Erro da Bolívia aumenta pressão na Argentina, e até árbitro contra o Brasil preocupa. Saudades de Grondona?

Leonardo Bertozzi
Gabriel Rossi/LatinContent/Getty Images
Edgardo Bauza com os jogadores da Argentina durante treino
Edgardo Bauza virá ao Brasil com a Argentina em sexto lugar nas eliminatórias

Sem chutar uma bola na terça-feira, a seleção argentina caiu uma posição nas eliminatórias sul-americanas da Copa do Mundo e virá ao Brasil na próxima semana fora até da zona de repescagem. Depois de a Bolívia escalar o paraguaio naturalizado Nelson Cabrera sem que ele tivesse cumprido os cinco anos obrigatórios de residência no país, a seleção foi declarada perdedora por 3 a 0 dos jogos contra Peru e Chile.

Os chilenos, que haviam ficado no 0 a 0 com os bolivianos nos 90 minutos, ganharam dois pontos de presente e mais três gols de saldo, suficientes para tomar o quinto lugar da Argentina pelo critério de gols marcados (ou "marcados", no caso).

Além da preocupação com as dificuldades encontradas por Edgardo Bauza em suas primeiras partidas à frente da Albiceleste, os argentinos agora se preocupam também com o fato de um árbitro chileno, Julio Bascuñán, estar escalado para o jogo do dia 10, no Mineirão. A escala estava pronta antes da decisão que beneficiou o Chile, mas isso não impediu a polêmica nos meios argentinos. Vale lembrar que o brasileiro Wilson Luiz Seneme assumiu em agosto a presidência do comitê de arbitragem da Conmebol.

Bascuñán é o mesmo árbitro que beneficiou o Brasil na Copa América Centenário ao invalidar equivocadamente um gol do equatoriano Miller Bolaños - aquele da falha de Alisson - alegando saída da bola pela linha de fundo. Os veículos de imprensa também lembraram que foi o chileno quem expulsou Paulo Dybala no jogo da Argentina contra o Uruguai, em Mendoza, já nestas eliminatórias. O time de Bauza, que fazia sua estreia, venceu por 1 a 0, mas Bascuñán foi duramente criticado por Lionel Messi.

Bastidores

A AFA, que dirige o futebol argentino, atualmente é dirigida por uma comissão normalizadora, e há discussões no país sobre a perda de peso político. Há quem defenda que nos tempos da nefasta e falecida figura de Julio Grondona os interesses da Argentina eram defendidos nos bastidores. Há quem duvide que a punição à Bolívia, ainda que correta, aconteceria nos tempos de Grondona.

São argumentos que não aparecem apenas nas conversas de redes sociais. Estão na boca de gente como o presidente do Boca Juniors, Daniel Angelici.

"Certamente com Julio vivo isso não teria acontecido", afirmou Angelici à Fox Sports argentina. "Certamente com Julio o Brasil também não teria uma vaga a mais (que a Argentina) na Libertadores, e com Julio vivo o jogo do gás de pimenta (Boca Juniors x River Plate, pela Libertadores de 2015) teria terminado. São as coisas boas que tinha Julio: peso específico dentro da Conmebol e da Fifa".

O cartola xeneize afirmou que Armando Pérez, presidente da comissão normalizadora da AFA, "não tem representatividade", e defendeu que haja eleições o quanto antes para que haja "um presidente respaldado legitimamente pelos clubes para se posicionar na Conmebol e na Fifa".

"Historicamente, tínhamos na Conmebol a Secretaria Geral e um membro no Comitê Executivo. Hoje não temos mais. Perdemos muito poder. E para o Brasil", argumentou.

