Se o interesse pelo futebol cresce, por que só os estádios estão vazios?

Maurício Barros

Mesmo que com algumas ilhas de sucesso, os estádios brasileiros seguem, em sua esmagadora maioria, sendo um vazio de torcedores. Quando um time como o Santos não consegue botar sequer 7.000 pessoas em seu estádio em um jogo de Libertadores, devemos parar um pouco para refletir. Porque não é só a Vila Belmiro. São quase todos os estádios brasileiros.

O que ilumina ainda mais a certeza de que a maioria de nossos dirigentes e homens de negócios do futebol não tem competência (ou boa fé) é a constatação de que o interesse pelo principal esporte do planeta só cresce, no Brasil e no mundo.

Outras formas de se relacionar com essa paixão, muito mais profissionais, vão nadando de braçada: jogos como Fifa e Winning Eleven, fantasy games como Cartola, apostas via internet, canais como Desimpedidos, páginas de zoeira no Facebook... Tem empresa de tudo quanto é tipo querendo se aproximar das pessoas via amor pela bola. Isso sem falar nas transmissões dos jogos, que hoje não se restringem às TVs e estão nos tablets, smartphones e afins, em altíssima definição.

Todas essas outras maneiras de alimentar a paixão pelo futebol funcionam muito bem, porque geridas por gente competente. Concorrer com elas exige pessoal qualificado, que poucos clubes têm. Não sou um devoto do deus Mercado, mas não é possível desvincular o problema da lógica velhaca em que está mergulhada a política dos clubes brasileiros. Nessa disputa pelo investimento dos torcedores, os clubes, que possuem o maior ativo do negócio, que é o jogo ao vivo, o evento em si, perdem de goleada.

Vejam que paradoxo: há um enorme contingente de pessoas consumindo tudo o que se relaciona àqueles encontros de dois times com onze sujeitos de cada lado, mas o lugar mais privilegiado em que um apaixonado pode estar, o estádio de futebol, vive às moscas. Como é que pode?

 

 

O que fazer com um elenco medíocre? Os gregos já responderam isso

Maurício Barros
Getty
Uma das maiores zebras da história do futebol: a Grécia vence Portugal por 1 a 0 e leva a Euro de 2004
Uma das maiores zebras da história do futebol: a Grécia vence Portugal por 1 a 0 e leva a Euro de 2004

O Corinthians de Fábio Carille surpreende nesse início de temporada. Sem grandes craques (Jadson foi sua contratação mais badalada e Jô era uma aposta de risco), o conjunto corintiano respondeu muito bem à postura realista de seu novato treinador, que optou pelo pragmatismo e foi recompensado com o título estadual.

Esse Timão me fez dia desses lembrar de um dos maiores exemplos de "maximização de recursos" da história do futebol: a Grécia campeã da Euro-2004. Uma seleção que conseguiu ser mitológica sem deuses.

Historicamente, a seleção grega de futebol até então não existia. Seu retrospecto apontava uma participação na Euro de 1980 (três jogos, um empate e duas derrotas, um gol marcado e quatro sofridos, eliminada na primeira fase como última do grupo A) e outra na Copa do Mundo de 1994 (uma campanha ainda pior: três jogos, três derrotas, nenhum gol marcado, dez sofridos, eliminada como última do grupo D). Só o fato de ter conseguido a classificação já foi motivo de comemoração. Não passar vexame em terras lusitanas já seria um resultado aceitável.

Não para o técnico alemão Otto Rehhagel, então com 65 anos. Ele chegava ao comando da seleção grega com um currículo vitorioso em seu país. Dirigindo o Werder Bremen, vencera duas vezes o Campeonato Alemão, ganhara outras duas vezes a Copa da Alemanha e conquistara ainda a Recopa da UEFA. Como treinador do Kaiserslautern, alcançara um feito incrível: havia ganhado o Campeonato Alemão da segunda divisão em 1997 e, no ano seguinte, vencera a divisão principal.
Rehhagel, ou Rei Otto, como ficou conhecido, não aceitaria a derrota como destino inexorável do futebol helênico. Mas ele tinha um problema: faltavam talentos.

Nenhum dos jogadores de todo o elenco grego tinha uma posição de destaque em clubes de ponta do futebol europeu - fato que persiste até hoje. O capitão Zagorakis, por exemplo, havia sido dispensado pelo Leicester City, então muito distante de sonhar com o improvável título da temporada passada. Diante de tal situação, um treinador comum reclamaria de cara: "Não posso fazer limonada sem limões", diria, usando o clichê para armar a desculpa do fracasso futuro. Rehhagel, pelo contrário, via o copo metade cheio, e usaria o suor para tirar leite de pedra.

