Dudu não vestiu a faixa de capitão. Foi o contrário

Maurício Barros
Levi Bianco/Getty Images
Dudu Palmeiras Kadu Ponte Preta Amistoso 29/01/2017
Dudu, com a faixa de capitão do Palmeiras, fala grosso com Kadu, da Ponte Preta

Ver Dudu na seleção de Tite é ver justiça. O baixinho de 1,67m é um dos melhores jogadores brasileiros da atualidade. Aos 25 anos, atingiu o auge técnico. No Palmeiras, deixou de ser apenas um atacante de lado e virou também um armador veloz, participativo, capaz de passes precisos e dribles que desconcertam defesas. Fisicamente, está voando. Marcá-lo é um tormento.

Além de o futebol ter crescido, Dudu deixou de ser notícia por confusões dentro e fora de campo. Vale lembrar que, quatro anos atrás, ele frequentou as páginas policiais, detido sob acusação de ter agredido a mulher, Mallu Ohanna, e a sogra quando passava férias na sua Goiânia natal, vindo da Ucrânia, onde atuava no Dínamo de Kiev. E, apenas dois anos atrás, foi suspenso por seis meses por agredir Guilherme Ceretta, árbitro da final do Paulistão contra o Santos - pena que depois foi reduzida para seis jogos. Hoje, consta que vai bem seu casamento com a mesma Mallu, com quem tem dois filhos. Dentro de campo, faz tempo que não se envolve em uma treta.

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Há muitas coisas que fazem um jogador "bad boy" mudar de postura. Têm a ver com família, idade, terapia, ou simplesmente a percepção de que, se continuar agindo daquela maneira, sua carreira e sua vida vão para o vinagre. Me interessa olhar para o fator mais conhecido dessa mudança, e aí temos que voltar a agosto do ano passado, quando o técnico Cuca decidiu dar a Dudu a faixa de capitão, depois que Fernando Prass se machucou.

Zé Roberto, Moisés, Jean... Havia no elenco outros candidatos bem mais preparados, mais líderes que o atacante. Isso sem falar no suplente Edu Dracena. Dudu não ganhou a faixa por sua ascendência em relação ao grupo. Ganhou para tomar jeito... Meritocracia ao contrário: primeiro a recompensa, depois a tarefa. Cuca sabia de sua importância para o time e do risco que corria de perdê-lo por descaminhos. Resolveu entregar-lhe a responsabilidade. Como se dissesse: "Agora você é capitão. Faça por merecer esta faixa". Risco alto, gesto corajoso. Dudu topou o desafio.

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Desde então, seu futebol só cresceu. Boa parte do metal da taça de campeão brasileiro foi Dudu quem garimpou, com assistências, dribles, gols. O capitão foi forjando uma liderança diferente, que tem a ver menos com ascendência moral, mais com desempenho técnico, carisma, dedicação. Mesmo com Prass de volta, a faixa de capitão do melhor time do Brasil segue cobrindo os braços tatuados do ex-garoto problema. Dudu cresceu e pode também ser grande na seleção e, depois, na Europa. Bom para o futebol brasileiro. Pena que, para cada Dudu, exista uma porção de Walteres e Jobsons.

Marta agora é sueca. Azar nosso

Maurício Barros

Marta nesta semana obteve o passaporte sueco. Agora, a maior craque do futebol feminino de todos os tempos tem dupla nacionalidade: brasileira e sueca. Não é daquelas naturalizações oportunistas. Marta soma dez anos trabalhando no país escandinavo, tempo suficiente para assimilar traços da cultura, da língua e do modo de vida local. Atuou primeiro no Umea, depois no Tyreso e agora no Rosengard. "Me sinto sueca também. Estou super feliz de ter feito isso agora", disse ela ao jornal local Sydsvenskan. No Brasil, a craque jogou pelo CSA (AL), Santa Cruz (MG), Vasco e Santos, e atuou também nos Estados Unidos.