Pequeno exige vaga na Libertadores por regulamento, mas já teme favorecimento aos grandes

Leonardo Bertozzi
Divulgação - Twitter
Torcida do Atlético Tucumán protestou pela vaga na Libertadores
Torcida do Atlético Tucumán protestou pela vaga na Libertadores

O aumento de vagas na Copa Libertadores a cerca de três meses do início do torneio gerou indefinições. Se no Brasil o pronunciamento da CBF foi imediato, confirmando que os dois novos lugares seriam distribuídos no campeonato, nos outros países beneficiados ainda não há confirmação sobre o modelo de classificação.

Na Argentina, o pequeno Atlético Tucumán espera ficar com a sexta vaga destinada ao país. O clube baseia-se no regulamento do campeonato de 2016, disputado no primeiro semestre, para cobrar da AFA o reconhecimento deste direito. Foi apenas a segunda participação da história da equipe, fundada em 1902, na primeira divisão do futebol argentino.

O campeonato foi disputado em dois grupos, com os vencedores se enfrentando na final. O Lanús venceu o San Lorenzo, ficando com o troféu.

Estudiantes e Godoy Cruz, segundos colocados, levaram as outras vagas. Eles chegaram a jogar um play-off, com vitória do Estudiantes, para definir de quem seria a prioridade da vaga caso um argentino vencesse a Copa Sul-Americana, o que, pelo regulamento antigo da Libertadores, tiraria uma das vagas locais. Como o San Lorenzo, único argentino vivo na Sul-Americana, já está classificado, o Godoy Cruz também se garantiu. Também jogará a Libertadores o vencedor da Copa Argentina.

O regulamento já previa a possibilidade de abertura de uma sexta vaga, na hipótese de um clube argentino conquistar a Libertadores. É neste item que o Atlético Tucumán baseia sua demanda. Esta vaga iria para o melhor dos terceiros colocados. 'El Decano', como é conhecido o clube por ter sido pioneiro em sua província, fez mais pontos que o Independiente, terceiro da outra chave.

Reprodução
Regulamento do campeonato argentino prevê vaga para o melhor terceiro
Regulamento do campeonato argentino prevê vaga para o melhor terceiro

Na última sexta-feira, os torcedores protestaram na Plaza Independencia, em Tucumán, e na sede da AFA. Existe o temor de que a falta de peso do clube faça com que a federação ignore o que estava previsto no regulamento e favoreça os grandes clubes do país - por exemplo, dando a vaga ao vice-campeão da Copa Argentina. Hoje, a competição eliminatória é a única possibilidade de classificação de Boca Juniors e River Plate, que estão em lados diferentes da chave e podem fazer a final.

Há quem defenda ainda uma partida extra entre Atlético Tucumán e Independiente, o que daria uma nova chance a outro dos grandes. Outra possibilidade de assignação política deste posto é entregá-lo ao melhor argentino da Libertadores 2016 (o Boca). Vale lembrar ainda que, com o vencedor da Sul-Americana passando a ter vaga direta e independente das outras vagas do país, um título do San Lorenzo geraria mais uma hipótese de classificação pelos torneios locais.

Será que haveria tanta demora na definição se o regulamento beneficiasse um dos gigantes do país?

 

Em dois dias, Conmebol e Fifa dão aulas de politicagem

Leonardo Bertozzi
INDRANIL MUKHERJEE/AFP/Getty Images
Gianni Infantino Coletiva Fifa 27/09/2016
Gianni Infantino sugeriu que Copa pode ter 48 seleções

Uma competição continental que passará a ter entre sete e nove representantes de um mesmo país.

Uma sugestão de Copa do Mundo com 48 seleções, das quais 16 voltariam para casa após jogar uma vez.

Entre domingo e segunda-feira, Conmebol e Fifa mostraram que suas recentes mudanças de comando não implicaram na mudança de velhos métodos.

Por que sete?

A Libertadores disputada ao longo do ano e a Sul-Americana em paralelo era uma medida há muito tempo cobrada e deve ser vista como um acerto. No entanto, o novo inchaço da principal competição sul-americana era desnecessário do ponto de vista esportivo.

