Ser atleta é ir muito além de uma vitória ou derrota

Fernando Meligeni, blogueiro do ESPN.com.br
Andrew Patron/Icon Sportswire via Getty
Raquete tênis quebrada rede
Raquete de tênis quebrada: descontando a raiva por uma derrota

Ser atleta não é nada fácil, quando falamos em gerenciar vitórias e derrotas, alegrias e frustrações. Nossos técnicos vivem dizendo que é normal. Vivem dando exemplos de atletas que se superaram depois de uma dura derrota ou uma lesão. A volta por cima sempre é possível. Mas existe uma fórmula?

Vejo muito jogador vivendo mais do dia-a-dia do que da carreira. Enxergo isso no meu meio e com certeza deve ser assim nos outros esportes. Atleta encarando a derrota ou a série de derrota como o fim do mundo. Perder é igual a ser ruim. Perder é igual a perder tempo. Perder é igual a não ser um bom jogador. Quando ganhamos, normalmente isso não é assim. Ficamos felizes e até duvidamos, mas poucos acham que são OS CARAS ou AS MINAS.

Lembro de uma conversa com meu ex-técnico ao perder 5 match points em um jogo contra o Hicham Arazi, na Holanda. O Pardal chegou perto e me disse: "Você tem ideia o quão bem que você jogou? Você percebeu o quanto você está pronto para voos mais altos?". Você não pode se achar o tal ou uma merda por uma vitória ou derrota. Tem que pensar na carreira. Lutar todos os dias, mas entender que o esporte não é feito de um resultado. Ele é feito de anos de aprendizado, vitórias, derrotas, papelões e jogos incríveis. Quem pensa só em um jogo fica pelo caminho.

Levei isso muito a sério. Minhas atitudes, minhas lutas viraram por acabar minha carreira com o melhor ranking, com uma carreira com títulos, com vitórias importantes e grandes.

Vejo a molecada e tenistas próximos jogando para ganhar um jogo. Tenistas desesperados pelo resultado para colocar na mídia social ou para melhorar 10 posições no ranking na semana que vem. Mas será que isso vai te dar a alegria e o orgulho de ter sido um tenista, um atleta?

Aos mais jovens, aos meus queridos tenistas juvenis, transição, começo de profissional ou até top, só posso dizer uma coisa: jogue com o coração. Entregue tudo pela causa. Seja forte e não se deixe levar por uma derrota dura com match point a favor. Treine para ser um tenista melhor. Trabalhe que toda segunda-feira você tem mais uma chance de ter a semana da sua vida.

Rodrigo Caio pegou o cartão amarelo do juiz e deu em todos nós

Fernando Meligeni, blogueiro do ESPN.com.br
Jô fala sobre hombridade de Rodrigo Caio em lance dentro da área: 'Vale mais do que título'

Ver a repercussão da atitude do Rodrigo Caio me impressiona mais pelo alarde do que pela atitude.

Em um país assolado pela corrupção, onde a TV não fala nome de time para não citar o patrocinador (depois critica a falta de apoio), não fala de ex-atleta porque ele está na emissora concorrente (depois critica que o país não tem memória esportiva), as leis são esquecidas no trânsito, no banco ou no simples dia-a-dia, chega a ser engraçado escutar atletas, técnicos ou até jornalistas que NUNCA fariam ou fazem o que falam e hoje aproveitam a onda para descarregar lição de moral e ética.

Rodrigo Caio jogou na cara e tentou abrir discussão de até onde se deve ir pelos seus objetivos e do seu time. Quantas vezes a bola bateu no dedo do jogador de vôlei e ele levantou a mão e disse BATEU? Quantas vezes foi gol e todos viram e o cara falou que foi? Será que ser justo em quadra ou campo é algo tão difícil?

Muitos dirão que a pressão da torcida faz isso acontecer. Lógico. Eu acho que isso acontece porque  ninguém faz. Se todos ou quase todos fizessem, por que a torcida reclamaria? Ou somos ou não somos éticos. A favor é legal. Contra, xingamos todos e achamos injusto. Ganhar acima de qualquer regra ou conceito acaba em briga ou guerra.

