Líder do ataque e da defesa entre os garotos: conheça a quarterback de 13 anos que impressiona Illinois

Melissa Isaacson, adaptado por Cláudia Custódio

Lances e momentos de Auburn Roberson, menina de 13 anos que é a líder do time masculino da escola

"Meu deus, é uma garota". Isso é o que um treinador adversário disse ao ver Auburn Robenson lançar para o touchdown da vitória contra seu time e tirar o capacete durante a comemoração. Sim, é uma garota, e não é como as outras. 

Ambiente ainda predominado por atletas masculinos, o futebol americano tem visto aumentar o número de mulheres praticando o esporte. Mas, na maioria das vezes, essas meninas atuam em posições de menor destaque, como kicker ou, no máximo, alguma posição de defesa em equipes de menor expressão. Esse não é o caso da menina de 13 anos da cidade de St. Charles, Illinois. 

Auburn Robenson lidera o time da Thompson Middle School tanto no ataque, quanto na defesa. Jogando de quarterback e middle linebacker, a garota é a referência dos companheiros e os levou ao título do campeonato regional no último dia 12 de outubro.  

"Eu sou a responsável por chamar todas as jogadas. Não sou mandona, nem nada, mas é bom estar no controle porque eu meio que sei exatamente o que vai acontecer e o que está acontecendo ao meu redor. Então, é mais fácil", diz Auburn, que ama Joe Montana e Tom Brady, mas se inspira no seu maior ídolo, Cam Newton, por causa do estilo de jogo. E parece que a sua inspiração fica clara em campo: 

"Robenson é fora da curva, algo como um Cam Newton. Ela consegue lançar, consegue correr, ela pode fazer de tudo! E as pessoas ficam chocadas com ela. Ela é fantástica", diz Max Medernich, seu colega de equipe. 

Melissa Isaacson para espnW
Quarto da pequena Auburn Robenson mostra a idolatria por Cam Newton
Quarto da pequena Auburn Robenson mostra a idolatria por Cam Newton

Em campo, seja nos jogos ou treinamentos, Auburn não aceita nenhum tipo de tratamento diferente por ser uma garota. Tanto que uma das vezes em que mais se irritou com seu melhor amigo, Justin Birkelbach, foi quando ele se recusou a dar um tackle forte nela.  

"Foi a primeira vez que jogamos em times diferentes, estávamos na quinta série e eu estava morrendo de medo de dar um tackle nela. Quando tive que dar, fiz bem de leve. Ela não parou de me mandar indiretas dizendo pra eu jogar melhor, jogar normalmente", diz Birkelbach, que não se preocupa mais com a amiga depois que ela o acertou em cheio durante um jogo. 

"Não me preocupo nem um pouco. Na verdade, fico mais preocupado com as pessoas que ela acerta", diz, entre risadas. 

Auburn também joga no time feminino de basquete e no masculino de beisebol. A habilidade atlética da menina é espetacular e a ajuda muito no seu esporte favorito, o futebol americano.  Luke Sharkey, outro colega de equipe, reconhece essas habilidades. "Ela tem um braço fantástico e corre muito bem. Sempre que ela sai do pocket, eu sei que vem uma primeira descida ou uma jogada importante". 

Auburn entrou para o time de futebol americano da escola depois de levantar a mão quando o técnico entrou na sala perguntando quem tinha o interesse de jogar. Brandon Petersen nunca tinha visto uma garota se voluntariar antes, mas essa não foi a única surpresa. 

"Nunca tinha acontecido isso antes. E por curiosidade, perguntei em qual posição ela queria jogar e ela respondeu 'quarterback'. Eu achei isso muito interessante", diz o treinador. Mas as preocupações com relação ao vestiário e a parte física do jogo estavam muito presentes. Isso é, até ele vê-la em ação.  

"Eu fiquei impressionado! Pensei: 'agora eu sei porque ela quer jogar de quarterback'. E quando a gente faz exercícios de tackle, ela entra com tudo em qualquer jogador. Em um dos nossos jogos, ela jogou um garoto de quase 90 kg no chão, como se ele não fosse nada", se derrete o professor.  

Peterson diz que Auburn tem ótima liderança e controla muito bem o huddle. Ele nota que ela estuda o jogo como ninguém e já reconhecia ataques e defesas antes dele as apresentar a ela. Com essa postura, os garotos do time logo viram o quanto ela era boa e o gênero nunca chegou perto de ser um problema. 

No outro time que Auburn joga, o Tri-City, do seu bairro, o treinador não sabia que ela era uma garota antes do draft. Quando descobriu, disse a sua mulher que talvez iria draftar uma menina:  

"Você não entende! Ela é, de longe, melhor que a maioria dos garotos da idade dela", disse o técnico Brian Glon para a esposa, na época.  

Ele diz que Auburn é a melhor jogadora que eles têm. Ela sabe dar tackles perfeitos, tem o melhor stiff arm da liga, uma potência muito grande e um sentimento forte de confiança, competitividade e liderança.  

Mas o tamanho da menina ainda pode ser um problema, como lembra o técnico, que se preocupa com o momento que os meninos entrarem na puberdade e começarem a crescer de maneira desproporcional a ela. 

"Agora, ela é uma das jogadoras mais rápidas e fortes do time e consegue lançar a bola umas 40, 50 jardas. Mas ela vai conseguir crescer com eles?", questiona. 

Rob Pomazak, técnico da St. Charles North, escola de ensino médio que Auburn e seus colegas de equipe devem frequentar daqui um ano, acredita que a garota tem potencial. 