Marta, hoje com 31 anos, planeja morar em definitivo na Suécia quando se aposentar. Aí é que está o problema para nós, brasileiros. Essa alagoana, eleita cinco vezes a maior jogadora do mundo pela Fifa, tem muito a realizar fora de campo pelo desenvolvimento do futebol feminino nacional - uma modalidade que segue rastejante, com pouco investimento e visibilidade, ganhando algum holofote somente em Olimpíadas e Mundiais.

Mas como argumentar com ela para que fique? Suspeito que a Suécia já tenha esboçado um plano para aproveitá-la como dirigente, treinadora ou algo do gênero. A ONU já faz isso desde 2010, quando concedeu-lhe o título de embaixadora em cerimônia que aconteceu em... Estocolmo, capital da Suécia. A alagoana que, no início da vida e da carreira, passou maus bocados, carente de recursos, incentivo e educação, encontrou na nação escandinava, aos 18 anos, todas as oportunidades que lhe foram negadas em seu país de origem. Como não se sentir grata? Isso sem falar no abismo de qualidade de vida para ela e seus familiares.

Marta está certa, claro. Como certo esteve Diego Costa, sergipano de Lagarto que escolheu a Espanha como pátria. Me dá nos nervos lembrar que Felipão esbravejou quando o jogador tomou sua decisão, dizendo que "ele dava as costas para um sonho de milhões, que é disputar uma Copa do Mundo pela seleção brasileira no Brasil". Diego tinha uma convocação certa pela seleção espanhola, e decidiu não trocar por uma convocação incerta pelo Brasil. Básico. E ainda teve que aguentar as vaias dos brasileiros na Copa. Justo ele, que venceu na vida absolutamente sozinho, apesar de seu país.

Temo que aconteça com Marta o que aconteceu com Gustavo Kuerten: um desperdício total. O tênis viveu um boom espetacular no Brasil por conta de Guga, que teve o auxílio de Fernando Meligeni em sua fase áurea. Centenas de garotos pegaram em raquetes para praticar aquele esporte. E seguimos como nanicos tenísticos.

Marta é um patrimônio, uma força inspiradora capaz de gerar interesse pelo futebol entre as mulheres. Sua ligação com a Suécia é óbvia e bela. Mas precisamos arrumar um jeito de ela passar mais tempo aqui, principalmente depois que pendurar as chuteiras.

 

 

Então seria melhor se Tite tivesse bancado a "Falsiane"?

Maurício Barros
Levi Bianco/Brazil Photo Press/LatinCont
Tite durante clássico Corinthians x Santos em Itaquersa
Tite durante clássico Corinthians x Santos em Itaquersa

Li, vi e ouvi críticas, inclusive de muita gente que respeito e de quem gosto, sobre a comemoração de Tite no gol de Jô no Itaquerão, o da vitória do Corinthians sobre o Santos pelo Paulistão. O argumento principal é que, uma vez investido do cargo de treinador da Seleção Brasileira, Adenor deveria controlar seus sentimentos em prol da isenção. O escrete, afinal, deve estar acima das preferências clubísticas e alheio a elas. Vínculos declarados poderiam dar margem a especulações sobre eventuais privilégios do técnico da Seleção ao clube de coração  – como não convocar seus craques e desfalcar rivais em períodos decisivos de torneios, por exemplo.

Segundo essa visão, portanto, Tite deveria ter se contido nas tribunas de Itaquera. Melhor não dar margem pra fofocas. Eu discordo. Depois de tudo o que viveu, conquistando as maiores glórias do clube e de sua carreira, Tite voltava ao Itaquerão e era saudado pela torcida. A gratidão é mútua. Um filme deve certamente ter passado na cabeça do treinador quando no caminho para o estádio, na descida do carro, na caminhada pelos corredores. Alguém realmente acha que é possível um indivíduo deixar tudo isso de lado e fazer cara de paisagem quando tudo ao seu redor, amigos inclusive, lembram que ali será sempre sua casa? Não é pedir para ser enganado?

