou saída de Ricardo Drubscky do Fluminense

Mauro Cezar Pereira, blogueiro do ESPN.com.br, no Rio de Janeiro (RJ)

Ricardo Drubscky foi demitido após apenas oito jogos à frente do Fluminense e será substituído por Enderson Moreira, que já trabalhou no clube. E a saída do treinador tão rapidamente foi consequência não apenas dos resultados ruins. Ele e Fred não se entenderam bem.

Durante o período de treinamentos em Mangaratiba, Rio de Janeiro, antes da estréia no campeonato brasileiro, os dois se desentenderam, inclusive. Drubsky não demonstrou força para se impor ante o elenco e a goleada sofrida diante do Atlético tornou a situação insustentável.

Eram duas as possibilidades nas cabeças dos dirigentes tricolores: esperar mais um par de derrotas da equipe na Série A para trocar o técnico, ou demitir imediatamente Drubsky. Concluíram que se as coisas iam mal, sem alinhar com o atacante seria improvável uma reação do Fluminense em campo.

Fluminense.com.br
Fred durante treino do Fluminense em Mangaratiba: desentendimento com técnico
Fred durante treino do Fluminense em Mangaratiba: desentendimento com técnico

Você pagaria R$ 71,5 milhões para ter um jogador de 31 anos de agora até 2020?

Mauro Cezar Pereira, blogueiro do ESPN.com.br, no Rio de Janeiro (RJ)

Robinho se valorizou incrivelmente depois de alguns bons jogos e da conquista do Campeonato Paulista! Sim, o ex-candidato a candidato a melhor do mundo conseguiu a proeza de voltar ser badalado como antes por ter sido protagonista do Santos na conquista do estadual. Como se fossem os dois Brasileiros nos quais liderou o time do litoral paulista para faturar os títulos, nada menos que 13 e 11 anos atrás.

A pedida do atacante seria em torno de R$ 1,1 milhão por mês. Partamos de tal número e façamos uma simples conta, multiplicando essa quantia por 13 (os 12 meses do ano, mais o décimo-terceiro salário). Pronto: temos a remuneração de R$ 14.300.000 por temporada. Agora multipliquemos por cinco, número de anos de duração que o compromisso teria, para obter o total a ser pago pelo clube contratante. Chegaremos à bagatela de R$ 71.500.000.

Isso mesmo, setenta e um milhões e quinhentos mil reais. Dá quase R$ 40 mil por dia. Ricardo Oliveira também brilhou na campanha do Santos ganhando aproximadamente isso, só que por mês! Depois renegociou o contrato em bases melhores, mas muito distantes das cifras que envolvem o possível novo contrato do colega de time nesses primeiros meses de 2015. Isso evidencia o exagero. A loucura. O devaneio.

Robinho ainda pode fazer a diferença no futebol brasileiro. Mas está longe de ser um jogador que pese a ponto de valer tanto. Ainda mais por cinco anos, pois é claro que a cada temporada a tendência é, mais velho, o vermos rendendo menos e menos. Um contrato por, digamos, duas temporadas, por aproximadamente metade da cifra que estaria sendo pedida, não iria muito além de 20% dos R$ 71.500.000.

É essa a conta que todos precisam fazer, torcedores, jornalistas e principalmente dirigentes que contratam. Pois os agentes, os empresários dos atletas, efetuam tais cálculos com enorme facilidade, até de cabeça. E não por acaso. Quem não gostaria de ganhar uma comissão em cima de tão simpática quantia? Por essas e outras, muitos clubes simplesmente não pagam o que prometem. E isso precisa acabar. Logo.

Gazeta Press
Robinho voltou a se valorizar: jogador caro aos 31 anos de idade e querendo contrato longo
Robinho voltou a se valorizar: jogador caro aos 31 anos de idade e querendo contrato longo

Punição ao Boca é mais sujeira jogada para baixo do tapete. É preciso punir os vândalos

Mauro Cezar Pereira, blogueiro do ESPN.com.br

Importante: as linhas a seguir têm alguns links para textos fundamentais. Sem ler os mesmos, você não entenderá o raciocínio. Se não estiver interessado, não tiver paciência ou não goste de se aprofundar no tema, melhor parar por aqui e nem ler o post.