"Atualmente, ela é a melhor quarterback do nível dela e eu não vejo razão para ela não jogar de quarterback como caloura aqui. Depois disso, se ela continuar como quarterback ou tivermos que mudar sua posição para running back ou qualquer outra, faremos. Desde que seja para seu melhor desempenho", diz Pomazak. 

Eles sabem que vai ficar mais difícil para ela, mas caso o físico se torne um problema por conta do crescimento dos garotos, eles mantê-la em uma posição de aprendizado no jogo, para talvez ser uma treinadora ou scout. 

"Se o futuro dela é ser treinar, vamos contribuir para isso da melhor forma possível, mas eu espero que ela jogue os quatro anos de high school, pra ser honesto. Nós não temos muita gente com a qualidade e liderança que Auburn tem. Não queremos desperdiçar isso de maneira alguma", declara Pomazak, que já mandou 13 de seus jogaores para Universidades da Divisão I. 

Para os pais, Brian e Autumn, essa possibilidade já é normal. O choque até aconteceu ao saber que a filha jogaria futebol americano de contato com os garotos aos 7 anos de idade. Enquanto a mãe achava loucura, o pai tentava confortá-la: 

"Eu sempre senti que ela estava destinada a fazer isso, foi uma decisão fácil da minha parte", diz o pai, que afirma que o talento dela é nato. Quando tinha 1 ano e seis meses, ela já tinha uma habilidade diferente para lançar: 

"Ela tinha a mira perfeita. Ela conseguia lançar em uma linha reta e mandar direto pra você!", conta Brian. 

O amor pelo esporte também foi essencial. Auburn estudava a NFL desde que se entendeu por gente, e um dos primeiros livros que ela retirou sozinha na biblioteca da escola foi "A história do Green Bay Packers". O primeiro de muitos sobre as franquias da liga. 

"Eu acabava sabendo mais da história dos times do que eu queria", revela o pai. 

Auburn ama o esporte e quer continuar a jogar no high school, na universidade e quem sabe até na NFL. Ela não descarta a possibilidade de jogar nas ligas profissionais femininas, desde que não seja no Legends Football League, já que o uniforme de lingeries e biquinis não faz muito seu estilo. 

"Se fossem uniformes normais, como na NFL, eu provavelmente iria querer jogar lá", brinca a garota.

Ela já protegeu Obama e hoje é chefe de segurança da NFL. Conheça Cathy Lanier, a mulher do momento

Tisha Thompson and Michael Sciallo*

Michael McElroy para ESPN
Cathy é a chefe de segurança da NFL
Cathy é a chefe de segurança da NFL

Diversão, churrasco, cerveja, amigos e futebol americano. A ida a qualquer jogo da NFL é, com certeza, uma experiência fantástica. Mas para que somente boas lembranças sejam levadas pelos torcedores, há uma grande equipe de especialistas trabalhando para garantir a segurança de todos dentro e fora do estádio. Quem comanda essa equipe hoje é uma experiente chefe de segurança, de 49 anos.  

Cathy Lynn Lanier é a chefe de segurança da NFL, cargo pelo qual largou a chefia da polícia de Washington, depois de 26 anos de carreira policial. Ela foi a primeira mulher a comandar um departamento de polícia norte-americano. É preciso muita personalidade para ocupar os lugares que ela escolheu, coisa que nunca faltou para Cathy. 

Natural de Maryland, cresceu em um bairro difícil e teve uma vida complicada. Quando adolescente, deu muito trabalho para a mãe.  

"Minha mãe criou três filhos. Eu fui, provavelmente, a mais difícil de educar. Teimosa, sabe? Adolescente besta. Cresci em um lugar difícil e frequentei uma escola barra pesada", revela a chefe de segurança da NFL em entrevista ao espnW.

Rebelde e revoltada, teve seu primeiro filho aos 15 anos. Fato que, provavelmente, apesar da gravidez acidental, mudou os rumos da sua vida. 

"Eu era uma mãe solteira sem o colegial completo. O cérebro de uma adolescente não funciona como o de uma pessoa normal, como um adulto. Quando meu filho nasceu, percebi com todo o senso comum que me faltava antes, que toda a vida dele dependia de mim. Se eu não quisesse pra ele a infância que tive, de morar em um bairro perigoso, ir pra escolas pesadas, eu precisaria terminar os meus estudos", diz. 

E foi o que ela fez.  

Cathy Lanier já protegeu Obama e hoje é a Chefe de Segurança da NFL

Estudou e trabalhou em dois empregos por muito tempo. O sonho de dar uma vida melhor para sua criança a moveu pela vida. Chegou à polícia depois de ler sobre uma vaga que oferecia reembolso dos estudos e não deixou a oportunidade escapar. Fazendo uma matéria por semestre, ela levaria 25 anos para se formar se não tivesse conseguido esse emprego. 

A CARREIRA NA POLÍCIA 

O começo foi duro. Já na primeira semana, enfrentou uma manifestação grande por má-conduta de uma policial e teve que se virar no confronto entre polícia e manifestantes, sem nem saber como colocar a máscara de gás.   

Depois da prova de fogo, mais problemas durante os primeiros anos. A reputação da delegacia de Washington não era boa na década de 90, e segundo Cathy, por motivos fortes: o assédio sexual era algo recorrente e institucionalizado no departamento de polícia. 

"Não era um flerte em ambiente de trabalho. Lá, você trabalhava em turnos noturnos, trabalha até tarde. Você é a única mulher no prédio. Uma vez um policial me agarrou fisicamente. Ele era um abusador crônico, sabe? Ele já tinha assediado muitas outras mulheres. Foi agressivo", lembra. 

A personalidade forte, mais uma vez, entrou em cena. Cathy e uma outra policial decidiram entrar com uma ação por assédio sexual e aceitaram um acordo de $75,000 para cada. Ouviram de muita gente que esse processo acabaria com a carreira das duas na delegacia, mas o que se viu foi bem diferente. 

