Na Inglaterra, brasileiros (quase) só jogam em candidatos ao título. Saiba por que e quem são todos eles

Gian Oddi
Getty
Gabriel Jesus: um dos principais brasileiros da Premier League 2017-18
Gabriel Jesus: um dos principais brasileiros da Premier League 2017-18

Começa nesta sexta-feira a temporada 2017-18 da Premier League, o mais rico e disputado campeonato nacional do planeta.

Quando o assunto é número de brasileiros, porém, o Campeonato Inglês fica bem abaixo de outras ligas da Europa, como Espanha, Itália, Portugal e França. Nesta edição são, por enquanto*, apenas 16 os brasileiros que iniciam a competição (e alguns com poucas perspectivas de jogar).

É compreensível: na Inglaterra, jogadores de fora da comunidade europeia precisam preencher certos pré-requisitos que atestem sua importância ou capacidade (como passagem por seleções, por exemplo) para poder jogar a liga nacional. São, portanto, jogadores mais caros.

Estes critérios técnicos nem sempre são seguidos com rigor, pois existe um comitê para avaliar caso a caso a intenção de contratação de estrangeiros dos clubes britânicos. Assim, muitas vezes acabam por ser subjetivas as razões que dão “aval” para contratações de estrangeiros no país.

De qualquer forma, o método funciona. Tanto é que os brasileiros estão quase que exclusivamente nos times mais ricos, os candidatos ao título (a exceção é o modesto Watford, do goleiro Gomes e do recém-contratado atacante Richarlison, ex-Fluminense).

Das 20 equipes que disputam a competição, nada menos que 14 delas não contam com brasileiro algum. São elas: Bornemouth, Brighton, Burnley, Crystal Palace, Everton, Huddersfield, Leicester, Newcastle, Southampton, Stoke City, Swansea, Tottenham, West Bromwich e West Ham.

Os cinco times que têm brasileiros, além do já citado Watford, são todos gigantes, com ambições grandes no campeonato. Veja como estão distribuídos os 16 brasileiros* do Campeonato Inglês entre estas equipes, que têm o Chelsea e o City como times que mais apostam em jogadores nascidos por aqui:

ARSENAL
Gabriel Paulista (zagueiro) 

CHELSEA
David Luiz (zagueiro), Willian (meia), Wallace (lateral), Nathan (meia), Kenedy (meia)

LIVERPOOL
Phillipe Coutinho (meia), Roberto Firmino (atacante), Allan (meia)

MANCHESTER CITY
Ederson (goleiro), Danilo (lateral), Fernandinho (volante), Gabriel Jesus (atacante)

MANCHESTER UNITED
Andreas Pereira (meia)

WATFORD
Gomes (goleiro), Richarlison (atacante)  

* Até o dia 31 de agosto, quando fecha o mercado europeu, mudanças podem e devem ocorrer (Coutinho pode sair, Kenedy deve ser emprestado...). O blog será atualizado conforme o andamento dos negócios.

A recusa de Roger Machado é motivo de elogios

Gian Oddi


Bruno Cantini/Atlético-MG
Roger Machado: atitude inédita para muitos técnicos consagrados
Roger Machado: atitude inédita para muitos técnicos consagrados

Nesta segunda-feira, durante o Linha de Passe na ESPN Brasil, tivemos uma mesa dividida, com opiniões diferentes ao avaliar a recusa de Roger Machado após o técnico receber uma sondagem sobre a possibilidade de assumir o comando técnico do Flamengo.



Conforme apurou Mauro Cezar Pereira, Roger ouviu uma sondagem do Fla (não chegou a receber convite formal), mas reforçou sua posição: após a demissão no Atlético, não pretende voltar a trabalhar em 2017.

Não havia na mesa, porém, dúvida alguma de que  assumir este Flamengo já fora da briga pelo título nas duas principais competições do ano, mas com o melhor elenco do Brasil, enorme margem de melhora pela frente e a chance de levantar duas taças — Copa do Brasil e Sul-Americana — seria boa oportunidade de consagração para o treinador.

O que só torna sua atitude mais elogiável.

Roger Machado recusa convite do Flamengo e divide opiniões no 'Linha de Passe'

A fartura de demissões de treinadores em uma temporada do futebol brasileiro é alvo de críticas constantes, sobretudo da imprensa e, claro, dos próprios treinadores, que em todo momento alegam não ter tempo para desenvolver bons trabalhos.