Tite não é feito de gelo, felizmente. É porque sangue dos bons corre em suas veias que atingiu o patamar de melhor treinador brasileiro. Tem competência, humildade e paixão, três características dos grandes líderes. Na hora do gol, levantou e deu um abraço efusivo em Alessandro, que era seu capitão e hoje gerencia o futebol do Corinthians. Onde está o problema? Parece até que ele saiu batendo no peito, olhando para a câmera mais próxima e gritando "Aqui não! Isso aqui é Corinthians! Chupa!!!" Francamente...

Alguns evocaram o velho ditado: "À mulher de César não basta ser honesta. Tem de parecer honesta". Pois, por essa lógica, melhor seria se Tite tivesse sido dissimulado e, movido por técnicas teatrais, mostrasse um ar blasé na hora do gol de Jô. Bancasse a Falsiane. Credo, o mundo está cheio de gente assim! Passou da hora de a gente aprender a lidar com a verdade. Pois eu prefiro corromper o ditado: "A Tite, não basta ser humano. Tem que parecer humano!"

 

Você é mesmo um torcedor ou apenas um "simpatizante"?

Maurício Barros

Não surpreende a informação da recente pesquisa Datafolha, realizada na cidade de São Paulo com pouco mais de 1.000 entrevistados, de que mais da metade não soube citar sequer um jogador atual do time para o qual declararam torcer.

À primeira vista, salta à lousa de explicações a alta rotatividade dos elencos. Não é de hoje. Jogadores que ficam três, quatro temporadas em um time são fenômenos de longevidade. A maioria passa e vai, criando pouco vínculo com o clube e a torcida.

Como era também de se esperar, os mais lembrados foram os goleiros (Cássio e Prass), que têm menos mercado que jogadores de linha e, por isso, tendem a permanecer muito mais tempo nos clubes e na memória das pessoas.

Uma análise mais profunda, entretanto, descortina uma questão que tem a ver com a definição do que é ser um torcedor. Embora chamemos "torcedor" tanto aquele que vai ao estádio com frequência quanto quem apenas tem um time "do coração", sabemos que são bichos completamente diferentes, extremos de cores com um vasto dégradée de tons intermediários.

Torcedor é o sujeito que acompanha o time para o qual torce. Esse acompanhamento varia de intensidade, mas tem um patamar mínimo, que é ver a tabela de classificação, saber quando o time joga, o nome do técnico e de vários jogadores. Um torcedor jamais vai titubear em dizer um punhado de nomes que hoje vestem a camisa de seu clube. Quem tem apenas um "time do coração", escolha influenciada ou mesmo imposta pelos familiares, mas não cultiva uma relação mínima com o clube, não pode ser considerado um torcedor, mas um "simpatizante".

Não me ponho aqui ao ridículo de tentar propor uma nova nomenclatura. Vamos seguir chamando todos de torcedores, e essas pesquisas mais rasas assim também os considerarão, como iguais, independentemente da intensidade do sentimento e da relação que tenham com o clube.

Mas é importante que não nos deixemos levar por conclusões fáceis como "o futebol já não desperta tanta paixão", "ninguém mais liga para o time como antes" e blá, blá, blá. Falácia. O futebol segue tendo uma centralidade enorme na vida de milhões de pessoas no mundo todo, capaz de pautar humores, de oxigenar relações, até de horizontalizar mundos verticalmente opostos. Quando o assunto é a rodada do fim de semana, o presidente da empresa conversa com o faxineiro do prédio no mesmo patamar. Pena que seja só no futebol.

 

Por que o sucesso de Rogério Ceni te incomoda tanto?

Maurício Barros
Discurso de Ceni em volta ao Morumbi é destaque na abertura do 'SportsCenter'

Poucos personagens do futebol brasileiro nos últimos 20 anos despertaram tanto amor e ódio quanto Rogério Ceni. A razão primeira e óbvia é que o goleiro passou a personificar o São Paulo, despertando sentimentos clássicos e opostos em tricolores e seus rivais.