Além do abusador ser afastado e depois demitido, a cultura da polícia de Washington mudou drasticamente e se tornou um lugar um pouco mais acolhedor para as mulheres. E desde então, sua carreira decolou. 

Com trabalho duro e reconhecimento, passou pela liderança da unidade de narcóticos e gangues da cidade, da Unidade de Operações Especiais, que cuidava da parte de ameaça de bombas, confrontos armados e grandes eventos públicos e depois pela Segurança Nacional e departamento antiterrorismo, até chegar ao posto de Chefe de Polícia de Washington. Tudo isso enquanto estudava e se especializava com dois mestrados em Segurança Nacional. 

Permaneceu no cargo da chefia por 10 anos e derrubou em 23% o nível de criminalidade da capital, até que resolveu sair do departamento para trabalhar para a NFL, no ano passado. 

TERRORISMO E O ESPORTE 

Alvo de diversos ataques terroristas nas últimas décadas, os Estados Unidos tentam se prevenir cada vez mais, não só de grupos extremistas, mas também de ataques domésticos que ocorrem com certa frequência dentro do seu território. Como reúnem milhares de pessoas e chamam muita atenção da mídiatodo evento esportivo tem potencial para quem quer espalhar o terror.  

Michael McElroy para a ESPN
Lanier é especialista em prevenção de eventos terroristas
Lanier é especialista em prevenção de eventos terroristas

ocorrência de atentados nesses eventos não é algo novo. Nos Jogos Olímpicos de 1972 e 1996, tivemos atletas e torcedores mortos. Na semifinal da Champions League de 2002, entre Real Madrid x Barcelona, dezenas de feridos. E nos últimos anos, percebemos uma retomada do esporte como alvo de grupos terroristas. As explosões da Maratona de Boston, dEstade de France e, mais recentemente, do ônibus do Borussia Dortmund, deixam claro que a segurança não pode mais se dar ao luxo de falhar.  

A CARREIRA NA NFL 

Com o planejamento de segurança das duas posses do Presidente Obama no currículo, ela foi escolhida por Roger Goodell para proteger os torcedores da NFL durante as partidas. Com apenas um ano no cargo, já planejou e coordenou o Super Bowl LI e o Draft 2017, dois dos maiores eventos da NFL, além de inúmeras partidas de temporada regular e playoffs. 

A coordenação do Super Bowl é, com certeza, a que mais exige atenção. Os maiores nomes da Segurança Nacional e da polícia local se unem para garantir um evento tranquilo fora de campo. São mais de 40 agências de segurança, desde o FBI até agências privadas, e a nomeação de Cathy foi bastante comemorada por todos, apesar de sempre ser a única mulher nas mesas de reunião. 

Michael McElroy para a ESPN
Lanier é responsável tanto pela segurança nos jogos quanto pelas investigações dentro da NFL
Lanier é responsável tanto pela segurança nos jogos quanto pelas investigações dentro da NFL

"Já era hora da NFL contratar algum nome grande entre chefes de polícia, que conheça outro lado da moeda. Que saiba os desafios que as polícias locais enfrentam.", diz o chefe do departamento de polícia de Houston, Art Acevedocom quem ela trabalhou durante o Super Bowl. "Relacionamento é uma parte muito importante no mundo dos negócios, mas especialmente em planejamento de segurança"- continua Acevedo - "Se eu tivesse qualquer problema, eu ligava e ela resolvia. A NFL foi inteligente de trazer alguém que conhece bem a maioria dos chefes de polícia do país". 

Antenada a todo e qualquer ataque terrorista que ocorre no mundo, Cathy os usa para aprender as diferentes formas que um terrorista pensa e, assim, consegue bolar planos de prevenção cada vez mais completos, como por exemplo, camadas de cercas ao redor do estádio para que nenhum motorista consiga jogar seu carro sobre a multidão, já que esse tipo de ataque tem se tornado cada vez mais comum. Além disso, tecnologia de rastreamento facial, escaneamento de veículos, veto a objetos e diversos outros métodos são aplicados com rigor. 

Além da segurança dos fãs da NFL, ela também é responsável por investigar qualquer violação de conduta por parte de jogadores e times, como o caso atual de Ezekiel Elliott e a investigação sobre violência doméstica que tem provocado uma verdadeira novela entre a Associação dos Jogadores na justiça comum e a NFL. Mas perguntada sobre o caso, Cathy não quis comentar sobre a investigação, apenas sobre a situação toda: 

"Eles ficam em um outro patamar, como deveriam mesmo. Então quando existe má conduta, de qualquer tipo, é um impacto enorme", conta para o espnW. 

RESPEITO EM UM AMBIENTE MASCULINO

Cathy Lanier sabe melhor do que ninguém que ser mulher em um ambiente dominado por homens é algo desafiador. Mas ela dá a receita para conseguir o respeito que hoje ela tem de todos: "Você não pode deixar as pessoas tirarem vantagem de você. Eu não deixo ninguém me desrespeitar". 

Michael McElroy para a ESPN
Cathy Lanier foi a primeira mulher a chefiar um departamento de polícia nos Estados Unidos
Cathy Lanier foi a primeira mulher a chefiar um departamento de polícia nos Estados Unidos

E não é só isso. Acima do gênero, ou talvez até de maneira mais intensa por ser mulher, trabalho sério e duro é algo essencial.  