Roger, pela segunda vez em sua ainda curta carreira, faz mais do que reclamar ao agir com a personalidade que outros técnicos mais renomados não agiram em décadas de carreira: recusar sondagens ou propostas tentadoras, dos dois clubes com mais torcida no país, por princípios e convicções sobre o que é (ou deveria ser) o trabalho de um treinador.

Evidentemente choverão críticas a Roger na linha do “quem ele pensa que é?”, “ainda não é nada para recusar Corinthians e Flamengo” e “está se achando demais para quem ainda não ganhou nenhum título relevante”.

O principal debate causado por sua recusa, contudo, não deveria ser sobre sua capacidade, que de fato ainda carece de comprovação depois de um início promissor e ideias tão promissoras quanto. Até porque a recusa a convites tão tentadores é bem mais rara que a escolha equivocada de técnicos por parte de grandes clubes.

Gian diz que Rueda é a melhor opção para o Flamengo: 'Teria muito mais crédito para trabalhar'

Antonio Rueda até parece, hoje, um nome mais adequado ao Flamengo: não apenas por sua qualidade, mas porque, no Brasil, quanto mais crédito um treinador tem no momento de sua chegada, mais tempo terá para trabalhar sem depender de resultados. E hoje Rueda tem muito mais crédito do que Roger, inclusive com os torcedores.

A atitude de Roger, porém, é um passo, ainda que pequeno, para que os técnicos no Brasil não dependam mais de “créditos” para ter o mínimo de tempo necessário para trabalhar. 

Que outros técnicos parem de reclamar e copiem seu exemplo.

Entenda por que a transação de Neymar mudará o futebol mundial

Gian Oddi
reprodução
Neymar na capa do Le Parisien: transferência do século
Neymar na capa do Le Parisien: transferência do século

222 milhões de euros era, até outro dia, um valor maluco daqueles que os clubes colocavam como multa em caso de rescisão de contrato apenas para ter a certeza de que ninguém lhes “roubaria” um craque.

Não é mais, como vimos nesta semana, ainda que tal valor só possa ser pago por clubes cuja origem do dinheiro é, para dizer o mínimo, duvidosa.

Disse Jürgen Klopp, técnico do Liverpool, a respeito da ida de Neymar ao PSG: “Existem apenas dois clubes que podem pagar um valor como este, e eles são PSG e Manchester City” (dois clubes que, lembremos, já foram multados em 2014 por descumprir as regras do Fair Play Financeiro da Uefa).

Tenha ou não razão Klopp, sejam ou não apenas este dois os clubes capazes de torrar tanto dinheiro, o fato é que a Uefa parece ter percebido a necessidade de mudar as regras do Fair Play Financeiro, instituído em 2011 com o objetivo básico de evitar que os clubes gastem um dinheiro que não têm, prática que conhecemos tão bem por aqui.

O Fair Play financeiro atual pode não ser perfeito, mas reduziu consideravelmente, na média, as dívidas dos clubes europeus. Seus benefícios e resultados são inegáveis, como demonstra o especialista no tema Giovanni Armanini em entrevista a Leonardo Bertozzi em seu blog.

Entretanto, a Uefa e seu presidente, o esloveno Aleksander Ceferin, chegaram à conclusão que é preciso fazer mais. Não apenas com a investigação específica do caso Neymar, conforme antecipou o diretor-executivo de Fair Play Financeiro e sustentabilidade da entidade, Andrea Traverso.

Concluiu-se que é preciso mudar as regras, ampliá-las, e a negociação de Neymar deixou tudo ainda mais evidente. Sua transação não apenas deve acelerar a adoção das novas medidas, como pode torná-las ainda mais rígidas.

Entenda abaixo quais são as principais medidas que já estão sendo discutidas e que a Uefa pode aplicar em breve para alterar não só a lógica do mercado no futebol europeu, mas também a maneira como os clubes mais abastados precisarão planejar seus elencos.

Imposto sobre altos gastos
A exemplo do que ocorreu no futebol chinês, a Uefa estuda cobrar um percentual de imposto sobre salários e/ou transações de jogadores que superarem certos limites. Esse dinheiro seria distribuído entre clubes, ligas nacionais e competições da Uefa.

Teto salarial
A ideia é limitar o valor que um clube pode gastar com salários. É hoje improvável que se defina um teto para jogadores, e mais provável a limitação de um valor máximo para a folha salarial – que poderia ter também limites de jogadores por faixa salarial.