Dá para intuir que Rei Otto, depois de conhecer o grupo que tinha em mãos, fez uma minuciosa análise SWOT. Ele sabia que contava no elenco com defensores seguros e, no meio-campo, com incansáveis marcadores. Essas eram suas forças. O ponto fraco estava na criatividade: o talento era escasso. Armadores e atacantes burocráticos. As ameaças eram todas as seleções adversárias, mais o retrospecto terrível dos gregos. Não à toa, as bolsas de apostas inglesas pagavam ao redor de 150 para cada libra investida em uma eventual Grécia campeã. E as oportunidades? Bem, Rei Otto sabe que o futebol é um esporte de placares escassos, onde domínio da bola não significa necessariamente vitória ao final. Por isso, a zebra é um bicho comum entre as feras da bola. Havia uma chance, mesmo que pequena. Por que não persegui-la?

Rehhagel tratou de montar uma verdadeira muralha à frente do goleiro Nikopolidis. Dos dez jogadores de linha, oito tinham funções defensivas. A linha de zagueiros contava ora com três, ora com quatro homens, dependendo da maneira de jogar do adversário. O meio-campo tinha incansáveis marcadores e pelo menos um homem de velocidade. Esse era o desafogo, aquele que poderia aproveitar uma bola para levar à linha de fundo e cruzar para o centroavante, o solitário homem de frente. E, de preferência, pela direita. Não havia bons canhotos no elenco. Basicamente, assim era o jogo da Grécia. Com um preparo físico trabalhado à exaustão, o mantra era destruir, destruir, destruir. E, se houvesse a possibilidade de construir alguma coisa, estar preparado para aproveitá-la. Senão, que se resolva nos pênaltis!

Não é, obviamente, a mais bela das propostas - e, justamente por isso, Rehhagel foi muito criticado. Era um futebol feio. Mas, na visão do treinador, a única coisa a ser feita, e dentro das regras do jogo. "Tínhamos sentimento coletivo e união de propósitos. Esse tipo de ligação, juntamente com o entusiasmo, o espírito de luta e a modéstia, pode levar você longe", disse o treinador tempos depois, em entrevista à revista britânica World Soccer.

O cartão de visitas da Grécia na Euro não poderia ter sido melhor. Uma vitória por 2 x 1 contra os donos da casa. Portugal, treinado pelo então campeão mundial Luís Felipe Scolari, calou-se diante da zebra. Dos quatro chutes a gol que a Grécia deu em todo o jogo, duas bolas entraram, sendo que uma foi de pênalti cometido desastradamente por Cristiano Ronaldo, então com 19 anos.

Nos dois outros jogos da primeira fase, um empate com a Espanha por 1 x 1 e uma derrota para a já eliminada Rússia por 2 x 1. A Grécia terminou o grupo A empatada com a Espanha, mas avançou na competição porque marcou dois gols a mais.

O que se projetava para as fases seguintes era nada menos que o inferno. O próximo jogo, pelas quartas-de-final, seria contra a França, então detentora do título, com Zidane, Henry e toda sua geração de ouro. Depois, nas semifinais, o adversário era "apenas" o melhor time do torneio até então: a República Tcheca. E, na final, simplesmente de novo os donos da casa, Portugal, ávido pelo seu primeiro título.

Os três jogos seguiram um roteiro parecido. Os adversários pressionando, a Grécia fechada atrás, de tocaia para dar o bote. Nas quartas, os franceses martelaram o tempo todo. Mas aos 19 minutos do 2º tempo, o bote grego apareceu: após cruzamento da direita, o centroavante Charisteas completou de cabeça para as redes. A França seguiu insistindo, mas em vão. Grécia na semifinal.

Contra os tchecos, o enredo se repetiu. O lance de sorte se deu quando uma bomba de Rosicky acertou o travessão do bom goleiro Nikopolidis, que mostrou, além de competência, muita sorte. A partida terminou em 0 x 0 no tempo normal e foi para a prorrogação. Havia naquela época o gol de prata, que significava que o time que marcasse primeiro após o intervalo era declarado vencedor. E foi exatamente o que fez o zagueiro Dellas, de cabeça, após um escanteio da direita. A Grécia estava na final.

