Em dois dias, Conmebol e Fifa dão aulas de politicagem

Leonardo Bertozzi
INDRANIL MUKHERJEE/AFP/Getty Images
Gianni Infantino Coletiva Fifa 27/09/2016
Gianni Infantino sugeriu que Copa pode ter 48 seleções

Uma competição continental que passará a ter entre sete e nove representantes de um mesmo país.

Uma sugestão de Copa do Mundo com 48 seleções, das quais 16 voltariam para casa após jogar uma vez.

Entre domingo e segunda-feira, Conmebol e Fifa mostraram que suas recentes mudanças de comando não implicaram na mudança de velhos métodos.

Por que sete?

A Libertadores disputada ao longo do ano e a Sul-Americana em paralelo era uma medida há muito tempo cobrada e deve ser vista como um acerto. No entanto, o novo inchaço da principal competição sul-americana era desnecessário do ponto de vista esportivo.

Comercialmente, dar mais duas vagas ao Brasil pode até fazer sentido. Mas o desempenho dos clubes do país nas últimas edições não sugere motivo técnico para receber um lugar a mais que os outros beneficiados.

Argentina, Chile e Colômbia levam uma vaga extra cada, e a vaga do campeão da Sul-Americana deixa de ocupar o lugar de um dos postos do respectivo país.

O Brasil não tem um campeão ou finalista desde 2013, e neste período colocou apenas dois times em semifinais. Mesmo com indiscutível superioridade financeira no continente, os times brasileiros têm decepcionado na Libertadores.

Um eventual ano com títulos de brasileiros nas duas competições continentais levaria nove representantes do país à edição seguinte da Libertadores, sendo seis diretamente nos grupos. Ou seja, quase a metade do número de participantes da Série A estaria no principal torneio da Conmebol.

Torneio internacional?

Copa com 48?

Depois de participar da reunião sobre a Libertadores, o presidente da Fifa, Gianni Infantino, esteve em um evento em Bogotá e falou sobre as alterações possíveis no formato da Copa do Mundo.

Infantino, que em sua campanha prometeu um Mundial com 40 seleções, foi mais longe e admitiu propor o aumento para 48. Dezesseis se classificariam automaticamente para a fase de grupos, e as outras 32 jogariam uma fase preliminar pelas vagas remanescentes. Chega, perde e volta.

O cartola suíço deve ter percebido que o número "mágico" da promessa não facilita formatos para o Mundial. Oito grupos de cinco? Dez grupos de quatro? Ou você aumenta o número de jogos inúteis, ou obriga a comparar times de grupos diferentes.

Mas a ideia dos 48 é ainda pior.

Na Liga Europa, empate valeu mais que um título

Leonardo Bertozzi
Divulgação
Dundalk campeao irlanda 2016 divulgacao
Dundalk ganhou 120 mil euros por empatar na estreia da Liga Europa

O AZ vencia por 1 a 0, gol de Stijn Wuytens, e o Dundalk tinha um jogador a menos após a expulsão do capitão Stephen O'Donnell. Mesmo assim, o bicampeão irlandês foi buscar o empate na Holanda aos 44 minutos do segundo tempo, graças à cabeçada de Ciaran Kilduff.

Kilduff passou por um susto em abril ao fraturar duas vértebras em um jogo da copa nacional. Em sua recuperação, precisou usar um colar cervical durante dez dias.

Nesta quinta-feira, ele foi o responsável pelo primeiro ponto de uma equipe irlandesa na fase de grupos. Em 2011/12, o Shamrock Rovers passou pela Liga Europa com seis derrotas em seis jogos.

Para se ter uma ideia da importância do feito, o prêmio destinado pela Uefa por um empate no grupo é de 120 mil euros. Caso o Dundalk conquiste mais um título da liga irlandesa nesta temporada, receberá um prêmio de 110 mil euros.

A quantia se soma aos 2,4 milhões de euros distribuídos a cada um dos 48 participantes do torneio continental. Uma bolada significativa para um time que representa um campeonato de realidade modesta.

Após vários casos de investimentos não sustentáveis que levaram clubes ao buraco, especialmente após o fim do boom econômico irlandês e a recessão iniciada em 2008, o futebol no país se estabilizou dentro de suas possibilidades.

O campeonato, que vai de março a novembro, ao contrário da maioria das ligas europeias, tem na primeira divisão salários anuais de 16 mil euros (cerca de R$ 60 mil) em média.

Os contratos dos jogadores normalmente expiram no fim de cada temporada, o que faz com que vários tenham de buscar outras fontes de receita neste intervalo. Alguns dependem de benefícios do governo nos meses em que ficam parados.

O Dundalk superou duas fases preliminares da Champions League, incluindo uma contra o participante frequente BATE Borisov, antes de cair nos play-offs contra o Legia Varsóvia.

