Brasil, língua oficial: portunhol

Maurício Barros

O futebol brasileiro vive uma presença de estrangeiros como nunca antes na história. Uma enxurrada que encontra explicação óbvia na economia. Os clubes daqui têm mais dinheiro e pagam melhores salários que seus pares na América do Sul. Estendendo o mercado ao norte, só México e Estados Unidos têm condições de competir com os nossos grandes. Se sofremos com a grana alta de Europa, Japão, Oriente Médio e China, que levam nossos melhores jogadores, fazemos o mesmo com os hermanitos, tirando deles seus talentos.

A presença de gringos em grande número impacta o nosso futebol de várias maneiras. Ocupa vagas que poderiam ser de jogadores brasileiros, diminuindo a oferta de emprego para quem já é profissional e limitando ainda mais as chances de promoção para quem vem da base. Isso é um problema? Em princípio, não creio.

Como em outros setores de atividade (empresas, bancos, mídia, o que for), hoje se compete por vagas nos times de todo o planeta, e ainda na base. Se a concorrência aumentou, se expandiu também o mercado de trabalho. Hoje são também maiores as possibilidades de se jogar nos quatro cantos do mundo. Vale, portanto, em tese, a lei da competência. A reserva de mercado não soa como solução inteligente em um mundo sem fronteiras (embora os muros físicos e metafóricos pareçam querer voltar com tudo...).

Outra questão é a influência estrangeira no estilo brasileiro de se jogar bola. Há diferenças de formação dos jogadores de país para país. Mas talvez seja prudente, antes de pensar nisso, refletir sobre esse "padrão brasileiro". O estereótipo diz que jogamos com alegria, com habilidade incomum, com uma certa "irresponsabilidade artística", resultado do mix cultural, da ancestralidade, da carência que estimula o improviso. Uma corrente de pensamento que cheira a mofo.

Hoje, as categorias de base dos grandes clubes brasileiros são muito bem aparelhadas, com campos, alojamentos, equipes de apoio multidisciplinares, parceria com escolas, ajuda de custo, transporte, etc. A informação circula, pode-se absorver inovações, esquemas, táticas de quem quer que seja, da Premier League à Copa Africana de Nações.

Outras escolas mais pragmáticas também vieram ao encontro da arte. O belga Hazard sabe pedalar, o francês Giroud faz gol de escorpião, o sueco Ibrahimovic dá calcanhares soberbos, o alemão Sané serpenteia entre os zagueiros. O oposto também se dá. Quantos jogadores são tão disciplinados taticamente como o brasileiro Fernandinho? O que dizer da versatilidade de Douglas Costa, Casemiro e Marquinhos? E da fúria objetiva de Diego Costa?

Voltando aos nossos vizinhos, que povoam hoje os gramados brasileiros, há que se reconhecer a enorme evolução em seu futebol. O abismo técnico, se é que existe, hoje é muito menor. Só para ficar em um exemplo de nação que outrora era saco de pancadas, os badalados Guerra e Otero, de Palmeiras e Galo, são venezuelanos!

Todo contato gera benesses e tensões. Talvez os estrangeiros possam injetar seriedade e comprometimento entre os boleiros daqui, embora eu não saiba dizer até que ponto a falta de profissionalismo dos brasileiros também não possa ser considerada um antigo estereótipo. O que me parece certo é que nosso futebol vai cada vez mais ser fruto de uma mistura de sotaques, um portunhol que pode ser eficiente e musical.

 

A competência elegante de Dorival

Maurício Barros
Ivan Storti/Santos FC
O técnico Dorival Júnior
O técnico do Santos, Dorival Júnior, o mais longêvo da Série A nacional

"Dorival é bom. Dorival é tudo que estiver no tom". Lembro de "Buda Nagô", que traz versos como esses criados por Gilberto Gil para homenagear Caymmi (1914-2008), sempre que pinta na minha frente a imagem de seu xará, Dorival Júnior, treinador do Santos. Tirando o nome e os cabelos brancos, um não tem nada a ver com o outro. Minto. Talvez a calma de quem parece andar em paz com a vida.

Considerando os clubes, Dorival é o melhor treinador do Brasil na atualidade. Essa leva de jovens técnicos que iniciam sua jornada, como Daniel Paulista, Roger Machado, Zago, Rogério Ceni, Eduardo Baptista, Zé Ricardo e Jair Ventura, para citar os que estão em grandes clubes, deveria prestar atenção no que faz, no que estuda, na maneira como se comporta e no que diz Dorival Júnior.

