Uma Copa Davis para o tênis brasileiro esquecer

Fernando Meligeni, blogueiro do ESPN.com.br
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Bruno Soares, Marcelo Melo, Guilherme Clezar, Thiago Monteiro e o capitão João Zwetsch
Bruno Soares, Marcelo Melo, Guilherme Clezar, Thiago Monteiro e o capitão João Zwetsch

O time do Brasil volta do Japão com um saldo muito negativo e um gosto amargo. Fiquei pensando como escreveria este texto. Por onde eu pensava via lados negativos. Tivemos problemas na convocação, problemas com vídeos vazados com ofensas gratuitas a um top 10 que nem no confronto estava, uma atitude imperdoável de um atleta do time que repercutiu no mundo inteiro, e a derrota que nos mantém na segunda divisão da Copa Davis. De positivo? A dupla que mais uma vez foi e deu conta do recado.

Como ex-jogador e ex-capitão da Davis, fica muito difícil comentar a convocação do capitão João Zwetsch. Tenho minhas convicções, mas, como estive lá, a escolha é muito pessoal e baseada em confiança. O que fica claro é que a maneira como isso ocorreu criou um grande desconforto geral e com isso a recusa de Rogerinho, tenista número 1 do Brasil.

Após lesão de Bellucci, Rogerinho, que não tinha sido convocado, recusa substituí-lo na Copa Davis; veja discussão

Os dois episódios lamentáveis foram tristes e comprometem muito mais nosso tênis que os protagonistas. O presidente da confederação colocou um vídeo interno do time onde vaza um xingamento a Kei Nishikori. Claramente era uma brincadeira, conhecendo cada um dos tenistas, sei que não tem a ver com o que eles pensam. Na pressão, uma brincadeira mal colocada é normal, mas o que não é aceitável é um dirigente sentado à mesa com atletas expor os jogadores. Pior ainda é publicar coisas do time. O conhecido fogo amigo não pode acontecer. Mais triste foi ver que em nenhum momento veio e pediu desculpas publicamente. O ‘deixa pra lá’ e simplesmente apagar a publicação não resolvem. Em uma ‘nova era’ esperávamos mais e melhor atitude.

O caso do Guilherme Clezar já foi falado demais. Nem preciso dizer que ele errou feio e está pagando pelo seu ato. Tentou se desculpar e que a atitude sirva para seu futuro como tenista é cidadão. O que posso dizer é que atleta que está em quadra representando o país tem uma responsabilidade muito grande. O que fazemos, o que mostramos repercute muito. Precisamos saber que nosso time, nosso esporte e nosso país estão acima de tudo e temos que respeitar. Foi um erro grave. Eu, como atleta, me senti ofendido, então fico imaginando como se sentiram todos os atingidos.

O resultado?  Na boa, ficou em segundo plano diante de tudo que aconteceu. Aprendi na minha primeira Copa Davis que o resultado vem de uma preparação bem feita, harmonia no time, união de fora e de dentro e muita luta na hora do jogo. Se um dos lados ou pontos da preparação é mal feito, a derrota quase sempre vem.

Pergunto: merecíamos vencer? Desta vez não. Que na próxima oportunidade tudo seja diferente.

Do ‘tenista básico’ ao ‘tenista alma’, quem é quem no circuito?

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Del Potro foi pura raça e alma na vitória sobre Dominic Thiem
Del Potro foi pura raça e alma na vitória sobre Dominic Thiem

Ao assistir e comentar o jogo do Del Potro ontem, fiquei pensando nos tipos de jogadores de tênis que existem. Todos os estilos técnicos e mentais merecem respeito, mas não consigo deixar de admirar tenistas com o argentino. 

Vou tentar fazer um exercício aqui e convido vocês se quiserem participar deixando um comentário dizendo quem são seus tenistas favoritos.

Jogador de Tênis: para mim, todo mundo que um dia pegou em uma raquete pode se considerar tenista. Aqui não importa o nível ou a periodicidade. No circuito todos que estão no ranking merecem respeito. Mas ser tenista para mim quer dizer que o cara joga bem, tem pontos, ranking, mas não para nunca de se doar e de se entregar ao esporte. Frase desse jogador: “Estou feliz de jogar o circuito. Vou fazer o meu melhor”. 