Quando tentamos entender os bizarros acontecimentos da noite de quinta-feira em La Bombonera e nos atrevemos a analisar o problema, é preciso, antes de tudo, saber o que há por trás disso tudo. Primeiro passo: leia a ótima matéria de Francisco De Laurentiis no ESPN.com.br sobre quem comanda o grupo organizado da maior torcida do futebol argentino — o link está aqui.

Se afirmamos que os dirigentes devem romper com as organizadas (no caso argentino com as Barras), precisamos entender minimamente do que se trata. Muitos falam a respeito como se fosse fácil, simples e nada perigoso, arriscado. Se você não conhece a história de Javier Cantero, leia o artigo de Joza Novalis neste blog publicado em 6 de maio de 2014 — o link pode ser acessado clicando aqui.

Organizações criminosas se apossaram de organizadas. Como Gabriela Moreira mostrou em reportagem sobre a Torcida Jovem do Flamengo em dezembro de 2013 — clique aqui e confira. Nove meses depois, a mesma repórter revelou que apesar das graves acusações, o processo se arrastava em meio a trâmites jurídicos. Clique aqui.

De onde partiram as atitudes cretinas, covardes que provocaram a paralisação do jogo Boca Juniors x River Plate? É fácil perceber que vieram do local onde se posiciona há décadas "La Doce", a maior barra do time xeneize, cujo perfil e história de quem a comanda é detalhadamente explicado no primeiro link disponibilizado neste texto.

Reprodução
Capa do livro de Gustavo Grabia
Capa do livro de Gustavo Grabia

Alguém acha que a principal preocupação dos líderes da Barra é o time do Boca Juniors? Ou seriam seus "negócios" que movimentam muito dinheiro? Como detalha o livro do jornalista Gustavo Grabia "La Doce - a Explosiva História da Torcida Organizada Mais Temida do Mundo". Tive a honra de escrever o prefácio da edição em português.

Você que acompanhou o episódio, lendo o segundo link deste post, imagina no que se transformou a vida de Javier Cantero, o presidente do Independiente que sofreu nas mãos dos barra-bravas ao tentar desafiá-los? O time seria a prioridade dos que fizeram de tudo para tirá-lo do cargo? Ou seus próprios interesses?

Quem é capaz de afirmar (e provar) que os integrantes da Jovem estavam preocupados com o Flamengo (cuja atual diretoria não lhes fornece ingressos e benefícios como no passado), quando invadiram o vestiário em Macaé no começo do ano? Você acha que essas pessoas são realmente torcedores cujo objetivo é apenas apoiar o time? Elas têm vínculo com o clube? O mesmo deve responder por ações de quem com a agremiação vive em conflito?

Reprodução
Túnel por onde passaram jogadores do River Plate colado ao setor onde fica a barra La 12
Túnel por onde passaram jogadores do River Plate colado ao setor onde fica a barra La 12

A origem de grupos que se organizam para torcer é a mesma, seja lá em que país for. Mas em muitos lugares, não só na América do Sul, como na Itália, onde imperam os Ultras, eles se transformaram em entidades com vida e interesses específicos. E o clube de futebol em muitos momentos é apenas o mote em torno do qual tudo acontece, o poder se estabelece e dinheiro circula. E como circula.

Não consigo imaginar de que maneira os dirigentes do Boca teriam como impedir os criminosos de agirem como agiram. E não tenho prova de que mantêm com os líderes da Barra alguma relação promíscua. Se existe e for comprovada, cartolas devem ser banidos e o clube responsabilizado.

As palavras do presidente do Boca Juniors, Daniel Angelici, apontando "dois ou três" como os responsáveis e não acusando as organizadas seria reflexo de conivência ou medo? Já lembramos aqui a história de Canteros, que desafiou o poder das barras. Independentemente disso tudo, os vândalos precisam ser capturados. Provavelmente devem estar rindo do próprio "feito" em algum lugar.

Há quem cite como exemplo a exclusão dos clubes ingleses de competições da Uefa após a tragédia de Heysel, na qual morreram 39 torcedores da Juventus da Itália antes da final da Copa dos Campeões de 1985, com o Liverpool. Um enorme equívoco. Na realidade o hooliganismo continuou forte após aquela penalidade, dentro do Reino Unido e também fora, quando a seleção inglesa saía para jogar em outros países.