O araraquarense está desde julho de 2015 no Santos e é o treinador há mais tempo no cargo entre times da Série A. No Brasil, ficar mais de um ano e meio à frente de um grande é uma eternidade, um feito e tanto. Culpa dos próprios técnicos, dos cartolas, dos jornalistas, dos torcedores, dos jogadores.

Aos 54 anos, Dorival inicia a temporada com uma base consolidada do ano passado, acrescida de bons reforços como Cléber e Bruno Henrique. Lembro que, no fim do ano, ele recusou convite do Corinthians. Creio que a identidade que desenvolveu com o alvinegro praiano foi um fator que pesou. Em 2010, já havia dirigido o Peixe de Neymar e Ganso. "Eu me sinto seguro no Santos e sou feliz por isso", disse Dorival em recente entrevista ao site globoesporte.com.

Jogadores do Santos brincam na piscina e sobra até pro fisioterapeuta do clube

Dorival entende o DNA do Santos, não tem medo de lançar os garotos e jogar pra frente. Assim foi um merecido campeão paulista e vice brasileiro em 2016. E assim inicia 2017, como mostrou a estreia contra o Linense, 6 x 2 na Vila. O time faz opção pelo ataque. E se expõe ao risco, como mostraram os gols do Linense que poderiam ter sido em maior número. Só que o Santos confia na sua força criativa e na capacidade de fazer mais que o adversário. Como é bom ver um jogo do Peixe! A história do clube pode se resumir nessa crença. Neste novo milênio, muitas das melhores notícias do futebol brasileiro têm vindo da Vila Belmiro - de Robinho e Diego a Neymar, Ganso e Gabigol. E com Renato sempre presente.

Outro fator que engrandece Dorival é sua humildade. É alguém sempre disposto a aprender. "Tive dois treinadores de basquete que me ajudaram muito taticamente", disse. E brada contra o "comentarismo" de placares. "Temos que mostrar o que houve em campo independentemente do resultado. Se vê muito futebol, mas se enxerga pouco", afirma na entrevista.

E Dorival tem seu lado ativista. Vice-presidente da Federação Brasileira dos Treinadores de Futebol (FBTF), formar novos técnicos está hoje entre suas principais preocupações. Aspirantes como Jamelli, Dodô e Narciso já estiveram estagiando com o treinador. Hoje, Elano é seu mais famoso pupilo, ocupando o cargo de auxiliar-técnico. O sonho de Dorival é transformar o Santos em uma espécie de "universidade para treinadores".

Dorival analisa 'situações pontuais' na última linha e diz que Rodrigão pode produzir mais

Venho falando há um bom tempo que falta "categoria de base" para técnico. Jogadores, seguimos forjando aos montes. Mas só formando líderes dispostos a inovar, aprender, errar e que, sobretudo, entendam os pilares históricos de identidade do futebol brasileiro, é que aproveitaremos melhor todo esse talento e voltaremos a uma posição de hegemonia no esporte mais popular do planeta.

Dorival vai este ano em busca de títulos que façam jus à sua competência. Ele é treinador para erguer taças mais pesadas que os Estaduais e a Copa do Brasil que possui. Mas, se elas não vierem, não tem problema. Continuará sendo necessário ver e ouvir Dorival.

Xingar de volta: o pleno direito do jogador suicida

No domingo, Cristiano Ronaldo, que anda às turras com a torcida do Real Madrid, foi flagrado por câmeras xingando baixinho aqueles que, nas arquibancadas do Bernabéu, estariam aos berros o destratando. E olha que o Real ganhou por 3 x 0 da Real Sociedad, com um gol e uma assistência de CR7.

Na quarta-feira, na Arena Corinthians, Marquinhos Gabriel, após marcar aos 49 do segundo tempo o gol da vitória no amistoso de pré-temporada contra a Ferroviária, gesticulou e soltou um berro contra torcedores que vaiavam o time - e o espinafravam, em particular.