Jogador Talento: quando nascemos, chegamos ao mundo com habilidades. Alguns trabalham muito duro para tentar melhorá-las. Outros vêm com habilidades especiais e tudo fica mais fácil. No mundo do amador vemos tenistas talentosos. Nem sempre eles vencem. Normalmente eles não pagam o preço nos jogos duros e longos. No circuito é igual. Poucos que são muito habilidosos treinam como deveriam e encaram o circuito com a garra e atitude que se precisa. Eles jogam bem, muito bem, mas claramente poderiam muito mais. Sempre deixam a impressão que poderiam ser bem melhores do que são. Frase desse jogador: “Já treinei, tenho dúvidas do quando eu amo este esporte. Pelo o que eu treino, sou bom”.   

Jogador Completo: esse é aquele jogador que não é o mais talentoso, não é o que mais chama a atenção, mas trabalha duro. Quer ser bom. Se joga no circuito. A falta de um talento ou o lado mental o trai às vezes, mas ele tenta com muita garra. Aqui fica a grande maioria dos tenistas amadores e principalmente os tenistas do circuito. A galera que está entre o 30º e o 120º do mundo está por aí. Erram, tentam, trabalham, viajam, vivem do esporte com atitude e profissionalismo. Ser tenista para esses caras é uma profissão como a de médico, professor, engenheiro. Esse cara trabalha duro. Frase desse jogador: “Tênis é a minha profissão e faço de tudo para ser o melhor possível. Abdico do que for para atingir meu grande objetivo: ser tenista”. 

Jogador Alma: é fácil e muito legal falar desse jogador. Ao assistir o jogador, você percebe que ele deixa tudo em quadra. Não importa o quanto ele é bom ou se tem pontos fracos. Seus olhos brilham, seus treinos são intensos, sua atitude é exemplar. Cada bola parece que é a última que ele vai bater na vida. Dentro desse jogador tem fogo, atitude, coração. O ‘tenista alma’ encanta pela sua garra e amor ao esporte. Pode não ganhar sempre, e muitas vezes perde, mas sempre deixa o torcedor feliz por ter acreditado e sem se importar completamente pelo resultado final. Ele sempre deixa tudo dentro da quadra. Frase desse jogador: “Tênis é a minha vida, um sentimento maravilhoso, minha opção de vida. Ganhar e perder faz parte, mas, por tudo o que eu amo e faço pelo esporte, não aceito perder. Vou lutar até o último ponto e gotinha de suor”. 

Pergunto: quem é você? Quem é o tenista profissional em cada exemplo que eu dei?

Desabafo: força meu querido tênis

Fernando Meligeni, blogueiro do ESPN.com.br
Pai apela às redes sociais para pedir ajuda a Fernando Meligeni: situação do tênis no Brasil é lamentável

Ser tenista no Brasil sempre foi uma aventura. Desde os tempos da Maria Esther e Thomaz Koch, o esporte era visto sem o respeito ou importância que merecia. O tempo foi passando e sempre imaginamos e sonhamos com um esporte mais forte, mais reconhecido e querido.

Nestes anos ele vem sendo mais respeitado pelas pessoas. Mas infelizmente, como na política, as pessoas (algumas nem merecem esse rótulo) que passaram pelo esporte deixaram a desejar, fizeram feio e envergonharam a comunidade. O mais triste é que muitos deles, que deveriam estar escondidos e morrendo de vergonha, estão jogando tênis em clubes, e 'latindo' em Facebook como se tivessem moral para isso.


Muitos desses dirigentes, tenistas, técnicos, e promotores que pouco fizeram, muito se aproveitaram do esporte e não deixaram nenhum legado, continuam por ai dando risada de tudo e de todos. Pensando um pouco, sabemos que somos bem responsáveis. Poucos se molham, poucos têm atitude ou coragem de falar e MUITOS são os que preferem deixar pra lá porque estão bem, estão 'de boa', estão ganhando bom dinheiro.

