8.821 dias depois: Grazie, Totti!

FILIPPO MONTEFORTE/AFP/Getty Images
Totti Roma Austria Vienna Liga Europa 20/10/2016
Francesco Totti se despede da torcida da Roma no domingo, a partir de 12h, na ESPN Brasil


Quando as luzes do estádio Olímpico se apagarem no início da noite do próximo domingo após a partida contra o Genoa, a cidade de Roma, e não apenas seu time mais conhecido, terá perdido um de seus grandes monumentos, um símbolo como o Coliseu.

Parece exagero, eu sei. Mas o adeus de Francesco Totti do futebol romano e romanista, ainda que não signifique o fim de sua carreira como jogador, tem um peso de difícil compreensão para aqueles que não viveram os dias da capital italiana de alguma forma mais próxima ao menos em parte de seus últimos 24 anos.

Porque Roma perde sua figura mais célebre. Mais presente, mais comentada, discutida, amada ou até contestada. E deixem o Papa em paz, porque falamos da Roma dos romanos.

No que se baseia e como se constrói a idolatria dentro futebol? Com títulos? Com gols, recordes e conquistas pessoais? Ou com fatores que extrapolam essa visão meramente matemática do esporte?

No caso de Totti, a resposta é simples.

Danem-se os números. Eles são apenas consequências.

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Totti ano a ano, em figurinhas
Totti ano a ano, em figurinhas: 24 anos em um único clube

Desde o dia 28 de março de 1993, quando, com apenas 16 anos e 28 dias de idade, ele estreou vestindo a camisa da Roma em um jogo contra o Brescia, Totti colecionou marcas incontestavelmente relevantes.

Tornou-se o jogador com mais partidas pelo clube, e também o maior artilheiro de sua história. Num time pouco acostumado com títulos, ganhou o terceiro scudetto romanista, quando havia quase 20 anos que isso não ocorria. Levou ainda duas Copas e duas Supercopas da Itália. Foi quem mais jogou o derby romano, e quem nele mais marcou gols. Vestindo a camisa 10 da seleção italiana, foi também campeão do mundo.

Mas o número mais relevante nessa história toda são os 8.821 dias transcorridos desde sua estreia em 1993, passando pelo dia em que recebeu a faixa de capitão do seu ídolo Aldair, até chegar à despedida deste 28 de maio. Dias em que Totti não quis vestir outra camisa que não a do seu time de coração, na cidade que tanto ama: "Cresci em Roma e morrerei em Roma. Gosto da sensação e ter nascido e virado grande na cidade mais bonita do mundo".

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Totti mosaico
Mural com a imagem de Totti no bairro de Monti

Aos que mensuram o tamanho de um jogador por seus títulos, lamento. Certas escolhas valem mais que qualquer troféu, e talvez tenha faltado um Totti no seu time para que você pudesse compreender.

O moleque da Curva Sud virou gandula. O gandula virou promessa. A promessa virou realidade, e a realidade virou Rei. Pois bem: o moleque que virou Rei tem hoje uma relação com sua torcida e seu povo que, arrisco dizer, não encontra paralelo algum no futebol atual, em parte alguma do planeta. Porque não estamos falando "só" de futebol.

Nos quase 9 mil dias transcorridos desde sua estreia (e até antes disso), Totti recusou ofertas realmente importantes para deixar a Roma. Baqueou e admitiu ter tido dúvidas em uma ocasião apenas, quando assediado pelo Real Madrid. Ao abrir mão de atuar na capital espanhola, não deixou apenas de ganhar mais dinheiro (embora tivesse um salário de primeiro nível em Roma). Deixou de lado a fama em outra proporção. Deixou também a chance ser campeão toda hora. De concorrer a melhor do mundo, até.

Mas, de novo: dane-se. Dane-se a Bola de Ouro da Fifa e seus engomadinhos. Dane-se em quem votou o técnico das Ilhas Maurício ou do Suriname.

O orgulho que Totti propiciou à torcida romanista com aquele e com outros "nãos" vale tanto quanto ou até mais que troféus. Até porque, sem menosprezos ou diminuições a outras grandes bandeiras do futebol, é mais fácil dizer "não" a boas propostas para dedicar sua vida ao Milan ou ao Manchester United do que fazê-lo em um clube com três títulos nacionais em sua história.

Ainda assim, longe do Real, il capitano não pode reclamar de reconhecimento.

Em seus momentos de triunfo internacional, como o título mundial com a Itália, o gol contra o City que lhe tornou o jogador mais velho a marcar numa Champions League, a Chuteira de Ouro de 2008 após sua primeira temporada como atacante ou mesmo algumas partidas nas quais exibiu sua classe única nos principais gramados da Europa, não lhe faltaram exaltações dos maiores. De quem conta.