Abaixo, vídeo feito em novembro de 1986. Nele, hooligans de Darlington e Middlesbrough se enfrentam no dia de um jogo entre as duas equipes pela antiga terceira divisão. Pouco mais de um ano após Heysel, o vandalismo seguia a aterrorizar o futebol na Inglaterra. Os encrenqueiros não estavam nem aí com a punição imposta pela Uefa. Brigavam dentro do próprio país mesmo.

Já no vídeo abaixo você vê ingleses brigando com argentinos no México, durante a Copa do Mundo disputada em 1986, ou seja, também no ano seguinte à punição imposta aos clubes ingleses. Quando viajavam atrás da seleção, fosse pela Europa ou a outros continentes, os hooligans seguiam criando confusões e amendrontando. No caso específico, encontraram seus "pares" sul-americanos.

O cenário só começou a mudar quatro anos depois, quando houve outro fato trágico, em Hillsborough, onde morreram 96 torcedores do próprio Liverpool. E foi uma catástrofe sem qualquer relação com violência nos estádios, foi um caso de superlotação, não de hooliganismo. Para entender mais o que se passou, clique aqui.

E o que aconteceu? As canchas ficaram mais seguras e desde os anos 1990 quem arruma confusão é punido, o indivíduo paga multa, fica sem ver o time por um período ou é preso, dependendo do delito que cometer. Clicando aqui você pode ver a matéria que fizemos com Cass Pennant, primeiro hooligan a cumprir uma longa pena na Inglaterra. Ele ficou quatro anos na cadeia e sua história virou livro e filme.

O problema é policial, não esportivo. Cartolas podem demonstrar inúmeros defeitos, mas não costumam ter o poder de polícia, de justiça. Castigar o clube é punir a maioria absoluta da torcida, que nada fez e nenhuma responsabilidade tem com as ações de grupos violentos. O torcedor que realmente ama e prioriza o time é quem sofre.

Getty
Torcida do Boca atirou spray de pimenta em jogadores do River e assim jogo foi paralisado
Torcida do Boca atirou spray de pimenta em jogadores do River e assim jogo foi paralisado

Por isso fui contra a exclusão do Grêmio da Copa do Brasil no ano passado. Quem agiu de forma racista é responsável pelos próprios atos, o clube não, exceto se apoiar tais atitudes, o que ninguém conseguiu provar até hoje. E como o Santos venceu fora de casa por 2 a 0, não foi tão complicado aplicar a pena como seria dificílimo caso os gremistas tivessem, digamos, goleado.

E na mesma linha de raciocínio: num duelo no qual o Boca é excluído e sobrevive na Libertadores o outro gigante argentino, o River Plate, é mais fácil para a Conmebol agir com tamanho rigor. Mas e se o adversário fosse um pequeno time boliviano? Tirariam os xeneizes e o classificariam?

Você acha que os responsáveis pelo que se passou na Bombonera estão sofrendo com a punição ao Boca? Acredita que esses homens têm como prioridade os resultados do time ou a manutenção da estrutura mafiosa que os sustenta? Apostaria que a punição da Conmebol modificará o cenário do futebol sul-americano?

Jornal La Patria
Detidos até aquele momento, 12 corintianos durante audiência em delegacia de Oruro
Detidos até aquele momento, 12 corintianos durante audiência em delegacia de Oruro

E se gás de pimenta é terrível (e é mesmo), o que dizer de uma vida estupidamente perdida? Já parou para pensar que um jovem morreu há dois anos na Bolívia e ninguém foi "exemplarmente" punido? Apenas o Corinthians foi obrigado a jogar sem público. Quem é o culpado? Seria injusto manter os 12 corintianos presos se não havia provas contra eles. Mas afinal, quem matou o adolescente Kevin Spada? 

Seria razoável se além de punirem o Boca, polícia e justiça do país adotassem tolerância zero para os criminosos que dominam as Barras, colocando atrás das grades os responsáveis, identificando e punindo os responsáveis pelos atos de vandalismo. Dificilmente acontecerá. A Conmebol poderia propor ações conjuntas às autoridades argentinas, no âmbito desportivo e no da justiça. Algo objetivo, real. Que nada.

