Profissão tenista: o que os jovens precisam ter em mente?

Fernando Meligeni

Mesmo que muitos não consideram, mesmo que os pais ainda torçam o nariz quando o filho diz que quer ser tenista, mesmo que o governo não trate o esportista tenista como um profissional e dê seus devidos direitos, eu afirmo que ser tenista é uma profissão. No papel e na vida real não existe nenhuma diferença entre ser jogador de futebol (que tem seus direitos), ser dentista, ser engenheiro e ser tenista.

Dito isso, precisamos colocar na cabeça dos nossos jovens atletas que tênis é um esporte maravilhoso, desafiante, mas muito difícil. Ser tenista é coisa pra gente grande.

Antes de falar o que penso a respeito de ser tenista, quero dividir bem. Você, garotão ou pai de tenista, peço que inicialmente se classifique em uma dessas duas categorias.

Categoria 1: Sou tenista social. Gosto de jogar tênis, mas não tenho pretensão de ser profissional e viver do esporte. Quero curtir, treinar e, quando fizer 16,17 anos, pretendo fazer uma faculdade e virar médico, ser engenheiro e ter uma profissão diferente. Que legal. Jogue, curta, aproveite. Este esporte é incrível e te dará uma base incrível de justiça, resiliência, hierarquia. Você aprenderá a vencer e perder e que a bola na linha é boa.

Categoria 2: Você quer viver de tênis. Quer ser profissional? Ou pelo menos ter a chance de ser?

A primeira pergunta que te faço é: você está trabalhando para isso? Você vai dormir à noite cansado, com a certeza que está vivendo para o esporte? Você conhece a palavra ABDICAR? Você deixa uma festa, um namoro, uma viagem, férias, aniversários para treinar, para jogar ou simplesmente para descansar e continuar focado no seu objetivo?
Se você duvidar ou rapidamente disser que não, sinto te informar que você está no caminho errado. Que terá pouca chance de chegar.
A primeira coisa que precisamos urgentemente colocar na cabeça dos nossos meninos e meninas é que, para jogar tênis profissional, são necessários dedicação e foco. Muitas vezes nossos jovens ACHAM que treinam direito, ACHAM que estão focados, ACHAM que são profissionais.

Ser tenista profissional é muito difícil. Quem escreve aqui é um cara que lutou muito, abdicou muito e mesmo assim quase não chegou. Esteve por um triz e quase batendo na porta do estúdio fotográfico do pai, deixando seu sonho para trás.

Vejo nos treinos e nas mídias que são poucos os jovens que realmente estão abdicando e deixando as coisas de lado. Muitos vão me achar extremista, mas vocês realmente acreditam que jogar contra Djokovic, Nadal, Rogerinho, Mayer, Robredo ou quem seja é fácil? Os caras treinam forte, dormem cedo, quase não saem, comem com o maior cuidado, treinam de segunda a sábado e só tem o domingo livre. Ao escutar e ver tenistas jovens, me deprimo quando dizem que não treinam em dia de chuva ou no final de semana.

Com essa atitude vocês acham que vão conseguir concorrer com os melhores do mundo?

Outro ponto a ser abordado aqui é que muitos acham que Nadal, Federer, Djokovic não são do mesmo circuito. Ao decidir virar profissional, o garoto está ganhando um passaporte que vai ao encontro desses caras. Vocês não acham meio pretensioso ou vergonhoso não treinar forte e se denominar tenista profissional do mesmo meio que esses caras? Ah, mas eles são jovens, já diria um pai, ou um treinador. E o Thiem, Zverer, Khachanov, Coric? Eles fazem as coisas certas, treinam duro e têm 17 ou 18 anos. Por quê? Porque eles querem ser tenistas profissionais.

Finalizo aqui perguntando mais uma vez aos nossos jovens: vocês realmente querem ser tenistas profissionais?

Boa sorte, bons treinos e vivam para o esporte.

Hoje, no Dia Olímpico, tenho um pedido: cartolas e políticos, peçam desculpas pelo Rio 2016

Fernando Meligeni, blogueiro do ESPN.com.br
Getty
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Hoje, 23 de junho, é o Dia Olímpico.

Tenho muito orgulho de ter sido um atleta olímpico. Quando pequenos, sonhamos em representar nosso país em uma Olimpíada. Tive esse privilégio em 1996, em Atlanta, e posso dizer que não tem coisa mais mágica do que estar em uma Vila, conviver com atletas, conversar com técnicos e aprender com médicos, preparadores físicos e pessoas que fazem os Jogos o maior de todos os eventos esportivos.