Teto de gastos por janela
Neste caso, os clubes teriam um valor máximo para gastar numa janela de mercado (ou nas duas, de verão e inverno, somadas). Exemplo: se o teto fosse 222 milhões de euros, o PSG poderia contratar Neymar e ninguém mais nesta temporada.

Regulamentação de empréstimos
A principal meta é evitar que os empréstimos sirvam apenas para amortizar os valores de vendas em vários anos: virou comum clubes emprestarem jogadores com obrigação de compra depois. Limitar a idade de atletas emprestados é uma ideia.

Áudio e entrevista de Felipe Melo mudaram postura do Palmeiras em relação à liberação

Gian Oddi

Gazeta Press
Mattos e Melo na apresentação do atleta: após áudio vazado, relação mudou
Mattos e Melo na apresentação do atleta: após áudio vazado, relação mudou

No último sábado, após o técnico Cuca anunciar a decisão de liberar Felipe Melo para, nas palavras do técnico, “seguir outro caminho”, a ideia da diretoria alviverde era clara: tentar a melhor alternativa de saída para o clube, mas sem impor grandes obstáculos para que o jogador assinasse com outra equipe.

O plano inicial considerava não apenas a possibilidade de liberá-lo sem receber valor algum como contrapartida (afinal, o clube já deixaria de arcar com o ônus de seu alto salário) como avaliava, eventualmente, o pagamento de parte dos seus honorários em outra equipe.

O áudio em que Felipe Melo chama Cuca de covarde, fala do interesse da vários times e diz que “nunca esteve tão fácil” para o Flamengo contratá-lo irritou a direção palmeirense, que também ficou incomodada com as justificativas concedidas na sequência em entrevista ao vivo ao Linha de Passe.

Na avaliação da direção alviverde, ao contrário do que muita gente acredita, é pequena a chance de o áudio ter vazado propositalmente. E, de fato, é difícil enxergar benefícios para o jogador no vazamento — sejam eles no aspecto contratual como na relação com os torcedores palmeirenses.

Depois do problema no vestiário do Palmeiras após a eliminação contra o Cruzeiro pela Copa do Brasil, a decisão por seu afastamento já estava tomada pelo técnico, como admitiu o próprio jogador à ESPN Brasil.

Lembremos o que disse Melo: “Errei, porque naquele dia sim eu falei alguma coisa contra o Cuca. Nesse momento de erro eu pedi desculpa perante ao grupo, pedi desculpa à diretoria e fui muito claro na minha desculpa, olhando nos olhos do Cuca. Ele me desculpou, apertou minha mão e disse que não trabalharia mais comigo, na frente dos outros jogadores”.

Passado o episódio, uma conversa entre o diretor de futebol Alexandre Mattos e o presidente do Palmeiras, Maurício Galiotte, definiu a estratégia para anunciar a saída de Melo: Cuca daria a entrevista alegando questões táticas (o que não deixava de ser verdade, embora não fosse toda ela) e a provável insatisfação do jogador com a reserva.

Desta forma, o clube não desvalorizaria seu patrimônio externando (ou mesmo relembrando) a existência de outras questões que pesaram no aval da diretoria para a liberação, como uma série de problemas (alguns pequenos, é verdade) ocorridos com Roger Guedes, Dudu, o preparador físico Omar Feitosa e, enfim, Cuca.

Mas o áudio e a entrevista estragaram a estratégia.

Foi só então que a direção resolveu convocar a entrevista coletiva de Alexandre Mattos para demonstrar firmeza por parte do clube: "O Felipe Melo é um ativo do Palmeiras, vale dinheiro. Se algum clube o quiser, que procure o Palmeiras, porque até hoje ninguém procurou. E não vai ser ‘facinho’. No áudio, ficou parecendo que está fácil".

A partir de agora, embora ainda precise pesar o ônus da permanência de Melo no elenco, o Palmeiras de fato não está disposto a liberar o jogador de graça.

Até porque seu salário, mesmo alto, não é um problema gigante para quem conta com o suporte de uma patrocinadora abonada e generosa.


Neymar conduziu sua saída como se fosse seu pai, um símbolo do futebol atual

EFE
Família Neymar: dinheiro e 'protagonismo' acima de tudo
Família Neymar: dinheiro e 'protagonismo' acima de tudo

Acabou a novela, ainda que faltem detalhes da transação. Neymar pediu, oficialmente, para deixar o Barcelona.

Primeiro, o óbvio: Neymar faz o que bem entender da sua vida e de suas escolhas profissionais. Joga onde bem quiser, ao lado de quem bem entender, recebendo a fortuna que se dispuserem a lhe pagar por seu futebol fora de série.

