Philippe Coutinho para inglês ver

Gustavo Hofman, de Porto Alegre

Pedro Martins/MoWA Press
Philippe Coutinho vem sendo especulado como possível reforço do Barcelona
Philippe Coutinho vem sendo especulado como possível reforço do Barcelona

Depois da vitória por 3 a 0 sobre o Bayern Munique, em 1º de agosto, pela Audi Cup, Philipe Coutinho passou a reclamar de dores nas costas no Liverpool. Dez dias depois, após o clube anunciar que o meia ficaria, ele comunicou oficialmente seu desejo de ser negociado com o Barcelona.

Desde então o Liverpool disputou e venceu dois jogos contra o Hoffenheim pelos playoffs da Liga dos Campeões, valendo vaga na fase de grupos. Jogou três rodadas da Premier League, com duas vitórias e um empate. E recusou algumas propostas do Barcelona pelo meia, desfalque em todas essas partidas.

No sábado, os Reds fizeram 4 a 0 no Arsenal, com uma atuação convincente. Se por um lado o time vai muito bem sem o jogador da Seleção Brasileira, por outro os torcedores se enfureceram neste domingo com as notícias que saíram de Porto Alegre.

Oficialmente, a CBF confirmou que Philippe Coutinho não tem problemas médicos. O atleta participou da primeira parte do treinamento nesta segunda e depois seguiu para a academia para um processo de transição física. Horas antes, no Rio de Janeiro, ele consultou um médico particular por causa das dores. Deve treinar normalmente na terça e, provavelmente, será titular na quinta diante do Equador, na Arena do Grêmio. 

Hofman aposta em futuro de Coutinho e avalia possível mudança de time: 'Mexe com a cabeça do jogador'

O jornal Liverpool Echo ironizou a notícia em seu site, afirmando que "os problemas convenientemente melhoraram a tempo de representar seu país". Isso no mesmo dia em que o clube fez a contratação mais cara de sua história, o meio-campista Naby Keita, do RB Leipzig, por 52 milhões de euros e somente para a próxima temporada. Além disso, segundo o L'Équipe, foram oferecidos 80 milhões de euros pelo atacante Thomas Lemar, do Monaco.

Nos bastidores da CBF, havia a expectativa sobre a chegada de Coutinho para a avaliação. No entanto, é difícil imaginar que a comissão técnica convocaria um atleta "machucado" sem saber suas reais condições. Oficialmente - é importante ressaltar - ele foi desfalque do Liverpool em toda temporada até agora por questões clínicas. Contra os equatorianos, vai fazer seu primeiro jogo oficial em 2017-18, o que lhe deixa, inclusive, em desvantagem contra companheiros e adversários, já com ritmo de competição.

É, definitivamente, uma história mal contada pelos ingleses. O único que poderia esclarecer é Philippe Coutinho, que assinou novo contrato sem cláusula de rescisão com o Liverpool em janeiro! Só que ele não vai falar até o jogo de quinta. Depois, na zona mista, pode passar reto pelos jornalistas e seguir calado, mas... 31 de agosto é o fechamento da janela de transferências.

Na prática, ele poderá acordar, tomar café da manhã e almoçar como atleta do Liverpool. Às 18h15, porém, quando descer ao segundo andar do Hotel Radisson, no bairro Bela Vista, na capital gaúcha, para a preleção do técnico Tite, já poderá ter se tornado substituto de Neymar e companheiro de Paulinho na Catalunha.

Se tivesse que apostar, esse seria meu palpite: o Liverpool vai esperar até o final para tirar o máximo de dinheiro do Barça, e assim Coutinho entrará em campo na Arena do Grêmio como mais um culé.

Um ano de notícias boas para a Seleção Brasileira

Gustavo Hofman, de Porto Alegre
Chegada de atletas e um ano muito bom: Flávio Ortega e Gustavo Hofman trazem notícias da seleção brasileira
Alisson, Daniel Alves, Marquinhos, Miranda e Marcelo; Casemiro; Philippe Coutinho, Paulinho, Renato Augusto e Neymar; Gabriel Jesus.

