Lúcio de Castro

Lúcio de Castro

Lúcio é carioca, formado em História e Jornalismo, e hoje trabalha como repórter da ESPN Brasil e comentarista do Bate-Bola 1ª edição

Só Thomas Jefferson pode salvar o esporte brasileiro

Lúcio de Castro, blogueiro do ESPN.com.br

Quando se trata de poder, portanto, não vamos mais falar sobre a confiança nos homens, e sim impedir que eles se comportem mal pelas correntes da Constituição

Thomas Jefferson
Mais de dois séculos depois da fala de um dos principais Pais Fundadores da nação americana, chega a ser um pouco bizarro que, com tamanho inacreditável atraso, ainda invocarmos o aval dos “homens bons” ou falemos em consertar malfeitos através da confiança nos homens. Poderíamos estar, por este início, falando de uma série de temas. Mas os assuntos específicos aqui são os escândalos do vôlei nacional, as respostas da CBV/Banco do Brasil a partir do devastador relatório da CGU e por que não ir além, a gestão do esporte brasileiro, suas confederações e entidades.

Pois então vejamos algumas palavras da CBV e algumas exigências do BB para seguir com o milionário patrocínio, feitas a partir das recomendações da CGU.

De acordo com nota oficial da CBV, a entidade já estaria se adequando as recomendações da CGU para que o BB possa seguir com o patrocínio. Mas o que está em jogo obviamente não é apenas atender recomendações da CGU. Os limites das atribuições da Controladoria fazem com que ela possa apenas recomendar alguns atos. A questão então é acharmos que isso é suficiente. Pelo visto, CBV e BB acham, ao menos até que novos fatos, já em curso, ocorram, como a entrada em cena do Ministério Público e Polícia Federal.

Diz a tal nota que já estão se enquadrando nas recomendações, com:

- “auditoria externa”. Como se no tempo de Ary Graça não existisse.

- “Regulamento de contratações”. Como se não fosse estatutário antes.

- “Vetos de empresas suspeitas”. Ah, bom, então antes o estatuto permitia e agora passa a vetar. Não serão evitadas pelos mecanismos sugeridos por Thomas Jefferson em 1798 e sim porque agora a CBV se enquadrou e se adequou pela mão dos homens bons.

-“Criação de comitê de apoio”. Olha eles aí, os homens bons, aqueles que, como diz o poeta, irão “nos restituir a glória”! Agora vai!

- “Reaver judicialmente os valores de contratos apontados pela CGU como irregulares”. Incontestável. Porque não depende dos homens bons e sim das leis, da mão da justiça.

Há um trecho tão surpreendente quanto na nota da CBV, quando cita ainda que “de conhecimento de todas as ações desenvolvidas pela entidade, os técnicos José Roberto Guimarães e Bernardo Rezende manifestaram apoio incondicional aos dirigentes que tem a responsabilidade de administrar o atual momento do voleibol brasileiro”. Seria tão melhor ver os dois titãs do vôlei nacional juntos na trincheira de Thomas Jefferson e não na trincheira dessa cartolagem. Batendo o poderoso tambor de ambos em Brasília para que enfim alcancemos o dia em que as amarras do esporte brasileiro serão mais fortes do que o discurso de intenções de homens que se perpetuam no poder. Ainda há esperança. Como já falamos algumas vezes, a partilha de competências da Constituição Federal, 1988, deixou algumas lacunas no que diz respeito as responsabilidades na fiscalização de instituições ligadas ao esporte. A luta agora deve ser um freio de arrumação, em nome da máxima de Thomas Jefferson.

Na tentativa de se caracterizarem como os “homens bons” que irão mudar o curso da história e fazer essa travessia, os atuais mandatários da CBV botam em prática uma das modalidades mais em voga no Brasil atual: a tentativa de se descolar de quem é apontado por malfeito. O auge da excelência em tal modalidade de descolamento foi nas últimas eleições, quando o candidato Pezão passou uma candidatura inteira sem mencionar sua umbilical ligação com Sérgio Cabral, prejudicial para suas intenções naquele momento. No instante seguinte ao sufrágio das urnas, agradeceu ao mentor.

Algo semelhante faz a atual gestão da CBV. Por mais de duas décadas foram unha e carne com Ary Graça. Elegeram o mesmo. Participaram de sua administração. Sem grandes oposições seguiram mesmo durante a publicação das reportagens do “Dossiê Vôlei”, ao longo de 2014. Quando o barco foi naufragando e a navegação ficou insustentável, veio o descolamento. Foi no momento seguinte a publicação do relatório da CGU que se aprofundou o processo de descolamento. Apontado como “conflito” entre CBV x FIVB pelos ingênuos da imprensa de sempre.

Curioso agora reler algumas das reportagens do “Dossiê”. Voltando um pouco, chegamos em 24 de fevereiro, a primeira das reportagens. Questionados pela reportagem sobre as relações entre CBV e S4G, a empresa contratada que, de acordo com a CGU, não entregava os serviços acordados, além uma série de irregularidades, a CBV, em sua atual gestão, fez veemente defesa da empresa. Preste bem atenção: "A S4G é uma empresa reconhecida no mercado. Já trabalhou para outras modalidades e eventos esportivos, entre eles, os Jogos Mundiais Militares, quando foi vencedora de licitação, tanto para o vôlei como paraoutros esportes”.

Defesa também foi feita pelos atuais gestores, que agora se descolam do antigo gestor, a Marcos Pina, cartola que também tinha sua empresa prestadora de serviços para a CBV na intermediação de contratos, trabalho também não identificado pela CGU. “"Marcos Pina foi Superintendente Geral da CBV de 1997 a 1999, quando solicitou afastamento por iniciativa própria. Se manteve sem qualquer vínculo empregatício com a entidade até setembro de 2013, quando foi recontratado como Superintendente Geral pela nova gestão".

Ué?!!! Então uma rápida recuada nas reportagens e constatamos que os atuais gestores recontrataram Marcos Pina em setembro de 2013? E defenderam a S4G? E agora se descolam da gestão anterior! E nós aqui falando na confiança dos homens bons e em mecanismos que, em última análise, sempre dependerão de tal confiança. Quando na verdade, o dramático momento do esporte nacional implora que atletas, treinadores e cia exijam novos mecanismos de controle para entidades do esporte, principalmente as que recebem dinheiro público.

