Fernando Meligeni

Fernando Meligeni

Ex-tenista, chegou ao 25º lugar no ranking, foi semifinalista em Roland Garros e derrotou Pete Sampras. Hoje, é comentarista de tênis da ESPN

A dura realidade: o que é ser tenista no Brasil

Fernando Meligeni, blogueiro do ESPN.com.br

Você, que sonha em ver seu filho em um Grand Slam, um Master 1000 ou Copa Davis, tem noção de onde está se metendo?

Este post não é para desmotivar os pais ou falar mal do tênis. Seria muito burro se o fizesse, mas falar a verdade e direcionar as pessoas que sonham um dia ter seus filhos ou mostrar as dificuldades para a meninada é obrigação dos tenistas, dirigentes e técnicos.

Ao olhar um tenista jogando grandes eventos, muitos fãs do tênis não tem a mínima noção do que é ser tenista no Brasil. Muito se fala em ajuda, se fala em facilidade e até mordomias. Será que ela existe mesmo? Será que ser tenista é tão simples e tranquilo?

Vou me focar em dois pontos. Um, o jogador. Dois, a estrutura.

Começo pelo jogador.

Ser tenista é muito mais que uma grife. Hoje ser tenista é uma profissão. Isso não quer dizer que todo mundo que joga tem que focar o profissionalismo, mas se o desejo for formar um tenista é fundamental que o menino queira muito, mostre no dia a dia que está afim de abdicar de outras coisas boas da vida e viver para o esporte. A partir dos 15 anos não existe mais tempo a perder. Treinar duro, focar na evolução, viver uma vida regrada e trabalhar em todos os fundamentos e lados de uma profissão é fundamental. O tempo é ingrato com o tenista. Por um lado trabalhar duro bem jovem é obrigatório, mas o resultado só virá muitos anos depois.

Mesmo muito jovem o menino tem que querer muito. A conta é clara e dura. O tênis tem que estar na frente dos amigos, das baladas, das gatinhas e do telefone. Ser tenista tem que ser um objetivo claro de vida.

Não preciso dizer que é muito duro chegar. Ser um top 100 do mundo não é para qualquer um. Imaginem que se fazendo tudo certo é difícil, como será dando " migué" no treino, desfilando depois de um jogo ou matando treino porque hoje não estou com vontade de treinar.

Ser tenista é evoluir todo dia. Treinar e não perceber a evolução, mas ter claro que as horas ralando vão fazer diferença. Para ser tenista o diálogo entre jogador, pai e técnico tem que ser bom, ameno e para frente. Sem egos e com um objetivo. O jogador.

Se tudo isso andar direito ainda é uma roleta que tem que cair em um número certo. Difícil, sem nenhuma certeza, mas com muito mais a ganhar que perder.

Divulgação
Feijão superou Carlos Berlocq nesta sexta-feira em Buenos Aires
Feijão é o nº 1 do Brasil atualmente

Difícil viver do tênis. Mais difícil ainda acabar a carreira com um pé de meia, mas possível aos que querem de verdade. Aos meninos e meninas que sonham por eles mesmos e não tampam frustrações dos seus pais.

Ser tenista profissional é querer viver o desafio do impossível virando possível todo dia.

Agora, estrutura.

Se você achou complicado ser tenista no Brasil pelo simples motivo que tem muita gente para pouco espaço quando ler sobre estrutura sua motivação pode aumentar (gosta de desafios) ou desmoronar.

Leio todo dia que a estrutura do tenis brasileiro é muito melhor que no passado. Leio que os tenistas juvenis vivem uma realidade muito legal, que ganham passagem, não pagam treinos e que os pais pagam menos que na minha geração.

Não tenho dúvidas que existe mais dinheiro. Mas olhando sinceramente os juvenis de hoje não vejo nenhuma diferença para nossa geração. É verdade que existe mais organização. Sim. Mas os pais continuam tendo que arcar com 99% do dia a dia dos meninos. Os melhores do país ganham um pouco mais de passagens e viagens aos torneios do que antes. Existem 2 ou 3 centros de treinamentos para os melhores jogadores do Brasil, mas alem disso desculpem... a vida de um pai de um menino evoluindo e que não é o melhor em todas as categorias é de muita despesa e pouca alegria.

Vejo muito pai gastando o que tem e o que não tem para manter seu filho no juvenil. Muitos ainda se iludem que se seu filho for entre os 5 melhores do país vão ter uma ajuda que tirará seu gasto mensal e que a estrutura vai levar seu filho por um caminho certo. Errado.

