Brasil, decime qué se siente

Gustavo Hofman

Gustavo Hofman: 'O Brasil teve o controle de todo o jogo, o Chile pouco ameaçou no segundo tempo'

A pressão que existia naquela tarde de primeiro de setembro, em Quito, era enorme. A Seleção Brasileira estava fora da zona de classificação para a Copa do Mundo e tinha um adversário difícil, colocado à frente na tabela e sem perder para o Brasil em casa há 33 anos. Tite estreava e ainda promovia Gabriel Jesus ao posto de atacante principal. A vitória por 3 a 0 foi convincente e deu início a uma revolução necessária na equipe após a segunda passagem de Dunga.

Faço questão de ressaltar e lembrar os primeiros passos, porque tudo que aconteceu de lá para cá foi impressionante.

Rapidamente o time ganhou padrão tático e uma formação titular, que teve uma única mudança na troca de Willian por Philippe Coutinho. Recuperou a confiança própria e da torcida; Potencializou o talento de seus principais jogadores, como Neymar e Philippe Coutinho, e voltou a ser uma das favoritas ao título mundial.

Agora, naturalmente, a cobrança mudou. Os adversários já conhecem o jeito dessa equipe jogar, logo, alternativas são necessárias e já existem. Variações de posicionamento de alguns atletas e mudanças táticas também: 4-1-4-1 para 4-2-3-1, com Willian de volta e Coutinho por dentro; Casemiro e Fernandinho jogando juntos, deixando o meio mais marcador; Roberto Firmino como atacante central ou pelos lados; Renato Augusto e Paulinho invertendo os lados.

Contra o Chile, muita gente esperava mais testes. Na coletiva, Tite deixou clara sua ideia (e dilema): testar ou fortalecer? Ele optou pela segunda resposta, e acerta na minha opinião, justamente por não ter o grupo fechado e, a cada jogo, sem mudar tanto a estrutura, buscar opções como as mostradas no parágrafo acima. É o suficiente? Lógico que não, mas não há tempo para fazer tudo isso.

São apenas mais duas convocações e quatro amistosos (seis substituições possíveis em cada) até a definição do grupo que irá ao Mundial. Contra os chilenos, Ederson foi tranquilo e seguro. Dificilmente perderá uma das três vagas, até por jogar regularmente (e bem) pelo Manchester City. Alex Sandro é muito bom lateral, muito bom mesmo - e todos que assistem o Campeonato Italiano confirmam isso nas partidas da Juventus. Está, definitivamente, na briga com Filipe Luís para ser reserva do melhor lateral-esquerdo do mundo.

É curioso que há um paradigma no tempo em relação ao início da Copa: é curto para a preparação da Seleção, por ter uma comissão técnica nova, mas é longo para os jogadores, que terão toda temporada europeia e também a brasileira pela frente. Por isso muita coisa ainda pode acontecer, para o bem e para o mal para os atletas.

Tite ressalta muito a observação dos jogadores no dia a dia de seus clubes e, quando convocados, na Seleção. O trabalho conduzido pela comissão técnica é fundamental para isso.

Getty
Tite durante o jogo contra o Chile
Tite durante o jogo contra o Chile

Cada vez mais tenho a convicção que o treinador em modalidades coletivas é um gestor de pessoas, e não me refiro apenas aos atletas, e sim a todo grupo de trabalho. Em recente conversa que tive com o treinador do basquete do Flamengo, José Neto, ele me apontou pontos importantes observados durante período passado com a seleção norte-americana de basquete: grande número de profissionais trabalhando com os jogadores. Na prática, descentralização, e é o que Tite faz. Ele toma as decisões, mas baseadas em enorme trabalho de todos da comissão técnica, além do seu próprio conhecimento.