Se nada de extraordinário acontecer durante a semana, esse time entrará em campo na Arena Grêmio às 21h45 de quinta-feira para enfrentar o Equador. Apenas uma mudança em relação aos 11 jogadores escolhidos por Tite em 1o de setembro do ano passado para enfrentar a mesma seleção equatoriana, no primeiro jogo do treinador à frente da Seleção.

De lá para cá, Willian se tornou reserva e Philippe Coutinho passou a fazer o lado direito do ataque brasileiro, função invertida que tem no Liverpool (ainda). Dúvidas desapareceram em relação a outros atletas, como Renato Augusto e Paulinho, agora do Barcelona, graças ao desempenho com a camisa verde e amarela. Gabriel Jesus, que também estreou em Quito, se tornou titular inquestionável e destaque na Premier League.

Neymar virou companheiro de Marquinhos no Paris Saint-Germain e jogador mais caro da história. Daniel Alves saiu em alta da Juventus e também rumou para Paris, Marcelo e Casemiro ganharam mais uma Champions e Alisson se tornou titular da Roma. Miranda segue tranquilo na Inter.

Daquela quinta-feira na bela capital equatoriana para a próxima quinta em Porto Alegre só coisas boas aconteceram. A sorte anda lado a lado da competência.

Os jogadores se apresentam neste domingo à noite e na segunda, para depois treinarem às 15h no CT do Grêmio, com coletiva de imprensa logo após. Na terça o treinamento começa um pouco mais tarde, às 16h30, mas no Beira-Rio, para agradar o Internacional - ato político, como já aconteceu com outros clubes, como o São Paulo. Na quarta, todos seguem para o palco do jogo e fazem as atividades a partir de 17h15.

São oito vitórias consecutivas nas eliminatórias da Copa do Mundo, que transformaram o Brasil de decepção a um dos favoritos. Jamais poderão, no entanto, nos fazer esquecer de quem comanda a CBF.

A Seleção vai muito bem, obrigado. O futebol brasileiro ainda não.

Flamengo, basquete, futebol e estudo: bate-papo com José Neto

Gustavo Hofman

Flamengo
Delegação do Flamengo em visita ao Comitê Olímpico dos Estados Unidos
Delegação do Flamengo em visita ao Comitê Olímpico dos Estados Unidos

Vivemos um período estranho em que pessoas que buscam conhecimento e profundidade em alguns temas são discriminadas. Na sociedade global a intolerância dá sinais de força diariamente, e como o esporte jamais pode ser dissociado dela, sofre junto. O debate existente hoje em dia no futebol sobre a necessidade ou não de crescer profissionalmente através de cursos, estágios ou intercâmbios apenas empobrece a mente de todos.

Em outras modalidades esportivas, o costume do aperfeiçoamente profissional não é visto com desprezo. O basquete é um desses casos. Nas últimas décadas, diversos treinadores têm buscado o conhecimento em outros mercados, principalmente nos Estados Unidos, onde a modalidade encontra o melhor nível. Dirão os reticentes que "o Brasil é o melhor do futebol, assim como os Estados Unidos no basquete", logo não há necessidade de sair daqui. Argumento raso. A NBA hoje é mais forte do que antigamente também por causa dos estrangeiros.

Técnicos brasileiros têm viajado nas últimas décadas para universidades nos EUA e buscado ampliar seus horizontes sobre a bola ao cesto. O último a fazer isso foi José Neto, treinador do Flamengo e ex-assistente da Seleção Brasileira.

Durante os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, o clube carioca estabeleceu parceria com o Comitê Olímpico norte-americano e enviou neste mês treinadores de sete modalidades para conhecer a estrutura oferecida aos atletas de lá. Neto foi o representante do basquete e teve a oportunidade de passar uma semana com a seleção norte-americana que se preparava para a disputa da Copa América.

Conheceu primeiro a sede do Comitê Olímpico em Colorado Springs, onde ficam os centros de psicologia e fisiologia, por exemplo, e depois seguiu para Houston, onde foi recebido pelo técnico Jeff van Gundy e pôde acompanhar os treinamentos da equipe, formada basicamente por atletas da G-League.