Verdade que o principal mandatário do esporte brasileiro não parece muito preocupado com tudo isso, tampouco pensa em mecanismos efetivos e constitucionais que coíbam aventureiros. Em recente entrevista, falou sobre o que preocupa de fato no momento. "Com relação aos contratos com o BB, espero que seja uma suspensão temporária porque o que preocupa é 2016. Estão em jogo quatro medalhas", afirmou Carlos Arthur Nuzman.

Seria bom também podermos ver esforços mais significativos e expressivos do BB no sentido da efetivação desses mecanismos de controle. Afinal, quem acaba de deixar-se ser enganado e ver milhões do dinheiro público por ele destinado tomar outros destinos, deveria estar mais incomodado. Para início de conversa, começar a cumprir efetivamente a Lei de Acesso à Informação, uma das melhores coisas que aconteceram nesse país mas que o BB insiste teimosamente em não cumprir, pisotear e ignorar. Este repórter fez três solicitações através da Lei de Acesso sobre documentos desta relação BB/CBV e foi ignorado pelo banco. Quando se sabe que por muitos anos o homem que cuidou da relação entre CBV e BB foi Henrique Pizzolato, atual hóspede do estado italiano, o BB deveria ser o primeiro a querer que seus atos fossem transparentes. Salvo, como eu disse em minha ida ao Congresso Nacional para tratar sobre o “Dossiê Vôlei”, salvo estarmos realmente em um país de Sargentos Rochas, aquele de Tropa de Elite (“quer rir? Tem que fazer rir”). Salvo tal fato, o BB deveria ser o primeiro a rever todos os seus mecanismos de controle e lutar para que eles se institucionalizem no esporte brasileiro de forma mais efetiva, acima dos homens. Para poder seguir patrocinando e despejando milhões de verba pública.

A imprensa obviamente não fica atrás nessa cadeia de omissões e descalabro. Por anos, botou tapetes vermelhos para malfeitores em seus estúdios e reportagens, apontando-os como gestores modelos. A promiscuidade dessas relações e suas razões e consequências serão em breve abordadas por mim. Mas toda a corrupção e sorte de malfeitos do esporte nacional é também um cadáver insepulto da imprensa brasileira. Que nem assim se refaz e segue com os mesmos tapetes vermelhos para cartolas que na verdade mereceriam estar no calor indoor do verão de Bangu. E quando de repente o jogo está 7 x 1, alguns oportunistas se apressam a apontar com veemência para os desmandos aos quais sempre foram cúmplices. E tome a pensar em soluções para o esporte brasileiro, tome a ir para a Alemanha fazer programas para ver como estão fazendo...Quando tão mais simples era cumprir o único papel que cabe para a imprensa nessa história. Qual? Ora, cumprir seu papel como imprensa e não como armazém de secos e molhados. Se a imprensa tivesse cumprido seu verdadeiro e único papel nesses anos todos, as coisas não estariam mais assim no esporte brasileiro.

Restam ainda os atletas. Aqui e ali vamos vendo gestos que eternizam homens em panteons muito maiores do que glórias olímpicas. A dignidade em combater o bom combate como o apóstolo ensinou é muito maior do que medalhas, como pensa Nuzman. Quando lá na frente olharmos para pessoas como os irmãos Endres, muito antes de suas inúmeras conquistas, estará a força dos atos dos dois, como de alguns outros. Assim como a omissão de alguns. O que virá pela frente é muito mais duro para os atletas. Verão a velha tentativa de cooptação. Cargos, propostas, o velho cala a boca. Assim como as velhas tentativas tão conhecidas de se denegrir o mensageiro para desqualificar a mensagem. Que sejam fortes para isso. Se não forem fortes agora, logo verão que alguns que acenam assustados agora estarão fechando a porta na cara deles quando estiverem recompostos. Já circula aqui e ali também a versão sobre a repreensão de técnicos e expoentes do esporte para os atos de protesto realizados pelos atletas. Que saibam que a história é assim mesmo. Repleta de homúnculos prestadores de serviços para o poder, ávidos a servir nestas horas.

NOTA: O blog segue destinado apenas para a expressão de opinião em artigos como este. Reportagens continuarão a ser publicadas no site.

28 páginas de resposta para não responder, e o silêncio de Dunga sobre a 'Operação Uruguai'

ESPN.com.br
Bruno Domingos/Mowa Press
Dunga Apresentação Técnico Seleção Brasileira CBF 22/07/2014
Dunga respondeu matéria da ESPN

Apenas um esclarecimento foi solicitado na reportagem sobre a "Operação Uruguai", envolvendo uma suposta venda do jogador Ederson: se o empréstimo que Dunga fez, em 8 de maio de 2006, para o grupo IPC, de U$ 575.000,00, referentes a 25% do passe do meia (mostrado em depósito feito pelo tetracampeão mundial para o RS Futebol Clube, detentor dos direitos), foi pago posteriormente e o treinador da seleção brasileira teve seu dinheiro de volta. Através do seu advogado, Dunga respondeu em 28 (vinte e oito) páginas, sendo 5 (cinco) de resposta, 23 (vinte e três) de documentos (incluindo aí matérias de jornais, etc.) e 26 (vinte e seis) itens de resposta.

Nas 23 (vinte e três) páginas de documentos, um não foi enviado. Exatamente o que foi citado: o que mostra o recebimento, por parte de Dunga, do valor referente ao retorno dos U$ 575.000,00 pelo IPC. Como existe o documento público do empréstimo de Dunga, era razoável se supor que nas 23 páginas de documentos da resposta do advogado estivesse o único evocado para esclarecimento.

Tampouco nas 5 (cinco) páginas de resposta e nos 26 (vinte e seis) itens de resposta, nenhum trata sobre o recebimento do empréstimo de Dunga e a respectiva comprovação. Reproduz apenas um pedaço da peça jurídica, que, por não ser sobre isso especificamente e sim sobre dano moral, não se aprofunda no tema. Está lá que "Carlos apenas fez o empréstimo para que a IPC efetuasse o pagamento. A IPC cumpriu com suas obrigações no contrato, tanto que foi dada quitação". Quitação essa assinada pelo RS Futebol Clube, já que obviamente não era mais uma questão do RS se Carlos (Dunga) recebeu ou não o equivalente aos 25%.