Na minha experiência, tive a oportunidade de conviver com Zé Roberto Guimarães, Fernando "Xuxa" Scherer, Robert Scheidt, Torben Grael e tantos outros gigantes do esporte. Dentro dessas feras, o que mais me chamou a atenção foi o comprometimento e a alegria de representar o país. Ao mesmo tempo, me assustou as diferenças de preparação e de possibilidade de cada atleta. Enquanto alguns tinham um esquema perfeito de trabalho, outros iam na pindaiba e da maneira que dava.

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Ser um atleta olímpico no Brasil tem sabor doce e azedo. Se por um lado você conquista um sonho, por outro percebe a diferença de tratamento e seriedade com nosso esporte. Histórias não faltam. Atletas sem grana, atletas que tiveram que lutar para estar lá contra todos e tudo, atletas que vivem esse momento como o dia de suas vidas, porque sabem que ao voltar ao Brasil não terão dinheiro nem para comer.

Como disse, ser atleta olímpico no Brasil é muito mais um prazer pessoal do que a certeza de um passo à frente. Ser atleta olímpico no Brasil é simplesmente chegar ao seu sonho mais impossível.

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Tivemos a chance das nossas vidas ao sediar o Rio 2016. Foi uma festa. Foi lindo. Lindo como aquela foto retocada no Photoshop milhares de vezes. Mostramos ao mundo que temos atletas e vontade de ser campeão ou campeã mundial, mas somos aprendizes, sem direito a voltar a fazer uma Olimpíada no Brasil. Mostramos ao mundo que não nos preparamos, que não deixamos nenhum legado, as obras foram caríssimas, continuamos pagando e pior que tudo isso: acabou, e as instalações estão deixadas de lado.

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Sinto dizer com todas as letras: hoje é Dia Olímpico para cada atleta que lutou por medalha ou para estar nos Jogos. Hoje não é dia olímpico para o Brasil, para o COB, para o Rio 2016, para o Ministério do Esporte e todos os órgãos que trouxeram os Jogos para o Brasil. Eles precisam refletir e pedir desculpas ao povo e aos atletas pelos seus atos e por deixar de fazer tanta coisa que prometeram.

Você realmente acha que está treinando bem?

Fernando Meligeni

Convido você que é um tenista juvenil, um treinador ou pai de tenista a ler este post e, se possível, opinar.

Tenho visto o treino e tenho conversado com tenistas brasileiros juvenis. Por causa disso, decidi conversar com alguns técnicos espanhóis e de outros países para ter um pouco de fundamento no que eu acredito.

A pergunta que fiz vai de encontro, é dura e direcionada aos técnicos que assumem a responsabilidade de treinar juvenis ou atletas em transição. Vocês dormem tranquilos com essa responsabilidade? Estão se informando e vendo o que se pensa e treina lá fora? Ou ainda acham que porque tivemos um Guga o método de trabalho daqui é o correto?

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Poucos são os centros de treinamentos aqui no Brasil que não treinam em quatro na quadra. Poucos ou quase nenhum têm bons treinadores que ficam no Brasil e responsáveis do centro com experiência ou até competência para dar o treino. Quando os técnicos dão seu nome ao centro de treinamento, saem em viagens com os melhores.

Poucos lugares estão falando de tática, estratégia e martelam os nossos jogadores da maneira que eles têm que jogar. Vocês sabiam que alguns jogadores entendem olhando, outros escutando, outros fazendo e outros de todas as maneiras? Então, a tese de todos treinarem igual é a clara certeza que esse treino vai dar errado e o jogador vai evoluir muito menos que o esperado.

Sei bem a necessidade de colocar 30, 40 ou até 50 jogadores nos treinos, mas desculpem. Quem tem 50 não pode se chamar de centro de treinamento. Para mim, treinar um jogador é como educar um filho. Você pode até contratar a melhor babá do mundo, mas nunca será educada como os pais educam. Nunca será tratado com o amor da mãe. Pode e será bem tratada, mas no mundo do tênis o ESTÁ TREINANDO LEGAL não é o suficiente. Tem que estar treinando bem para caramba.

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Outro ponto importante: se você coloca seu filho em um centro de treinamento, negocie o que eles vão te dar. Quem vai treiná-lo, quem vai viajar. Existe o merecimento do menino, mas existe o que se fechou. Treinador é fundamental e eu tenho maior carinho e respeito pelos que me treinaram.

Lembre-se: se teu filho ou você, menino, não conseguir, você não terá outra chance de ser tenista. O técnico tem todo dia.

Treine duro, seja chato, peça espaço. Da tua parte, trabalhe e escute.

  • Recado aos técnicos

Se você, técnico, está pensando agora: "Mas eu falo e ele não faz". Convido você a dizer a ele que vá procurar outro lugar. Ou o lugar é um centro de treinamento ou um centro de lazer. Você decide.