Flamengo
Van Gundy e Neto, no encontro em Houston
Van Gundy e Neto, no encontro em Houston

Mas afinal, o que um técnico de ponta pode absorver em um período como esse? "Muita coisa. Nunca é demais aprender e ter contato com pessoas, com lugares que temos como referência. Absorve muitas coisas ao acompanhar os treinamentos, e não só o que eles fazem, mas como eles fazem. Como o técnico se comporta, os assistentes, a estrutura de trabalho, tudo isso engrandece muito o conhecimento", afirma Neto.

Além de toda parte teórica, Neto retorna ao Brasil com muita prática nova também. "Cada técnico tem sua maneira de trabalhar, de se relacionar com o grupo de trabalho, e não me refiro só aos jogadores, mas todos que estão perto dele, comissão técnica, staff, médicos. O que eu vi bastante, que é bem diferente, é a quantidade de pessoas envolvidas no processo. As funções são muito bem definidas, há especialistas para cada área: os profissionais de vídeo, os fisioterapeutas, os assistentes técnicos, os médico, toda área de comunicação. São especialistas de cada área que estão ali para fazer o que eles sabem muito bem. Essa diversidade acrescente demais no trabalho do técnico".

Van Gundy trabalhava na época com grupo de 17 jogadores, e Neto destaca a forma como ele delega treinos específicos para seus assistentes. "Eram quatro assistentes e mais alguns que estavam ali como convidados. Isso ajuda muito, eles são muito detalhistas, são muitas pessoas observando e não deixam passar nada. É um treino muito planejado, e o Jeff van Gundy é na verdade um professor, ele tem uma didática muito boa. Para muito o treino, reforça cada detalhe, para cada situação que ele quer que aconteça de uma forma".

Van Gundy foi escolhido pela USA Basketball para comandar o time na Americup, torneio que não dará vagas para outras competições. O head coach da seleção norte-americana, porém, segue sendo Gregg Poppovich, que apareceu por lá. "Tive uma conversa rápida com o Popovich, mas ele foi super receptivo. Ele foi somente em um dia e aproveitou para conversar individualmente com cada jogador depois do treino. Depois que terminou tudo, batemos um papo. Abriu as portas dos Spurs para quando eu quiser ir, e o admiro muito, admiro muito a forma como ele trabalha", relata Neto.

Flamengo
Reunião com Popovich foi rápida, mas proveitosa
Reunião com Popovich foi rápida, mas proveitosa

O treinador brasileiro não é um desconhecido por lá. Depois de ter passado 14 anos na Confederação Brasileira de Basketball, enfrentou muitos dos profissionais que encontrou em torneios pelo mundo, e pela primeira vez pôde acompanhar o trabalho de uma seleção que não seja a brasileira.

Aliás, sobre Seleção, cabe a ressalva: Neto era o substituto natural de Rubén Magnano no comando do time. Trata-se do treinador mais vitorioso da modalidade na atualidade no Brasil, bem visto e analisado pela comunidade do basquete e, acima de tudo, bem preparado para assumir o desafio. A CBB não pensou assim e escolheu o competente, porém com bagagem menor, César Guidetti para o cargo.

"Decepção não é a palavra. Temos que nos decepcionar com as coisas que podemos fazer e não fazemos, aí sim devemos ter esse sentimento. Aprendi muito com meu pai isso. Posso falar que fiquei decepcionado ao não ganhar o título do NBB, poderíamos ter feito algumas coisas melhores. Agora, ser ou não o técnico, não é uma coisaque depende de mim. Tudo que eu podia fazer, eu fiz e de certa maneira razoável. Talvez, por isso, muita gente, não só você, tinha essa expectativa, de que fosse uma sequência natural. Mas eu torço bastante para o César, foi meu assistente na seleção, gosto muito dele, vejo que é um cara trabalhador, respeito demais. Se ele teve essa oportunidade, torço para que tenha sucesso. Mas se eu falar para você também, que foi um pouco assim, que eu tinha a expectativa, até porque ningém falou comigo, então foi um pouco aquém da minha expectativa", sintetiza.