Mergulhando um pouquinho mais na questão, não era difícil achar outros motivos para os adversários alimentarem sua repulsa a Ceni. O goleiro são-paulino era vaidoso, ambicioso, egocêntrico, autossuficiente, tinha dificuldades em admitir falhas e soava, por muitas vezes, arrogante.

Conforme foi galgando sucesso, os sentimentos em relação a Rogério foram se exacerbando, tanto no amor quanto no ódio. Virou um dos melhores do planeta na sua posição e, ainda por cima, passou a marcar gols em profusão. Colecionou recordes. Tornou-se, pelo currículo, o maior jogador da história do São Paulo. Mas também o é porque o são-paulino sente seu tamanho na dimensão do incômodo que Rogério desperta nos adversários. O tricolor se alimenta do fato de que Ceni é um ídolo só seu, um sujeito que os adversários sempre adoraram odiar. Se o rival atira-lhe facas, o são-paulino se joga na frente do Mito para poupar-lhe a vida.

Ceni: 'Passa sustos? Sim. Sofre gols? Sofre. Mas é uma filosofia de jogo'

Mas era preciso ir um pouco mais fundo para encontrar outras razões da repulsa a Ceni, inclusive na imprensa: sua capacidade de confrontar as críticas. Rogério, um competidor obsessivo, um fanático por tudo o que se relaciona a futebol, sempre leu, viu e ouviu muito sobre bola. E discutia, mesmo quando não tinha razão. E avançava, mesmo quando era sábio recuar. Por isso, amargou dissabores. Mas havia um certo preconceito às avessas. "Olha esse jogador de futebol, que petulante. Como pode querer debater no mesmo nível que eu, falando palavras difíceis, arriscando entrevista em espanhol, em inglês? Gosta de rock e não de pagode? Ponha-se no seu lugar!"

Plantou-se até uma suposta rixa com seu amigo Marcos, do Palmeiras, que seria o exemplo de humildade e camaradagem, em oposição ao pedante Rogério – uma comparação besta e simplista, que reduzia injustamente ambos a extremos de personalidade e comportamento. Ceni, o sujeito de nariz empinado. Marcos, o matuto que fica na praça coçando o pé. Ridículo.

Pois, agora, Rogério é treinador do São Paulo e inicia a profissão com uma disposição ao novo extremamente salutar e necessária ao futebol. Em pouco tempo, já é um expoente dessa nova geração de técnicos promissores, que inclui Roger Machado, Eduardo Baptista, Fernando Diniz, Jair Ventura, Daniel Paulista, Zé Ricardo e Fábio Carille. Torço por todos eles.

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Você aí, que quando vê Rogério fica com o coração peludo, experimente parar um pouco para ouvi-lo. Suas entrevistas como treinador são muito boas. A leitura de jogo, a proposta de rodar o elenco, a predileção pelo futebol ofensivo, a maneira como inclui seus auxiliares gringos como construtores do trabalho, o modo como cobra e defende seus comandados. Veja também as coletivas pós-jogo: ele chega com tudo marcadinho, as estatísticas, o percentual de posse de bola, coisa e tal. Não tem migué, o cara trabalha muito.

Evidentemente, há grandes problemas no time atual, principalmente a parte defensiva, curiosamente o setor mais próximo a Rogério nas suas mais de duas décadas de carreira como atleta. Ceni engatinha na nova profissão, sabe-se lá se vai se tornar um grande treinador ou será apenas mais um ex-craque a decepcionar na função, como Falcão, Maradona, Matthäus. Mas sua continuidade no futebol deveria ser saudada por todos os que amam esse esporte. A não ser que os motivos sejam, confessadamente, mesquinhos. Com sinceridade, tudo bem, porque o futebol também vive de mesquinharia.

 

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