Hoje o tênis brasileiro é feito e bancado pelos pais dos tenistas. Se você quer que seu filho ou filha jogue tem que ter recurso. Tem que investir pesado. Falo isso com dor no coração. Por que como você que está lendo queria estar vendo uma situação bem melhor.

Hoje o tenis brasileiro vive de centros de treinamentos particulares. Os poucos ou dois ou três centros da CBT estão abarrotados de jogadores como esteve o centro do Larri há anos atrás. Ele tentou com toda força, mas ter 9 dos 10 melhores jogadores do país na sua academia realmente não foi a melhor estratégia. No final, Deu errado.

Ser pai de tenista no Brasil é viver uma grande aventura. Muitos devem estar se perguntando o real motivo da minha coluna hoje. Dizer a verdade doa a quem doer. Mostrar aos pais o que é que eles tem pela frente.

Posso estar desencorajando alguns? Sim. Devo estar. Mas prefiro mostrar a verdade e chamar a atenção para que eles busquem alternativas, ajuda, informação ao invés de entrar de cabeça em um mundo novo sem experiência e que alguns anos depois digam aos seus filhos que não conseguem mais ajudar.

Solução.

Antes de qualquer coisa mostrar aos pais a verdade do esporte. Mostrar aos meninos suas responsabilidades. Depois trabalhar em conjunto e melhorar nossa formação.

Aos que amam o tênis como eu, convido para um debate sincero e aberto. Quem sabe achamos respostas, soluções, saídas e um futuro melhor.

Djokovic respeita Federer, que respeita Nadal, que respeita Djokovic

Fernando Meligeni, blogueiro do ESPN.com.br

Que grande final vimos neste domingo. Uma final digna de dois grandes jogadores. Enquanto via o jogo pensava que queria muito estar comentando e fiquei viajando em tudo que poderia ter falado nos três diferentes sets.

Quando digo que muitas coisas poderiam ser ditas, começo por um Djokovic impecável no primeiro set. Firme, jogando fundo e obrigado o Federer fazer demais. Quantas direitas vimos ele errar tentando atacar um Djoko imparável? Ele batia mais que precisava e errava mais que devia. Mérito do sérvio.

Quando o jogo parecia controlado o respeito apareceu. O melhor jogador do mundo vive um drama contra o Federer. O sérvio é muito melhor no momento e dentro do jogo tem tênis para passar por cima, mas o respeito e admiração nivela o jogo nas horas mais importantes. Por isso no final do segundo ele perdeu o saque e quando teve 5/4 no tie-break fez duas duplas faltas seguidas. Perdeu o foco e mostrou ao suíço que não consegue jogar com tranquilidade contra ele.

No terceiro voltou a dominar e mesmo errando e querendo colocar o suíço no jogo mais de uma vez. Venceu e mereceu o sérvio

O jogo teve pontos incríveis e alternâncias táticas interessantes. Mais de uma vez vimos o Federer sacar e volear e também tentar jogar na pancadaria de fundo de quadra. Vimos um Djokovic mais uma vez muito forte mentalmente mesmo depois de uma lambança ridícula para um cara número 1 do mundo em uma final de Master 1000. Mais difícil que fazer duas DF seguidas é se manter forte em um terceiro e esquecer o acontecido. Gostei de ver um Djoko mais agressivo hoje. Meteu a mão e não foi apenas um jogador de contra ataque.

No final fica uma verdade. Nadal respeita o Djokovic. Federer respeita Nadal e mais perde que ganha. Djokovic respeita Federer. Por isso esses três são tão bons. Mesmo respeitando e sentindo a pressão conseguem coisas incríveis e fazem jogos inesquecíveis.

Aos doentes pelo Federer, mais uma vez deixo uma pergunta e dúvida. Em jogos duros e com muita intensidade ele sente ou não? Hoje mais uma vez pareceu perder força no final. Uma pena.

 

Federer e Djokovic, o maior clássico do tênis

Fernando Meligeni, blogueiro do ESPN.com.br

A história do esporte, na maioria das vezes, é contada pelos seus clássicos. Futebol, basquete e vôlei viveram clássicos incríveis. No tênis, quem não se lembra de McEnroe e Borg, Sampras e Agassi, Federer e Nadal entre tantas outras incríveis?

Um bom clássico não se transforma por quantidade de partida. Um clássico de verdade tem vitória dos dois lados, jogos memoráveis, finais de torneios importantes e um pouco ou bastante rivalidade.

Nos últimos anos, Djokovic x Federer se transformou no jogo mais interessante do circuito. Cada vez que entram em quadra, a partida pega fogo, e jogadas incríveis aparecem.