Antes, o último time a chegar tão perto da maior competição da Europa havia sido o Shelbourne, em 2004. Na ocasião, o time só caiu diante do Deportivo La Coruña, semifinalista da temporada anterior. Empatou por 0 a 0 diante de 25 mil pessoas no estádio de Lansdowne Road, em Dublin, antes de sucumbir por 3 a 0 na Espanha.

O Shelbourne perdeu seu lugar na primeira divisão em 2007, por problemas financeiros, e desde então só jogou outras duas temporadas na elite, em 2012 e 2013.

A trajetória do Dundalk continuará no dia 29 com o primeiro jogo em casa, diante do Maccabi Tel-Aviv, de Israel. Não será no pequeno Oriel Park, com capacidade para 4.500 torcedores, onde manda seus jogos locais, mas no estádio público de Tallaght, casa do Shamrock Rovers.

Depois, virão dois confrontos com o milionário Zenit, da Rússia.

Alguém aposta na primeira vitória? A propósito, ela valeria 360 mil euros, mais de três vezes o prêmio do campeonato nacional.

Com desempenho e resultados acima do esperado, Tite também ganha primeiras 'dores de cabeça'

Leonardo Bertozzi
Mowa Press
Philippe Coutinho em ação pelo Brasil contra a Colômbia em Manaus
Philippe Coutinho se destacou e pede espaço na Seleção Brasileira

Para quem tinha nada em termos de comando técnico, qualquer melhora já seria alguma coisa. Mas é inegável que a Seleção Brasileira apresentou, nas duas primeiras partidas sob o comando de Tite, mais do que se projetava para um início de trabalho. Tanto em termos de resultado, que significaram um salto da sexta para a segunda colocação nas Eliminatórias, quanto de desempenho, mesmo com o pouco tempo de treinamentos.

Os conceitos de jogo aplicados com ajuda de algo que o técnico chama de 'memória tática', a familiaridade com as funções que já exercem nos clubes, fizeram com que o Brasil parecesse um time treinado há mais tempo nas partidas contra Equador e Colômbia. Porém, estamos falando do começo de um processo que pode - e deve - passar por ajustes importantes ao longo da caminhada.

Já sabemos, por exemplo, que Tite não poderá repetir a formação dos dois primeiros jogos. Paulinho, suspenso por acúmulo de cartões, não enfrentará a Bolívia em Natal, ficando à disposição apenas para o jogo com a Venezuela em Mérida. O volante, que nos últimos três anos raramente jogou em seu melhor nível, era o nome mais contestado entre os onze titulares, mas foi escolhido por sua familiaridade com a maneira de jogar e teve atuações corretas.

Giuliano entrou no lugar de Paulinho no segundo tempo contra a Colômbia, mas não parece a melhor alternativa para sair jogando diante dos bolivianos. Entre os que Tite já chamou, a função poderia ser exercida por Lucas Lima, com caraterísticas mais adequadas para abrir uma defesa. Mas não será surpresa caso o técnico chame Allan, do Napoli, há muito tempo jogando em bom nível.

Outra discussão surge da boa participação de Philippe Coutinho no segundo tempo das duas partidas. É o suficiente para justificar pedidos de titularidade? Na entrevista coletiva depois do jogo em Manaus, Tite disse que não vê o jogador do Liverpool atuando centralizado no 4-1-4-1, mas destacou sua capacidade de adaptação ao lado direito, sendo que no clube inglês joga se movimentado da esquerda para centro.

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Após vitória contra Colômbia, Bertozzi enaltece início do trabalho de Tite

Willian seria, em tese o mais ameaçado. Tite fez questão de afirmar que não passa a seus jogadores a ideia de que estão constantemente ameaçados de perder espaço no caso de uma partida ruim. Há que se lembrar, porém, que a concorrência ficará ainda mais acirrada com Douglas Costa à disposição. Seriam três nomes por uma vaga? Ou é possível cogitar que Neymar passe a jogar na função de Gabriel Jesus e seja o palmeirense a sair do time titular?

De '10 clássico' a 'todocampista'. Veja os gráficos da mudança de Renato Augusto

Leonardo Bertozzi, de Manaus, para o ESPN.com.br
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'Todocampista': Calçade analisa evolução no posicionamento de Renato Augusto na carreira

Na entrevista coletiva de domingo em Manaus, Renato Augusto falou sobre a mudança de seu estilo de jogo ao longo dos anos.

Um dos destaques da conquista do ouro olímpico, o meia foi titular na estreia de Tite na Seleção Brasileira e manteve o bom desempenho contra o Equador, embora em função diferente da que exercia com Rogério Micale. Se na Olimpíada foi um dos volantes em um ousado 4-2-4, com o time principal reencontrou a função dos tempos de Corinthians, como meia central do 4-1-4-1.