Mas parece legítimo ser uma questão agora para todos querer saber se o dinheiro desembolsado por Dunga referente aos 25% de um jogador foi pago ou não, no momento em que ele volta para o comando da seleção brasileira. Ou mesmo porque, dois meses depois de desembolsar o dinheiro para os 25% do jogador, assumiu (24 de julho de 2006) o mesmo comando da seleção.

É absolutamente possível que Dunga tenha recebido a parte do empréstimo. Que obviamente não representa nenhuma ilegalidade. Mas, nas 28 (vinte e oito) páginas, 5 (cinco) de resposta e 23 (vinte e três) de documentos, o único referente a essa operação poderia estar presente, para que não exista a ideia de que um treinador de seleção brasileira possa ter, no mínimo, ter pago o empréstimo por 25% de um jogador e não ter recebido, sendo assim proprietário de 25% de um jogador. Mesmo se não tiver recebido, não está se falando em ilegalidade. Mas é justo que seja público o esclarecimento de tal situação.

Não é o único empréstimo que Dunga fez envolvendo a IPC. Não é o único que não comprova. Um outro empréstimo de Dunga foi divulgado no mesmo dia da reportagem da ESPN, pela Folha de São Paulo.

De acordo com a reportagem, em cima de fatos apontados pela Receita Federal envolve a IPC, Dunga e o Jubilo Iwata. O então jogador teria emprestado dinheiro ao time do Japão , mas, de acordo com a Receita Federal, não conseguiu comprovar a transação. Alegou ainda que foi feito em dinheiro vivo. O jogador, através de sua assessoria, enviou 32 (trinta e duas páginas) de resposta, além de ameaçar processo. De acordo com o jornal, um órgão do Ministério da Fazenda vê indícios "veementes" de que a operação nunca foi feita.
Entre os indícios apontados, estão o pagamento em dinheiro vivo alegado e recibos em português feitos por uma empresa com sede em Mônaco.

Em um dos 26 (vinte e seis) itens da resposta, está grifado, como reprodução textual, que a reportagem "afirma" que "Dunga omitiu que, em 2004, foi agente de futebol".

O deslocamento e distorção do que está textualmente, palavra por palavra, da reportagem, distorce o que foi dito, palavra por palavra escolhida para que não exista distorção. Quando na verdade, a reportagem, textualmente, afirma em seu título que "documentos provam ação como agente que Dunga nega", e o texto da mesma fala em "participação na venda do meia Ederson". Ou seja, está retratada na reportagem ação pontual, no singular. Deslocar para algo mais amplo é distorcer os fatos.

Assim como é conhecida estratégia formular resposta em um cipoal de questões, um imenso volume que pode impressionar a eventuais incautos, mesmo que não responda em seus 28 (vinte e oito) páginas, sendo 5 (cinco) de resposta, 23 (vinte e três) de documentos (incluindo aí matérias de jornais, etc) e 26 (vinte e seis) itens de resposta a questão pendente: o recebimento do empréstimo pelos 25% do jogador.

Para conhecimento, vale ainda a reprodução, aqui sim literal, palavra por palavra, do pedido de resposta inicial para a primeira reportagem, através da assessoria da CBF.

Questão:

"1- Qual é a participação dele na venda dos direitos sobre o vínculo do jogador Ederson, então no RS Futebol Clube para a Image Promotion Companhy?"

Resposta de Dunga, sem que soubesse que a reportagem tinha a nota fiscal da Dunga Empreendimento, Promoções e Marketing ltda, que discrimina recebimento por "honorários profissionais pelo assessoramento, acompanhamento e indicação de investidor na aquisição de 75% dos direitos federativos e econômicos do atleta profissional Ederson Honorato Campos".

"1 - O técnico diz não ter participação alguma na venda dos direitos sobre o vínculo do referido jogador."

A resposta posterior, com 28 (vinte e oito) páginas, sendo 5 (cinco) de resposta, 23 (vinte e três) de documentos (incluindo aí matérias de jornais, etc) e 26 (vinte e seis) itens veio dois dias depois, após a publicação dos recibos. Ainda assim, sem a resposta para o esclarecimento sobre o recebimento do empréstimo. Sobre as questões formuladas e enviadas para resposta, também está a seguinte declaração: "...informo-lhe que não responderei a qualquer uma das suas perguntas formuladas, eis que meramente cerebrinas..." (nota: imaginárias, fantásticas, extravagantes).

Há algo mais grave do que a omissão da requerida resposta nas 28 (vinte e oito) páginas, sendo 5 (cinco) de resposta, 23 (vinte e três) de documentos (incluindo aí matérias de jornais, etc) e 26 (vinte e seis) itens. Muito mais grave, sobre o qual se espera ainda pronunciamento: a inacreditável omissão sobre a "Operação Uruguai".

Nem uma linha sequer menciona o fato que toma a maior parte da segunda reportagem.

Nesses anos todos de trabalho na reportagem, convivendo com casos inacreditáveis no esporte e no futebol, não me recordo de algo tão "fantástico e extravagante" como a operação que promoveu a segunda venda de Ederson. Uma história digna do realismo mágico.

Valendo-se de procuração já sem validade para representar o RS Futebol Clube, Juarez Rosa da Silva "vende" Ederson para o minúsculo Club Atletico de Las Piedras (Uruguai). A transação de venda, envolvendo Juarez Rosa, Mauro Paglioni, empresário de futebol e agente Fifa pelo lado uruguaio e o IPC, está registrada no Cartório de Notas de Las Piedras, mas a transferência nunca se realizou.

Juarez Rosa é homem de confiança de Dunga. Secretário Geral do Instituto Dunga, esteve presente no encontro de Dunga com Marin e Del Nero que selou a volta do técnico há duas semanas e levado pelo treinador as mais estritas esferas, como em 3 de maio de 2010, quando foi recebido pela então governadora Yeda Crusius no palácio do governo, às vésperas do embarque para a África do Sul. No seu acerto como técnico do Inter em 2012, Juarez foi também seu representante.

No processo de dano moral movido pelo RS Futebol Clube contra Juarez Rosa, Dunga e IPC pela negociação com o clube uruguaio, o treinador da seleção foi desligado das partes.
Com base apenas na palavra de Dunga, é possível que acredite-se ter o treinador estado à frente de toda negociação de Ederson mas que na hora da Operação Uruguai se retirou.