Contra Portugal, o time entrou sem nenhuma responsabilidade. Afinal, a obrigação de vencer era dos favoritos, os donos da casa. Foi um bombardeio. Dezesseis finalizações de Portugal contra quatro da Grécia. Destas, apenas uma foi em direção ao gol. E entrou. Eficiência em estado de arte. Aos 12 minutos do segundo tempo, Charisteas fez, de novo de cabeça, de novo após um cruzamento da direita, em cobrança de escanteio, o gol do título.

A Grécia chegava ao Olimpo sem que ninguém acreditasse. Venceu os três jogos decisivos atuando na mesma filosofia. Mas soube se adaptar a cada um dos adversários, ora congestionando o meio-campo, ora reforçando a muralha na zaga. Sua arma letal funcionou nas três ocasiões: cruzamento da direita e cabeçada. Rei Otto maximizou a força de seus comandados, minimizando suas fraquezas. Foi uma aula magna de como manejar com maestria recursos limitados.

O jornal inglês The Guardian elencou seis motivos para o sucesso grego no torneio: o primeiro, claro, o técnico Heggagel, um líder motivador e estratégico como poucos. Os jogadores o obedeciam às cegas. O segundo motivo, a tática bem definida e compreendida por todos. O terceiro, o espírito coletivo - "a única estrela deve ser o time", dizia o treinador. O quarto motivo, a ausência de pressão. Quando nada se espera de você, tudo o que fizer será lucro, não é mesmo? Então, por que não arriscar? O quinto, o fato de os jogadores terem chegado ao torneio descansados. Nenhum deles era titular dos times que disputavam finais de torneios às vésperas da Eurocopa. A maioria vinha de equipes de menor expressão, que já estavam em férias. Por fim, o fator surpresa. Como a Grécia era zebra, ninguém se preocupou em estuda-la, saber seus pontos fracos e desenvolver estratégias para explorá-los. Os gregos, ao contrário, sabiam tudo sobre os rivais.

Ao final daquela memorável partida no Estádio da Luz, em Lisboa, a alegria da nação grega encontrava eco no rosto de um jovem empresário birmanês de 34 anos do ramo de restaurantes. Ele também estava radiante. Em uma casa de apostas, havia investido 24.000 libras na Grécia antes de o torneio começar. Com o título grego, ganhou 330.000 libras. Ao ser perguntado por que apostara tanto em um time tão mal cotado, ele disse que havia visto jogos preparatórios do time, ficara impressionado com a força de seu sistema defensivo e decidira arriscar. E, felizmente para ele, deu zebra.

 

O fair play só deixará de ser utopia quando a gente confiar um no outro

Maurício Barros
Goleiro adversário ajuda Matuidi dentro da área, PSG não para o lance e Verratti aproveita

O ótimo italiano Verratti é o protagonista da semana no assunto fair-play. Ele fez um gol pelo PSG contra o Bastia, em jogo do Campeonato Francês, chutando quando o goleiro adversário, Jean-Louis Leca, estava envolvido no atendimento a Matuidi, colega de Verratti, que se contorcia ao pé da trave. Leca bem que tentou retomar sua posição quando viu que o time adversário bateu o lateral, indicando que não pararia o jogo. Mas a bola, um foguete, entrou direto na rede. Draxler ainda cobria parte da visão de Leca. Gol do PSG.

Os atletas do Bastia reclamaram, mas nem juiz nem adversários deram bola. Os jogadores do time da capital tampouco se mostraram constrangidos. Comemoraram o gol normalmente. Pegou mal para Verratti e seus colegas. O jogo terminou 5 x 0 para o time de Paris, a imagem rodou o mundo e houve críticas em todos os cantos.

Aqui no Brasil, serviu para vermos que não temos exclusividade na malandragem, embora estejamos entre os mais viciados em ludibriar regras, códigos e arbitragem em benefício próprio.

A essência do fair play não reside apenas no espírito esportivo. É muito mais que isso: é a confiança no outro. Você só se sente seguro em fazer a coisa certa se estiver certo de que o outro também o fará. É aí que a discussão transcende o esporte e reflete a sociedade. Estamos, cá do lado de baixo do Equador, entre os piores.

Fui criado em um ambiente coletivo de desconfiança em relação ao outro. Ouvi e vi meus amigos receberem alertas como "cuidado com os trombadinhas", "não aceite bala do pipoqueiro", "melhor não ir ao centro com esse tênis novo", "veja se o motorista não aperta um botão para o taxímetro andar mais rápido". Ao crescer, passei a ficar alerta para outras coisas, como o colega puxador de tapete no trabalho, o funcionário público insinuador de propina, o chaveiro explorador, o banco espoliador. Vivemos na defensiva, porque não confiamos no outro. Pior: nem nas leis e nas instituições responsáveis por aplica-las.