Peitar a torcida é uma briga injusta e perdida. Você pode ter toda a razão do mundo, mas será condenado. Porque não há razoabilidade na paixão da arquibancada. Do contrário, não seria paixão. Nem arquibancada. Não importa se você acabou de ser reeleito melhor do mundo, se o time é líder do Espanhol ou está nas oitavas da Liga dos Campeões. Tampouco se seu clube tenta se reconstruir após perder grandes jogadores, se vive uma crise política, se tem um treinador novo, se é um amistoso preparatório onde o que menos interessa é o resultado, se está desfalcado de seu principal jogador da última temporada e de sua melhor contratação. Se as coisas não estiverem rolando, você vai tomar. Não se consegue argumentar diante da vaia, do xingamento coletivo.

A vaia não tem cara, ninguém se importa em filmar o xingador. Mas o xingado, lá dentro de campo, pobre coitado... Se fizer o mínimo gesto respondendo aos apupos, ficará marcado. CR7 perdeu contido a paciência, Marquinhos desabafou por um segundo. Duas reações absolutamente compreensíveis, humanas, legítimas. Mas que viraram imediatamente notícia, compartilhamento, meme, gif. O torcedor não esquece. Ele é o rei que jamais pode ser desafiado.

Jogadores e treinadores estão lá para entregar-lhes alívio, êxtase. Se oferecem sofrimento e decepção, não terão nenhuma compaixão. É o preço que se paga por ter todos os olhos voltados para si.

O melhor a fazer é respirar e engolir o choro. Em casa, ou no vestiário, aí sim o sujeito pode desabafar, gritar, xingar. Mesmo assim, é bom se precaver se não tem alguém filmando. 

Tite, é hora de perder!

Maurício Barros
Tite revela pedido à Fifa, pede desculpas aos não utilizados e promete: 'Não deixaremos de acompanha

São seis vitórias pelas Eliminatórias e mais uma em amistoso desde a estreia de Tite como treinador da Seleção Brasileira. Hoje, é mais fácil Donald Trump virar zabumbeiro do Trio Virgulino do que o Brasil ficar de fora da Copa da Rússia, no ano que vem. Poucas vezes na história vimos uma inversão de expectativas tão aguda em relação ao escrete em tão pouco tempo.

De um time sem coesão treinado por um técnico que naturalmente causava antipatia, o Brasil virou uma equipe compacta, orgânica e confiante, dirigida por um treinador carismático e que não precisa fazer força para ser querido pela massa - e, sim, por boa parte da mídia. É notável a mudança. Mas o Brasil precisa de testes melhores. Para o bem da seleção.

Se o time com Tite deu um salto enorme de qualidade no nível técnico e no espírito de grupo, é certo que, para enfrentar de igual para igual as grandes seleções europeias ¬- Alemanha, Holanda, Espanha, Portugal e França, principalmente -, será preciso elevar o sarrafo. As seleções sul-americanas não estão no nível de seus rivais do velho continente, nem mesmo as melhores, como a Argentina de Bauza e a Colômbia de Pekerman. As Eliminatórias Sul-americanas são, comparativamente, bem mais fáceis. Isso pode gerar uma expectativa falsa em relação ao que se pode almejar nos estádios russos.

Tite garante atenção com jogadores na China e explica opções táticas no jogo

Este ano, o Brasil enfrenta Uruguai (fora) e Paraguai (casa) em março, Equador (C) e Colômbia (F) em setembro, Bolívia (F) e Chile (C) em outubro. Há períodos para amistosos, e Tite já sinalizou que pretende enfrentar os gigantes europeus. Mas esbarra nas agendas dos rivais.

Veja os melhores momentos da vitória do Brasil sobre a Colômbia por 1 a 0

Certo mesmo são os jogos das Eliminatórias. Então, torço para que o Uruguai endureça jogando em casa. Não no velho clichê do clima de guerra, mas que ofereça ao Brasil um desafio tático e técnico. Que marque um gol na frente, por exemplo. Esse time de Tite está no ponto para ser desafiado, enfrentar dificuldades, ficar atrás no placar. Um grupo campeão se forma muito nas adversidades, mostrando poder de reação, estratégias de recuperação, estabelecimento de lideranças. E há lições que só surgem nas derrotas, ensinamentos decisivos que só tiramos nos revezes. Será que o time está tão bom mesmo? Fernandinho, Paulinho e Renato Augusto são os caras do meio e pronto? E Casemiro? Não é hora de colocar uma sombra para Daniel Alves? E a zaga, não pode melhorar? Vamos de Miranda mesmo? Enfim, questões que afugentem uma possível acomodação de todos: jogadores, comissão técnica, imprensa...