Não se iluda, a violência vai continuar e os que fizeram tal barbaridade saem como grandes "vitoriosos", mesmo com o Boca Juniors fora da Libertadores. Mais uma vez eles mostraram seu poder e que não temem ser punidos. Por essas e outras, o que vemos, mais uma vez, é a sujeira jogada para baixo do tapete.

PS: não vamos misturar as coisas, confundir festas nos estádios, direito de torcer de pé, bandeiras, a cultura da arquibancada com violência. Uma coisa não tem relação com a outra, defender o direito às tradições populares das canchas não significa defender o vandalismo.

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Mauro Cezar Pereira comenta confusão em Boca Juniors x River Plate

O torcedor, a lâmpada mágica e um pedido: ter no seu time um capitão como Steven Gerrard

Mauro Cezar Pereira, blogueiro do ESPN.com.br
John Powell/Liverpool via Getty Images
Steven Gerrard Despedida Anfield Liverpool Crystal Palace 16/05/2015
Steven Gerrard, com a filha no colo, bate pela última vez na mítica placa "This is Anfield"

Trôpego, cabeça baixa, meio sem rumo, o torcedor caminhava pelas ruas desanimado após mais uma derrota do seu time. Quando as coisas não vão bem, quem tem uma paixão no futebol não consegue se sentir 100%. O sono não é o mesmo, há casos em que se perde a fome e a sede por alguns copos de cerveja é, em inúmeros momentos, a única "salvação" para afogar tantas mágoas.

Passadas inseguras, chutando as pedras pelo caminho, o fanático repentinamente tropeça em algo. Ele pára, olha e se abaixa para pegar o objeto. Era uma lâmpada. Uma lâmpada mágica, como as daquelas fábulas dos filmes e desenhos animados. A estranha situação num dia não muito bom inspirou o homem das arquibancadas e agir como se fosse um personagem dessas aventuras.

— Uma lâmpada! Bem, como as coisas vão mesmo mal, não tenho muito a perder. E já que encontrei a lâmpada, vou esfregá-la. Vai que acontece alguma coisa - suspirou.

Após algumas passadas de mão na peça velha e amassada, ficou sem muitas esperanças ao perceber que nada acontecera.

— Isso é coisa de filme mesmo - resmungou.

Quando pensou em devolver o objeto ao chão onde o encontrou, percebeu que começara a vibrar. Pouco a pouco uma fumaça dela saiu. Assustado, largou a lâmpada e deu alguns passos para trás. Aos poucos, a figura do gênio gordo e de cara cansada tomava forma à sua frente.

— Quem foi o cara-de-pau que me acordou depois de centenas de anos? - questionou o "Shazam" de mal humor, esfregando os olhos.

— Fui eu... - respondeu timidamente o fã de futebol, dedos trêmulos como se o seu time tivesse um pênalti decisivo a ser cobrando naquele instante.

— Ah sim, você. Pelo jeito de se vestir deves pertencer a algum grupo religioso.

— De certa forma sim, isso aqui é minha religião - respondeu, beijando o escudo pregado no fardamento na altura do coração.

— Eu odeio fanáticos. Por causa deles me escondi aqui por tanto tempo. E tomei algumas medidas depois que alguns me pediram coisas como armas, exércitos, dinheiro, tudo para ganhar mais e mais territórios e poder. Vocês, humanos, são gananciosos demais - reagiu o gordão secular.

— E quem mudança foi essa? - perguntou o torcedor.

— Não mais concederei três desejos a quem encontra a lâmpada. Agora é um só e olhe lá - comunicou, enfático.

— Mais você reduziu de três pedidos para um? Só um? - perguntou, incrédulo.

— E o pedido é temático, eu vou estabalecer as regras - completou.

— Regras? E quais são?

— Como percebo que és fanático por futebol, precisas pedir um reforço para o seu time. Um só reforço - resumiu o amigo de "Aladim", dando uma pista sobre seu lado boleiro.

— Ah, é? Não posso nem pedir um time inteiro novinho?