Mas mesmo que tenha atuado como parte em todo desenrolar do caso Ederson e tenha saído justamente quando Juarez Rosa e IPC participavam da "Operação Uruguai", teve ciência dela por ter sido notificado judicialmente. E mesmo assim, voltou a trabalhar com Juarez Rosa da Silva abertamente, como está no Diário Oficial de 3 de maio de 2010.

Não viu nada desabonador e preocupante na "Operação Uruguai".

O simples fato de trabalhar com alguém envolvido em algo tão fantástico e extravagante não é crime, supondo que "dormia" na hora da Operação Uruguai", enquanto seu braço direito participava da trama.

Como a simples participação em "recebimento por "honorários profissionais pelo assessoramento, acompanhamento e indicação de investidor" (dê a isso o nome que quiser que não agenciamento), não sendo treinador ainda, não é ilegal obviamente, como foi dito por todos em dezenas de programas ao longo da semana.

Mas, para um técnico da seleção brasileira de futebol, tamanha proximidade e vínculo com alguém que participou de operação tão inexplicada e inexplicável e não merecer uma linha nos esclarecimentos, não parece o mais prudente. Ainda mais em objeto do qual era parte até ali.

Ainda que tenha participado de toda a "Operação Ederson", saído no ato da "Operação Uruguai" e voltado a ter vínculos de trabalho com Juarez só depois da "Operação Uruguai" novamente.

PS: A publicação de nota no site no sábado foi suficiente para as questões não esclarecidas por parte de Dunga.

Mas como algumas dúvidas para esclarecimento não foram satisfeitas nas 28 (vinte e oito) páginas, sendo 5 (cinco) de resposta, 23 (vinte e três) de documentos (incluindo aí matérias de jornais, etc) e 26 (vinte e seis) itens da resposta publicada, viemos por aqui.

Por esta não ser uma questão pessoal e sim uma série de reportagens, o espaço de publicação não é o blog. Usado aqui, neste momento, não no formato das reportagens do "Dossiê 2014" por ser outra coisa e pretender tratar das questões não respondidas por Dunga.

Reportagens serão sempre publicadas no espaço do site, ficando aqui para espaços pessoais.

CBF dá um tapa na cara de todos com Gilmar Rinaldi

ESPN.com.br

"Mata mas não esculacha". Ninguém me contou mas tenho certeza de que foram as palavras de Saddam Hussein ao ser encontrado pelos americanos num buraco em Bagdá. Como um rato. O que eu jamais imaginei é que iria um dia me ver na mesma situação. O 7 x 1 da Alemanha já tinha levado pro buraco. O "mata mas não esculacha" veio ontem, 17 de julho de 2014. Já maltratado e amuado pela escumalha que dirige nosso futebol, sentei-me para ver o anúncio de quem seria o novo coordenador da seleção brasileira. Não que esperasse muito do Zé das Medalhas e Cia. Mas quando Gilmar Rinaldi adentrou sorridente no salão e se confirmou que era ele, entreguei todos os pontos. "Mata logo mas não precisa esculachar tanto assim" era a única coisa que me ocorria.

Só podia ser deboche. No momento mais dramático da história do futebol brasileiro, quando mais do que nunca as coisas tem que passar por uma revolução de ideias, homens e acima de tudo, moral, entra um empresário de futebol, até ali com sua banca virtual de produtos ainda no ar pelas ondas da internet e avisa que ele é o cara que vai tomar conta do galinheiro.

Juro por tudo que é mais sagrado: minha vontade era largar tudo, parar com tanto sofrimento, tanto tapa na cara, tanto desaforo. Mas segui vendo, e não brinco, porque nessas horas temos visões meio alucinadas, nos apegamos nas coisas mais loucas, segui vendo porque por alguns momentos tive a convicção de que a Polícia Federal ia entrar naquela sala de rapel invertido e ia acabar com toda aquela palhaçada. Quase os super homens que iriam nos restituir a glória e as estrelas da camisa e avisar: "perderam, tá todo mundo preso, vocês não podem esculachar tanto assim as pessoas, mexer com o sentimento de tanta gente, ser tão indiferente, tripudiar, ignorar que a tragédia vai crescer".

Não, não aconteceu. O circo nonsense, onde os palhaços somos nós, seguiu. Marin, Del Nero, Gilmar, Gallo...

Enquanto esperava um pé irromper aquela cena descendo uma corda, Gilmar comprovava que não mudou muito em relação ao sujeito que cedeu Adriano (com 19 anos) e Reinaldo por Vampeta (verdade que depois foi ser empresário de Adriano), aquele que achou grande negócio romper com Romário na vigência do contrato (o clube paga até hoje) e aquele que foi o gestor da carreira de Adriano. Em sua fala mais profunda, afirmou que com ele o time não usaria boné com dizeres incentivando Neymar, fora do jogo, e sim Bernard, que estava em campo. (agora pensa bem, imagina todo time da Argentina com boné "Força Enzo Pérez", o substituto de Di Maria, contundido! O que o sujeito ia pensar? Que é café com leite, que precisa disso?) Com efeito, poucas vezes vi algo tão ridículo. É esse sujeito que vai comandar a revolução.

Escolher um empresário de jogadores tem o simbólico de dar um tapa na cara de todos. E foi feito de propósito, imagino que com risadas nos bastidores. Para exibir a impunidade. Não basta ser impune. Tem que execer a impunidade. Desafiar. No tempo do "funk ostentação", queriam ostentar que não estão nem aí pra todo mundo. Sendo Gilmar, o esculacho foi maior. Empresário e como gestor, um zero à esquerda. Assim foi feito.

Depois veio o Gallo, o homem que hoje pensa o futebol brasileiro. Que subiu muito no conceito dos cartolas da CBF na Copa do Mundo. Felipão, que não pode falar nada porque vendeu seus jogadores baratinho quando falava pra jornalistas sobre problema emocional e sobre suas convicções em relação ao grupo, diz que foi vendido por Gallo. E assim vai nosso futebol, de acusação de trairagem em trairagem....

Complementando a pantomima, Gallo citou o "gap" umas 10 vezes.

O novo guru do futebol brasileiro é aquele mesmo que avisou logo ao assumir a seleção que jogador não pode usar brinco, cortar cabelo assim ou assado. É esse o pensamento do guru.

