Mauricio Barros

Mauricio Barros

Maurício Barros é jornalista formado pela PUC-SP e mestre em Ciência Política pela USP. Foi redator-chefe e diretor de redação da Revista Placar. Acha que o futebol vai muito além das duas linhas de quatro. E desconfia de todo número que não leva em conta o imponderável.

Vampeta e o desprezo por quem tem pouco

Maurício Barros
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Vampeta diz que ingresso de Audax x São Paulo será 100 reais e provoca: 'É a estreia do 

"Quem não for, não vai, pronto!". Assim, curto, grosso e claro, Marcos André Batista Santos, 42 anos, o Vampeta, presidente do Audax, definiu a consequência de sua decisão de cobrar o preço de 100 reais para o ingresso mais barato na estreia de seu time no Campeonato Paulista de 2017, na Arena Barueri, município vizinho de Osasco, sede do clube. A medida é puro oportunismo de mercado: o jogo tem atrativos históricos, não pelo Audax, mas pelo adversário: o São Paulo Futebol Clube, que verá a estreia oficial como treinador do maior ídolo da história do clube, o ex-goleiro Rogério Ceni. "Não é salgado. Se você tomar três cervejas no bar sem serviço nenhum vai custar 60 reais", continuou o cartola. Oi?

Vampeta se acostumou a ser um personagem folclórico. Seriedade nunca foi a marca de sua persona pública. Histórias divertidas e controversas povoam sua carreira bem sucedida de jogador. Esquetes como as cambalhotas na rampa do Planalto após o penta e o ensaio nu para a revista G Magazine, entre outros. Vamp é um rei da noite. E um filantropo em Nazaré das Farinhas, sua cidade natal na Bahia. Sempre um entrevistado fértil, um papo hilário.

Mas agora é um dirigente. Em certas situações, deveria se comportar de maneira mais sóbria. Quem, no Brasil, é capaz de acreditar que 100 reais são um preço justo para o ingresso mais barato de um jogo de futebol, ou foi curtido na má fé ou não sabe absolutamente nada desse esporte, do que ele representa para a sociedade, do que ele devolve a ela, tampouco das pessoas que estão em sua base de sustentação. E Vampeta, ao que consta, não teve uma infância de rei, pelo contrário. E a desfaçatez de dizer que três cervejas custam 60 reais é o tapa na cara dos torcedores com luvas de chumbo.

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Exemplo de superação com apenas 9 anos, Tiago Linck dá lição de vida e vira embaixador do Audax

Em todas as arenas, novas e antigas, deve haver lugar digno para aqueles torcedores que não podem pagar muito. Em um país como o Brasil, eles são maioria. O futebol depende deles. Isso quer dizer que jogadores, clubes, cartolas, patrocinadores e mídia dependem deles. Alijá-los é um tiro no pé. Tripudiar deles, como fez Vampeta, é deplorável.

Como planejar um time com o dragão chinês fumegando no cangote?

Maurício Barros

A China zoou tudo. O mundo do futebol nunca mais será o mesmo. O dinheiro de que os chineses dispõem para contratar quebrou qualquer lógica em relação ao caminho natural dos craques no planeta. Em recente lista do jornal Marca, da Espanha, dos 11 futebolistas mais bem pagos no mundo, cinco estão na China. São eles Tevez, Oscar, Hulk, Pellé e Lavezzi. Carlitos, líder do ranking, leva quase 11 milhões de reais por mês - ou 356 mil reais por dia!

Oscar saiu do Chelsea para ganhar 84,5 milhões por ano no Shangai SIPG - o que significa que, a cada pôr do sol, ele fica 231 mil reais mais rico. Eu sei, você estaria feliz com apenas um pôr do sol dos 365 que ele tem. Eu também. Um ano de trabalho e três gerações de oscarzinhos podem ficar de papo pro ar pela vida toda. É surreal, esdrúxulo, intrigante...