Ainda existem dúvidas sobre a Seleção Brasileira. Não apenas na lista final de atletas, mas no próprio desempenho, que tem sido o ponto forte desse time. Contra adversários sul-americanos, o Brasil sobrou, mas contra os fortes da Europa? Alemanha e França são as outras favoritas ao título da Copa. Destaco o crescimento da Espanha nos últimos jogos. Jorge Sampaoli vai deixar a Argentina mais competitiva até lá. Enfim, o trabalho continua e segue árduo.

Há ainda Neymar. Desde que ele se tornou jogador do Paris Saint-Germain, seu desempenho na Seleção ficou mais individualista. Sim, deu a assistência para o Gabriel contra o Chile, mas fez um primeiro tempo em que ele segurou demais a bola, assim como fora contra a Colômbia. Ponto a ser trabalhado em Paris e em Brasília (apenas uma figura de linguagem).

Obviamente, o Brasil não pode se acomodar. Basta olhar para erros em preparações anteriores a Mundiais e constatar equívocos básicos, como fechamento de grupo muito cedo, oba-oba de parte da imprensa e da torcida, além da velha e traiçoeira soberba. Sinceramente, não acho que vá acontecer com essa Seleção, assim como isso não garante título. De qualquer modo, é muito bom perceber que os jogos do Brasil voltaram a ser prazerosos. Essa é uma grande conquista.

Em 2014, o Decime qué se siente fez sucesso nas arquibancadas. Se cantassem para mim agora, eu diria que me sinto muito bem com a Seleção Brasileira.

O choro de tristeza e de alegria que tomou conta da Costa Rica

Gustavo Hofman

Assista aos gols de Costa Rica 1 x 1 Honduras

As duas notícias mais lidas no site do jornal La Nación neste sábado à noite mostram a mistura de sentimentos que a Costa Rica vive.

'Daños de tormenta Nate en vías son de proporciones titánicas'
Kendall Waston revive a la 'Sele' y Costa Rica festeja el pase al Mundial

Onze pessoas morreram e muitas estão desaparecidas por causa da passagem da tormenta tropical Nate pelo país, que ainda teve suas principais rodovias seriamente danificadas. Justamente por causa desse desastre natural, o jogo entre a seleção costarriquenha e Honduras foi adiado de sexta para sábado, e terminou com a classificação dos Ticos.


Com o Estádio Nacional, na capital San José, lotado, a torcida viu os hondurenhos abrirem o placar aos 21 minutos do segundo tempo, com Gabriel Hernández. Placar justo até então, mas insuficiente para confirmar a classificação da Costa Rica para a Copa do Mundo. Coube a Kendall Waston de maneira dramática, aos 50 minutos, fazer o gol que levará pela quinta vez a Costa Rica a um Mundial.

O passaporte para a Rússia já estava praticamente carimbado com a goleada dos Estados Unidos na noite anterior por 4 a 0, mas a confirmação oficial sempre merece atenção especial. Tanto é que os jogadores "responsáveis" pelas outras classificações foram lembrados, casos de Pastor Fernández (1990), Rolando Fonseca (2002), Paulo César Wanchope e Carlos Hernández (2006) e Rándall Brenes (2014).

Curioso que, desta vez, houve para a imprensa costarriquenha clima de vingança no ar. O treinador de Honduras é o colombiano Jorge Luis Pinto, justamente o comandante da espetacular campanha da Copa no Brasil, quando a Costa Rica caiu apenas nas quartas de final, nos pênaltis para a Holanda. Ele optou há três anos por não levar o zagueiro Waston para o Mundial, mas o próprio jogador fez questão de afastar qualquer revanchismo.

"Não é vingança, nem revanche, muitos falam que havia uma revanche contra o José Luis Pinto ou não. Na realidade, eu assumo minha responsabilidade de que talvez, naquele momento, não dei tudo que teria que dar, então não é uma revanche", disse depois do jogo, em plena festa e fazendo rara mea-culpa, o defensor do Vancouver Whitecaps, da Major League Soccer.