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Seleção Olímpica: um dos volantes do 4-2-4 de Micale
Seleção Olímpica: um dos volantes do 4-2-4 de Micale

"Eu era um 10 clássico quando subi para o profissional no Flamengo, mas percebi que aquela figura estava desaparecendo do futebol", argumentou. Ele chegou a ser utilizado até como atacante no Rubro-Negro, mas foi depois da ida para o Bayer Leverkusen que começou sua transformação. Renato admite que torceu o nariz para a ideia de jogar aberto, mas se adaptou. E, dependendo da circunstância do jogo, era centralizado como volante.

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Leverkusen: ponta e volante. O início da transformação
Leverkusen: aberto ou central. O início da transformação

De mente mais aberta após a experiência alemã, Renato encontrou em Tite alguém capaz de potencializar seu jogo. "Ele (Tite) me dava abertura para discutir questões táticas. Foi com ele que alcancei meu melhor nível tático, físico e técnico", elogiou o meia. No Corinthians, além de deixar para trás os problemas de lesão que o atormentavam, tornou-se a principal peça das transições ofensivas. Recuava para qualificar o primeiro passe e 'clareava' o jogo.

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Corinthians: em seu auge, maior circulação pelo campo defensivo
Corinthians: em seu auge, maior circulação pelo campo defensivo

Na Seleção, com pouco tempo de treino antes das partidas, Tite procura aproveitar a familiaridade de Renato Augusto com o esquema. Ele faz com Paulinho a mesma função que fazia ao lado de Elias no Corinthians. "Se ele sai mais para o ataque, procuro ficar como segundo volante. Procuro ajudar e sempre que possível chegar mais à frente", lembrou.

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Contra o Equador: função semelhante à exercida com Tite no Corinthians
Contra o Equador: função semelhante à exercida com Tite no Corinthians

O principal desafio para Renato é se manter em bom nível atuando na China, onde a exigência técnica é menor. Ele garante que está lá 'para competir'. Mais uma adaptação necessária para quem já se redescobriu em algumas oportunidades.

Clima quente entre Brasil e Colômbia domina entrevistas, e cabeça fria vira prioridade

Leonardo Bertozzi, de Manaus, para o ESPN.com.br
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Copa America Brasil Colombia briga confusão Neymar Bacca
Em 2015, confusão após o jogo terminou com Neymar e Bacca expulsos

Expulsões e jogadas violentas fazem parte da história recente do confronto entre Brasil e Colômbia. Por isso, não é surpresa que os jogadores das duas seleções tenham sido tão questionados sobre o assunto desde a chegada a Manaus para o jogo da próxima terça-feira.

No último confronto entre as duas seleções principais, na Copa América de 2015, uma confusão no fim do jogo resultou nas expulsões de Neymar e Carlos Bacca. Já depois do apito final, o brasileiro chutou a bola no lateral Pablo Armero e esboçou uma cabeçada em Jeison Murillo. Bacca reagiu com um forte empurrão e também levou o vermelho. Neymar pegou um gancho de quatro jogos que o tirou do restante da competição e do início das Eliminatórias da Copa do Mundo.

Em 2014, numa das imagens que marcaram a Copa do Mundo, Neymar teve sua participação no torneio encerrada por uma fratura na terceira vértebra lombar, após joelhada do lateral Camilo Zúñiga. As duas seleções se reencontraram meses depois, em amistoso nos Estados Unidos, e a Colômbia terminou com dez jogadores. Juan Cuadrado levou o cartão vermelho por entrada violenta em Neymar.

O duelo pelos Jogos Olímpicos, mês passado, também foi dominado pela violência. Abusando das faltas, principalmente no primeiro tempo, a Colômbia recebeu seis dos sete cartões amarelos da partida. Por outro lado, houve reclamações colombianas sobre um lance duro em que Neymar poderia ter recebido o vermelho.

Em entrevista coletiva após o treino de sábado, na Arena da Amazônia, Paulinho falou sobre a necessidade de não permitir que o clima esquente dentro de campo. "Vai ter muito confronto, muito choque, temos de estar preparados para tudo isso", lembrou o volante. "Talvez tenha uma ou outra entrada mais forte, então temos de manter a cabeça no lugar".

Do lado colombiano, o ambiente pesado em campo é atribuído ao que consideram provocações excessivas, sobretudo de Neymar. Falando à rádio Caracol, o volante Carlos Sánchez não usou meias palavras: "Será importante evitarmos entrar nas provocações do Brasil", disparou. "Temos de nos dedicar a jogar a partida, estar mais concentrados no futebol. Somos todos conscientes disso e estamos preparados para não entrar em provocações".

Por causa da suspensão de Daniel Torres, Sánchez terá um novo companheiro no meio-campo - ou dois. O técnico José Pekerman tem mexido no desenho tático nos jogos fora de casa, e não está descartado que ele abra mão de um jogador mais ofensivo para reforçar a marcação na terça-feira.

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