Carille parabeniza Rodrigo Caio por 'fair play': 'Vou procurá-lo para um abraço'

Precisamos de mais Rodrigos, mas acima de tudo precisamos criar vergonha na cara. O esporte poderia ser a porta de entrada. Mas para isso precisamos mudar já. Precisamos lutar pela vitória com toda a força e garra. Isso não tem nada a ver com o tal do politicamente correto. Tem a ver com justiça. Com os ensinamentos dos nossos mestres lá, quando tínhamos seis ou oito anos e eles diziam que o esporte era educativo, que criava valores e mostrava que o mundo poderia ser bem melhor. Vocês lembram, queridos atletas?

Existe a diferença entre ser bonzinho e correto. Justo e encardido. Esperto e ladrão. Ir no limite da regra e passar dela. No final, vemos os atletas dizendo que não viram se a bola entrou ou não como nossos políticos não viram nada.

Meligeni comenta sobre fair play: 'Atleta quer ganhar. E quer ganhar da maneira certa'

Nossa sociedade pode mais. Vamos parar de aplaudir o Rodrigo Caio e fazer o mesmo, ou melhor, quando você tiver a chance ou tiver que fazer.

Boa semana a todos.

Aniversário

Fernando Meligeni, blogueiro dos canais ESPN
Quem viu? Relembre momentos da carreira de Fernando Meligeni, aniversariante do dia

Hoje completo 46 anos de idade.

Nestes anos só tenho coisas a agradecer. Fiz uma carreira incrível, cheguei longe demais no esporte que eu amo, fiz amigos, sempre fui leal as minhas convicções, mantive amizades verdadeiras, corri com amor atrás dos meus objetivos, ganhei, perdi, fui feliz, entristeci, me surpreendi e me decepcionei.

Neste 12 de abril quero agradecer as pessoas que tanto me ajudaram e a vocês pessoas que torceram tanto por mim.

Hoje é meu dia. Hoje mereço um presente. Vou pedir algo fácil, grátis e que para mim é extremamente importante.

Você acha que eu mereço um presente? Bom. Eu tenho um fácil de dar

Queria receber de cada um de vocês o presente de baixar meu APP chamado SOMOS TENIS.

Simples né? É entrar na Play Store ou na Apple Store e baixar.

Isso mesmo. Seria o melhor presente que você poderia me dar. E quem já baixou? Ok, você pode pedir pra alguém ou algumas pessoas que gostam de tenis fazer o mesmo. Baixar.

Será que consigo fazer esse movimento de aniversário? Ganhar esse presente?

Muito obrigado e viva o 12 de Abril.

Beijo em todos vocês.

Fino.

Ou o esporte muda ou afunda

Fernando Meligeni, blogueiro do ESPN.com.br
Andrew Patron/Icon Sportswire via Getty
Raquete tênis quebrada rede
Raquete tênis quebrada rede

Outro dia encontrei um presidente de federação na rua e fui cobrado por ter generalizado ao dizer que eu mandaria embora todos os dirigentes esportivos do poder e começaria tudo de novo. Aceitei a crítica, mas me defendi dizendo que na política esportiva que vivemos hoje mesmo os que têm boas intenções não conseguem desempenhar um papel satisfatório. Disse também que nunca acusei ninguém, mas que tinha o direito como eles sempre tiveram com minha carreira de criticar, não concordar ou achar alguém bom ou ruim no que faz.

Lembro rapidamente as críticas que o Bellucci recebe no Brasil mesmo sendo top 100 há mais de oito anos, ter vencido quatro torneios ATP e, mesmo com carreira sólida que tem, muitos o criticam. Se as pessoas podem não gostar ou amar ele por que eu não posso ser contra este ou aquele? Eu mesmo fui criticado quando jogava e sou hoje na televisão. É a democracia. É o direito. É diferente criticar ou não gostar do que acusar.