Comercialmente, dar mais duas vagas ao Brasil pode até fazer sentido. Mas o desempenho dos clubes do país nas últimas edições não sugere motivo técnico para receber um lugar a mais que os outros beneficiados.

Argentina, Chile e Colômbia levam uma vaga extra cada, e a vaga do campeão da Sul-Americana deixa de ocupar o lugar de um dos postos do respectivo país.

O Brasil não tem um campeão ou finalista desde 2013, e neste período colocou apenas dois times em semifinais. Mesmo com indiscutível superioridade financeira no continente, os times brasileiros têm decepcionado na Libertadores.

Um eventual ano com títulos de brasileiros nas duas competições continentais levaria nove representantes do país à edição seguinte da Libertadores, sendo seis diretamente nos grupos. Ou seja, quase a metade do número de participantes da Série A estaria no principal torneio da Conmebol.

Torneio internacional?

Copa com 48?

Depois de participar da reunião sobre a Libertadores, o presidente da Fifa, Gianni Infantino, esteve em um evento em Bogotá e falou sobre as alterações possíveis no formato da Copa do Mundo.

Infantino, que em sua campanha prometeu um Mundial com 40 seleções, foi mais longe e admitiu propor o aumento para 48. Dezesseis se classificariam automaticamente para a fase de grupos, e as outras 32 jogariam uma fase preliminar pelas vagas remanescentes. Chega, perde e volta.

O cartola suíço deve ter percebido que o número "mágico" da promessa não facilita formatos para o Mundial. Oito grupos de cinco? Dez grupos de quatro? Ou você aumenta o número de jogos inúteis, ou obriga a comparar times de grupos diferentes.

Mas a ideia dos 48 é ainda pior.

Na Liga Europa, empate valeu mais que um título

Leonardo Bertozzi
Divulgação
Dundalk campeao irlanda 2016 divulgacao
Dundalk ganhou 120 mil euros por empatar na estreia da Liga Europa

O AZ vencia por 1 a 0, gol de Stijn Wuytens, e o Dundalk tinha um jogador a menos após a expulsão do capitão Stephen O'Donnell. Mesmo assim, o bicampeão irlandês foi buscar o empate na Holanda aos 44 minutos do segundo tempo, graças à cabeçada de Ciaran Kilduff.

Kilduff passou por um susto em abril ao fraturar duas vértebras em um jogo da copa nacional. Em sua recuperação, precisou usar um colar cervical durante dez dias.

Nesta quinta-feira, ele foi o responsável pelo primeiro ponto de uma equipe irlandesa na fase de grupos. Em 2011/12, o Shamrock Rovers passou pela Liga Europa com seis derrotas em seis jogos.

Para se ter uma ideia da importância do feito, o prêmio destinado pela Uefa por um empate no grupo é de 120 mil euros. Caso o Dundalk conquiste mais um título da liga irlandesa nesta temporada, receberá um prêmio de 110 mil euros.

A quantia se soma aos 2,4 milhões de euros distribuídos a cada um dos 48 participantes do torneio continental. Uma bolada significativa para um time que representa um campeonato de realidade modesta.

Após vários casos de investimentos não sustentáveis que levaram clubes ao buraco, especialmente após o fim do boom econômico irlandês e a recessão iniciada em 2008, o futebol no país se estabilizou dentro de suas possibilidades.

O campeonato, que vai de março a novembro, ao contrário da maioria das ligas europeias, tem na primeira divisão salários anuais de 16 mil euros (cerca de R$ 60 mil) em média.

Os contratos dos jogadores normalmente expiram no fim de cada temporada, o que faz com que vários tenham de buscar outras fontes de receita neste intervalo. Alguns dependem de benefícios do governo nos meses em que ficam parados.

O Dundalk superou duas fases preliminares da Champions League, incluindo uma contra o participante frequente BATE Borisov, antes de cair nos play-offs contra o Legia Varsóvia.