Não acho que o futebol deva servir para resolver todos os problemas do mundo. Se exigirmos isso, não só não resolveremos os problemas do mundo como estragaremos o futebol. Haverá sempre um componente esportivo a expor nosso lado competitivo, que deseja a vitória sobre o oponente, e isso deve ser preservado. Mas podemos melhorar o esporte, principalmente evitando tentar levar vantagem a qualquer preço, como fazem jogadores e treinadores país adentro. Este ano, vimos simulações de gandula e até treinador. Além de desonesto, é ridículo.

Voltando ao caso Verratti: o PSG deveria ter pedido a bola na saída de jogo e levado até seu próprio gol, como fez, em 2014, na Georgia, o Dinamo Tbilisi, que permitiu um gol do Sioni Bolnisi, anulando o efeito de um tento que saiu a partir de um fair-play mal observado (o jogador do Dinamo foi devolver a bola ao goleiro adversário, mas acabou encobrindo-o e fazendo o gol).

 

 

Fechou o tempo: anatomia de um quebra-pau dentro do campo

Maurício Barros

Que deprimente o quebra-pau no gramado e nas arquibancadas depois do calientíssimo Peñarol 2 x 3 Palmeiras lá em Montevidéu - cidade linda, calma, um dos lugares onde eu mais me senti em paz no planeta. O relógio anda mais devagar à beira do Prata, tenho essa certeza.

Libertadores não pode ser isso. Não deve ser isso.

Como está difícil a gente falar de coisas boas no futebol. Nós, comentaristas, até que tentamos. Mas a agenda bate na nossa cara todos os dias, espantando sorrisos e cavando bicos, muxoxos, resmungos. Muitas vezes, nem eu me aguento reclamando de tudo no sofá do Bate Bola. Por isso que, quando aparece uma notícia legal, a gente aproveita o máximo para rir com o fã de esportes. 

Vendo aquele espetáculo triste, voltei aos anos 70, 80, época de brigas épicas nos gramados de Latinoamérica. O tempo tende a romantizar aquelas batalhas. Minha avó adorava. Sua lembrança depois da briga de ontem me fez ir pra cama rindo de toda aquela desgraça futebolística. Pelo menos peguei logo no sono.

Adalgisa era uma santista doce. Morava conosco. E tinha sangue italiano. Me lembro que, além de gol do Juary ou do Giovanni, o que ela mais gostava de ver no futebol era... briga! Sim, batalha campal, quebra-pau geral, do naipe de Brasil x Uruguai em 1976 no Maracanã (Rivelino fugindo do Ramirez escada abaixo) ou Corinthians x Palmeiras no Paulistão de 1999 (aquele perrengue das embaixadinhas do Edílson, lembra?) - dois clássicos do futebol-força que o YouTube revive pra você. Coisa ruim.

"Que horror", "que absurdo", "babacas", "selvagens!". É isso o que se fala, com razão, quando rola um barraco geral. Coisa mais feia aquele bando de marmanjo brigando! Mas o fato é que todo mundo para imediatamente o que estiver fazendo pra ver uma briga em jogo na TV. E depois fica comentando os golpes, quem começou, quem apanhou, essas coisas. É isso o que está acontecendo. O ser humano é mesmo uma experiência malsucedida. Fracassemos juntos, pois.

Analisando cientificamente dezenas de quebra-paus profissionais e amadores nesses anos todos de futebol, um grupo de estudos que me pede anonimato chegou a nove padrões de comportamento desses brigões que dão péssimo exemplo às nossas crianças. Vamos a eles:

- O goleiro reserva vira protagonista. Como aqueles velocistas de 100 metros rasos que conseguem reagir mais rápido ao estampido de largada, saindo na frente, há algum mecanismo no cérebro do goleiro reserva que faz com que ele salte do banco antes dos outros. Pintou o primeiro tapa no meio do campo, numa fração de segundos lá está o camisa 12 distribuindo bordoadas. Seu golpe preferido é a voadora, que desfere com maestria - consiste em saltar com uma perna à frente para atingir a vítima em pontos altos com os cravos da chuteira.

- Golpes. Além da voadora, os golpes preferidos pelos boleiros são a chinela (ou rasteira), o empurrão na cara com uma mão só e o altamente covarde "chute trança-pé-por-trás", com o agressor perseguindo a vítima em velocidade (Edílson deu um desse no Paulo Nunes...).