"A chave para mim foi que eu cheguei para trabalhar todo dia e fiz bem o meu trabalho. Se você é trabalhadora, as pessoas querem trabalhar com você. Se você não é, elas não querem trabalhar com você. Então, respeito é algo que se desenvolve desta maneira. As pessoas me respeitam por que veem que eu venho trabalhar e que eu faço o meu melhor todos os dias", declara. 

FAMÍLIA 

Toda a carreira de Cathy Lanier se desenvolveu pelo desejo de dar uma vida melhor para família. Então, como o filho está? Muito bem obrigada! Com mais de 30 anos e já formado, teve uma vida bem distante da realidade que ela própria enfrentou. Agora, a preocupação dela é cuidar da mãe. 

"Assim que meu filho foi embora, eu sabia que ia sentir aquele vazio. Mas minha mãe logo se mudou lá para casa. Eu não trocaria o tempo que passo cuidando da minha mãe por nada no mundo. Por nada", revela Cathy, que apensar de trabalhar viajando todo o país, volta para casa toda semana para poder preparar tudo para sua mãe.  

Michael McElroy para a ESPN
O filho de Lanier é o principal responsável pela carreira de sucesso da mãe
O filho de Lanier é o principal responsável pela carreira de sucesso da mãe

Ela sempre prepara e congela as refeições para que sua mãe possa comer durante o tempo que ela não está. Mesmo quando o trabalho é fora do país, como nos jogos em Londres, ela se desdobra para voltar para casa. Da última vez que foi para a Inglaterra, passou 6 dias por lá, voltou para casa nos dois dias de folga para ver a mãe, voou novamente para Londres por seis dias e retornou para casa logo depois, antes de seguir para o próximo destino que seu trabalho exigiu. 

O prazer da vida de sua mãe é vê-la na TV. Antes nos noticiários policiais e agora pela NFL. Ela até assistiu o Combine 2017 só pela chance de vê-la nas telinhas! Para o filho, ter a mãe trabalhando na NFL é um sonho, assim como muita gente pensa, coisa que Cathy só começa a entender agora. 

"Você pensaria que ser a chefe de polícia da capital do seu país seria um trabalho legal, né? Futebol Americano é algo impressionante. Não acredito no quanto as pessoas se...." - ela procura uma palavra para explicar - "Eu sou uma pessoa muito mais importante agora", brinca a chefe de segurança da NFL. 

Esse é o máximo que vamos saber dos dois maiores tesouros da vida de Cathy Lanier. Ela não permite que os dois sejam entrevistados e sequer revela os nomes. Mas a gente pode entender a proteção toda com sua família, considerando tudo o que Cathy já presenciou em sua vida e trabalho.


*Reportagem de Tisha Thompson and Michael Sciallo, do espnW, e edição de Cláudia Custódio, do espnW Brasil.

Ela já jogou contra homens e foi a primeira mulher a treinar um time da NFL. Conheça a história de amor de Jen Welter com o futebol americano

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Jen Welter treinando o time Texas Revolution, da liga profissional de Indoor Football
Jen Welter treinando o time Texas Revolution, da liga profissional de Indoor Football

Uma forte corrente elétrica invadiu seus pés assim que que eles tocaram a arquibancada vibrante. O corpo arrepiado, os olhos cerrados, tentando se acostumar com as luzes. Quantas luzes! É sexta-feira. A pequena Jennifer havia esperado a semana toda por este momento. O clima agitado da geralmente pacata cidade de Vero Beach, na Flórida, já anunciava: era sexta-feira de futebol americano!

Assim começou a linda história de Jen Welter com o futebol americano. Cresceu com o esporte, como se não existisse outra forma possível de viver. O Vero Beach Football Indians, time da única escola local, era a grande sensação. Acompanhá-los era um estilo de vida.

“Desde muito pequena, eu sou apaixonada. Eu ia assistir aos jogos e era o maior evento, a cidade parava. O estádio parecia tão grande! Os caras eram como super-heróis para mim. Eu sempre quis jogar, mesmo não tendo oportunidade nenhuma na época”, contou Jen Welter ao Linha Ofensiva.

A tal oportunidade ainda demoraria para se apresentar, mas sua própria vida se desenvolveu como um jogo de futebol americano: com muitos tackles, diferentes rotas e cortes de direção.

A INFÂNCIA E OS ESPORTES

Quando criança, jogava tênis. Foi federada na Flórida e viajava muito para competir. Chegou a pensar que seu futuro estaria nas quadras, com uma raquete na mão, até que um treinador disse a ela que lhe faltava altura e força para que pudesse ser profissional.

Passou, então, a praticar esportes coletivos. Jogou futebol durante o high school e foi capitã do time por dois anos seguidos. Sonhava com uma bolsa para jogar na Universidade de Stanford, mas nunca recebeu a oferta. Então, trocou a bola redonda pela sua primeira oval, a de rugby, esporte que jogou durante toda a faculdade. Mas faltava alguma coisa, talvez uma costura na bola que carregava em suas mãos.

FINALMENTE, DENTRO DE CAMPO

Depois que se formou, Jen finalmente conheceu a Women’s Football Alliance, liga feminina de futebol americano fullpad (jogo com contato) dos Estados Unidos. Agora, ela vestia uma jersey com o nome WELTER estampado nas costas. Desde então, foram 14 anos jogando. Ganhou muitos títulos, prêmios e uma nova e enorme família. Passou a colecionar recordes de pioneirismo.

No dia 15 de fevereiro de 2014, se tornou a primeira running back mulher a jogar em uma liga profissional masculina, pelo Texas Revolution. Mas o início dessa nova etapa não foi nada fácil. Welter precisou, mais uma vez, provar que era capaz.