O apetite voraz do capitalismo chinês desequilibra planejamentos no mundo todo - e no Brasil em especial. As negociações com os clubes europeus de mercados tradicionais como Portugal, Espanha, Alemanha, Itália, França e Inglaterra eram mais "manjadas". De alguma forma, havia um tempo de absorção em relação à saída de um jogador. As relações com os chineses começaram há pouquíssimo tempo, e barreiras como língua e cultura tornam difíceis a antecipação de qualquer lance. Um depósito inimaginável de multa rescisória acontece da noite para o dia. Dá a louca nos caras e não há barreira financeira que não possa ser transposta.

A lógica da carreira também se enfraquece. Um jogador brasileiro jovem, que alcançasse destaque e seleção, tinha como meta a Europa. Do início ao auge, fatores como visibilidade, competitividade, glamour dos torneios e das cidades eram fatores tão determinantes quanto o dinheiro. Mas as cifras chinesas são tão absurdas que quebram a força desses argumentos. Atleta, familiares, empresários e mesmo os clubes realizam precocemente um lucro que, antes, só seria possível em um ápice profissional - depois de uma Copa do Mundo bem sucedida, por exemplo. É justamente para ninguém ter tempo para pensar no que significa tal mudança.

Há estimativas de algo próximo dos 2 bilhões de reais gastos pelos chineses com transferência nesta temporada. Já é o segundo mercado mundial, atrás apenas da Inglaterra. A atual janela vai até o fim de fevereiro. Os chineses não parecem ser como os americanos, que viveram ondas de interesse pelo soccer ao longo do tempo. A tendência é só "piorar". O Planeta Bola tem uma nova ordem, e dirigentes, treinadores e torcedores terão que se acostumar com isso: perdas na calada da noite, quando já é dia alto na China.

 

Ceni, Zago, Carille e cia: a enorme 'responsa' da nova geração de treinadores

Maurício Barros

Abel Braga, 64 anos, é o único remanescente de uma geração de treinadores que termina 2016 empregado por um dos "12 grandes" brasileiros, o Fluminense. Carpegiani (67) e Autori (61) também seguem firmes em Coritiba e Atlético-PR, respectivamente. E só. Por motivos diversos, os sexagenários Vanderlei Luxemburgo (64, sem clube), Oswaldo de Oliveira (66, sem clube), Joel Santana (68, no Boavista-RJ), Leão (67, virou coordenador na Portuguesa), Falcão (63, sem clube), Muricy Ramalho (61, comentarista), Levir Culpi (63, sem clube), Marcelo Oliveira (61, sem clube), Felipão (68, na China) e Celso Roth (59, sem clube), só para citar alguns, sumiram dos holofotes nacionais.

Nas várias trocas de comando que tivemos no cenário brasileiro, muitos desses nomes sequer foram cogitados. E eles, por anos, se revezaram nos melhores empregos do país. Um sinal inequívoco de que não há mais o mesmo interesse pelos seus serviços.

Os melhores hoje são de uma geração mais nova: Tite tem 55 anos, e Dorival Junior e Mano Menezes, 54. Mas idade não é a questão central. Não deve ser nunca. Conheço septuagenários cheios de frescor nas ideias, assim como faria uma lista enorme de jovens com mentalidade medieval. Mas, no caso dos treinadores citados, não vejo um nome que possa, hoje, representar novidades em liderança, sistemas de treinamento, táticas de jogo, comportamento dentro e fora do campo.

Pois o ano vai se iniciar com grande expectativa em relação a jovens comandantes. É algo histórico. Eles são a bola da vez. Zago no Inter, Roger Machado no Galo, Rogério Ceni no São Paulo, Fabio Carille no Corinthians, Jair Ventura no Botafogo, Zé Ricardo no Flamengo, Eduardo Baptista no Palmeiras, Daniel Paulista no Sport. É muita gente babando para ocupar os espaços que ora se abrem, uma demanda de torcedores, patrocinadores e imprensa por um futebol melhor, que pressiona os dirigentes a não optar mais pelo mesmo.