De volta ao Brasil, Neto dará sequência em seu trabalho à frente do Flamengo, que começou em 2012 e conta com quatro títulos do NBB, além de uma Liga das Américas e uma Copa Intercontinental. Bastante cobrado na última temporada, quando foi surpreendentemente eliminado pelo Pinheiros, vai encontrar nos corredores da Gávea outro treinador do time de futebol. "Ainda não tive a oportunidade de encontrar o Reinaldo Rueda", conta. Mas quando fizer, certamente vai render uma boa conversa, como ele sempre teve com os outros que passaram pelo rubro negro. "Eu conversava muito com o Zé Ricardo. Assim como os outros técnicos do meu período no Flamengo. Sempre me aproximei deles, porque temos muitas coisas para passar uns aos outros. O mundo do futebol pra mim, como técnico, é interessante para ver a forma de trabalho. Quando veio o Luxemburgo, eu pegava um pouco dessa experiência. Sempre busco isso".

Gilvan de Souza/Flamengo
Rueda comanda treino no Flamengo
Rueda comanda treino no Flamengo

O futebol, cada vez mais, se parece com o basquete em alguns aspectos. Diferentemente do passado, hoje em dia o jogador participa da partida o tempo todo, tanto na fase ofensiva como na fase defensiva. Aquela ideia de que o atacante podia colocar as mãos na cintura e esperar o time marcar para depois atacar não existe mais, ou ao menos está em desuso. Algo muito similar com o que acontece no basquete, onde em um espaço bem mais reduzido, o atleta ataca e marca o tempo todo em que estiver na quadra.

"Vamos partir de um princípio, que eu acredito muito, das modalidades coletivas, onde as funções têm que ser bem estabelecidas. No futebol são 11 jogadores no campo, no basquete cinco em quadra, e se um atleta deixa de fazer uma função porque ele acha que é o momento de descansar, vira um jogador a menos para o time e se tornar uma desvantagem. Cada vez mais, independente do momento da partida, ofensivo ou defensivo, cada jogador tem uma função, e a partir disso eu acredito que ele pode contribuir para que o trabalho coletivo seja mais forte", analisa Neto. "Isso acontece muito quando o atacante perde a bola e já começa a marcar, fazer com que a bola fique no campo ofensivo. Vemos muito isso na Europa hoje em dia, os atacantes participando desse momento de transição defesa-ataque. Utilizar ao máximo possível o maior número de jogadores em campo".

Neto poderá, também, passar o segredo da estabilidade na Gávea para Reinaldo Rueda, afinal, são cinco anos por lá. "O segredo é ter êxito. Não tenho dúvidas que muito dessa longevidade, que nem é tanta assim, mas a gente fica com isso de 'perdeu tá fora', o segredo é ganhar. Desde que cheguei aqui ganhamos quatro, talvez seja esse o segredo. Se eu tivesse perdido antes, talvez não estaria aqui agora".

Split, mas pode chamar de Hajduk Split

Gustavo Hofman

Gustavo Hofman
Em todos os cantos da cidade, há referências ao Hajduk
Em todos os cantos da cidade, há referências ao Hajduk

*Capítulo extraído do livro "Quando o futebol não é apenas um jogo", publicado em 2014

Poucas cidades no mundo vivem o futebol como Split, no litoral da Croácia. Ou melhor, poucas no mundo vivem o time local como Split.

Sem qualquer exagero, você não anda mais do que duas ou três quadras pela belíssima cidade  sem ver alguma referência ao Hajduk Split. Uma pichação, uma bandeira na janela, um torcedor com a camisa, um cachorro com a roupinha do clube. É simplesmente impressionante como o Hajduk é o maior símbolo de Split.

Banhada pelo Mar Adriático, a cidade é um destino frequente para turistas europeus que buscam belas praias e diversão no verão. Pela proximidade, os italianos costumam dominar a área nesse período. As praias são geralmente pequenas e com a encosta das áridas montanhas terminando praticamente na água, uma paisagem bem diferente para o público brasileiro.

