Uma nova cara na CBT

Fernando Meligeni, blogueiro do ESPN.com.br

Sempre fui e sempre serei um cara que questiona, que encara de frente, que exige o máximo das pessoas e principalmente das entidades que trabalham com nosso esporte. Ter uma credencial de ¨todo poderoso¨, gestor, presidente ou o nome que forem dar, recebe um ônus pesado de ter que ser quase perfeito. Ou pelo menos tentar ser.

Em tempo que só notícia ruim vem pela frente, começar a escutar que a nova gestão da CBT está fazendo um bom trabalho me deixa muito feliz. Recebi recado de ex-jogador que estava na Copa das Federações e no brasileiro, recebi e-mail de pais de jogadores juvenis e técnicos, ligação de pessoas do meio, dizendo que mudou. Que uma nova cara aparece. Que temos bastante a evoluir ainda, mas que caminhamos finalmente para frente.

Alguns pontos ficam claro para que exista essa mudança. Diálogo, explicação da estratégia, verdade da situação da entidade e principalmente estratégia que será desenvolvida.

Tudo isso para mim tem um nome: Eduardo Frick. Antes de falar dele, é importante parabenizar o presidente da entidade pela escolha. Corajosa, fora dos padrões (infelizmente do esporte) e pelo que escutei e vejo, liberdade para ousar, trabalhar e colocar suas ideias em curso. Nos dias de hoje. que presidente quer mandar e ser dono do esporte, dar poder as pessoas é digno de aplauso.

Voltando ao Frick... Se não é surpresa, mas é com muita alegria que vejo o comprometimento, a abertura, a paixão e as boas ideias até o momento. Incansável ele estava em Wimbledon uma semana, no Brasileiro na outra e tentando melhorar nossa estrutura. Vem pensando em alternativas em um momento de vacas magras. Vem tentando ajudar os juvenis (mesmo que com pouco ou nenhum dinheiro).

Com isso a credibilidade aumenta e o tênis pode sair do obvio e do passado triste que nos abateu.

Pontos que já percebi nestes meses:

- Presença nos eventos

- Dialogo com todos os jogadores, pais e técnicos

- Cuidado com os centros de treinamentos

- Pedido de objetivos

- Resgate dos ex-jogadores e preocupação em escutar as reclamações, ideias e tentar trazer alguns de volta

- Humildade de tentar trazer o tênis estrangeiro para o Brasil. Informação, metodologia, ideias, gestão

Fica claro que existe um movimento para frente. Existe um acerto muito grande e um cara que como nós quer o bem do esporte. Sempre sonhei em poder escrever bem da nossa entidade. Quero de coração continuar escrevendo e aplaudindo.

Que seja o primeiro post de muitos.

Parada de Djokovic não deveria ser tão traumática

Fernando Meligeni, blogueiro do ESPN.com.br
Julian Finney/Getty Images Sport
Djokovic abandonou quartas de final de Wimbledon por problema no cotovelo direito
Djokovic abandonou quartas de final de Wimbledon por problema no cotovelo direito

A dependência tenística do chamado Big Four faz com que a desistência de Novak Djokovic do US Open e o anúncio de que ele só volta no ano que vem vire mais traumática do que deveria.

Se machucar, parar de jogar por um tempo, é muito normal em um esporte onde o tenista exige demais do seu corpo e a repetição de movimento é o grande vilão.

Em entrevista à ESPN Brasil, Boris Becker fala sobre Djokovic, Federer e de suas memórias de Wimbledon

Ao decidir parar até o ano que vem, muitas teorias aparecem. A mais real é a de que ele está machucado e vai aproveitar essa parada para resolver todos os pontos que o fizeram cair de ranking e, principalmente, mostrou ao mundo que está pouco motivado. 

Ao assistir Djokovic nos últimos meses, fica claro que perdeu o brilho nos olhos. Ao escutar suas declarações, percebemos que o tênis virou segundo plano. Ao conversar com pessoas no mundo do tênis, fica mais evidente ainda que ele precisa repensar sua carreira. Conquistou muito e chegou a um ponto que precisa decidir se acelera ou se conforma com o que já conquistou.

Meligeni lamenta abandono de Djokovic contra Berdych: 'É uma pena'

Novak Djokovic tem muito mais tênis e pode conquistar muito mais do que já tem. O difícil parece ser a falta de um objetivo maior.

Torço para que ele descanse e volte com toda sua genialidade, força física e mental.

A pergunta que fica é: ele fará o mesmo que Roger Federer no ano passado? Conseguirá voltar da mesma forma?

Em entrevista exclusiva, Federer se surpreende com idolatria mundial e coloca 8º título em Wimbledon entre maiores feitos: 'É realmente surreal'

Deixo para vocês as respostas.