Antes, o último time a chegar tão perto da maior competição da Europa havia sido o Shelbourne, em 2004. Na ocasião, o time só caiu diante do Deportivo La Coruña, semifinalista da temporada anterior. Empatou por 0 a 0 diante de 25 mil pessoas no estádio de Lansdowne Road, em Dublin, antes de sucumbir por 3 a 0 na Espanha.

O Shelbourne perdeu seu lugar na primeira divisão em 2007, por problemas financeiros, e desde então só jogou outras duas temporadas na elite, em 2012 e 2013.

A trajetória do Dundalk continuará no dia 29 com o primeiro jogo em casa, diante do Maccabi Tel-Aviv, de Israel. Não será no pequeno Oriel Park, com capacidade para 4.500 torcedores, onde manda seus jogos locais, mas no estádio público de Tallaght, casa do Shamrock Rovers.

Depois, virão dois confrontos com o milionário Zenit, da Rússia.

Alguém aposta na primeira vitória? A propósito, ela valeria 360 mil euros, mais de três vezes o prêmio do campeonato nacional.

Com desempenho e resultados acima do esperado, Tite também ganha primeiras 'dores de cabeça'

Leonardo Bertozzi
Mowa Press
Philippe Coutinho em ação pelo Brasil contra a Colômbia em Manaus
Philippe Coutinho se destacou e pede espaço na Seleção Brasileira

Para quem tinha nada em termos de comando técnico, qualquer melhora já seria alguma coisa. Mas é inegável que a Seleção Brasileira apresentou, nas duas primeiras partidas sob o comando de Tite, mais do que se projetava para um início de trabalho. Tanto em termos de resultado, que significaram um salto da sexta para a segunda colocação nas Eliminatórias, quanto de desempenho, mesmo com o pouco tempo de treinamentos.

Os conceitos de jogo aplicados com ajuda de algo que o técnico chama de 'memória tática', a familiaridade com as funções que já exercem nos clubes, fizeram com que o Brasil parecesse um time treinado há mais tempo nas partidas contra Equador e Colômbia. Porém, estamos falando do começo de um processo que pode - e deve - passar por ajustes importantes ao longo da caminhada.

Já sabemos, por exemplo, que Tite não poderá repetir a formação dos dois primeiros jogos. Paulinho, suspenso por acúmulo de cartões, não enfrentará a Bolívia em Natal, ficando à disposição apenas para o jogo com a Venezuela em Mérida. O volante, que nos últimos três anos raramente jogou em seu melhor nível, era o nome mais contestado entre os onze titulares, mas foi escolhido por sua familiaridade com a maneira de jogar e teve atuações corretas.

Giuliano entrou no lugar de Paulinho no segundo tempo contra a Colômbia, mas não parece a melhor alternativa para sair jogando diante dos bolivianos. Entre os que Tite já chamou, a função poderia ser exercida por Lucas Lima, com caraterísticas mais adequadas para abrir uma defesa. Mas não será surpresa caso o técnico chame Allan, do Napoli, há muito tempo jogando em bom nível.

Outra discussão surge da boa participação de Philippe Coutinho no segundo tempo das duas partidas. É o suficiente para justificar pedidos de titularidade? Na entrevista coletiva depois do jogo em Manaus, Tite disse que não vê o jogador do Liverpool atuando centralizado no 4-1-4-1, mas destacou sua capacidade de adaptação ao lado direito, sendo que no clube inglês joga se movimentado da esquerda para centro.

Após vitória contra Colômbia, Bertozzi enaltece início do trabalho de Tite

Willian seria, em tese o mais ameaçado. Tite fez questão de afirmar que não passa a seus jogadores a ideia de que estão constantemente ameaçados de perder espaço no caso de uma partida ruim. Há que se lembrar, porém, que a concorrência ficará ainda mais acirrada com Douglas Costa à disposição. Seriam três nomes por uma vaga? Ou é possível cogitar que Neymar passe a jogar na função de Gabriel Jesus e seja o palmeirense a sair do time titular?

mais postsLoading