Não façam do tênis um esporte midiático e televisivo sem alma e história

Fernando Meligeni, blogueiro do ESPN.com.br

De tempos em tempos volta a discussão sobre mudanças nas regras do tenis.

Li ontem e hoje dei uma boa estudada a respeito do que a ATP vai fazer com as experiências no Master da nova geração. A ideia de ter um evento que quase não vale nada e tem o intuito de promover a nova geração dá a liberdade de ousar, experimentar ou simplesmente debater.

Na pauta, algumas velhas novas mudanças voltaram, outras mais radicais apareceram. A maioria já nasceu morta.

Clive Brunskill/Getty Images
Jovens tenistas participam do lançamento do Next Gen ATP Finals
Jovens tenistas participam do lançamento do Next Gen ATP Finals
  • Best of 7 games

Sets com melhor de sete games, sem vantagem nos games. O jogo seria em melhor de 5 sets. Sem duvida, a intenção é fazer com que os jogadores e o público sintam que todos os games valem. 

Minha opinião:

Eu já joguei nesse formato. Achei péssimo. Foi em um torneio parecido (master da Copa Ericsson) que era mais pelo dinheiro e não valia pontos na ATP. A sensação como jogador foi ruim. Não vi o público diferente e desfigurou o esporte. Acho muita mudança junto e o tempo de jogo vai mudar pouco. Se fizerem isso, podem mudar o nome do esporte também. Isso pra mim não é tenis

  • 25 segundos entre pontos

Seriam 25 segundos entre pontos e 5 minutos de bate bola respeitados. Sempre existiu a discussão sobre os 25 segundos. Hoje, fica na mão do árbitro dar ou não a punição. Quem não se lembra da discussão do Nadal com o Bernardes? Outra mudança é que, a partir do segundo que os jogadores entram em quadra, eles tem 5 minutos. Sem enrolação

Minha opinião:

Acho positivo pelo lado de não ter mais a mão de alguém ao dar ou não a punição. Vejo que muitas vezes o jogador cansado usa e abusa do tempo e paradas estratégicas. Já fiz muito isso. Deixa de ser subjetivo e obriga o jogador a jogar dentro da regra. Acho legal. A parte dos 5 minutos do aquecimento acho perfeita!

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  • Sem let

Muito se fala a respeito. A ideia é tirar o let.

Minha opinião:

Acho PÉSSIMO. Fazer que o esporte fique mais de sorte, mais imprevisível, nivelando por baixo. Perder ou quebrar um saque porque ele bateu na rede me parece pequeno e sem necessidade. Outra pergunta: quantas vezes em um jogo a bola bate na rede e volta o serviço? Não são tantas para mudar a regra. Eu não mudaria. Acho que é um grande erro e existe a possibilidade de parecer uma gincana - e não um esporte.

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  • Falar com o técnico

A ideia é liberar a comunicação entre o jogador e o técnico.

Minha opinião:

Eu acho que esta regra demorou demais a mudar. Me parece ridículo ter um treinador e ele não poder falar na hora mais importante do jogo. Ele te treina e, na hora da execução, ele não pode te ajudar. Acho que tem que ser bem feito, para não banalizar ou ficar uma falação feia. Mas tem que liberar. O jogo melhoraria e teríamos alternâncias táticas importantes nos jogos. Eu aprovo.

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  • Opinião geral

Sinceramente, não acho que as regras sejam o problema do esporte. Quem reclamou de um Federer contra Nadal na final do Australian Open? Foi longo? É só mudar para melhor de três sets. Eu não mudaria e acho que seria um grande erro.

Claramente, o que falta ao tênis são jogadores mais carismáticos, com mais engajamento com o público, mais acessíveis e com menos travas. Menos jogador robô, menos regras duras que um tenista não pode jogar a raquete no chão, não pode olhar pro lado, não pode nada.

Menos caretice dos dirigentes, menos politicamente correto, achando que um tenista ao jogar a raquete no chão está deseducando seu filho. O mundo mudou e nem por isso o esporte precisa ser exatamente igual. Existe sim uma necessidade de melhorias, mas não mudanças desse porte.