“Tinham muitos desafios, sabe? A parte física era um desafio todos os dias. Eu dei uma entrevista para o Michael Strahan esses dias e foi muito engraçado porque ele falava: ‘Jen, você jogou contra homens, seria como eu te dar tackles todos os dias. Como você fazia isso? ’. E eu não tinha outra resposta além de ‘eu reajo bem’”, nos contou Jen Welter.

Como um cheque de $ 12 mudou a vida de Jen Welter, primeira mulher a treinar um time da NFL

Mas o físico, apesar de ser um grande desafio, não foi o mais complicado.

“O mais difícil foi me tornar parte do time. Demonstrar para os caras que eu estava ali pelos motivos certos. E não só que eu pertencia ao time, mas que a gente poderia se dar bem. Para mim, esse foi o maior desafio e também o que fez tudo ser tão especial”, diz.

Depois de jogar o ano todo, Jen foi nomeada treinadora de linebackers e speacial teams da equipe, se tornando a primeira mulher a treinar um time masculino em uma liga profissional.

A ENTRADA NA NFL

O jogo mudou sua vida. Ou melhor, ela mudou toda a sua vida para se dedicar ao jogo. Conseguiu conciliar os treinamentos e campeonatos com as especializações: mestrado em psicologia do esporte e doutorado em psicologia. A agora Dra. Jen Welter alcançaria, então, um posto que jamais sequer sonhou.

Depois de uma conversa do técnico principal do Revolution com o técnico da NFL Bruce Arians, do Arizona Cardinals, Welter foi chamada para integrar a equipe de treinadores-assistentes da pré-temporada de 2015, sendo a responsável pelos inside linebackers. A assinatura do contrato a tornou a primeira mulher a treinar um time da NFL na história da liga.

Ao contrário do que se possa imaginar, ser mulher não foi um problema dentro do centro de treinamento.

“Não tinha nada relacionado ao gênero, além do fato de ser algo totalmente novo. Tinham muitas dúvidas do lado de fora sobre se os jogadores obedeceriam uma mulher. E uma das melhores coisas que resultaram dessa situação é que a resposta foi um enorme sim. Os caras foram fenomenais e acho que era até um ponto de orgulho para eles. Eram muito conscientes de que aquilo era a história sendo feita e ficavam orgulhosos de fazer parte dela. Foi muito especial."

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Jen Welter participou dos jogos de pré-temporada dos Cardinals
Jen Welter participou dos jogos de pré-temporada dos Cardinals

Depois de sair da NFL, Welter entendeu a proporção da sua conquista e se orgulha de ter aberto as portas da liga para que outras mulheres tivessem a oportunidade.

“Me perguntaram, esses dias, se algum dia a gente verá uma mulher ser treinadora principal na NFL. Claro que vamos, eventualmente. Mas é uma questão de tempo. Leva muito tempo para um homem ou mulher se desenvolver e se tornar um bom treinador de futebol e se tornar o técnico principal. Então, eu acho que a oportunidade está ali e a porta está aberta. Depende de cada mulher que entrar lá fazer o seu melhor e crescer como pessoa e como profissional e agarrar cada oportunidade que aparecer."

Ela entende que o principal fator que dificulta esse objetivo para as treinadoras é o atraso para entrar em contato com o futebol americano.

“A complexidade do jogo é um desafio que todo treinador tem, seja ele homem ou mulher. O problema para as mulheres, usando meu exemplo, é que comecei a jogar depois dos meus 22 anos, sabe? Enquanto os meninos começam a jogar com cinco, seis anos de idade. É um jogo complicado que requer anos de estudo para qualquer um, mas se você entra no jogo mais tarde que os outros, tem mais tempo de aprendizado pela frente”, explica.

Welter ainda identifica algumas oportunidades que não foram exploradas por nenhuma mulher e que são essenciais para o cargo de técnico principal: observação e recrutamento de jogadores.

“Para conseguir os melhores talentos, precisamos criar de uma rede extensa de contatos na qual podemos achar os jogadores. E precisamos saber avaliá-los pela perspectiva do draft. Isso é algo que as mulheres no nosso esporte ainda não fizeram ou tiveram que fazer”, diz a doutora.

MULHERES JOGANDO NA NFL

E quando o assunto é sobre mulheres jogarem na NFL, não pensa diferente. Para ela, isso também é uma questão de tempo.

“Não tem motivo algum, especialmente com as mulheres começando a jogar cada vez mais cedo, para que a gente não veja isso acontecer. Mas é tem que ser por mérito. A Becca (Longo) tem uma ótima oportunidade agora de liderar isso, por estar no sistema universitário e ter acesso aos melhores programas de treinamento e exercícios que estão disponíveis para que ela tenha sucesso. Só que vai levar um tempo."

LEVANDO O FUTEBOL AMERICANO PARA MULHERES DO MUNDO INTEIRO

Além de publicar o livro “Play Big: lições sobre viver sem limites da primeira mulher a treinar um time da NFL”, em que compartilha sua experiência para que possa inspirar cada vez mais pessoas, Jen Welter vive com uma agenda cheia de projetos. Desde 2015, ela se dedica a ensinar o futebol americano para meninas e mulheres do mundo inteiro. E, por enquanto, não tem planos de voltar para a NFL, mas confessa que se uma oportunidade surgisse seria muito difícil não se entregar.

Ano passado, rodou os Estados Unidos com o Camp GrrriDiron Girls, para meninas de 6 a 18 anos. Foram 12 cidades diferentes que reuniram milhares de jogadoras interessadas em aprender com sua maior referência.

Também criou o “A day in the NFL” (Um dia na NFL), no qual leva mulheres para o complexo de um time da liga para vivenciar uma rotina comum dos atletas. Ela comanda treinamentos, mostra filmes de jogadas, passa pelo playbook, entre outras atividades.