Essa turma tem uma enorme responsabilidade. Mais que ascender às mais altas prateleiras do mercado, eles carregam a expectativa de milhares por um futebol mais competitivo, contemporâneo e belo. A bola está com eles. Que consigam oxigenar o futebol brasileiro e, acima de tudo, impeçam o que tem acontecido em diversas outras áreas no país: o avanço do atraso.

 

Apenas um grande brasileiro termina o ano deprimido. E não é o Inter

Maurício Barros
Gazeta Press
Corinthians tem ido muito mal nos clássicos em 2016
Corinthians durante goleada sofrida pelo Corinthians

O ano foi terrível em muitos aspectos, e o futebol piorou tudo no final com a tragédia da Chapecoense. Mas temos que seguir adiante, não tem outro jeito. Falemos um pouco de bola. Se olharmos para dentro do campo, uma brisa de esperança sopra para os lados dos grandes clubes brasileiro. Entre os 12 maiores, todos têm motivos para esperar um bom início de 2017 - à exceção de um.

E não pense que essa "ovelha negra" é o Internacional. O clube ainda chora o rebaixamento à Série B, é certo. E sofre ainda mais quando lembra a postura de seus dirigentes, que fizeram do Colorado um vilão ante a opinião pública nas últimas semanas do Brasileirão. Mas o aparente recuo em relação ao Tapetão, a contratação de Antônio Carlos Zago para treinar o time e o provável retorno de D'Alessandro já surtem efeitos no clima à beira-rio. A torcida vai compreendendo que jogar a Série B não é o fim do mundo e o mais importante é o time reencontrar sua identidade. Se o Natal colorado não é para champanhe, peru ou leitão, pelo menos um franguinho bem temperado começa a cheirar da cozinha. Pintou uma sidra na geladeira. Já é alguma coisa para quem andava com jiló na garganta.

O Grêmio vive um Natal em clima de Carnaval. Renovou com Renato, o mais carioca dos gaúchos, e respira ambição. Vamos ver como reforça o elenco e se não perde peças importantes. Luan vai vendo seu cartaz subir na Europa - em um segundo no Google, seu nome aparece já há algum tempo vinculado a Barcelona, Real, Leicester...

No Rio de Janeiro, os quatro grandes têm seus motivos para sonhar. O Vasco, mais modesto, inicia o ano novamente como time de primeira divisão. O Fluminense trouxe de volta Abelão para reconstruir o elenco. O Flamengo cimentou uma base sólida dentro e fora de campo, e tem Libertadores e Brasileirão como grandes metas de título. E o Botafogo terminou o ano de modo fantástico, revelando um treinador promissor, Jair Ventura, e carimbando a vaga na Libertadores.

Em Minas, o Galo trouxe o desejado Roger Machado para comandar seu elenco estrelado. Há muita expectativa ao redor do jovem treinador. E o grupo de jogadores sabe que ficou devendo na reta final do Brasileiro. No Cruzeiro, Mano Menezes conseguiu ajeitar a casa, dando um padrão tático ao time e deixando o terreno pronto para um salto de qualidade a partir do Estadual.

Por fim, em São Paulo, o Palmeiras nada de braçadas com o caixa cheio, reforços importantes (Keno, Raphael Veiga, a volta de Prass e outros a chegar) e o promissor Eduardo Baptista, que vê sua melhor chance da carreira para ascender à prateleira dos grandes treinadores brasileiros. O clube quer a Liberta, e tem elenco para isso.

No Santos, a solidez do trabalho de Dorival Júnior é garantia de mais uma boa temporada. O clube quer ir além do título estadual, que já virou barbada no passado recente. No São Paulo, Rogério Ceni representa a expectativa de uma transformação não só no futebol do time, mas no astral do clube, que sofreu com escândalos inimagináveis para a tradicional "fidalguia" tricolor. A maneira como se preparou, os auxiliares que trouxe, sua obsessão por eficiência e a boa safra de garotos da base enchem a torcida de esperança para 2017.