Está claro que vamos chegando ao fundo do poço, mas, quando vejo um vídeo como este, que recebi de um pai de tenista em pleno Parque Olímpico, organizado por uma federação que prometeu mudar o tênis do Rio, que brigou com muita gente falando que o passado era horrível, sinceramente me deprime. Podem tentar dar qualquer justificativa, mas contra imagem e um monte de gente declarando não há o que falar. Sem cadeira, sem estrutura, sem organização, com árbitro em cima da cadeira e mais um monte de coisa mostram que o respeito ao esporte desapareceu.

Não sei mais o que dizer. Espero de coração que a CBT puna a federação, que tenhamos represálias, que tenhamos pelo menos um pedido de desculpas ou melhor, uma declaração de que estão envergonhados e tudo mudará. Além de melhorias imediatas.

Queria morar em um país onde se respeitasse nosso esporte. Queria morar em um país no qual os dirigentes esportivos morressem pelo esporte. Queria morar em um país onde o esporte fosse mais importante que o poder e a vontade de simplesmente aparecer. Queria morar em um país onde, ao ser devidamente criticado, o cara se calasse e trabalhasse, e não viesse com pedras mentindo ou tentando enganar. Queria morar em um país onde dirigente corrupto fosse preso e apodrecesse na cadeia. Queria morar em um país que amasse o esporte.

Não moro nesse país mas nem por isso desisti. Queria muito que os outros atletas não desistissem. Não se calassem. Não se omitissem.

Força meu querido tênis.

Força meu querido país Brasil.

Olá tenistas juvenis que sonham em jogar profissionalmente

Fernando Meligeni, blogueiro do ESPN.com.br
Divulgação
Novo projeto de Fernando Meligeni
Novo projeto de Fernando Meligeni

No intuito de ajudar e trazer informação, sem nenhum interesse financeiro ou pessoal, gostaria de devolver ao tênis uma pequena parcela do que ele me proporcionou, além de incentivar nossos meninos e meninas.    

A partir da primeira semana de setembro, vou jogar 2 horas por semana com diferentes tenistas juvenis ou que estão na transição para o profissional. 


Por tempo indeterminado e de acordo com minha agenda vou jogar com diferentes meninos e meninas de 14 a 20 anos, todas as semanas.

Quando moleque, via os grandes jogadores e sonhava em bater uma bola com eles, conversar e imaginava se eles poderiam de alguma maneira me inspirar. 

Ao colocar este projeto em funcionamento, volto no tempo tentando ajudar um pouco e aproximar a molecada do mundo do tênis.

Que fique claro que NÃO pretendo ser treinador, será uma contribuição ao nosso esporte, que vivo desde os 8 anos de idade. 

COMO IRÁ FUNCIONAR

Uma vez por semana (entre terça e quinta feira) vou bater bola com meninos e meninas que jogam torneios estaduais, nacionais e internacionais.

A ideia é ter dois jogadores por semana jogando uma hora comigo na MEM TENNIS, que fica em São Paulo. 

Sempre que possível será escolhido um menino e uma menina por semana. Minha intenção é apenas cooperar com o tênis e passar a minha experiência no bate bola. Gostaria da participação do treinador e dos pais. A ideia é ter a oportunidade de jogar com o Meligeni. É poder ter uma opinião diferente da que tem normalmente.

COMO SE INSCREVER

O jogador tem que se inscrever por e-mail para batebola@trainersports.com.br e mandar algumas informações:

NOME COMPLETO / DATA DE NASCIMENTO / CIDADE / TELEFONE DE CONTATO

NOME DO PAI / MÃE / RESPONSÁVEL / TELEFONE DO CONTATO

NOME DO TREINADOR / CLUBE

CONTAR UM POUCO SOBRE O TREINAMENTO

NÚMERO DE DIAS QUE TREINA E TEMPO DE QUADRA.