- Impera o estilo bate-e-sai. Seja tapa, soco ou chute, os brigões em geral escolhem bater uma vez e se afastar do oponente, em vez de seguirem atracados a um parceiro só de pancadaria (boleiros são infiéis).

- O "canguru boxeador". Esse é o magrelo que algum dia fez uma ou duas aulas de boxe e acha que briga de rua (ou de campo) se encara com técnica. Então ele arma a guarda (punhos fechados, braços dobrados cobrindo o rosto) como se fosse um médio-ligeiro e fica saltitando em círculos, chamando os caras pro pau. Geralmente, termina a briga e ele não desferiu um mísero jab. Mas saltou um bocado.

- Dirigente barriga-de-chope. Ele sempre aparece no meio da briga, todo suado, com o dedo em riste cuspindo disparates pra quem estiver na frente. Precisa ser contido por quatro "deixa-dissos" (veja abaixo).

- Os "deixa-disso" são a reserva moral, os únicos a quem resta um pouco de razão no meio daquela balbúrdia. São eles que seguram os lutadores, separam quem está atracado, pedem calma à torcida, abraçam os oponentes.

- Falsos "deixa-disso". Em geral, são seguranças que, a pretexto de acalmar os ânimos, entram no "bolo de briga" distribuindo bordoadas.

- Os "me segura". Esses sabem tudo de marketing pessoal. Bons atores, fingem estar ensandecidos, começam a xingar os adversários e simulam estarem sendo contidos por um "deixa-disso" (na verdade, é o "me segura" que agarra o braço do "deixa-disso").

- Massagista armado. Ele já tem uma certa idade e muita rodagem no futebol - o que significa que já viveu muita briga em campo. É um franco atirador. Armado de garrafas d'água, fica acertando os adversários à distância. Ninguém ousa chegar perto dele, pois, no corpo-a-corpo, ele imobiliza qualquer vítima sentando em cima com seus mais de 100 kg de história.

 

Carille, o "Zé Alguém" do Timão

Maurício Barros
Gazeta Press
Carille treina o Corinthians desde o começo deste ano
Carille treina o Corinthians desde o começo deste ano

Corintiano, olhe para a frente: perder nos pênaltis para um Inter sedento por reafirmação não é nenhuma tragédia que deva abalar a confiança no seu promissor comandante. Fábio Carille é quem encara o maior desafio entre os treinadores da nova safra dos grandes clubes. Além de comandar esse caldeirão fervente chamado Corinthians, tem como chefes dirigentes fragilizados, que titubearam para efetivá-lo. Não pode contar com eles. Jamais irão bancá-lo em uma fase de derrotas. Pesa contra Carille também o fato de ser desconhecido, não ter sido um jogador famoso, ser um "Zé Ninguém". Seu único trunfo quando chegou era poder dizer que foi auxiliar técnico de Tite.

Pois o paulista de 43 anos faz um trabalho muito bom. Arrumou a defesa, organizou o time, venceu os clássicos, trouxe de volta o respeito perdido no ano passado. Sim, Fábio Carille já é um Zé Alguém. Nem mesmo essa eliminação da Copa do Brasil, mais uma queda em Itaquera, deveria abalar a crença de que é o homem certo para comandar o time no Campeonato Brasileiro. Digo deveria, porque, no futebol, sabemos que o condicional é o tempo verbal que mais se adequa ao presente.

Uma declaração de Carille chamou atenção na última semana: "Eu não vou desistir de jogador nenhum". Ele se referia a Giovanni Augusto, Marquinhos Gabriel e Guilherme, tríade de jogadores renomados que foi apelidada maldosamente por torcedores de "Trio Tiriça", em alusão a uma suposta falta de comprometimento. Giovanni se machucou, Marquinhos Gabriel perdeu pênalti na decisão contra o Inter. E Guilherme...

Um chefe decente precisa conhecer seus comandados além das habilidades técnicas. Entender quais outras questões pessoais e comportamentais possam interferir em seu desempenho. Quando se trata de jogador de futebol, então, isso é ainda mais necessário. E delicado. No caso de Carille, todos os subordinados têm mais fama e salário do que ele. Por isso mesmo, a importância de ter um treinador que tente recuperá-los. São investimentos financeiros e esportivos do clube. E já estão lá. O talento que os fez serem jogadores cobiçados não desapareceu de uma hora para outra.

Carille parabeniza grupo do Corinthians e lamenta: 'Faltou matar'

Ao dizer publicamente que não vai desistir deles, Carille também legitima sua liderança em relação ao grupo, um desafio constante e diário desde que assumiu. Cabe ao trio devolver em bola esse voto de confiança.

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