Se no verão Split ferve, no inverno ela é um ponto certo para descanso. O Palácio Diocleciano é sua principal atração e, sem dúvida alguma, de uma beleza extrema. No entanto, como é aberto e foi tomado por lojinhas e restaurantes em seu interior, perdeu um pouco do encanto dos séculos passados. A orla, à noite, é um passeio imperdível a dois, enquanto do Monte Marjan se observa toda essa beleza do alto.

Gustavo Hofman
Vista da litorânea Split a partir do Monte Marjan
Vista da litorânea Split a partir do Monte Marjan

Nesse cenário espetacular surgiu o Hajduk Split em 13 de fevereiro de 1911, sob o Império Austro-Húngaro. Sete anos depois, com o surgimento da Iugoslávia, o Hajduk passou a disputar o Campeonato Iugoslavo de futebol.

Até a independência, foram nove títulos nacionais iugoslavos e nove copas, se tornando um dos times mais vitoriosos da extinta nação. Desde então, as glórias continuaram, com mais seis títulos croatas e seis Copas da Croácia. Com isso, também, a participação nas competições europeias se tornou algo muito frequente, mas com poucos resultados expressivos.

Clube que revelou nas últimas décadas talentos mundiais. Para citar apenas alguns: Stjepan Andrijasevic (ex-Monaco e Celta), Igor Stimac (ex-Derby County e West Ham), Robert Jarni (ex-Juventus, Real Madrid, entre outros), Alen Boksic (ex-Olympique de Marseille, Lazio, Juventus e Middlesbrough), Slaven Bilic (ex-West Ham e Everton e ex-técnico da seleção croata), Igor Tudor (ex-Juventus), Stipe Pletikosa (ex-Shakhtar Donetsk e Spartak Moscou) e Darijo Srna, um dos grandes ídolos da história do Shakhtar.

De qualquer modo, a torcida do Hajduk Split não é movida por títulos. A paixão dos torcedores, que se sente nas ruas, é algo alheio a conquistas.

Split lhe proporciona uma imersão na história do Hajduk de maneira extremamente saborosa. É possível reviver os primeiros dias do clube, visitando o estádio Stari Plac, casa do time entre 1911 e 79. Pequeno, acanhado, quase escondido em um bairro residencial, atualmente é palco dos jogos de rúgbi do RK Nada.

Gustavo Hofman
Stari Plac, antiga casa do Hajduk Split e atualmente palco de rúgbi
Stari Plac, antiga casa do Hajduk Split e atualmente palco de rúgbi

Como a cidade é pequena, quase 200 mil habitantes, de lá mesmo você caminha em direção a uma área mais afastada, onde fica localizado o moderno estádio Poljud. Casa de muitos jogos da seleção croata e com capacidade para 35 mil torcedores, ainda possui belíssima vista para o Mar Adriático.

É difícil imaginar a vida de um torcedor do Dinamo Zagreb em Split. Os dois clubes têm a maior rivalidade do país, com o clássico sendo chamado de "Dérbi Eterno", mas a torcida da equipe da capital é bem maior e também tem presença no litoral. Zagreb tem quatro vezes a população de Split, e a proporção entre as torcidas é bem parecida. Mesmo assim, não deve ser fácil gritar gol do Dinamo por lá, isso porque em Split ou você torce para o Hajduk Split ou você finge que torce para o Hajduk Split.

E é da principal torcida organizada do Hajduk que vem a história mais curiosa. Em 1950, um grupo de estudantes de Split, que estudavam em Zagreb, decidiu fundar um grupo organizado para fazer uma enorme festa no clássico que aconteceria com o Estrela Vermelha, de Belgrado, capital da Iugoslávia. Vjenceslav Zuvela, Ante Doric, Ante Ivanisevic, Sime Perkovic, Pocrnjic, Ticic e Vlado Mikulic só não sabiam que nome dar ao grupo.