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Maradona e Totti durante partida beneficente em março de 2016
Maradona sobre Totti: "melhor que vi jogar"

Em que pese seu apreço por superlativos, Maradona rotulá-lo como "o melhor que vi jogar" foi só a mais recente (e não foi a primeira vez) dessas exaltações. Zidane, Messi e tantos outros já fizeram coro com declarações que atribuíram a Totti um status que, para quem só acompanha os jogos mais badalados do futebol europeu (leia-se reais e barcelonas), talvez seja uma surpresa.

A estas exaltações individuais, é preciso somar, ao longo de toda sua carreira, as manifestações de admiração por parte de torcidas adversárias como Real Madrid, Valencia, Manchester City, Bologna.... e até Lazio! A faixa "Os inimigos de uma vida saúdam Francesco Totti", exibida em um jogo dos arquirrivais no dia 21 de maio, tem um peso e um significado difícil até de mensurar.

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Faixa dos torcedores da Lazio saúdam Totti:
A mais inesperada das homenagens. Laziales saúdam Totti: "inimigo de uma vida"

Trata-se, evidentemente, de reconhecimento à fidelidade, ao amor por um clube que, sem exceção, qualquer torcedor gostaria de ver em seu time. Mas trata-se, também, de reconhecimento a uma qualidade técnica absolutamente fora do comum e, acima de tudo, sempre colocada a favor do time, do conjunto, de suas cores.

Porque, embora seja o maior artilheiro da história da Roma, Totti nunca atuou para si, nunca foi aquele jogador ávido por gols e que não comemora aqueles de seus companheiros. Pelo contrário: mais que seus lindos gols, sua qualidade mais sublime são os passes, as assistências. A capacidade de mudar tudo, absolutamente tudo, com um toque de um microssegundo aliado à sua visão de jogo espetacular.

Totti foi o craque em função de um time, não era um time em função do craque.

Neste próximo domingo, contudo, ele estará, sim, acima do clube. E o "Grazie, Roma" cantado tradicionalmente ao final dos jogos terá que dar espaço.

Grazie, Totti!

Rogério Ceni tem razão

Volto ao tema devido às reações que recebi, via Twitter, após meu comentário a respeito do tema no Bate Bola de ontem (vídeo abaixo).

Adriana Spaca/Getty Images
Rogerio Ceni Sao Paulo Defensa y Justicia Copa Sul-Americana 11/05/2017
Rogerio Ceni, após Sao Paulo x Defensa y Justicia na Copa Sul-Americana

Por tudo que ouvimos de Rogério Ceni a respeito da atitude de Rodrigo Caio no clássico contra o Corinthians, posso afirmar que tenho posição contrária à dele. Discordo, também, da teoria de que Jô mereceria o cartão amarelo de qualquer maneira por um suposto empurrão no zagueiro são-paulino.

Mas, concorde-se ou não com a posição e as visões do novato treinador em relação ao fatídico episódio no clássico, é preciso admitir que seu incômodo com a repercussão e os desdobramentos daquele caso é compreensível.

Motivo pelo qual é também compreensível a resposta, considerada por muita gente como irônica e agressiva, dada por ele no programa Bem Amigos desta semana, quando o ex-goleiro afirma "talvez o Rodrigo (Caio) e o Tite sejam melhores pessoas do que eu".

A visão de que concordar com a atitude de Rodrigo Caio nos transforma em pessoas com mais caráter ou mais honestas em relação àquelas que por um motivo ou outro discordam não foi, afinal, uma teoria criada e propagada por Ceni. E essa tese certamente chegou aos seus ouvidos, não poucas vezes.

Convenhamos: é normal que aqueles que se deparam com a teoria acima e discordam da atitude do zagueiro se sintam ofendidos e pretendam responder. A ironia utilizada por Rogério, portanto, é apenas uma forma de zombar de uma afirmação que, mesmo indiretamente, o ofende.

Generalizações maniqueístas como essa, dividindo as pessoas entre boas e más ou honestas e corruptas baseando-se em critérios descabidos como um lance de um jogo de futebol, têm sido, infelizmente, muito comuns no Brasil. E fazem mal.

Rogério Ceni tem seus defeitos, como todos, e talvez agora os exponha ainda mais pela visibilidade e vulnerabilidade da carreira de técnico (que exige entrevistas obrigatórias constantes, bem mais que na época de goleiro).