Jen ainda se juntou a Snoop Dog, em um projeto que ensina o futebol americano para crianças portadoras de todos os tipos de necessidades especiais.

Fora dos EUA, já comandou treinamentos no Canadá e na Austrália, onde passou meses treinando o primeiro time nacional feminino de futebol americano do país, para ajudá-las na preparação para uma competição internacional.

“O que eu vou fazer em seguida ainda é um trabalho de progresso”.


PARA O BRASIL, TALVEZ?

Durante a conversa com o Linha Ofensiva, Jen Welter explicou um pouco mais sobre as dificuldades que as jogadoras internacionais enfrentam. A partir de sua própria experiência treinando mulheres fora dos Estados Unidos, disse que a falta de imersão na cultura do jogo, o que acontece com todos os americanos desde criança, dificulta a prática dos fundamentos do jogo, por conta de sua complexidade.

“Vocês estão tentando ensinar a vocês mesmos o futebol americano com o que conseguem achar na internet. É um bom começo, mas o problema disso é a integração, ver como todos os elementos se juntam em uma coisa só!.”

Quando a convidei para vir ao Brasil, ela afirmou que adoraria essa oportunidade. Mas enquanto Welter não está em terras tupiniquins, ela deixou suas impressões e dicas de treinamento para nós, brasileiras! Quer saber tudo? Assiste aí!

Jen Welter conta sua experiência ensinando futebol americano fora dos Estados Unidos

E para fechar com chave de ouro, ela ainda mandou um recadinho para todas as leitoras do nosso blog:

Jen Welter manda recado para leitoras do Linha Ofensiva

Tackles e bloqueios entre os homens: primeira mulher selecionada para um All-Star Game joga na linha ofensiva

Linha Ofensiva

Reprodução Twitter - Marin Austin
Eriana Pula foi a primeira mulher a ser selecionada para um jogo All-Star
Eriana Pula foi a primeira mulher a ser selecionada para um jogo All-Star

Não existe muita coisa que Eriana Pula não consiga fazer. No  ataque do time de futebol americano da Centennial High School, ela era um dos guards. Na de defesa, um dos tackles. Na sala de aula, sempre teve as melhores notas e ainda sobrava tempo para ser a presidente do corpo estudantil da escola.

 Esse é o perfil da primeira mulher a ser chamada para jogar um All-Star das escolas da Califórnia. Hoje, Pula é jogadora da linha ofensiva do La Verne Leopards, universidade da Divisão III da NCAA.

Com 1,77m e 113kg, Pula foi escolhida para a edição 2017 do jogo all-star por avaliadores que não estavam cientes do seu gênero, apenas de seus lances, números e notas. A posição principal da jogadora é a de guard da linha ofensiva, onde atua pelos dois lados.

“Eu não sabia que ela era uma garota quando a selecionei”, disse Kevin Steele, um dos responsáveis por avaliar os atletas all-star da Califórnia. “Eu não sabia, nem vi isso. Ela é uma ótima jogadora”.

E não só os avaliadores deixaram esse detalhe escapar. Muitos oponentes da Compton Centennial só percebiam que estavam sendo bloqueados por uma garota no fim de jogo.

“Nossa, você é um monstro”, disse um adversário de Pula, ao perceber que o jogador que o anulou o jogo todo era, na verdade, uma jogadora.

LINHA OFENSIVA - COMO FUNCIONA?

De modo geral, o papel principal dos jogadores de linha do ataque é proteger e abrir espaço para que as grandes estrelas da equipe consigam jogar, ou seja, os quarterbacks, running backs e, por tabela, wide receivers. Sem uma linha sólida, o risco de lesões e a dificuldade do jogo corrido aumentam muito, colocando a pressão em um jogo aéreo que precisa ser extremamente rápido e habilidoso para compensar a falta de proteção.

Reprodução Twitter
Eriana Pula, alinhada com a jersey  #55
Eriana Pula, alinhada com a jersey #55

A linha ofensiva é composta por cinco jogadores. O center, líder do setor, é o jogador que fica no meio, responsável por iniciar todas as jogadas (ele que solta o snap para o QB, ou seja, joga a bola para trás, por baixo de suas pernas) e fazer a leitura e ajuste da caixa (número e posicionamento de bloqueadores em comparação aos defensores).  A partir do momento que o center faz o snap, ele se torna um dos bloqueadores.

De cada lado do center, se posicionam os guards, e é aqui que a Eriana Pula joga. São jogadores altos e fortes, responsáveis por enfrentar os defensores mais potentes do time adversário. Eles precisam mover os seus oponentes de modo que buracos se abram na linha de defesa e o seu corredor consiga passar, além de impedir que seus oponentes cheguem ao quarterback em jogadas de passe. Atuar do lado esquerdo ou direito não faz tanta diferença para o jogador, sendo mais fácil improvisar os guards de um time em diferentes lados quando eles se machucam.

Do lado de cada guard, ficam os tackles, e aqui o lado em que se atua faz muita diferença. No geral, são jogadores grandes, com braços longos e passadas largas, além de muito fortes. Eles protegem o quarterback das investidas dos defensores mais atléticos do time adversário, os caras que tentam passar pelas extremidades da linha para conseguir um sack (derrubar o QB). Por isso, precisam ser jogadores ágeis, apesar do seu tamanho, já que cobrem um espaço maior do campo.

Geralmente quando uma linha ofensiva tem um grande problema, é com o left tackle (tackle esquerdo). Ele é responsável por proteger o lado cego do quarterback, ou seja, o lado para o qual ele vira as costas na hora do lançamento (se ele for destro). Assim, quando um jogador de defesa chega pela esquerda do seu QB, ele tem menos chances de conseguir se livrar do sack. Por isso, os left takcles são muito mais valorizados (e consequentemente mais cobrados) que os right tackles (tackles da direita).