Obviamente, quem foi atingido gravemente pela tempestade ou perdeu um ente querido não parou para celebrar a classificação. Segundo dados oficiais do Governo, cerca de sete mil pessoas estão desabrigadas, 500 mil sem abastecimento de água potável e 18 mil sem energia.

Mesmo assim, em albergues espalhados pelo interior do país, famílias se reuniram para acompanhar a partida. Matéria do La Nación mostra os exemplos de Santa Cruz de Guanacaste e Ciudad Cortés, em que o futebol foi mais uma vez capaz de levar momentos de alegria, apesar de toda dor ao redor.

O que devemos observar nos dois próximos jogos da Seleção

Gustavo Hofman

Mowa Press
Tite não fala em grupo fechado, mas tem boa base definida
Tite não fala em grupo fechado, mas tem boa base definida

Nesta segunda-feira começou a penúltima semana da Seleção Brasileira nas eliminatórias para a Copa do Mundo. Na quinta enfrenta a Bolívia em La Paz e cinco dias depois encara o Chile, no Allianz Parque, em São Paulo. Depois disso, serão mais dois amistosos em novembro, contra Japão e Inglaterra, e outros dois em março de 2018, Alemanha já confirmada e Rússia como objetivo. Na preparação final para o Mundial, já com os 23 convocados, Tite certamente terá mais um ou dois jogos para o acerto final.

Por causa do excelente rendimento em campo, do padrão tático bem estabelecido e os ótimos resultados obtidos, a base tem boa definição. O grupo, porém, não está fechado, e o treinador da Seleção faz questão de ressaltar isso sempre que possível - e até mesmo para estimular a competição entre os atletas. Logo, existem pontos importantes a serem observados nas duas próximas datas.

Willian, Philippe Coutinho ou os dois juntos?

Contra o Equador no ano passado, em seu primeiro jogo, Tite escalou Alisson, Daniel Alves, Marquinhos, Miranda e Marcelo; Casemiro; Willian, Paulinho, Renato Augusto e Neymar; Gabriel Jesus. Naquela partida e na seguinte, contra a Colômbia, o jogador do Chelsea foi substituído no segundo tempo por Philippe Coutinho. Um mês depois, contra Bolívia e Venezuela, o meia do Liverpool já tinha se tornado titular. O período foi um dos mais difíceis da vida de Willian, que viu sua mãe lutar bravamente contra um tumor até falecer em 12 de outubro.

Devido o pedido feito ao Liverpool para ser negociado e todo imbróglio envolvendo a sua não-ida ao Barcelona, Coutinho perdeu espaço entre os titulares justamente para Willian, que teve boas atuações contra equatorianos e colombianos no returno das eliminatórias. Agora, porém, o ex-jogador do Vasco recuperou a boa fase nos Reds e vem, inclusive, com três gols marcados nos últimos três jogos, mas alternando posições entre a segunda e a terceira linhas. Esse é um detalhe importantíssimo.

No 4-1-4-1, Willian e Coutinho brigam pela vaga aberta pelo lado direito - algo natural para o meia do Chelsea e função invertida para o meia do Liverpool (o que jamais atrapalhou na Seleção). Só que Tite, no difícil 2 a 0 contra os equatorianos há pouco mais de um mês, mudou a formação tática para o 4-2-3-1, com Coutinho saindo do banco, entrando na vaga de Renato Augusto e se tornando meia-atacante central. A mesma situação aconteceu diante dos colombianos na sequência.

Nessas duas partidas, as atuações irregulares do ex-jogador do Corinthians colaboraram para as alterações. Só que o meia do Beijing Guoan tem crédito suficiente, conquistado nas eliminatórias, para não ser sacado em definitivo do time apenas por isso.

Assim, temos alguns cenários possíveis para os jogos contra Bolívia e Chile. Se Willian for mantido entre os titulares no 4-1-4-1, terá mesmo recuperado seu lugar; Caso contrário, aquela formação que parecia definitiva, com Coutinho, voltará; Acho improvável o 4-2-3-1 ser escolhido desde o início, é muito mais uma variação de jogo utilizada por Tite em todos seus últimos times, mas não pode ser descartado para ter Willian e Coutinho como titulares.