No meio do ano, a Copa do Mundo que aconteceu no Brasil teve grande repercussão entre os fãs de futebol no país, e por causa da competição os estudantes conheceram a palavra "torcida". Assim, em 28 de outubro de 1950, surgiu a Torcida, principal organizada do Hajduk Split até os dias atuais. No dia seguinte, a equipe croata bateu a sérvia por 2 a 1. Ao final da temporada, o Hajduk foi campeão nacional invicto.

Em uma nação fundida pelo papel e não por ideologias semelhantes, era natural a perseguição de Belgrado aos revoltosos. A Torcida passou, então, a ser alvo do governo sérvio, que via nela uma forma de a população de Split se manifestar contrariamente ao regime do ditador Tito.

Nas semanas seguintes à fundação, a Torcida teve seu líderes presos e foi proibida de existir. A partir daí, foram três décadas de atuação clandestina. Nada de bandeiras ou símbolos.

Divulgação
A famosa Torcida do Hajduk Split
A famosa Torcida do Hajduk Split

Um governo ditatorial, porém, nunca conseguirá reprimir tudo que deseja. Os integrantes da Torcida seguiam se reunindo na arquibancada leste do Stari Plac. Cantavam e protestavam. A violência cresceu muito nesse período.

Somente em 1980 a Torcida saiu da clandestinidade, e na década seguinte foi decisiva para os croatas na Guerra da Iugoslávia, que desfragmentou toda região.

Assim como outros grupos organizados de torcedores, sempre acostumados ao combate entre si e com policiais, os integrantes da Torcida estavam na linha de frente das batalhas contra os sérvios. Uma placa no setor norte do estádio Poljud lembra os nomes de 27 membros da organização que morreram na guerra pela independência da Croácia.

Por toda essa história, pelo seu significado para o povo, o Hajduk Split não é apenas um clube de futebol. É muito mais do que isso. É a representação de toda população local diante dos opressores.

Trata-se da melhor forma de se mostrar para o resto do país, para todo continente e para o mundo. No passado, era a força contra a Sérvia; Hoje em dia, a rivalidade com Zagreb.

O clube não é chamado de Dalmatinski ponos, Orgulho da Dalmácia, à toa.

Nesta quinta-feira o Hajduk Split recebe o Everton, pelos playoffs da Liga Europa, e a ESPN Brasil transmite o jogo ao vivo, a partir de 16h. Na ida, os ingleses venceram por 2 a 0.

O curioso caso de Diego Costa

Gustavo Hofman

Getty
Diego Costa fala no celular durante treino com a seleção da Espanha
Diego Costa fala no celular durante treino com a seleção da Espanha

O imbróglio envolvendo Diego Costa e o Chelsea é surreal. Afinal, o atacante de 28 anos foi decisivo no título dos Blues na temporada passada, ao marcar 20 gols e dar sete assistências em 35 jogos na Premier League. Mesmo assim, foi descartado por Antonio Conte.

Em 14 de janeiro, Diego ficou fora do jogo contra o Leicester, afastado pelo treinador italiano. O jogador reclamava de dores nas costas, mas o departamente médico do clube não estava convencido sobre as reclamações, e Conte ficou ao lado dos médicos. Isso gerou a discussão entre os dois, em meio às especulações de que o Chelsea teria uma proposta de 90 milhões de euros do Tianjin Quanjian pelo atleta. No final, ele permaneceu e foi reintegrado. Oficialmente, Stamford Bridge não discute questões disciplinares publicamente.

Já em 7 de junho, após o amistoso da Espanha com a Colômbia, empate em 2 a 2, o jogador declarou para repórteres que Antonio Conte lhe mandou uma mensagem de celular, avisando que estava fora dos planos para a próxima temporada. De acordo com o jornal As, as exatas palavras escritas foram: "Olá, Diego, espero que você esteja bem. Obrigado pela temporada que passamos juntos. Boa sorte no próximo ano, mas você não está no meu plano". A partir daí, a confusão apenas aumentou.