Quem sabe, em Montevidéu, não seja uma boa hora e um lindo lugar para se perder...

Van Basten precisa de ajuda

Maurício Barros

Quando Gianni Infantino, que sucedeu Joseph Blatter na presidência da Fifa, anunciou o holandês Marco Van Basten como diretor técnico da entidade, em setembro passado, o fez com entusiasmo: "Tivemos várias discussões com ele nos últimos meses e ouvimos suas opiniões sobre o jogo, tendo ciência sempre de tudo o que ele fez pelo futebol. Para mim, ficou imediatamente claro que Marco é um reforço fantástico para a Fifa", disse o suíço.

Pois as ideias de Van Basten não poderiam ser mais conflitantes com a visão de mundo da entidade nas últimas décadas, que consistiu em disseminar o futebol pelo planeta e fazer cada vez mais dinheiro, inflando torneios e estendendo o calendário - para não falar no enriquecimento nem sempre lícito de seus cardeais. Essa distância de princípios ficou clara na entrevista que o ex-atacante do Milan deu ao repórter britânico Rob Harris, da Associated Press, publicada nesta quarta-feira, 18 de Janeiro.

Van Basten reclama da alta quantidade de jogos, da intensa mercantilização do esporte, da resistência em se fazer mudanças nas regras. "Tenho falado com muitos treinadores e jogadores. Temos que promover a qualidade em vez da quantidade. Temos que defender os jogadores porque eles são obrigados a jogar muito e não conseguem mais se manter saudáveis e em forma". Para o holandês, o sistema prejudica a qualidade do espetáculo. "Os jogadores bem sucedidos podem jogar mais de 75 partidas oficiais no ano. Esse número deveria ser algo em torno de 55 e 60 jogos".

Van Basten é mais incisivo quando toca na questão dos interesses financeiros em jogo. "É tudo por dinheiro. Mas nós temos que pensar no futebol, e não no dinheiro. Para muitos clubes, a situação não é fácil. Mas há dinheiro suficiente no futebol". E cutuca os dois melhores jogadores do mundo. "Cristiano Ronaldo e Messi estão ganhando muito dinheiro. Mas se eles ganharem um pouco menos e jogarem melhor, isso será bom para o futebol".

Para o novo diretor da Fifa, o controle do futebol não poderia estar nas mãos apenas de quem tem dinheiro, clubes como Manchester City, Real Madrid e PSG, por exemplo. "No futebol, você precisa de adversários competitivos, e não pode haver apenas dois ou três clubes que controlem tudo.

Marco Van Basten também faz uma lista de mudanças nas regras que poderiam, segundo ele, tornar o futebol mais democrático e interessante. Ele propõe o fim da prorrogação pela fadiga que ela traz. E, em vez de pênaltis, sugere o shootout, espécie de pênalti dinâmico, onde o jogador sai com a bola dominada a 25 metros do gol e precisa marcar em oito segundos com a bola rolando. "Assim, é mais habilidade e menos sorte", diz.

O holandês também prega o fim do impedimento. "O futebol está parecendo o handebol, com nove ou dez jogadores na frente do gol, defendendo. É muito difícil criar alguma coisa com tão pouco espaço". Outra mudança, segundo o holandês, seria no tempo de jogo. Em vez de dois tempos, quatro quartos, como no basquete. "O treinador poderia estar com seus jogadores três vezes", diz.

Mais: Marco, que honrou o laranja de seu país natal, defende a adoção de um cartão da mesma cor, entre o vermelho e o amarelo. "Seria para um jogador ficar 10 minutos fora de campo por uma infração que não tenha sido tão grave para uma expulsão", diz. "Queremos um esporte que seja honesto, dinâmico e belo. Deveríamos fazer de tudo para ajudar neste processo", afirma Van Basten.

Marco Van Basten tem uma trajetória estupenda dentro e fora de campo. Certamente, suas ideias vão desagradar muita gente poderosa. Um cara desses precisa de apoio, visibilidade, aliados. Mas, conhecendo como as coisas funcionam na Fifa, fica a pergunta: quanto tempo ele ficará no cargo?

 

 

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