E por incrível que pareça, vi parte de nossa imprensa já tolerante com Gilmar e Gallo. Gostando e impressionada com o discurso do picolé de chuchu Gallo.

Provavelmente a mesma parte da imprensa adesista e frouxa que há um mês deslumbrava-se com os métodos de motivação e a parte táticade Felipão. E que achava normal a nossa Weggis serrana instalada na Comary, com seus 24 homens da CBF TV passeando pela privacidade de recantos sagrados da concentração, com os barracões de patrocinadores e seus clientes apinhados no lugar de trabalho, os treinos ridículos sempre escancarados.

O momento é muito mais dramático do que se pensa. As eliminatórias logo ali na esquina, com todos os adversários em iguais condições e agora sem medo da "amarelinha" lembram que, se acharam que o 7 x 1 foi o fundo do poço, a primeira não ida para um Mundial pode mudar esse conceito e a fundura do buraco.

E algo que ainda não pararam para pensar e é razoável imaginar que comece a acontecer: traumatizados por tudo que passaram, traumatizados por treinarem com técnicos com repertório atualizado em seus times e aqui encontraram gente que nem dar treino mais sabe, por terem seu prestígio arranhado por aqui se apresentarem como turma que se juntou pra pelada, tudo isso em nome de um amor por uma camisa que o entorno deles desmente, bastando apenas olhar para os urubus na carniça que só veem na seleção grande oportunidade de negócios, será que esses jogadores seguirão tendo razão para tanto bate e volta, de Londres para La Paz, de Madri para Bogotá, encarando sufoco e times mais organizados, perigando serem humilhados e ainda ficarem na história como os que não levaram o Brasil para um Mundial? Tudo isso em nome do patriotismo que tem como líderes Marin, Del Nero...Qual é a razão hoje para imaginar que é obrigação passarem por isso, depois de tudo o que passaram agora? E quem não estava, viu tudo o que ocorria? (afinal, assim como na música de Chico, onde "só Carolina não viu", no processo de treino da Copa, só nossa imprensa não viu!).

E saber que quando penarem e pagarem pela indigência tática de nossos treinadores, terá gente dizendo que são "emocionalmente frágeis", quando estiverem impiedosamente dominados, terá gente falando em suas transmissões que "e ainda tem gente que diz não existir problema emocional" e desculpando o treinador, terá gente consultando psicólogos, terá debate sobre isso. Ah, o tal do jornalismo, como faz falta...Por que passarão por tudo isso?

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Esses dias lembrei do Barcelona x Santos de 2011. O massacre na final do Mundial de Clubes. Fui rever um texto que fiz naqueles dias. Estava indignado que, diante do massacre, tivesse gente falando em "complexo de vira-latas", "psicológico", etc. Não acreditei ao reler. Era tudo tão atual, tudo tão igual a hoje. É assim a nossa história. É sempre um prazer para alguns falar que somos uns frágeis emocionais, um Zé Povinho, uma sub raça. E deixamos de ouvir o que um gênio como Pep Guardiola falou. Perdemos ali mais três anos. Perdemos ali talvez a chance de ter um gênio, o homem que mudou o futebol ao fazê-lo voltar para suas origens e responde, como entidade pelos dois últimos títulos mundias, Espanha 2010 e Alemanha 2014.

Ficamos com o esculacho da CBF. Em breve teremos gente vendo qualidade no trabalho de Gilmar e Gallo, o grande pensador do nosso futebol. A que horas a polícia vai descer de rapel invertido e acabar com isso? Vai ser esse esculacho mesmo? Peço que nos matem. Já nos mataram. Mas sem esculacho. Vale apenas lembrar junho de 2013: nem sempre as pessoas suportam tanto esculacho.

Fica o convite para o texto do pós-Barcelona x Santos. É de 18 de dezembro de 2011 mas parece que foi escrito ontem. Tá tudo lá: os Zé Bumbuns discutindo o psicológico, os desmandos da cartolagem...

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18/12/2011

Nada poderia ter sido melhor para o futebol brasileiro do que o humilhante massacre do Barcelona sobre o Santos. Não que este Barça não venha fazendo isso por aí, contra qualquer um, em qualquer lugar. Mas no caso específico desta final de Mundial, o mesmo sentimento generalizado, unânime tomou conta do país: em algum lugar do passado, em algum momento, perdemos o passo, a mão, a bola, o bolo desandou. O tiro de misericórdia para não deixar dúvidas sobre a necessidade de uma reflexão profunda veio na coletiva de Guardiola: "O que tentamos fazer é tocar a bola o mais rápido possível. Na verdade, é o que o Brasil sempre fez, segundo me contavam meus pais e meus avós". Devastador. É preciso entender e traduzir as palavras do treinador: no lugar de provocar, tripudiar, escolheu a elegância habitual quase em tom de pedido, súplica de amante do futebol para que o Brasil retome suas origens. Foi isso que Guardiola fez: um pedido de amante do futebol, que se dói com esse Brasil do cínico pragmatismo.

Coisa para bom entendedor, daqueles para quem meia palavra basta. No caso, disse com todas as letras. Provavelmente desperdiçaremos a imensa chance para a reflexão. As palavras de Mano Menezes em seu blog pós-jogo indicam isso. Falaremos dela logo abaixo. Algumas breves pitacadas em busca desse "elo perdido" do futebol brasileiro se fazem necessárias. Coisas de dentro e de fora do campo.

Em primeiro lugar é preciso entender o que aconteceu, onde e no que perdemos o tal elo. Naquele exato momento em que se trocou a posse de bola, o toque envolvente do Brasil (agora do Barcelona e da Espanha) pela correria, pela obsessão do tal contra-ataque, pela bola parada, pelos duzentos zagueiros e pelos volantes cabeçudos em detrimento dos que sabem sair pro jogo. Quando deixamos de fabricar o meias, pegando todo garoto habilidoso da base e jogando pra frente ou pra volante paradão.

Enquanto isso, lá fora, estava em gestação o futebol de posse de bola, deslocamentos, jogadores sem posição fixa, troca de posições. O que o mesmo Japão tinha visto no Flamengo de Zico, em 1981.