Reservas de Daniel Alves e Marcelo

Não eram posições que pareciam abertas. Afinal, até a última convocação, Fágner era o único jogador presente em todas as listas anteriores de Tite - a pegadinha aqui está no amistoso contra a Colômbia, no Rio de Janeiro. Foi titular contra o Paraguai, na Arena Corinthians, quando o lateral do Paris Saint-Germain estava suspenso e deu conta do recado. Já na esquerda, sempre que Marcelo foi desfalque, Filipe Luís fez bem a função.

Só que a atual lista teve Danilo na vaga de Fágner e os dois laterais esquerdos machucados, abrindo espaço para Alex Sandro e Jorge, atletas de Juventus e Monaco, respectivamente.

Para o lateral do Manchester City será mais difícil mostrar serviço em campo, salvo algum problema que Daniel Alves possa ter. Será orbigado a mostrar qualidade e comprometimento no dia a dia. Já Alex Sandro terá a grande oportunidade de colocar um bom questionamento a Tite. Caso tenha boas atuações, levantará o debate sobre o reserva de Marcelo. Até mesmo pelas características.

Alex Sandro é mais ofensivo, faz melhor as jogadas de linha de fundo; Filipe Luís fecha melhor o setor, marca melhor, inclusive por estar em um dos melhores sistemas defensivos há algumas temporadas (Diego Simeone).

Quarto zagueiro da lista, meia(s) e atacante

Marquinhos, Miranda e Thiago Silva vão para a Copa se não tiverem problemas até lá. Gil era o quarto da lista, disputando espaço com Rodrigo Caio - apesar do merecimento de Pedro Geromel. Jemerson cresceu muito nos últimos meses e foi a bola da vez nesta convocação. Outro caso de atleta que terá que trabalhar muito no dia a dia, já que não deve ganhar oportunidade para jogar.

Do meio para a frente a atual lista ficou interessante. Lucas Lima, Giuliano, Douglas Costa e Taison, nomes frequentes nas outras convocações, ficaram de fora. Diego, Fred, Arthur e Diego Tardelli ganharam chances, assim como Luan teve na outra. Diego Souza, hoje, é carta fora do baralho.

Duvido que o meia do Fenerbahçe, ex-Zenit, tenha perdido espaço. Tite deve ter deixado Giuliano de fora mais para testar e conhecer opções, no caso Fred e Arthur. Diego e Lucas Lima são peças importantes para se ter no banco e mudar um jogo, uma formação tática. Já Douglas Costa teve queda de rendimento nos últimos meses - clubes e seleção - e Taison não me parece um nome inquestionável.

Como Roberto Firmino pode fazer as funções de lado ou central no ataque, a comissão técnica não ficaria sem esse tipo de opção no banco ao convocar Tardelli. Dependendo do que ocorrer em campo contra bolivianos e chilenos, o ex-atacante do Atlético Mineiro tem boas chances de entrar e jogar por alguns minutos.

De resto, não há muitos segredos. Nomes questionados há um ano são titulares de Roma e Barcelona, por exemplo. Os justos pedidos por Vanderlei na Seleção não formam um clamor nacional, como foi com Romário em 1998, por exemplo, mas seguirão como sombra a Cássio. O Brasil se colocou novamente como uma das principais seleções do mundo e voltou a ser um dos favoritos.

A Eslovênia foi protagonista do maior feito esportivo do final de semana

Gustavo Hofman

ESPN
A Eslovênia foi campeã europeia de basquete pela primeira vez em sua história
A Eslovênia foi campeã europeia de basquete pela primeira vez em sua história

São dois milhões de habitantes apaixonados por futebol, basquete, hóquei no gelo e handebol. Os esportes de inverno e radicais também aparecem entre os favoritos, afinal, a Eslovênia é um país abençoado pela natureza. Tanto é que o símbolo nacional, presente no brasão de armas e nos uniformes das seleções, é o Monte Triglav, ponto mais alto de seu território, com 2864 metros.