O que fica claro é que nossa política esportiva não funciona. Fica mais claro ainda que enquanto não se mudar totalmente e não se colocar um cara extremamente competente e corajoso nos cargos que mudam as leis e as regras, não teremos mudanças. Quando digo "competente" não é o que mais grita ou se posiciona. É alguém que entenda de esporte, entenda de gestão, entenda de pessoas e entenda de política.

Meligeni, sobre momento de Federer: 'Está chegando em todas as bolas, parece um menino'

Ao acordar hoje e ver que quatro pessoas da confederação de esportes aquáticos foram presas, alguns devem achar que fiquei feliz. NÃO. Muito pelo contrário. Mais uma vez o esporte morre. O esporte anda para trás. O esporte perde espaço no país. Ao prender dirigentes esportivos, um sinal de alerta tem que ser ligado. Se é um que é preso ou está enrolado podemos e devemos acreditar que é da pessoa. Se mais de um sofre desse mal, o problema é do sistema, da maneira que deixam eles se apoderarem da entidade.

Hoje os atletas da natação podem estar felizes. Hoje o mundo das águas pode estar celebrando. Eu como já me entristeci com o tênis, com o judô, com o basquete, me entristeço com a natação. Acho que todos têm que pagar pelos que fazem. Todos. Mas mais importante que a prisão tem que ser a direção que o esporte vai tomar. O que vai se fazer. Quais as amarras que os dirigentes vão ter. Só prender pessoas não vai fazer o esporte evoluir. Temos o exemplo na política do Brasil. Deixem a polícia fazer seu papel. Façamos o nosso.

Ou se muda ou se afunda.

Cada vez mais Federer de ser

Fernando Meligeni, blogueiro do ESPN.com.br
Getty
Roger Federer: festa em Miami após aula de tênis na final contra Nadal
Roger Federer: festa em Miami após aula de tênis na final contra Rafael Nadal

Mais uma vez, Roger Federer deixou o mundo do tênis incrédulo. Incrédulo por sua velocidade de pés, incrédulo por sua frieza nas situações mais complicadas durante a semana e nos BP hoje, incrédulo por jogar nesse nível neste momento de sua carreira.

A expectativa do jogo era gigante. Muito se esperava de um Nadal diferente ou mais ousado. Muito se falava do momento do suíço. Muito se esperava do jogo.

O jogo começou muito bom. Os dois tiveram chances de quebrar e receberam uma portada na cara com ótimas jogadas dos adversários. Logo no primeiro game, Rafa teve duas chances e não conseguiu por que o Federer jogou demais.

O mesmo aconteceu com o Federer. Tentou e não conseguiu por méritos do espanhol. Até o 4/3, os dois tinham tido quatro chances. O set poderia ir para qualquer um dos dois, mas o suíço mais uma vez foi mais agressivo, mais competente e fez a bola certa quando precisava fazer. Ganhou 6/3 e abriu uma cratera na confiança do Nadal.

A partir do segundo, vi um Nadal como sempre lutador e buscando a vitória a cada ponto, mas era clara a tranquilidade do Federer.

O suíço jogou mais, está jogando mais e merece o momento que vive na sua carreira. São três títulos incríveis em dois Master 1000 e um Grand Slam.

A pergunta que mais fazem é como ele mudou de patamar.

Acho que tenho algumas teses:

🎾 1 decidiu ser mais agressivo com a esquerda. Antes, ele trocava e caía para trás, aceitava a pressão e com isso deixava a bola curta primeiro.

🎾 2 ao melhorar a esquerda, está mais agressivo que nunca. Sacando bem e atacando demais com a direita.

🎾 3 e mais importante. Está voando em quadra. Corre em todas, chega em todas e tem a mão como aliada quando está bem posicionado.

🎾 4 e último. A mão do Ljubicic está funcionando. Parceria de sucesso. Trouxe alegria, tranquilidade e agressividade em seu jogo.

Que coisa incrível ver o Federer jogar hoje em dia. Só podemos agradecer e aprender.

Obrigado, Roger Federer, pelas aulas de tênis que você está ministrando ultimamente!

mais postsLoading