É preciso todo cuidado do mundo agora para que a metralhadora não aponte para todos os lados. Ao contrário do que muitos irão dizer, ainda formamos bons jogadores. Mesmo para meias ou volantes com saída de jogo. Veja o atual brasileiro sub-20. Existem algumas pistas. Adryan, talentoso meia, transformado em homem de frente, aberto num 4/2/3/1, espelhando o esquema da moda por pura macaquice, e mais um talento se esvaindo. O mesmo é verificável nas demais equipes. Algum talento, sufocado em esquemas-espelho da mediocridade do time de cima.

Um pragmatismo cínico cada dia mais incorporado em nossas vidas responde muito por isso. Em todas as esferas. No torcedor que se omite e se exime da obrigação de tentar ver se a seleção ou seu time estão jogando bem, aceitando acriticamente o discurso cínico dos "professores", que ironizam os que "querem ver espetáculo, que deveriam ir ao teatro". Nesse falso dilema entre competição x espetáculo, perdeu-se o óbvio: a questão não é dar espetáculo, é JOGAR BEM, sempre o caminho mais indicado para a vitória. Jogando bem, forçosamente o tal espetáculo vem, mais isso é outra história.

Numa zona de conforto de salários astronômicos, nivelados com os maiores treinadores da Europa, referendados por cartolas mais preocupados em outras coisas do que na responsabilidade de ver seu time JOGAR BEM, nossos professores em sua maioria inundam seus times com 32 volantes cabeçudos, 88 zagueiros, contra-ataques e bolas paradas como arma maior. É o tal pragmatismo cínico que nos assolou e vai mudando nossa história.

O mesmo pragmatismo cínico que vi após a vitória do Barcelona dito tranquilamente na televisão em uma análise. "O jogo de hoje provou que precisamos repensar os conceitos de nosso futebol". Dito por gente que há um ano atrás defendia com voracidade o pragmatismo de Dunga. Ora, das duas uma: ou você defende que se repensem conceitos depois de ver o Barça da posse de bola, da troca de passes e dos deslocamentos de jogadores sem posição fixa, ou você defendia vorazmente o modelo de Dunga, a antítese do Barcelona. Contra-ataque, bola parada, volantões fixos, meias pouco criativos...

A calma que o momento pede não pode permitir também o ressurgimento do complexo de vira-latas, ou querer ver isso aqui ou acolá. Achar que nos curvamos ainda no túnel (o que não houve), que isso ou aquilo, teorias que sempre surgem quando o Brasil perde, vindas geralmente de nossas classes dirigentes e elites, que assim, jogando a culpa na raia miúda, se exime de suas patacoadas e responsabilidades.

Estamos falando de um país capaz de uma das mais assombrosas transformações da história da humanidade: em menos de meio século, passamos de um país agrícola e subdesenvolvido para um país com assento entre as potências econômicas, o país onde o futuro chegou antes do que se esperava, a grande esperança para problemas da humanidade. Falta tanto, divisão de renda, educação, mas a transformação foi assombrosa, a ser contada um dia nos livros de história. E de mais a mais, quando Baggio olhou Romário no túnel ninguém elaborou teorias diminuindo o povo italiano. É preciso manter o foco na floresta, e não se distrair com o dedo que aponta a árvore...

A lição irá desgraçadamente se esvair. Basta ver as palavras de Mano Menezes depois do jogo em seu blog. No lugar da urgente autocrítica, o único culpado nominado foi... a crítica. "Aqui, nossos críticos ainda estão rotulando uma equipe de ofensiva ou defensiva pelo número de atacantes ou volantes que o seu técnico escala na formação inicial, e isso passa para o torcedor". Então tá, a culpa é da crítica, que tem lá as suas, mas essa não, mano velho...Técnicos, assim como seu chefe na CBF, c...e andam para a crítica. Então olhe para o espelho e vamos aproveitar o momento para ver os próprios erros.

Falando no seu chefe, alguém imagina o mandatário acordando no domingo, às 8h30, vendo o jogo, a aula do Barça e depois ligando pro Mano, trocando ideias de futebol, falando da necessidade de reformularmos as coisas, novos conceitos, ou melhor, resgatar antigos conceitos, como disse Guardiola? Podemos explicar parte de nossos problemas por aí, não é, "Professor"?

A calma que pedimos para analisar o que se passa por aqui é providencial para falarmos do Barcelona. Um senhor time de futebol. Para a história. Um privilégio ver isso acontecendo em nosso tempo. Um belo trabalho na base. Mas é só. E isso é muita coisa. Muita coisa mesmo. É que temos também a mania, hipócrita e fruto também do cinismo, de querer que coisas do futebol, do campo, dos atletas, se transformem em "exemplos para a sociedade".

E o cinismo das pessoas e muitas vezes a inocência de outras geralmente embarca nessa. Assim, acriticamente vamos aceitando idealizações sem respaldo na verdade. Ao Barcelona basta e já nos dá demais sendo um time espetacular de futebol, protagonista de uma revolução nas quatro linhas. Quando nos deixamos levar por idealizações, mundos perfeitos, exigir que homens se transformem em modelos, negligenciamos a verdade que não é tão aparente, nos deixamos levar por manipulações. O Barça, (suas categorias de base, seus princípios, seus atletas), não é modelo a ser seguido pela sociedade, como já se escuta aqui e ali, principalmente quando começam a mergulhar na busca das razões para o sucesso do time catalão.

Na presidência, está Sandro Rosell, amigo íntimo de Ricardo Teixeira, que vive em acusações mútuas também com seu antecessor. O homem que levou o patrocínio da Fundação Catar para o uniforme azul-grená. Um corpo que gerou e alimenta Sandro Rosell está longe de ser o modelo de sociedade que sonhamos. Um Barça que busca meninos talentosos na África ou América, ao arrepio da lei do artigo 19 da Fifa, um Barça com todos os pecados do mundo do futebol, e dificilmente seria diferente, sendo ele parte disso tudo. Um Barça que fez uma revolução nos campos, e isso, repito, é muita coisa. Isso diz respeito ao jogo que veneramos, e portanto a nossas vidas. Mas lá como aqui, devemos rejeitar idealizações. Digo porque começo a ver isso se repetir toda hora.