Neste caso, contudo, Rogério só se defendeu. Como fazia nos tempos de goleiro.

Gian entende resposta de Ceni: 'Discordar do ato de Rodrigo Caio não faz dele uma pessoa pior'

Brasileirão 2017 já tem um recorde, e muito se deve à nova Libertadores

Gilvan de Souza/Flamengo
Flamengo, Guerrero, Maracanã, Campeonato Brasileiro, 2017
Fla x Galo: maior público da 1ª rodada

É verdade que Flamengo, Palmeiras e Corinthians, três dos times que hoje mais levam torcedores aos estádios, jogaram em casa e, não à toa, tiveram respectivamente os três maiores públicos da primeira rodada do Campeonato Brasileiro.

Não deixa de ser significante, contudo, que a rodada inaugural deste Brasileirão tenha tido a melhor média da história da competição desde a adoção dos pontos corridos no Brasil, em 2003, como mostram os dados abaixo compilados pela Footstats.

Footstats
media rodada 1BR
Primeira rodada do Brasileirão 2017 é a que tem a melhor média da história dos pontos corridos

Como se vê, em relação ao ano passado, houve neste ano um acréscimo de 34% na média de público da primeira rodada do torneio.

É difícil ignorar, nesta comparação com anos anteriores, o peso que a mudança da Libertadores tem nessa melhora. Afinal, com a competição continental mais espaçada e num momento menos decisivo em relação ao início de outros Brasileirões, os principais times jogaram com suas equipes mais fortes na estreia deste campeonato nacional.

Porém, mais do que as escalações, as torcidas parecem ter começado o Brasileirão mais interessadas no torneio — ainda que até mais times estejam jogando outras competições em relação a outros anos.

No ano passado, a primeira rodada do Brasileirão ocorreu nos dias 14 e 15 de maio, e os dois clássicos entre Atlético-MG e São Paulo pelas quartas de final da Libertadores, por exemplo, ocorreram nos dias 11 e 18 do mesmo mês. Como torcedores, técnicos e jogadores não priorizariam totalmente o torneio continental neste contexto?

Vale lembrar que, nesta altura do certame sul-americano em 2016, Corinthians, Palmeiras e Grêmio já haviam sido eliminados, e este cenário com tão poucos brasileiros nesta fase da Libertadores certamente não se repetiu em vários outros anos, quando o Brasileirão foi, portanto, ainda mais prejudicado.

É evidente que, neste ano, quando a Libertadores entrar em suas fases decisivas, possivelmente (e provavelmente, até), grandes times do país escalarão equipes mistas ou reservas no Brasileiro.

Mas há aí uma diferença.

Porque uma coisa é fazer com que as equipes tomem suas decisões e façam suas escolhas de priorização ao longo da temporada, de forma eventual e espaçada, e de acordo com os contextos e evoluções nos torneios.

Outra, bem mais absurda, era fazer com que os principais times do Brasil começassem a melhor e mais importante competição do país encarando-a, de cara, como um enorme estorvo. Isso não ocorre mais ou, no pior dos casos, ocorrerá bem menos.

Mérito, ainda que involuntário, da nova Libertadores.

Quando o futebol se basta

Gian Oddi
Gian Oddi
Sud América x Wanderers, primeira divisão do futebol uruguaio
Sud América x Wanderers, primeira divisão do futebol uruguaio

Pense num jogo de futebol em que o sujeito responsável pelos dois gols da virada do seu time deixa o campo e, ainda de uniforme, suado e cheio de terra, encontra sua mulher que há poucos minutos sentava no concreto frio das arquibancadas para caminhar em meio aos torcedores até seu Peugeot 206 estacionado a poucos metros da entrada do estádio, que ele mesmo sai dirigindo.

Isso acontece, e não estamos falando da rua Javari, onde um misto de velhos senhores de camisas grená, famílias curiosas e até alguns hipsters mais interessados nos canolis do que em futebol se juntam para ver um jogo do Juventus da Mooca em divisões inferiores do nosso futebol.

Isso acontece, e pude comprovar in loco no último dia 7, em Montevidéu, na primeira divisão do futebol uruguaio. Isso mesmo: na primeira divisão do futebol bicampeão do mundo que, até antes da "Era Tite", podia se orgulhar até mais que o Brasil pelo desempenho recente de sua seleção.

O jogo do vídeo acima, entre o lanterninha Sud América e um Montevideo Wanderers que vinha de quatro derrotas seguidas e só por isso fora alijado da briga pelo título do Apertura, aconteceu no acanhado estádio Parque Palermo, a poucos metros do histórico e glorioso Centenário. O jogador em questão, Cristian Palacios, é um bicampeão uruguaio pelo Peñarol.