— Não. E é bom você andar rápido com isso antes que eu resolva não atender pedido nenhum - ameaçou o gênio.

— Sou mesmo azarado. Meu time perdeu de novo, os jogadores não têm garra e quando acho uma lâmpada mágica a inflação consumiu meus pedidos. Pra piorar, ele ainda determina o que eu posso pedir - desabafou, desanimado.

— Vou tentar ajudá-lo - disse o gênio, que parecia ter uma assinatura de TV a cabo dentro da lâmpada, pois aos poucos demonstrava conhecer mesmo o futebol.

— Como? Vai fazer o Pelé ficar mais jovem e voltar a jogar? - desafiou o rapaz.

— Tá sendo irônico, é? Você poderia nem ter achado a lâmpada. Aproveite que ainda tem um pedido a fazer e não seja pífio e patético - ordenou o balofo, enquanto flutuava com braços e pernas cruzadas a uns 90 centímetros do solo.

— Mas Seu Gênio, um jogador só não resolverá o problema do meu time - explicou o fanático, um tanto quanto desesperançoso.

— Depende, meu garoto, depende... - fustigou o ser milenar, louco para causar um rebuliço no universo futebolístico e pensando em nomes como Messi e Cristiano Ronaldo, que ele faria trocar de camisa num toque de mágica ao ouvir o pedido.

— Gerrard! - cravou, convicto, o torcedor após pensar por alguns segundos, enquanto um sorriso eufórico repentinamente tomava seu rosto.

— Gerrard? Steven Gerrard? - perguntou o gênio, incrédulo.

— Ele mesmo - rebateu o jovem.

— Mas eu lhe dou a chances de escolher o Messi. De colocar o Cristiano Ronaldo no seu time, e você escolhe o Gerrard? Tudo bem que ele joga bola, mas o Gerrard? Antes eu tirasse o direito a todos os pedidos - protestou, indignado.

— Mas Seu Gênio, meu time está muito mal. Não basta alguém que faça muitos gols e obras de arte com a bola nos pés. Precisamos de um jogador capaz de mudar tudo. Alguém que saiba lançar, virar o jogo, sair jogando da defesa, chutar, marcar, desarmar, dar carrinho, bater faltas, pênaltis, cabecear. Que seja líder, capitão, referência, exemplo, ídolo! Que vista a camisa com amor. Que seja como eu, como nós quando sofremos e vibramos na arquibancada. Um torcedor de nosso time, só que dentro de campo. Que desde pequeno ame a camisa que veste - explicou, excitado, enquanto puxava o manto com força para mostrar tamanho amor pelo clube.

— É, acho que você tem razão - respondeu o gênio, pensativo, coçando a barbicha.

— Obrigado, Seu Gênio. Muito obrigado - agradeceu, mãos juntas como se estivesse rezando, o fanático agora esperaçoso ante a chegada do seu Messias.

— Eu que agradeço pela lição sobre futebol. Nunca havia pensando nisso. Nem sempre o mais habilidoso e artilheiro é o mais admirável nesse estranho esporte que vocês inventaram e pelo qual me apaixonei - admitiu, humilde.

— Não foi nada, Seu Gênio. E agora o que o senhor vai fazer? - perguntou, meio blasé.

— Voltarei à minha lâmpada para rever a final da Champions League de 2005 - revelou.

— Ah, você não é bobo mesmo, hein Seu Gênio? Naquela noite ele carregou o Liverpool contra o Milan. O time perdia por 3 a 0 e ele conduziu ao 3 a 3 com a vitória nos pênaltis - lembrou o fã do craque que deixou os Reds.

— Pois é. E ele fez muito mais, em inúmeros jogos, sem que em nenhum momento de sua carreira estivesse no time mais forte. E até você me achar hoje, eu nunca havia me dado conta de como jogou naquela decisão e como joga futebol o Gerrard - reconheceu, antes de virar fumaça e voltar lentamente para dentro da velha lâmpada. Ainda deu tempo de ele ouvir a última resposta do torcedor, enfim realizado:

— Gerrad é gênio. Gênio...

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Steven Gerrard comemora gol na final da Copa da Inglaterra de 2006: ídolo exemplar
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