De um lado, temos um dos jogadores mais rápidos, inteligentes e duros de todos os tempos. Novak Djokovic é daqueles adversários que nenhum jogador quer pegar. Cada ponto tem que ser muito trabalhado, e ele não tem um golpe fraco ou mais fraco. Para ganhar um ponto dele é preciso paciência, precisão e coragem.

Do outro lado, o mais talentoso jogador de tênis que já existiu. Jogador que faz o que quer com a bola, tem no saque e na direita o domínio dos jogos e na sua habilidade o frenesi dos fãs. Roger Federer é incrível.

Quando os dois se enfrentam, sai faísca. A briga tática é clara e deliciosa. De um lado, o sérvio chegando em todas e apertando o tempo todo a esquerda do suíço. Do outro, Federer sendo mais agressivo e mandando de direita.

Favorito? Não. Por ser um clássico, quem estiver mentalmente mais vivo, mais alerta e querendo um pouquinho mais, leva.

Pergunto:
1: Qual o clássico mais incrível que você viu no tênis?
2: Qual o clássico mais incrível em qualquer esporte que você já viu?

Indian Wells sem qualquer surpresa

Fernando Meligeni, blogueiro do ESPN.com.br

No primeiro Masters 1000 do ano, não se viu nenhuma surpresa e pouca novidade no tênis masculino.

Na primeira semi que se formou, Djokovic e Murray chegaram sem brilho e sem problemas. Djoko venceu um dos poucos que poderia trazer novidade ao torneio, mas Tomic nem sequer entrou em quadra. Murray entrou, não convenceu, mas venceu.

Do outro lado da chave, Federer, Nadal, Berdych e Raonic chegam e prometem um pouco de emoção. Berdych e Federer pode ser um jogo interessante se o grandão conseguir elevar seu nível e estiver em um dia positivo. Federer vem jogando pro gasto e não mostra até agora o nível que todos esperam para que ele tenha alguma chance de chegar mais perto de Djokovic. Nos Masters 1000, a chance é real pela quantidade de pontos distribuída.

Nadal e Raonic é um daqueles jogos que nenhum tenista gosta de jogar. Nadal não vai ter nenhum ritmo e deve tomar mais de 15 aces no jogo. Vai ter que ser inteligente e cirúrgico nas suas chances. O Raonic vai ser obrigado a bater mais rápido uma bola, o que ele odeia. Ser agressivo, mas errar pouco nos pontos importantes, é a chave.

Esperava novas caras e um pouco de emoção. Infelizmente vamos percebendo que os tops 4 e 10 cada vez estão mais distantes e soberanos.

Final brasileira no tradicional Banana Bowl. Parabéns, Orlandinho e Igor

Fernando Meligeni, blogueiro do ESPN.com.br

Que legal. Ontem na final do Banana Bowl tivemos dois brasileiro disputando um belo jogo em São José dos Campos. De um lado Orlando Luz, do outro Igor Marcondes. Duas novas caras que buscam seu espaço e devagar vão entrando no mundo do tênis de verdade.

Ganhar o Banana ou fazer final não te dá certeza que vais ser um tenista de renome no circuito, mas dentro do nosso país mostra que no juvenil você é realmente um bom jogador. Chama a atenção de todos.

Foi muito legal ver o trabalho bem feito do Igor, treinado pelo ex-jogador Leandro Afini - de SJ dos Campos, e mostrando que nossos juvenis são competitivos e têm talento. Do lado do Orlandinho, foi muito legal sua escolha por um torneio juvenil e mesmo já se aventurando nos futures mesclar com torneios da sua idade. Ajuda na visibilidade, coloca o garoto na pressão real e dá confiança. Não gosto quando os juvenis abandonam os torneios de sua idade. Perdem identidade e tomam porrada por muito tempo até se adaptarem ao circuito profissional.

Esta semana mais um torneio tradicional no juvenil começa e promete chamar muita atenção. A Copa Gerdau em Porto Alegre traz ótimos nomes juvenis e mais uma vez os brasileiros chegam com boas chances

Pequenos pitacos

1) Parabéns ao time do Orlando pela escolha e sensibilidade. Estão olhando com carinho a carreira do menino e precisam ir com calma. As decisões este ano são fundamentais para o futuro dele.

2) Os 18 anos masculino do Brasil é bem forte. Precisa ser olhado com muito carinho. Temos bons nomes, mas eles precisam de apoio. Temos perdido muitos meninos nessa idade. Apoio igual estrutura, técnicos da nossa entidade mais presentes e próximos dos técnicos do dia a dia deles.

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