Por fim, o único dos 12 grandes mergulhado no baixo astral: o Corinthians. Os problemas de caixa envolvendo a Arena, o enorme vácuo que Tite deixou, o elenco modesto, a inépcia de seus dirigentes (a "Era Oswaldinho" foi uma prova cabal de amadorismo), a perda da vaga na Libertadores e a dificuldade em contratar um treinador à altura deixam os corintianos muito preocupados para 2017. Só tomando uma.

 

O Futebol nocauteou a Tecnologia no primeiro assalto. Vamos reerguê-la?

Maurício Barros

Para mim, foi pênalti. Mosquera vê que o japonês Nishi Daigo vai escapar em direção à bola erguida e estende sua perna direita para derrubar o adversário do Kashima Antlers. Como essa, há várias infrações cometidas quer por atacantes, quer por defensores, em todo lance de área nos quatro cantos do planeta bola. O "assistente do vídeo" chamou o húngaro Viktor Kassai, que paralisou o jogo, viu o lance e voltou ao campo assinalando o pênalti. Convertido por Doi, foi decisivo para a vitória dos japoneses sobre os colombianos, por quem o Brasil torcia depois do banho de humanidade que deram no mundo. Se o assistente não chama o juiz, ninguém ia falar desse lance – só o Nishi, que saiu gesticulando contra o bandeira.

Mas está agora todo mundo descendo a lenha na Fifa. Há requintes de complicação na discussão, pois o vídeo também revela que Nishi estava impedido, mas a determinação da Fifa é que impedimentos não devem ser analisados na imagem. Que enrosco...

É preciso ter serenidade nesse momento. Há uma demanda urgente para que se melhore a arbitragem no futebol (disparado o esporte mais difícil de ser arbitrado por suas questões técnicas e culturais). Isso vai acontecer de dois jeitos: preparando melhor juízes e auxiliares (profissionalizando-os em todo o mundo) e disponibilizando recursos da tecnologia para que cada vez errem menos. Há também uma questão mais profunda, que tem a ver com o comportamento de jogadores e treinadores, a toda hora tentando ludibriar a arbitragem a seu favor.

Árbitros jamais vão deixar de errar, porque não se vislumbra um momento em que um jogo de futebol poderá ser mediado por máquinas. E onde houver gente, haverá interpretação. Mesmo assim, há muito o que fazer para ajudar os homens de preto (e amarelo, e lilás...) a aplicar as regras com eficiência.

A incorporação de recursos extracampo para auxiliar a arbitragem do futebol é algo que demora, demanda tempo, testes, erros. Não é tão simples como detectar um toque de mão na rede ou uma bolinha que pinga fora da área de saque. O contato físico permitido, as dimensões do campo, os fluxos, a quantidade de jogadores, a regra do impedimento, o Sobrenatural de Almeida, tudo isso desafia as máquinas, a engenharia, a cibernética, a informática. Vai haver injustiça, como esta primeira no Mundial de Clubes. Mas não se pode deixar de tentar. Aos poucos, vai-se encontrando mecanismos de minimizar barbeiragens sem travar a essência do jogo. Eu acredito nisso. Não vamos matar a temporada de espetáculos por uma estreia ruim.

Meu receio é que, medrosa e avessa a críticas que é, a Fifa decida simplesmente esquecer os testes de tecnologia diante da cornetada geral. E que aí se trave uma evolução desse esporte que a gente tanto ama, mas que precisa urgentemente de uma revisão em seu processo de arbitragem. Pense no quanto ficamos discutindo erros este ano, e o quanto essas brigas extrapolaram os aspectos esportivos e viraram verdadeiros "incidentes diplomáticos" entre os clubes.

 

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