Ideia de ver filho jogando grande torneio de tênis nos cega

Fernando Meligeni

Pelas Quadras analisam decisão polêmica de Nadal e vitória em Wimbledon

Na última terça-feira, tive o prazer de receber no "Pelas Quadras" o ex-tenista e hoje executivo da ITF Cesar Kist. Sempre tive muito carinho e respeito por ele. Cara batalhador e focado. Encontrou na entidade a oportunidade de desenvolver o esporte e faz isso com muita competência.

Ao chegar na ESPN, conversamos sobre a transição e ele me mostrou muitos números, dados e estudos que a entidade está fazendo. Admito que fiquei muito impressionado.

Quando entramos no mundo do tênis, vemos muito mais glamour que outra coisa. A ideia de jogar ou ver nossos filhos jogando os grandes torneios às vezes nos cega e perdemos um pouco da realidade dos fatos.

Fiquei com alguns números na cabeça. Os tenistas demoram em média cinco anos depois que saíram do juvenil para entrar entre os 100 do mundo.

Em média um tenista ou pai dele gasta US$ 38 mil (R$ 126 mil) por ano em viagens, comida, encordoamento... E neste número não está incluso o gasto com treinador ou preparador físico!

7% dos meninos e 19% das meninas que foram top 100 na ranking juvenil conseguem ser top 100 no profissional. Apenas 1% dos meninos que não foram top 100 do juvenil conseguem ser top 100 do profissional.

Para começar a se pagar no circuito o tenista tem que ser cerca de 330 do mundo no masculino e 250 no feminino. Antes disso gasta. Nesse ranking empata.

Outro número alarmante é a quantidade de tenistas tentando o profissionalismo. Cerca de 9 mil no masculino e 5 mil no feminino jogam os torneios Futures, Challengers, etc, etc. mas muitos desses nunca tiveram pontos de ATP ou WTA.

Preocupados com isso esto querendo mudar muitas coisas. Uma delas é diminuir a quantidade de jogadores jogando acima do seu nível e com isso gastando o que tem é o que não tem. O sonho da ITF é ter 750 jogadores bem remunerados em cada circuito e para isso vem uma ação de tênis transição muito forte. O circuito de transição. 

Meligeni destaca vitória de Andy Murray e avalia possível lesão do escocês

Convido a entrarem no site da ITF e conhecerem essas ideias e estudos. Eu com certeza sou a favor de algumas mudanças, posso não ter certeza de outras, mas claramente para os países da América do Sul uma mudança é fundamental. Poucos e cada vez menos tem o dinheiro para pagar o dia a dia do circuito e a dificuldade de entrar na zona mais alta de premiação é maior.

Países como Brasil e Argentina sofrem e precisam repensar a maneira de fazer jogadores. Se deixarem apenas nas mãos dos pais teremos cada vez menos jogadores no circuito. Aos meninos e meninas uma certeza. O tênis virou coisa séria. Tênis é uma profissão dura e para poucos. Maravilhosa, mas difícil demais.

Estou na torcida para que as mudanças ajudem. Obrigado, César, pela aula que você nos deu ontem.

Viva o tênis!

Onde e com quem treinar são passos fundamentais na carreira do tenista

Fernando Meligeni, blogueiro do ESPN.com.br

A decisão de onde e com quem o jovem ou o tenista em transição vai treinar é das mais importantes e certeiras na carreira do atleta e de seus pais.

Divulgação
Hernan e Carol
Hernan e Carol
Tenho aqui sido bem duro com técnicos e jogadores. Sou um cara que acredito no trabalho, na seriedade e no engajamento. Não adianta ter o melhor técnico, se não tivermos tenistas com vontade e atitude. Não adianta ter atitude e querer ser jogador, se o técnico pouco se importa ou não entende do circuito. Por isso, sempre que posso, aconselho ou mostro alternativas.

Sou um apaixonado pela filosofia de trabalho dos argentinos. Lá se treina com muita seriedade e amor. Por ter feito minha transição lá e conhecer muitos dos atuais treinadores, me sinto confortável ao elogiar ou recomendar.

A partir desta semana, minha sobrinha Carol foi treinar com um dos caras que eu mais gosto e admiro no circuito. Hernan Gumy foi um batalhador dentro da quadra. Um daqueles jogadores duros de vencer, impossível de cansar, e uma vitória sobre ele era a certeza de que você tinha vencido uma guerra. Sua sabedoria tática e atitude o fizeram ser top 40 do mundo e o ajudaram a conhecer os caminhos para entrar na cabeça dos jogadores que treinou.

Quando parou de jogar, trabalhou com grandes nomes do tênis. Cañas, Guga, Gulbis, Kuznetsova, entre tantos outros. Sempre focado, direto, verdadeiro e trabalhador. Hoje, tem na Argentina uma belíssima academia ao lado de outro grande técnico - Alejandro Lombardo - chamada El Abierto Club e treina nomes como Zeballos, Arguello, Coria e vários tenistas mais jovens.