TORNEIOS QUE DISPUTOU EM 2017

RANKING ATUAL FEDERAÇÃO / CONFEDERAÇÃO / ITF JUNIORS / ATP ou WTA

Profissão treinador

Fernando Meligeni, blogueiro do ESPN.com.br
GazetaPress
Meligeni conversa com o técnico da seleção brasileira, Mauro Menezis, em 2006
Meligeni conversa com o técnico da seleção brasileira, Mauro Menezis, em 2006

Em uma longa conversa com minha sobrinha hoje caíram mais algumas fichas sobre a profissão treinador.

Ela que há um mês se mudou para a Argentina, onde treina na academia do Hernan Gumy e Ale Lombardo. Com eles está a ex-jogadora Maria José Gaidano. Muita coisa mudou. Por respeito e confiança no trabalho deles, tenho falado bem menos com ela. Mas hoje, em um longo papo muitas, coisas me vieram à cabeça.

O tempo de treino, que para muitos pode parecer pouco para um bom trabalho, uma semana ou um mês é tempo suficiente para mudar muita coisa. Mudar conceitos, arrumar vícios, entender diferentes táticas, ganhar confiança no seu jogo.

Na conversa li e escutei muitas vezes. Tenho e tive coragem de mudar coisas. Sinto confiança porque vejo que tem alguém muito ativo ao meu lado. Me mostraram muitas e muitas vezes como, quando e porque.

As palavras dela me levaram a 1985 quando fui treinar na mesma Argentina e de lá voltei como número 1 do mundo juvenil. De lá voltei obcecado pelo trabalho. De lá voltei um jogador de tênis. 

Assista aos lances da vitória de Roger Federer sobre Roberto Bautista Agut por 2 sets a 0!

Mudar coisas

Ter a humildade de perceber que precisamos mudar é o primeiro passo para o tenista evoluir. Confiar no que seu técnico fala e quer é a segunda. Saber que será difícil mas se treinar duro consegue é a terceira.

Ter o técnico ativo ao seu lado 

Falo disso há tempos e já entrei em dividida com muitos técnicos no Brasil por acreditar que a maneira grupal que se treina aqui é um dos cânceres do nosso esporte. Tenista se faz em repetição e proximidade. Tenista é bicho cabeça dura e precisa de puxão de orelha sempre. Para isso, o técnico precisa ver, estar perto, estar presente. Presente não quer dizer no clube, sabendo que o outro técnico fez. Presente é estar na quadra, na mudança, na suadeira. Isso não é um dia, uma semana. Isso é sempre. Só assim se muda, se evolui. 

Mostrar, desenhar 

Temos tenistas que entendem escutando, outros vendo, outros fazendo. Mas esses três precisam ver o desenho, ver na pratica. Não importa se com a prancheta do professor Joel Santana ou um simples desenho no chão. Não importa se uma vez ou muitas. A evolução é o objetivo dos dois (técnico e jogador). Sem esse diálogo não se obtém resultado. 

Por último (poderia escrever 10 tópicos) confiança do jogador no treinador

Como um jogador vai ter confiança sem o puxão de orelha? Sem a atitude de FAZ O QUE EU TE DIGO. Confia no que estou te pedindo. Se essa confiança não existe, o resultado infelizmente não vem. É melhor deixar o jogador voar para outro lugar. 

Ser treinador no Brasil é muito difícil. Somos um povo paternalista, que achamos que entendemos de tudo, que queremos opinar de tática, técnica e estratégia sem ter segurado uma raquete. Mas também temos o defeito de não buscar a excelência no que fazemos. Temos a mania de achar que tenista pode ser solto e livre. 

Estou feliz demais e aprendendo muito com as coisas que escuto, converso, debato e vejo nos treinos. Estou seguro que o resultado de um jogador ou jogadora pode vir ou não com muito trabalho, mas não vem com um quase trabalho, um meio empenho, um talvez eu faça. 

A união do treinador e jogador tem que ser como a de uma dupla de dança. Se um cair, caem os dois. Se um errar, o outro perde junto. Se um não se esforçar, os dois ficam no quase e não vencem.

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