O jogador recebeu autorização do clube para estender as férias em julho, mas teria que se apresentar posteriormente. O Atlético de Madrid demonstrou interesse na contratação e um negócio ficou próximo de acontecer, com ele indo para o Milan até o final do ano e se transferindo para a Espanha em janeiro de 2018, quando o Atleti estará liberado novamente pela Fifa para registrar novos atletas. Os valores oferecidos pelos espanhóis não chegaram perto do que os ingleses queriam e a situação permanece estagnada.

Nesta semana, o Chelsea multou o jogador em duas semanas de salários (300 mil libras) e teria estabelecido quatro demandas, de acordo com o ESPN FC: retorno à Inglaterra, volta aos treinos, recuperação do condicionamento físico e disponibilidade para os jogos. Diego, que está em Lagarto-SE, sua terra natal, afirma que o Chelsea quer que ele treine separadamente do elenco principal. Em recente entrevista ao Daily Mail, comentou a situação.

"Estou esperando o Chelsea me deixar livre. Eu não queria sair, estava feliz. Quando o treinador não te quer, você tem que ir. Se você perguntar isso aos meus companheiros, todos vão concordar. Eles me mandaram mensagens dizendo que sentem minha falta e que me amam. (...) Em janeiro as coisas aconteceram com o treinador. Eu estava prestes a renovar meu contrato e eles frearam isso. Eu suspeito que o treinador esteve por trás disso. Ele pediu para que isso acontecesse. Suas ideias eram muito claras. Vi o tipo de pessoa que ele é. Ele tem a própria opinião e não vai mudar. (...) Eu o respeito como técnico. Ele tem feito um bom trabalho e posso ver isso, mas não como pessoa. Ele não é um treinador muito próximo dos jogadores. Ele é muito distante, não possui carisma".

Ricardo Cardoso, advogado e representante legal do jogador, concedeu entrevista à agência EFE e comentou os aspectos legais de toda essa confusão, naturalmente defendendo seu cliente. "Esse comportamento discriminatório torna impossível o retorno de Diego Costa ao Chelsea, enquanto o treinador for Antonio Conte, não existindo nenhuma condição para que possa seguir jogando no Chelsea, o que já foi transmitido em várias ocasiões aos responsáveis. Atualmente ele não admite jogar em outro clube que não seja o Atlétido de Madrid, clube onde teve êxito esportivo, mas acima de tudo onde foi respeitado e considerado por todos, inclusive quando se transferiu para o Chelsea". O clube, hoje em dia, afirma que comunicou sobre a decisão de não continuar com Diego Costa em janeiro ao representante do atleta.

O blog ouviu o advogado João Henrique Chiminazzo, especialista em direito esportivo e que cuida de vários imbróglios semelhantes no Brasil, acerca da situação envolvendo Diego Costa e o Chelsea. "É difícil julgar se há certo ou errado, mas pelo que foi divulgado, o clube disse claramente que não queira contar com o jogador. Partindo desta premissa, pode-se dizer que o clube agiu em desacordo com o princípio da estabilidade contratual pregado pela Fifa. Embora seja importante frisar que o atleta também não poderia se negar a se reapresentar no clube, mas isso não autoriza a multa aplicada", garante.

Então há assédio moral por parte do clube? Mas e o jogador, não está abandonando o trabalho? "A postura do Chelsea é exemplo claro de assédio moral. Primeiro disse que não iria contar com o jogador e depois afirma que o atleta irá treinar separado. Essa atitude caracteriza o assédio moral, pois tenta impor ao atleta condição desfavorável, estimulando que o atleta peça a rescisão contratual. Difícil falar de abandono de trabalho, uma vez que o clube afirmou não querer contar com o atleta", analisa Chiminazzo. "Acho difícil o atleta perder toda a temporada. O clube já disse publicamente que não quer contar com ele. Se a disputa for à Fifa, fatalmente o atleta conseguirá atuar em outra equipe".

Está evidente que tudo foi pessimamente conduzido pelos envolvidos. Chegou-se a uma situação de desvalorização do jogador e desgaste do clube, além do treinador. A decisão de Antonio Conte é muito mais disciplinar do que técnica, apesar de não descartar o segundo item. Entre Diego Costa, Michy Batshuayi e Álvaro Morata, fico com a primeira opção.

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