Conversar com ele é ter a certeza que você está entregando o jogador em um lugar sério, liderado por alguém que sabe sua função e onde não se pode perder tempo. Em uma das conversas comigo disse a simples frase: “Vou trabalhar duro com a Carol. Você sabe que não existe mágica, existe trabalho duro e esse é o único caminho”.

El Abierto Club é um lugar a se ter em conta por quem pensa em trabalhar sério na profissão.  Os brasileiros que eu mandei relatam que são apaixonados pelo trabalho e com a real ideia da dificuldade que é ser um jogador profissional de tênis.

Boa sorte, Carol. Parabéns, Hernan.
www.elabiertoclub.com

Profissão tenista: o que os jovens precisam ter em mente?

Fernando Meligeni

Mesmo que muitos não consideram, mesmo que os pais ainda torçam o nariz quando o filho diz que quer ser tenista, mesmo que o governo não trate o esportista tenista como um profissional e dê seus devidos direitos, eu afirmo que ser tenista é uma profissão. No papel e na vida real não existe nenhuma diferença entre ser jogador de futebol (que tem seus direitos), ser dentista, ser engenheiro e ser tenista.

Dito isso, precisamos colocar na cabeça dos nossos jovens atletas que tênis é um esporte maravilhoso, desafiante, mas muito difícil. Ser tenista é coisa pra gente grande.

Antes de falar o que penso a respeito de ser tenista, quero dividir bem. Você, garotão ou pai de tenista, peço que inicialmente se classifique em uma dessas duas categorias.

Categoria 1: Sou tenista social. Gosto de jogar tênis, mas não tenho pretensão de ser profissional e viver do esporte. Quero curtir, treinar e, quando fizer 16,17 anos, pretendo fazer uma faculdade e virar médico, ser engenheiro e ter uma profissão diferente. Que legal. Jogue, curta, aproveite. Este esporte é incrível e te dará uma base incrível de justiça, resiliência, hierarquia. Você aprenderá a vencer e perder e que a bola na linha é boa.

Categoria 2: Você quer viver de tênis. Quer ser profissional? Ou pelo menos ter a chance de ser?

A primeira pergunta que te faço é: você está trabalhando para isso? Você vai dormir à noite cansado, com a certeza que está vivendo para o esporte? Você conhece a palavra ABDICAR? Você deixa uma festa, um namoro, uma viagem, férias, aniversários para treinar, para jogar ou simplesmente para descansar e continuar focado no seu objetivo?
Se você duvidar ou rapidamente disser que não, sinto te informar que você está no caminho errado. Que terá pouca chance de chegar.
A primeira coisa que precisamos urgentemente colocar na cabeça dos nossos meninos e meninas é que, para jogar tênis profissional, são necessários dedicação e foco. Muitas vezes nossos jovens ACHAM que treinam direito, ACHAM que estão focados, ACHAM que são profissionais.

Ser tenista profissional é muito difícil. Quem escreve aqui é um cara que lutou muito, abdicou muito e mesmo assim quase não chegou. Esteve por um triz e quase batendo na porta do estúdio fotográfico do pai, deixando seu sonho para trás.

Vejo nos treinos e nas mídias que são poucos os jovens que realmente estão abdicando e deixando as coisas de lado. Muitos vão me achar extremista, mas vocês realmente acreditam que jogar contra Djokovic, Nadal, Rogerinho, Mayer, Robredo ou quem seja é fácil? Os caras treinam forte, dormem cedo, quase não saem, comem com o maior cuidado, treinam de segunda a sábado e só tem o domingo livre. Ao escutar e ver tenistas jovens, me deprimo quando dizem que não treinam em dia de chuva ou no final de semana.

Com essa atitude vocês acham que vão conseguir concorrer com os melhores do mundo?

Outro ponto a ser abordado aqui é que muitos acham que Nadal, Federer, Djokovic não são do mesmo circuito. Ao decidir virar profissional, o garoto está ganhando um passaporte que vai ao encontro desses caras. Vocês não acham meio pretensioso ou vergonhoso não treinar forte e se denominar tenista profissional do mesmo meio que esses caras? Ah, mas eles são jovens, já diria um pai, ou um treinador. E o Thiem, Zverer, Khachanov, Coric? Eles fazem as coisas certas, treinam duro e têm 17 ou 18 anos. Por quê? Porque eles querem ser tenistas profissionais.

Finalizo aqui perguntando mais uma vez aos nossos jovens: vocês realmente querem ser tenistas profissionais?

Boa sorte, bons treinos e vivam para o esporte.

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