Procura-se técnico-mecânico

Maurício Barros

Fazer uma equipe funcionar bem não é tarefa simples em nenhuma área. Você lida com gente, e gente passa o tempo todo sentindo alguma coisa. Sente ânimo, disposição, garra, alegria, o que é ótimo. O diabo é que gente também sente inveja, insatisfação, raiva, vontade de sair. Dores do corpo e da alma. Gente adora se sentir injustiçada, dizer que ganha menos do que deveria, que não encontra condições necessárias para render o que pode. Gente é louca para chamar a vida de madrasta. 

Pegue essa lama toda, multiplique por 100 e pronto, você está no mundo do futebol profissional. Por isso, tanto quanto as questões do jogo em si, um técnico precisa dominar as manhas do relacionamento humano. Se for um carrasco, não dura. Se for do tipo amigão, perece. Achar esse meio termo ótimo, a distância perfeita entre a cobrança e o companheirismo, é para poucos. Quando se encontra esse sujeito, é pregá-lo na cadeira para não sair nunca mais.

Grandes líderes conseguem tirar o máximo de suas equipes, fazer com que produzam por eles. Admiro especialmente aqueles que fazem render os menos talentosos, valorizando a viela de virtudes e protegendo a avenida de defeitos.

Me lembro de Fábio Carille dizendo, logo quando assumiu o comando do Corinthians, que "não desistiria de nenhum jogador". Se referia ao "Trio Tiriça", como ficou conhecida a trinca Guilherme-Giovanni Augusto-Marquinhos Gabriel. Hoje, Marquinhos é ótima opção de banco, Giovanni ainda busca seu lugar e só Guilherme saiu.

Penso em Borja no Palmeiras. O que tem de corneta para cima do colombiano, que custou os olhos da cara, é uma grandeza. "Baita engodo", "enganação" e outras pedradas. Cuca tem tido paciência, mas nem ele, tampouco a diretoria, colaboram quando querem Richarlyson e Diego Souza para a posição. Precisa? Não sei, o clube tem ótimos homens de frente, como Willian, Roger Guedes, Keno, Dudu, Erick... Estão desistindo do Borja ou quanto mais, melhor? A ver.

Recuperar atletas que estão no elenco é tarefa das mais importantes no trabalho de um treinador. É preciso consertar jogadores com defeito e botá-los para jogar. O descarte é muito comum no futebol. O sujeito faz uma temporada ruim e já está escanteado. Isso é prejuízo nos cofres. O São Paulo tem Wesley, Bruno, Cícero, Wellington Nem. Imagine se Dorival Júnior resgata a bola desses caras, o quanto não livrará a barra de quem os contratou... Ou eles viraram grossos de uma hora para outra?

Todos os times têm seu "grupinho da depressão", caras que encabeçam as listas de decepções da temporada. Jogadores que, se bem liderados, podem voltar a atuar em alto rendimento, mas que são descartados no primeiro desmanche. E sabe quando isso mais dói? Quando eles, na primeira oportunidade, metem um gol no nosso time.

Por que a demissão de Rogério Ceni te deixa tão feliz?

Maurício Barros

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Não há um nome mais importante na história do São Paulo Futebol Clube que o de Rogério Ceni. E poucos nomes tão medíocres como o de Carlos Augusto de Barros e Silva, vulgo Leco, presidente do clube. Reeleito para um novo mandato escorado na imagem imaculada do ídolo, baseou sua gestão nas planilhas financeiras, em detrimento do desempenho esportivo, razão de ser do clube, inviabilizando o trabalho daquele que emprestou prestígio e lastro a sua desbotada figura. Seis meses depois, Leco decide demitir Rogério. Nada mais abjeto. O São Paulo, dizem, tem milhões em caixa. E nunca foi tão pobre.

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Ceni topou começar por cima por vaidade e compromisso. Por acreditar que estava pronto (não estava) para redirecionar o clube ao caminho das vitórias, e também por saber que o São Paulo, apequenado frente aos rivais, precisava demais dele. A diretoria achou cômodo tê-lo como escudo e topou. Muito mais por isso e menos por motivos nobres, como acreditar que alguém com capacidade acima da média, identificação com o clube, obstinação e vontade, poderia iniciar uma nova era no clube e oxigenar o futebol como um todo. Não teve coragem para entender e bancar naturais revezes de início. Nem esperar um mínimo de tempo para que peças de reposição, claramente piores que as que saíram, rendessem alguma coisa.

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Rogério trouxe conceitos, auxiliares de fora, trabalhou como um maluco nesses seis meses. Cometeu erros, titubeou, colheu fracassos, mostrou velhos traços de personalidade que precisa rever. Mas foi extremamente prejudicado por uma total falta de planejamento da diretoria comandada por Leco. Começou o trabalho com um grupo, terminou com outro bem diferente.