ESCOLAS DO SUL DA CALIFÓRNIA - BERÇO DE GRANDES JOGADORES

Apesar de só ter começado a jogar futebol americano há dois anos, Eriana Pula foi selecionada no rol dos melhores atletas justamente em uma das regiões mais competitivas do futebol americano dos Estados Unidos, tanto no nível escolar quanto universitário.

Dessa região saíram nomes como John Elway, Ronnie Lott, Marcus Allen, Clay Matthews, Richard Sherman, Carson Palmer e Alex Smith. Só no ano de 2017, as escolas da Califórnia tiveram 253 jogadores selecionados durante o draft da NFL.

Eu tenho muita sorte de ter essa oportunidade de jogar contra os melhores e um monte de garotos

Eriana Pula

Mas sorte pouco tem relação com a conquista da jogadora. Quando a filha lhe contou que queria jogar futebol americano com os meninos, Emo Pula se agarrou em uma certeza para driblar o aperto no coração:

“Claro que eu me preocupada, mas também sabia que com a habilidade e atletismo dela, ia ficar tudo bem”, desabafa a mãe, que é professora na Centennial High School.

Ela estava certa. Eriana Pula superou a desconfiança inicial do time do colégio, que nunca havia contado com uma garota antes.

Muitos duvidaram de mim, mas quando viram que eu conseguia jogar eles até pediam para o treinador me colocar

Eriana Pula


Poucas semanas depois do jogo all-star, Pula entrou para a Universidade de La Verne, na Califórnia. Mais uma vez, provou o seu valor: participou das seletivas para o time de futebol americano e conseguir um lugar na equipe.  Apesar de ainda não ter feito sua estreia nos três primeiros jogos dos Leopards, ela espera surgir a oportunidade para que possa mostrar suas habilidade e, quem sabe, se destacar na Divisão III do College Football!

E você, teria coragem de encarar essa guard?

Sem medo de pancadas e field goal de 45 jardas: conheça a primeira mulher a receber uma bolsa para jogar futebol americano

AAron Ontiveroz for ESPN
Becca Longo é a primeira mulher a receber uma bolsa da NCAA
Becca Longo é a primeira mulher a receber uma bolsa da NCAA

Se você ainda não ouviu falar dela, não deve demorar. Rebecca Longo, ou somente Becca Longo, entrou para a história em março deste ano ao se tornar a primeira mulher a receber uma bolsa de estudos de uma universidade da NCAA para jogar futebol americano. Isso mesmo, ela foi recrutada para jogar entre os homens do college football 

"Meu queixo caiu, não acreditei! Eu só lembro de estar sentada lá e o treinador dizer que eu era a primeira garota a fazer isso", conta. 

Além de Becca, existem documentos que mostram que cerca de 12 mulheres já atingiram este feito, mas nenhuma havia recebido uma bolsa do programa antes. 

Nascida em Chandler, no Arizona, Longo começou a jogar futebol americano ainda criança, junto com o irmão mais velho, Bobby. A grande inspiração veio, justamente, de uma companheira do time dele: Heidi Garret era a kicker da equipe e a fez perceber que seu sonho seria possível.  

Mas Becca só começou a competir no esporte no segundo ano do colegial, na Queen Creek HighAo passar pelo campo de futebol americano, percebeu que não tinha nenhuma mulher entre os jogadores. Lembrou de Heidi e pensou, por que não? Ela sabia que tinha um bom chute, pelos anos que praticou soccer (nosso futebol). No ano seguinte, avisou o diretor da atlética que participaria dos testes para o time de futebol americano e recebeu uma risada como resposta. 

Ele duvidou de mim. E ficou espantado quando eu entrei para o time!

Becca Longo, kicker dos Grizzlies
 

No seu primeiro ano como jogadora, foi treinada por Alex Zendejas, que comandou sete dos melhores kickers de Arizona e tem quatro familiares que já foram kickers da NFL. Para ele, Becca tem um talento natural. 

"Eu fiquei impressionado com a potência que Becca tem nas pernas. Senti que algo muito grande aconteceria se ela mantivesse o ritmo", confessa Zendejas. 

No ano seguinte, transferiu-se para a Basha High School e teve que ficar de fora dos jogos por conta das regras de transferência e de uma lesão nas costas. Lesão essa que quase a impediu de continuar a praticar esportes. 

"Os médicos me disseram que eu nunca mais poderia jogar, mas eu usei isso como motivação para provar que eles estavam errados. Amo demais os esportes que pratico e dediquei muito tempo, dinheiro e esforço para simplesmente desistir", disse em entrevista à ABC News. 

Carlos Salcedo/Special to the Arizona Re
Becca Longo converteu 35 de 38 pontos-extra pelos Basha Bears
Becca Longo converteu 35 de 38 pontos-extra pelos Basha Bears

É justamente pela persistência e dedicação que coloca em tudo o que faz que Becca ficou conhecida. Nos treinamentos da pré-temporada de 2016, impressionou o treinador Gerald Todd ao acertar um field goal de 42 jardas e ganhou a vaga de titular

No último ano do colégio, foram 35 de 38 chutes de ponto-extra convertidos, além do único field goal de 30 jardas pelos Bears (time de Basha High School). Becca contou à ESPN que se sente à vontade em chutar field goals a partir das 45 jardas, mas seu time geralmente tentava a quarta descida já que contava com um dos melhores quarterbacks da competição. 

Em uma cerimônia da escola, o treinador Todd conta que quando decidiu que a vaga seria de Longo, foi buscar o conselho de seu irmão mais velho, que em 2003 treinou a primeira mulher a pontuar em um jogo de college football da Divisão I-A, Katie Hnida.  