No domingo, cerca de quatro mil eslovenos viajaram até Istambul, na Turquia, para acompanhar a final do Eurobasket. Pela frente os eslovenos tiveram a fortíssima seleção sérvia e venceram por 93 a 85. Em Ljubljana, a belíssima e aconchegante capital do país, a população lotou os bares e comemorou nas ruas o maior feito esportivo do jovem país. 

Foi a primeira medalha da história do basquete da Eslovênia em todos os tempos.  Até então, a melhor classificação havia sido o quarto lugar em 2009. Os eslovenos disputam as competições como nação independente desde 1992, jamais estiveram em Olimpíadas e em Mundiais o melhor que já obtiveram foi um sétimo lugar em 2014.

No domingo, a Eslovênia parou para acompanhar um jogo de basquete. 



A campanha foi impecável. Na primeira fase, vitórias contra França, Finlândia, Grécia, Polônia e Islândia; Depois classificações contra Ucrânia e Letônia, até a histórica semifinal contra a favorita Espanha. Diante dos irmãos Gasol, mais uma vez as estrelas eslovenas brilharam e garantiram o passaporte para a decisão.

Goran Dragic, jogador do Miami Heat, foi eleito o MVP do torneio. Ele foi o quarto cestinha da competição, com 22.6 pontos por partida e uma atuação inesquecível na final, com 35 pontos. Luka Doncic mostrou, mais uma vez, porque é a maior sensação do basquete mundial na atualidade. O armador do Real Madrid de 2m01 e 18 anos entrou na seleção final de maneira muito merecida (14.3 pts, 8.1 reb e 3.6 ast) - aliás, potencial primeira escolha do próximo draft.

E a vitória sobre a Sérvia foi tão épica, que aconteceu sem os dois astros nos últimos minutos. Dragic estava extremamente desgastado e Doncic se machucou no terceiro quarto. Foi quando apareceu Klemen Prepelic, de 24 anos, jogador do Limoges, da França, com cestas decisivas e chamando a responsabilidade. 
Tudo sob o excelente comando do técnico Igor Kokoskov, que trabalhou por muito tempo como assistente na NBA.

Branko Oblak, um dos maiores jogadores e treinadores de futebol da Eslovênia em todos os tempos, comparou Dragic a Lionel Messi. O Delo, principal jornal do país, tratou os jogadores como "os 12 invencíveis". Todos receberão do presidente, Borut Pahor, a ordem do mérito esportivo. 

Nesta segunda, a população saiu novamente de casa para recepcionar seus heróis. Os eslovenos reconhecem o domingo mais especial da história esportiva do país, e quem teve a oportunidade de acompanhar também se emocionou e torceu.

O Vitória de Guimarães não escalou europeus como titulares na Liga Europa

Gustavo Hofman

Assista aos gols do empate entre Vitória de Guimarães e RB Salzburg em 1 a 1!

Douglas Jesus (BRA), Víctor García (VEN), Jubal (BRA), Pedrão (BRA) e Ghislain Konan (CMR); Paolo Hurtado (PER), Alhassan Wakaso (GAN) e Guillermo Celis (COL); Sebastián Rincón (COL), David Teixeira (URU) e Raphael (BRA). Esse foi o time que o Vitória de Guimarães mandou a campo na estreia pela Liga Europa, diante do Red Bull Salzburg, na quinta-feira.

Foi a primeira vez que um clube não escalou ao menos um jogador nascido na Europa nas fases decisivas das competições continentais  - o Beveren, da Bélgica, fez isso em dois jogos pelas fases preliminares da Copa Uefa de 2004-05, contra Levski Sofia e Vaduz. Quatro brasileiros, dois colombianos, um venezuelano, um peruano, um uruguaio, um marfinense e um ganês formaram o 11 titular definido pelo técnico Pedro Martins, que não se importou muito com o fato inédito. Sebastián, inclusive, é filho de Freddy Eusebio Rincón.