O tratamento boçal da diretoria ao ídolo Ceni não deve passar impune. A torcida sabe o valor que seu ex-goleiro tem na enorme paixão que ela própria nutre pelas três cores. Poucas vezes uma demissão de treinador foi tão sentida pelos tricolores. Falcão no Inter talvez seja um caso com alguma semelhança - alguma.

Há um regozijo natural nas torcidas rivais, que amam odiar Rogério Ceni, o que só aumenta sua mitologia com os são-paulinos. Celebrar seu fracasso é das mesquinharias que paradoxalmente, compõem o DNA do futebol, ingredientes essenciais de sua força. Basta ler os comentários que virão aqui embaixo. Mas o futebol só é o que é por isso.

 

Luan é corintiano. Qual o problema?

Maurício Barros

E uma imagem de Luan com a camisa do Corinthians viralizou na internet. É de dezembro de 2012, e mostra a estrela gremista enquadrada de maneira incidental, no fundo de uma foto de corintianos em sua cidade natal, São José do Rio Preto, interior de São Paulo. É ele mesmo, corintianíssimo no último, festejando a conquista do Mundial de Clubes vestido com um manto bordô do Timão. Mais um louco do bando. Poucas semanas depois, Luan desembarcaria em Porto Alegre para iniciar a carreira de sucesso que o colocaria, apenas quatro anos depois, na posição de melhor jogador em atividade no Brasil. Alguém tem dúvida do que o Grêmio significa para ele? Ou é xarope o bastante para achar que ele perdeu o pênalti de propósito?

Mas em comum entre o time do coração e o da carteira de trabalho, apenas o mosqueteiro como mascote. Há 1.100 quilômetros entre o Parque São Jorge e a Arena do Grêmio, além do Paraná e de Santa Catarina. A distância ameniza a repercussão da foto, ficando só no campo da gozação leve. Mas se Luan estivesse hoje no Palmeiras, seria um pouquinho mais complicado. É muita rivalidade, muito terreno compartilhado para a turma deixar barato.

O último reduto da privacidade é o pensamento. De resto, qualquer coisa que se faça é passível de ser filmada, gravada, divulgada. Mesmo dentro de casa. Quem garante que, no momento em que escrevo, não há um maluco me filmando das inúmeras janelas dos dois prédios de frente ao meu? Quantas câmeras de segurança existem no caminho de casa ao mercadinho da esquina? Basta um pé no alto da imagem para eu vira cúmplice de um cocô de cachorro não recolhido.

Não se vive plenamente a paixão pelo futebol sem torcer para um time. Por isso, quem está envolvido no meio, seja jogador, torcedor, árbitro, técnico, jornalista ou dirigente, necessariamente tem um escudo do coração. Quem nega está mentindo ou odeia o que faz. Curioso nos tempos atuais é que, depois que a paixão vira profissão, ela precisa ser escondida também na esfera privada. Não importa se você faça comentários imparciais, se administre o clube com a fina flor dos princípios de gestão, se dê a vida em campo pela equipe que lhe paga. Se pintar uma foto sua no colo do seu pai comendo papinha com babador do time rival, ou um vídeo seu dando soco no ar depois de um gol de alguém em um churrasco na praia, você terá problemas.

No caso dos jogadores, eles podem ter jogado em todos os rivais da cidade. Mas se aparecerem vestidos com as cores de um time em uma situação privada, mesmo longínqua, onde mostrem por quem seu coração bate mais forte, podem se preparar que lá vem chumbo. Não é o caso dessa imagem de Luan, que antecede sua vida profissional. Mas quando se está em atividade, como aconteceu com o volante Renan, clicado na arquibancada do Morumbi torcendo pelo São Paulo quando atuava pela Portuguesa, recomenda-se cautela. O futebol não está pronto para algumas verdades.

 

 

Como Lucão, eu já tive 21 anos. Nessa idade, a vida tem que ser mais leve

Maurício Barros
Maurício sugere 'mudança de ares' para Lucão e avalia: 'São Paulo tem time para estar em uma condiçã

Ando curtindo a grisalhice, mas não se engane: um dia eu já tive 21 anos, exatamente como Lucão. E, como ele, nessa idade já trabalhava duro, inclusive de sábado e domingo, conciliando com a faculdade. Verdade que eu ganhava umas 30 vezes menos que o Lucão, mas a rotina era tão pesada quanto.

Como repórter de um jornal paulistano, eu rodava a cidade, do Centro ao Jardim Robru, do Itaim Paulista a Marsilac, cobrindo os casos policiais mais escabrosos que você possa imaginar. Do "banguela que cospe fogo na favela" ao "Natal no prédio da aids", foram várias manchetes do Notícias Populares calcadas em meus, digamos, achados jornalísticos.