Com um misto entre surpresa e apreço pela singeleza, saí de lá emocionado, admito.

Não sou da turma que odeia as novas arenas, o conforto, as cadeirinhas, as opções gastronômicas, os banheiros limpos e, vá lá, contanto que com moderação e algum senso de ridículo nessa ânsia meio doida que temos de copiar os norte-americanos, nem mesmo contra uma ou outra ação para entreter a turma das arquibancadas nos intervalos.

Por mais que nossa memória afetiva muitas vezes nos pressione a bradar pelo contrário, evoluções costumam ser bem-vindas, além de inevitáveis. E conforto, convenhamos, não machuca ninguém.

Ao mesmo tempo, é bom demais perceber que o futebol não precisa transformar o jogo em si numa parte diminuta de um show hollywoodiano com músicas, luzes e narradores histéricos. É bom ver que ele sobrevive (humildemente, mas bem) sem câmeras de beijos, coreografias pasteurizadas e outras pataquadas. Que não carece de sorteio, salsicha gourmet, pompons e hashtags.

Rogério Andrade
Hora do cafezinho (um pouco doce, é verdade)
Hora do cafezinho (um pouco doce, é verdade)

A paixão de um velho senhor por volta dos 80 anos, que ao fim do jogo caminhou com dificuldade para desamarrar a pequena faixa do Wanderers que colocara no alambrado, dobrá-la com carinho e guardá-la na mochila, tem valor maior que tudo isso. E se bater a fome, a gente se vira, haverá sempre um cafezinho requentado e o velho amendoim para recorrer.

É sempre bom constatar que o futebol precisa de muito pouco para ser tão apaixonante. Precisa apenas de futebol.

O problema é de Rodrigo Caio. E só dele

Gian Oddi
Daniel Vorley/ Agif/Gazeta Press
Rodrigo Caio se destacou pela honestidade em campo
Rodrigo Caio, no fatídico clássico contra o Corinthians


Era previsível e até compreensível a irritação de parte da torcida do São Paulo com o que fez Rodrigo Caio no clássico contra o Corinthians. Afinal, a partir do momento em que a atitude do zagueiro está muito longe do padrão, a tendência é o torcedor considerar seu time prejudicado por dar ao adversário uma vantagem que o adversário jamais lhe daria.

Com exceção do ônus pessoal para o jogador, porém, é impossível encontrar qualquer motivo para criticar sua atitude. Não só pela nobreza do gesto em si, mas pela postura que o são-paulino teve ao não exaltar ou buscar louros pelo próprio ato. Sua entrevista ao sair do campo, breve e séria sobre o tema, foi prova disso: "Fiz o que tinha que fazer".

Escolher o caminho da crítica, no meu ponto de vista, significaria a resignação de que nada pode melhorar no aspecto ético e moral dentro de um campo de futebol. A partir do momento que as críticas possíveis a Rodrigo Caio, todas elas, partem do fato de sua atitude ser incomum, não há como criticá-lo. É o que escreveu Fernando Meligeni em seu blog: se todos fizessem o que fez Rodrigo Caio, por que a torcida reclamaria?

De fato. Se a atitude do zagueiro do São Paulo se tornasse padrão por aqui, no que não acredito, o benfeitor de hoje seria o beneficiado de amanhã. Os árbitros errariam menos, que é uma coisa que todos querem, e os resultados seriam mais condizentes com o que ocorreu dentro de campo, que é outra coisa que todo mundo quer.

Reprodução ESPN
Gian elogia atitude de Rodrigo Caio: 'Ele não quis ser exaltado por isso'
Gian elogia atitude de Rodrigo Caio: 'Ele não quis ser exaltado por isso'


Lamentavelmente, não acredito que atos como o de Rodrigo Caio passem a acontecer rotineiramente. Mas se sua atitude servir para pelo menos inibir e constranger atitudes absolutamente opostas como as simulações bizarras que a gente vê em todas as rodadas, jogos e times do futebol brasileiro, já terá sido um ganho imenso. E nisso me parece possível acreditar.

A argumentação de que o futebol não é uma ilha de honestidade no mundo não deveria ser usada para reprimir atos como o do zagueiro. Porque o esporte é sim, ou pelo menos deveria ser, um meio que não precisa reproduzir todas as mazelas do mundo. Não fosse assim, qual seria o motivo da existência do termo "espírito esportivo"?

Parece lógico que, em relação a outros segmentos da sociedade, o esporte conte com mais espírito esportivo. Ou não?

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