Seu caso, contudo, é um episódio emblemático dos desejos de uma classe, de um momento, de um esporte.

Deixando de lado sua nova remuneração astronômica (não que ganhasse mal em Barcelona), é interessante analisar a escolha do craque brasileiro pelo aspecto que, nos dias de hoje, parece determinante para guiar as decisões dos maiores nomes do futebol: a individualidade, as conquistas próprias acima das coletivas, a maldita bola de ouro da Fifa.

Nove entre 10 argumentações favoráveis à troca de clube de Neymar citam, literalmente ou quase, termos como “sair da sombra de Messi”, “virar o protagonista” ou, claro, “ser finalmente o melhor do mundo”. Diversas apurações, inclusive a do jornalista Marcelo Bechler, o primeiro a anunciar sua ida ao PSG, colocam tais motivos como importantes na decisão do brasileiro.

Deixemos de lado a discussão sobre a subjetividade e as injustiças do tal prêmio da Fifa, até porque tratar especificamente da honraria em que se vota nos mais famosos não é a intenção aqui.

Você poderá argumentar, com razão, que olhar para o próprio umbigo em detrimento de um senso coletivo é da natureza humana. Sem dúvida, e o mundo corporativo, ao qual muito se recorre para traçar paralelos com o futebol, está aí para comprovar. Quantos são, nas grandes empresas, os que ignoram ou menosprezam os objetivos comuns, metas como finalizar um projeto de sucesso (eventualmente concebido por terceiros), para colher o máximo de louros individuais?

No mundo corporativo, não há dúvida, as coisas funcionam quase sempre assim.

Mas o futebol é diferente, ou pelo menos teria motivos para ser.

Pessoas têm com o futebol uma relação de amor e gratidão que empresas, grandes ou pequenas, raramente conseguem despertar em seus funcionários e clientes ou consumidores. Um time de futebol, porém, não é uma empresa, ainda que possa ser bem gerido como tal.

Diante deste aspecto emocional, que no fim das contas é a força motriz do futebol (porque é o que move os torcedores), este esporte gera, em sua engrenagem, fatos, reações e consequências que um funcionário de uma empresa qualquer, seja ele da graduação que for, não conseguirá jamais reproduzir.

Neymar joga em um clube de tradição e importância consideravelmente maiores que o PSG. Com um bom trabalho coletivo, teria ao seu lado jogadores capazes de formar uma equipe histórica (como fizeram seus antecessores no clube catalão). Aos 25 anos, cinco a menos que Messi, o caminho natural o levaria a ser candidato real à almejada Bola de Ouro jogando ou não ao lado do argentino. No Barcelona. Em um campeonato melhor.

Provavelmente é romantismo, mas a estes fatores acima seria preciso somar um outro que, nos tempos atuais, parece ter peso nulo nas decisões tomadas pela maioria esmagadora dos jogadores: ser amado, idolatrado e retribuir o amor de uma torcida a ponto de tornar-se um mito, uma lenda para um clube de futebol ou uma cidade, não conta mais.

Gerrards, Maldinis, Tottis, Terrys e Zanettis fazem parte do passado.

As ações de Neymar nas semanas que antecederam sua saída demonstraram preocupação nula com o tema: o silêncio, a marra, as notícias sobre seu pedido para que o PSG contratasse um objetivo do Barcelona para sua reposição, a briga no treino com o recém-chegado Semedo... são só alguns dos fatores que fizeram com que, em todas as sondagens realizadas em Barcelona, os torcedores catalães se manifestassem a favor de sua saída. Triste.

Neymar já tem 25 anos e poderia ter demonstrado ao menos alguma preocupação com o tema. Se não com o clube que nele apostou (que está longe de ser um exemplo), com a torcida que o idolatra desde quando tinha 21. No entanto, talvez por falta de personalidade, talvez por fé cega no progenitor, conduziu sua saída como se fosse seu pai, de uma forma parecida com a que conduziu sua saída do Santos. 

Resultado: aquele que poderia ser um ídolo eterno tornou-se persona non grata em Barcelona.

De novo: Neymar faz o que bem quiser de sua vida, e o fato de trocar o Barcelona pelo PSG não incomoda. Até porque o peso dos motivos desta escolha só ele conhece bem.

Incomoda, porém, que passemos a tratar como óbvias e indiscutíveis justificativas egocêntricas quando o assunto é futebol.

mais postsLoading