Batismo de fogo. Você saía da redação com três linhas de um Boletim de Ocorrência e mais nada. O resto era contigo. Ah, os anos 90. Pelo menos o jornalismo era melhor e a gente aprendia...

Antero analisa declaração de Lucão: 'Foi sincero'

Um ano e pouco depois, já não aguentava mais aquele ambiente. Não da redação, que adorava por ter ao lado amigos que até hoje seguem comigo, dando sentido a essa travessia. Mas tudo o que é intenso é, também, desgastante. Aquele universo doído já não me estimulava, pelo contrário: deprimia. Passei a apurar pior, a debater pior, a perguntar pior, a escrever pior. Até que surgiu uma janela e saí.

Lembrei de mim ao ver o Lucão dizer ontem, ao final da derrota são-paulina para o Galo, no Morumbi, por 2 a 1, que "para a alegria de muitos, já já estou indo embora". Ele tomou uma chuva de vaias depois que falhou gravemente no gol da vitória dos mineiros, cortando uma bola nos pés do algoz Rafael Moura. A semana começou e tricolores seguem querendo sua cabeça, seu fígado, seu sangue.

Mauro fala sobre vaias a Lucão: 'Depois de uma pixotada dessas, não dá para falar outra coisa'

O futebol sabe ser cruel e monstruoso quando quer. Lucão é o vilão da vez, e em suas costas está depositado o fracasso que deveria ser dividido entre todos - técnico, jogadores, diretoria.

Não foi a primeira falha capital do garoto. Lucão é reincidente. Mas isso não quer dizer que seja ruim, pelo contrário. Alguém que chega a titular do São Paulo, com trajeto de seleções de base, já é um vencedor no ultracompetitivo mundo da bola. O problema é que o ambiente anda hostil demais para ele.

Ceni lamenta declaração de Lucão: 'Ele é um patrimônio do clube'

E olha que tanto Lucão quanto seu chefe, Rogério, tentaram e insistiram. Mas há momentos em que é preciso agir com inteligência e pragmatismo, mesmo que sobrem razões para não capitular.

A torcida não vai deixar Lucão em paz. Mesmo que ele vire artilheiro do Brasileirão, salve um chute de peito na linha do gol, anule Luan, Scarpa e Lucas Lima jogando só com a canhota, na primeira espirrada as vaias voltarão.

Brasileiro: Gols de São Paulo 1 x 2 Atlético-MG

Além da questão humana de trata-lo com dignidade, o clube precisa preservar seu patrimônio. Lucão tem valor de mercado e não é pouco. O melhor que tem a fazer é trocar de ares. Ele não precisa carregar esse peso nas costas. Aos 21 anos, a vida tem que ser mais leve.

Zé Roberto, Ricardo Oliveira, Juan, Renato... Como um veterano distingue má fase de fase final?

Maurício Barros

É muito bacana ver estendida a carreira de jogador de futebol para perto dos 40 anos. Há superveteranos em vários times brasileiros: no Santos, Renato tem 38 anos, e Ricardo Oliveira, 37. No Flamengo, Juan fez 38. Léo Moura "desaposentou" no Grêmio também aos 38. No Sport, Magrão crava 40, e Durval completa, mês que vem, 37. Também em julho, o ícone da longevidade, Zé Roberto, fará 43 anos sem um naco de gordura na barriga. O palmeirense é o supremo Matusalém da bola. Perto dele, Marquinhos, do Avaí, 35 anos, cheira a fralda.

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Todos esses caras em ação são indicadores de que muita coisa evoluiu no futebol de trinta anos para cá: a preparação física, a nutrição, a fisioterapia, as técnicas cirúrgicas. E também a consciência profissional dos atletas e o combate ao preconceito. Tão importante quanto tudo isso é o lado mental. Jogar futebol no primeiro nível com o RG amarelado tem um lado particularmente perverso: você trabalha todos os dias empurrando o muro que delimita o fim da carreira.

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Qualquer atuação mais apagada, ou uma lesão mais séria, no caso de um superveterano, levanta a questão: "Já deu pra ele?". É cruel, claro, porque não há um ponto definido onde, a partir dali, o jogador não tem mais condições de competir com os mais novos. A decadência física, com reflexos técnicos, chega em dégradée, e são poucos os jogadores que, ao perceberem que já entraram nessa zona cinzenta, tomam por si próprios a decisão de parar. Muitos vão descendo de nível. Aceitam uma proposta para jogar a Série B, depois a C. Peregrinam por alguns anos em times do interior, com salários ainda bons, mesmo que distantes daqueles que ganhavam quando viviam o auge.

Creio que os próprios "velhinhos" se questionem a cada treino se ainda estão jogando à vera. Não é simples sacar a diferença entre apenas uma má fase e a fase final, de onde não há retorno.

 

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