A intenção deste post é alertar, melhorar, ser duro com quem está fazendo um péssimo trabalho. Educar o pai e mostrar ao garoto que se ele quer jogar, só se trabalhar muito duro e com atenção para ter uma chance.

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O esporte é muito duro. Hoje, o profissionalismo é absurdo. Se o jogador está preocupado com o que come, quantas horas dorme... Imaginem a importância que é o treino!

Ser tenista é muito mais que ir ao clube e bater na bola. Ser tenista é querer ser diferente, chegar ao limite, não ter medo do impossível. Acreditar que o mundo é tua casa e a tua casa é um lugar para passar as férias.

Bons treinos!

Um dia especial, um personagem incrível: 20 anos do título de Guga em Roland Garros

Fernando Meligeni

Hoje é um dia especial. Um dia que emociona qualquer pessoa que gosta de tênis e do Brasil.

Dia 8 de junho de 1997, o até então pouco conhecido Guga Kuerten entrava em quadra para a final de Roland Garros e vencia seu primeiro título de Grand Slam. A data é histórica e inesquecível, mas muito mais que isso, o personagem é incrível.

Guga foi ganhando seus jogos e, com sua habitual humildade, dizia que estava surpreso, que era uma zebra, que os caras eram melhores... Mas, no fundo, sabia exatamente que podia fazer história. Para mim, sua vitória contra Thomas Muster foi o divisor de águas para realmente acreditar que podia vencer qualquer um. Tão jovem, tão inexperiente em torneios grandes, mas com uma maturidade que não se treina, não se ensina. Uma genialidade nata.

Cada passo em 1997 mudou sua vida para sempre. Mudou o que ele virou para os outros, mas Guga continuou sendo o mesmo figura boa praça, o mesmo "molecão".

Guga é desses gênios que fazem bem ao esporte. Carismático, amado, diferente, inteligente e vencedor.

Tive o privilégio de conviver com ele quase a carreira inteira. Acredito ser um dos caras que mais vi, conversei e dividi momentos bons e ruins. Nem por isso não deixei de ficar perplexo e feliz demais com cada esquerda na paralela, saque aberto na vantagem e até senti na pele, do outro lado da quadra, sua maestria.

Guga conseguiu o que ninguém imaginava possível. Abriu as portas aos tenistas do Brasil e mostrou que era possível, sim, ser brasileiro, com pouca estrutura, e ser um campeão

Obrigado Guga. Você merece todas as homenagens. Você merece aplausos de pé de todos nós.

O que vi da rotina dos jogadores em Roland Garros. Uma nova era do tênis

Fernando Meligeni, blogueiro do ESPN.com.br
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Os quatro dias que estive presente em Roland Garros me deram uma clara noção de como está o circuito hoje em dia.

Fiquei dentro da sala de jogadores, muito atento com tudo que eles fazem, pensam e, principalmente, fiquei de olho nas rotinas.

Alguns pontos me chamaram muito a atenção:

1) Você vê pouco os jogadores fora do vestiário ou menos ainda circulando. Vems um bom jogador na hora de comer, passando pra pegar alguma coisa rápido ou pouco tempo no final do dia depois dos jogos. Pouco tempo mesmo;

2) Alimentação. Sem dúvida é o que mais chamou a atenção. Nenhum refrigerante nas mesas, comidas leves, nada de doce nas bandejas. Jogadores cuidando o dia todo da alimentação;

3) Cara de poucos amigos. Acostumado com minha época que existia interação, diversão, resenha. Hoje é cada um por si. Você passa, eles te dão bom dia e só. Focados no torneio;

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4) Celular, o melhor amigo dos jogadores. Sem dúvida o ponto mais distante da minha época e negativo. Ninguém conversa com ninguém. O tempo todo estão no Zap Zap ou mídias. Almoço ou jantar entre vários jogadores? Nem pensar.

5) Times gigantes. Hoje os jogadores viajam com um time maior. Quanto melhor o jogador, mais gente no time. Treinador, preparador físico, físio, agente, família e por aí vai.

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Não sei te dizer se melhorou. Ficou mais chato. Mais profissional, é verdade, mas sem alma, sem o sorriso no rosto. Poucos são os jogadores que ainda vivem focados, mas olhando pra fora. Uma nova era. Uma nova maneira de viver o tênis.

Dentro da quadra o resultado, com certeza, é positivo. Vi grandes jogos, e certamente hoje em dia não se pode fazer nada mais ou menos. Sem esse empenho e foco, quem não acredita nisso fica bem pra trás.

Serve de alerta aos nossos jovens jogadores que pensam em um dia ter a chance de estar em um Roland Garros.

Como costumamos dizer, menos Chacrinha e mais suor. Menos calça jeans e mais saibro nas meias. Menos beijinho e mais direita na cruzada e paralela. Menos descanso e mais dor no corpo.

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