"Eu perguntei como se treinava uma garota. Ele me respondeu que não sabe como se treina 'uma garota', só sabe treinar jogadores de futebol americano",  diz o treinador, que percebeu que o gênero não a impedia de ser tão boa quanto qualquer outro kicker. 

Becca Longo é a primeira mulher a receber uma bolsa da NCAA


A força de vontade e competitividade de Becca é algo que qualquer treinador deseja para um membro de seu time. Assim como o ex-quarterback da NFL, Timm Rosenbach, que hoje é técnico do Adams State Grizzlies, nova casa da atleta, que vai disputar a Divisão II da NCAA.

Eu a vejo como uma atleta que mereceu.Foicomo recrutar qualquer outro jogador!Não tenho nenhuma dúvida de que ela será competitiva. Ela tem uma perna forte e uma mira muito precisa

Timm Rosenbach, ex-QB dos Cardinals


Becca só decidiu que queria jogar futebol americano na faculdade no final do seu último ano de escola. Foi quando entrou em contato com a Adams State para enviar seus vídeos e manifestar interesse. Depois do fim do campeonato, a universidade a procurou. 

"O coordenador ofensivo Josh Blankenship disse que queria que eu fosse visitá-los. Eu me apaixonei pelo lugar", disse Becca Longo à ESPN. 

Ela participou das seletivas da universidade e terminou com 23 de 25 tentativas de chute. Um desempenho sensacional para qualquer um, menos para ela, que se irritou muito com os dois chutes perdidos. 

"Ela coloca mais pressão em si mesma do que nós poderíamos um dia colocar", disse Ross Brunelle, coordenador do special teams dos Grizzlies. 

AAron Ontiveroz for ESPN
Becca Longo treinando com os companheiros de Grizzlies
Becca Longo treinando com os companheiros de Grizzlies

Becca Longo disputa a vaga de kicker com Montana Gomez, titular da equipe. Nesta temporada, o time já jogou quatro jogos, sendo duas vitórias e duas derrotas. Mas a caloura ainda não fez sua estreia. Enquanto isso, se dedica aos treinos e, segundo o seu atual quarterback, trabalho pesado não é um problema para a atleta. 

"Ela treina como todos nós. Ela não está aqui só para fazer parte do time, ela está aqui para jogar", disse Jorge Hernandez, quarterback veterano dos Grizzlies 

A pergunta que sempre surge quando Becca é entrevistada é a possibilidade de levar um tackle. Mas ela não tem medo, confia nos bloqueios dos seus companheiros, os quais chama de irmãos.

"Em todos os times que joguei, eu formei grandes famílias. Confio neles", conta.  

AAron Ontiveroz for ESPN
Becca Longo treina pesado na musculação
Becca Longo treina pesado na musculação

E se o tackle vier, ela encara! Quando jogava no high school, foi atingida por um oponente que escapou da linha pela direita, depois de um chute de ponto-extra. Becca o empurrou de volta e lembra que ele ficou espantado ao perceber que ela era uma garota. 

E tem outro oponente que Longo precisa sempre superar, o machismo que assombra a sociedade ao ver uma mulher se destacar em um esporte dominado por homens. Desde que começou a jogar, ela ouve comentários de que não conseguiria jogar futebol americano e de que a jersey que veste é a do namorado. Um cenário agressivo, que sempre tende a afastar meninas do ambiente.  

Mas dessa vez encontraram uma oponente que não se deixa controlar facilmente. "Sempre duvidaram de mim em tudo o que eu fiz. Ter a mentalidade forte é o único mecanismo de defesa que tenho". Hoje, ela tem a chance de inspirar outras meninas, assim como foi inspirada na infância pela kicker do time do seu irmão! A mãe dela conta que essa é a parte favorita da atleta. 

"Tantas garotinhas seguindo ela, comentando e reconhecendo que podem fazer o mesmo. 'Ela fez isso. Se ela fez, eu posso também'", disse a mãe em entrevista ao espnW. 

Entre as várias mensagens no Instagram de Beccapodemos ler frases como "vou jogar futebol americano, assim como você!" e "minhas filhas se espelham em você!" 

Jogando entre homens, Becca Longo bate recorde no futebol americano universitário

E a história de Longo não deve parar por aí. Para muitos, Becca tem potencial para ser a primeira mulher a jogar na NFL. Ela já domina chutes de 45 jardas nos treinamentos, mas para atrair o interesse das franquias da liga, precisaria fortalecer ainda mais sua perna. O recorde de chute feminino mais longo em um jogo oficial é justamente da mulher que a inspirou a ser kickerHeidi Garret, colega de time do seu irmão, que em 2004 converteu um field goal de 48 jardas. Distância essa que Becca já atingiu em alguns treinos. 

Para se ter uma noção da potência do chute dela, a média da atual temporada da NFL dos field goals mais longos dos kickers é 46.42 jardas. O maior de 2017 aconteceu na última rodada, no jogo entre Philadelphia Eagles e New York Giants, quando o calouro Jake Elliott converteu um field goal de 61 jardas para fechar o jogo e garantir a vitória para Philly 

Mas Becca quer manter o foco e deixa a NFL para o futuro. Afinal, ela tem pelo menos três anos para se firmar na NCAA.  

"Se a oportunidade surgir, eu com certeza vou aproveitar! Mas agora só estou tentando lidar com tudo o que está acontecendo", desabafa a atleta. 

E se a oportunidade não vier, Becca também vai jogar basquete pela Adams State,  no time feminino. A certeza é de que, dos esportes, ela não sai! 

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