Mas isso é o menos importante aqui e agora. O importante é buscar o elo perdido, que é nossa sobrevivência como brasileiros, mestiços, cafuzos, mamelucos, capoeiras, Manés, Pelés, moleques. Aqueles que os avós do Guardiola contaram um dia ao menino. Algo que se perdeu no tal pragmatismo cínico aqui tratado, exemplificado nos nossos "professores", cartolas, imprensa acrítica, adepta do jornalismo de resultado, das arquibancadas cada dia mais gélidas e cínicas também, elitizadas sem o crioulo sem dente que botava água no feijão para levar seu amor incondicional ao estádio, substituído a cada dia pelo almofadinha que não conhece a derrota na vida. É ele que legitima esse modelo cínico da vitória a qualquer custo que vai nos matando em essência, conteúdo e forma. Até sermos cobrados por um técnico estrangeiro em coletiva.

Ps - só pra descontrair porque o assunto acima é muito sério e diz respeito a nossa sobrevivência como povo, no qual o futebol é parte fundamental de nossa identidade, uma pergunta que tenho me feito nos últimos dias e para qual ainda não arrumei resposta: quem é mais otimista ou crédulo, o sujeito que gasta uma nota preta para ver seu Santos do outro lado do mundo enfrentar o poderoso Barça, ou o sujeito que gasta uma nota preta comprando um ingresso antecipado para um show do João Gilberto?

50 anos do golpe: jornalista trabalhou para militares e denunciou colegas de redação

Lúcio de Castro, especial para o ESPN.com.br
Arquivo
Jornalistas em protesto contra a ditadura militar instaurada em golpe em 1º de abril de 1964, há 50 anos
Marcos de Castro e Fernando Gabeira na ala dos jornalistas, durante a 'Passeata dos Cem Mil', em 1968

Vítimas da brutal repressão, linhas de frente nos anos de chumbo, autores de páginas memoráveis na resistência. Papéis já bem conhecidos para jornalistas na história dos 50 anos de golpe militar. Mas o outro lado também existiu.

Sempre se soube que as redações de jornal, como qualquer outro ambiente da sociedade naquele momento, eram vigiadas e com informantes da repressão. As suspeitas de tantos da imprensa de então são agora comprovadas em longos relatórios encontrados nos arquivos recém-abertos do regime militar: um jornalista, de identidade ainda desconhecida, fazia relatórios para o Centro de Informação do Exército (CIE), diretamente para o gabinete do Ministro do Exército, dando nomes e traçando a conduta de seus colegas.

Em um dos relatórios, de 1971, denominado "Panorama da Imprensa Brasileira", o alcaguete destaca o papel de jornalistas nos postos chaves das empresas, tece comentários sobre os comandos dos meios de comunicação, explica, didaticamente e com conhecimento de causa, o funcionamento de uma redação e alerta para o domínio e a inflitração do Partido Comunista em todos os setores de um jornal.

Reprodução
'Panorama da Imprensa Brasileira', relatório de jornalista sobre seus pares para o regime militar
'Panorama da Imprensa Brasileira', relatório de jornalista sobre seus pares para o regime militar

Em seu guia, enumera em tópicos itens ensinando como a tal "máquina comunista" dava "conteúdo ideológico para matérias". Explicando didaticamente a função de um repórter, de um redator e dos chefes; relata como tal máquina agiu no dia seguinte ao AI-5. "O número do JB que saiu no dia seguinte à edição do AI-5 é um primor de competência dos profissionais da máquina. Nessa edição, a máquina atuou decisivamente, podendo mesmo ser responsável exclusiva pela edição que driblou a censura imposta naquela noite pelo governo, produzindo até matérias esportivas contra o governo e o AI-5. Até no 'Tempo' a máquina influiu: 'Tempo bastante nublado com tempestade à vista' é o que dizia o texto do 'Tempo', no alto da primeira página daquela edição do JB".

Mais influente jornal naquele momento, o Jornal do Brasil foi o alvo principal das observações do delator. As previsões do tempo relatadas por ele com indignação, são hoje consideradas peças históricas da resistência no Brasil. Pela atenção e nível de detalhamento no relatório, é possível se supor que tenha vindo de alguém do próprio Jornal do Brasil, versão que muitos de então acreditam. TV Globo, Correio da Manhã, revista O Cruzeiro, todos estão no radar. 

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O relatório em detalhes: denúncia de comunistas dentro das redações e a força do Partidão entre os jornalistas
O relatório em detalhes: denúncia de comunistas dentro das redações e a força do Partidão entre os jornalistas

Os diretores de cada veículo são analisados. Como trabalham, quem são, como agem. Quem são os autores dos editoriais, quem tem afinidade ideológica com o regime.

A inflitração de agentes da repressão ou colaboradores foi prática mais do que recorrente nos anos de chumbo. Para muitos militares de então, a "infiltração foi a razão da vitória sobre a chamada subversão", como conta o historiador Carlos Fico, em entrevista ao episódio brasileiro da série 'Memórias do Chumbo: o futebol nos tempos do Condor'.

'Memórias' cai no mundo. E a Pelé de saias do jornalismo

Lúcio de Castro, blogueiro do ESPN.com.br
'Memórias do Chumbo - O Futebol nos Tempos do Condor' conquista o Prêmio Gabriel García Marquez

Uma garrafa ao mar é uma metáfora tão simples quanto forte. Só cumpre seu papel se chegar ao destino, quando, então, deixa de ser metáfora. Obviamente deixa de ser uma garrafa ao mar e passa a ser a mensagem chegando ao receptor. Parece papo do Carlinhos Brown, mas no fundo é isso mesmo...

"Memórias do Chumbo - O Futebol nos Tempos do Condor" foi uma garrafa solta no mar. Na verdade, como toda reportagem, como tudo o que se escreve, como tudo que se fala... (E eis que Brown está de volta...!).

Alegria maior para quem envia a mensagem não pode haver do que quando a garrafa chega a um destino. Ou a vários. Em vários lugares. "Memórias" tem dado essa alegria.

Feita com a intenção de cumprir algumas das premissas de nosso ofício, de produzir memória, aquela que busca luz no passado para iluminar o presente e apontar o futuro, além da outra de tantas premissas, a de enfiar o pé na porta de quem quer esconder algo que ali permanece obscuro durante anos, a série vem chegando em portos seguros.

Há poucos dias, conquistou o Prêmio Gabriel García Marquez (GGM). O maior prêmio de jornalismo iberoamericano. O segundo maior do jornalismo mundial, atrás do Pulitzer, que no entanto, é igreja fechada e clube dos americanos. Que, no entanto, entram no GGM.