"Não vejo as coisas dessa forma. São jogadores que vestem e honram a camisa do Vitória, se têm qualidade merecem estar aqui. Não jogaram portugueses ou europeus, mas muitos deles fazem parte da formação do Vitória", explicou o treinador na coletiva de imprensa depois do empate em 1 a 1 no estádio Dom Afonso Henriques.

Pelo Campeonato Português, onde o Vitória é o sétimo após cinco rodadas, a escalação chegou perto de ficar seu europeus. No domingo, o triunfo por 1 a 0 sobre o Boavista contou com apenas dois portugueses entre os titulares, Kiko e Sturgeon. O primeiro, inclusive, entrou durante o empate com o Salzburg - assim como mais um brasileiro, Rafael Miranda, e um cabo-verdiano, Héldon.

O Vitória de Guimarães está no grupo de times considerados a quarta força de Portugal. Foi campeão da Taça de Portugal em 2013 e na temporada passada ficou atrás apenas dos três grandes do país na classificação do Campeonato Português - por isso joga a Liga Europa agora. Vinte e nove jogadores aparecem na lista do plantel disponibilizada pelo site oficial do clube. São 12 portugueses, além de toda comissão técnica, também oriunda de Portugal. Todos os demais nasceram na América do Sul ou na África. Essa é uma realidade comum no país, onde a maioria dos clubes tem muitos estrangeiros, principalmente brasileiros. Já houve casos de times que disputaram partidas pela primeira divisão sem atletas portugueses.

"O impacto dos estrangeiros em Portugal já foi mais positivo. Tivemos uma primeira onda de jogadores brasileiros de nível muito alto que deram muita qualidade ao nosso jogo. Depois, pelos anos 90, começaram as ondas de jogadores de leste, da Bulgária, Romênia, mais tarde também da ex-Iugoslávia. Uma vez mais esse impacto foi positivo, criando maior competição pelos lugares nos plantéis e maior capacidade de escolha. Hoje em dia, o número de estrangeiros estará já um pouco influenciado pela forma como os empresários olham para Portugal, como porta de entrada para outros campeonatos. Por haver menos capacidade financeira, a qualidade dos jogadores também baixou. E vivemos uma situação em que a classe média de jogadores portugueses sai para outras ligas europeias médias, como Chipre, Romênia, Bulgária, enquanto a nossa Liga tem um número muito elevado de estrangeiros", avalia o comentarista da Eurosport Portugal, Luís Cristóvão.

A natural preocupação que surge envolve a formação de atletas. Recentemente, porém, as seleções portuguesas menores obtiveram bons resultados. Em 2015 foi vice-campeã europeia sub-21, no ano passado ganhou o Mundial sub-17 e em julho deste ano ficou com o vice no Europeu sub-19. Além disso, nomes importantes surgem desse trabalho de base, como o meia Renato Sanches, por exemplo.

"O número de estrangeiros na Liga é uma consequência da profissionalização e do mercado. As equipes querem ter as melhores opções possíveis e procuram por todo o mundo. Acho essa competição saudável para o jogador português. O problema é termos visto nos últimos anos um número muito grande de estrangeiros também no Campeonato Nacional sub-19. Muitos jovens africanos e brasileiros aparecem nessas equipas. Aí, talvez já possamos falar de um entrave à competição de jovens jogadores nacionais em formação. E sim, por aí, poderá haver um problema maior para encontrar jogadores em termos de futuro. Ainda assim, no plano atual, Portugal continua a ter muitas e boas escolhas para as suas seleções jovens. Apesar de haver essa preocupação, a maioria das pessoas ainda não vê isso como algo que precisa ser mudado", alerta Cristóvão.

mais postsLoading