Não bastasse a chancela de Gabo, tendo como jurados gente como John Lee Anderson, Martin Caparrós, Dorrit Harazim, Javier Restrepo, tantos outros do primeiro time, maior do que a vaidade de contar tal conquista é a alegria da visibilidade que o assunto ganhou. Gente do mundo inteiro, a nata do jornalismo de mais de 30 países, tomando pé do que aconteceu naqueles anos por aqui. É a garrafa cumprindo seu papel e deixando de ser garrafa.

Para que nunca mais na história volte a acontecer. Nunca mais. E essa é uma das funções da tal garrafa. "Memórias" tem quatro capítulos. Argentina, Chile, Uruguai e Brasil. No capítulo Uruguai, Eduardo Galeano fala exatamente sobre isso:

"É muito dificil a tarefa da recuperação da memória dos anos de chumbo. Existe muito medo. Cobraram um preço altíssimo de silêncio. Esse silêncio é o preço da impunidade do poder, que calando consegue repetir a história. Porque se você não aprende com o que aconteceu, está condenado a repetir. E aí então o problema do medo. O poder militar daqueles anos conseguiu impor uma cultura do medo. A ideia de que a denúncia do que aconteceu é um convite para retornar ao passado, para que o passado volte. Que só calando se evita o retorno a esses tempos duros, ruins, essa longa noite dos nossos países. Isso é uma infame mentira! Porque na verdade só encarando a coisa como foi, recuperando a memória, você pode evitar a repetição da história. Quer dizer, a impunidade estimula o delinquente, seja um delinquente militar, civil, seja individual, seja coletivo, a impunidade é o motor maior para a repetição dos crimes."

A garrafa de "Memórias do Chumbo - O Futebol nos Tempos do Condor" segue seu percurso. Aporta em Milão para o festival de cinema. Depois em Havana, no tradicional festival, por onde passam filmes e cineastas do mundo inteiro.

Não bastasse tudo isso, proporcionou a este modesto contador de histórias dias inesquecíveis durante o Prêmio Gabriel García Marquez. Daria e ainda vai dar novos textos só sobre isso. Aqui adianto apenas parte. Dias inesquecíveis para afastar qualquer ceticismo quanto ao ofício de jornalista. Quem vive repetindo o chavão e propagando a morte do ofício não tem a menor noção ou ideia do que está se fazendo por aí. Da excelência do que está se produzindo. Do altíssimo nível. Da inquietude mundo afora. Dos novos caminhos. De quanta gente boa tem por aí. Produzindo uma das melhores eras do jornalismo. De imensas possibilidades. Claro que é mais fácil chorar e reclamar. Ou então manter os olhos provincianos virados apenas para "New York Times", "Financial" e etc. No máximo, para parecer cult, ler a "New Yorker".

No entanto, o melhor jornalismo do mundo, coisas absolutamente espetaculares e maravilhosas, estão sendo feitas no nosso nariz. México, Colômbia, El Salvador, Argentina... Qualidade, rigor, coragem, ausência de rabo preso. Tudo o que manda o manual. Muito além do manual. Desconfie com toda força de quem fala que o jornalismo acabou. Nunca pulsou tanto.

Costa Rica foi justamente esquecida acima por ser algo à parte no momento. Um ponto fora da curva. Um ponto de luz, que serve e será um dos faróis dos nossos próximos anos. E mais uma vez, aqueles que vivem olhando com olhar colonizado apenas para cima do Equador irão engasgar. Procure saber. Vá a um seminário, congresso ou prêmio e veja o que está se produzindo.

Em 2005, bati modestamente na porta do "La Nacion", Costa Rica. Queria ver de perto aquela revolução. Conhecer Giannina Segnini, Ernesto Rivera e tantos outros. Com o temor e reverência que todos devem ter diante dos mestres, mas com a imensa curiosidade que abre caminhos. Oito anos se passaram e não há a menor dúvida: algo de único acontece ali.

Como disse, voltarei ao tema. Só a ele. Se existe Pelé no jornalismo, usa saias, é uma bela morena e se chama Giannina. A protagonista dessa revolução. Que se espalha por vários países. Reconhecida no Prêmio Gabriel García Marquez em categoria única, que não julgava trabalhos específicos e sim homenageava uma trajetória, Giannina Segnini falou em seu discurso: "Este é o melhor momento para ser jornalista."

Se alguém acha que é exagero falar na Pelé de saias do jornalismo, veja o que a moça tem feito. Tivesse nascido americana, já era filme em Hollywood. E milionária. Dá de ombros. Quer apenas contar suas histórias. Criou e lidera uma equipe de investigação no "La Nacion". Incorporou tecnologias e uma equipe de programadores de dados no seu time. Bob Woodward e Carl Bernstein derrubaram um presidente. Giannina derrubou dois. Botou a igreja desnuda. Corruptos fogem do seu radar como o diabo da cruz.

Fez e faz muito mais. Compartilha suas ideias e métodos mundo afora com quem queira aprender. Harvard quer. Chama a craque para ensinar sua revolução. Compartilha também com seus vizinhos, seja quem for. Compartilha. Só os grandes fazem isso. Os falsos craques se fecham. Os pés de barro não resistem a generosidade do compartilhamento. Como uma Meca, jornalistas do mundo inteiro correm agora para a Costa Rica. Sua equipe incorporou gente do mundo inteiro. Todos querendo estar ali naquele momento, bebendo de sua fonte.

Resumir a revolução que tem sido feita na Costa Rica e no resto do continente requer espaço e tempo maior. Voltaremos. Enquanto isso, alguns jornalistas seguirão blasés por aí, do alto de suas convicções. Enchendo a boca para decretar mortes e falências. Jamais irão olhar para a revolução que acontece. Longe das páginas engomadas que leem. Que se liguem no que está se fazendo por aqui. "Antes que o dia arrebente...Antes que o dia arrebente. Louco por ti, América...".

"Memórias do Chumbo - O Futebol nos Tempos do Condor":

Lúcio de Castro
Fábio Calamari
Rosemberg Faria
Luiz Ribeiro
Alexandre Valim
Andrei Oliveira
Luís Alberto Volpe
Stela Spironelli

Veja as chamadas do especial Memórias do Chumbo - Futebol nos Tempos do Condor
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