Não façam do tênis um esporte midiático e televisivo sem alma e história.

Chegou a hora de parar

Fernando Meligeni, blogueiro do ESPN.com.br

A frase "Atleta morre duas vezes" é uma das grandes verdades que eu já escutei, li e vivi.

Hoje acordei com a notícia que o Juan Mónaco, ex top 10, e com uma linda história no tênis decidiu se retirar do esporte.

O parar de jogar e exercer uma rotina das mais duras e incríveis que você pode ter é uma mistura de dor, medo, insegurança, alívio e sensação de estar totalmente perdido.

Um atleta vive a vida para o esporte. Um dia isso acaba. De um dia para o outro você não faz mais o que fazia e passa a ser um "ex". O respeito pela sua carreira continua, mas a diferença entre ser um altera um um ex-atleta é gigante. É basicamente como querer pedir emprego desempregado ou te consultarem para você mudar enquanto você está empregado e feliz.

Sou um dos atletas que não posso reclamar. Parei na hora certa, venho tendo uma carreira pós muito legal, continuo no esporte que amo e tendo alguma relevância. Mas será que lá no íntimo isso basta? Podem ter certeza que não. O buraco, a escuridão e as lembranças são grande e devastadoras, só os fortes e os que conseguiram achar caminhos que te tragam alguma adrenalina suportam e voltam a sorrir.

Não acredito em uma fórmula, mas com certeza o parar na hora certa, o ter dado o seu 110% e o ter vivido intensamente o esporte podem ser maneiras mais brandas de conviver com a saudade.

Eu parei há 14 anos e ainda sonho com quadras lotadas, adversários impossíveis, jogadas incríveis, títulos que poderia ter vencido e jogadores que nunca imaginei vencer.

Ser tenista é das melhores coisas que vivi na vida. Ser ex-tenista é das mais tristes que um verdadeiro atleta vai ter que carregar. Por isso, se jogue, aproveite cada jogo, cada treino, cada cidade e cada sensação.

Tenista: o verdadeiro significado de ir atrás dos seus sonhos, lutar pelas suas vontades, passar dos seus limites. Amar a vida e desafiá-la todo dia.

 

Amizade no circuito

Fernando Meligeni, blogueiro do ESPN.com.br

Existe muita história sobre amizade no circuito. Será que os jogadores são amigos? Se toleram? São politicamente corretos?



Vi e vivi muitas histórias. Fiz amizades verdadeiras, sou amigo de 'oi e aí' de muitos, fui amigo e me distanciei, nem tentei ser amigo...

Realmente a palavra amigo é complexa, mais ainda quando você luta pelos mesmos ideais e espaço. São poucos que tem estômago e inteligência para entender que jogo se ganha na quadra, e espaço se conquista pelo seu caráter e verdade.

No circuito fiz amigos. Poucos de verdade, poucos que se preocupam com você durante e após a carreira. Conto nos dedos, mas fiz. A amizade pode acabar por uma discussão em quadra ou uma atitude fora dela.

O mais normal é que, se a discussão ou problema foi normal, dentro da ética do jogo, a briga fica só no jogo. Caso o problema for 'de sacanagem', atitude antidesportiva, então o 'bicho pega' e a discussão vai para o vestiário. Neste caso, provavelmente, a amizade acaba.

Como no escritório ou na vida, nós também temos códigos e respeito ao outro. Quem passar fica marcado. Poderia marcar muitos nomes de amigos, desafetos, brigas, caras éticos que conheci.

1 - Amigo André Sá. Por ter jogado na mesma época e ter disputado vaga em time, jogos contra, poderíamos ter nos confundido. Mas tenho a maior admiração pelo querido amigo.

2 - Grande parceiro Guga. Vivemos muitas coisas. Aprendi demais com ele e tenho certeza que algo ensinei também. Nos separamos, mas somos amigos. Respeito demais o que ele fez e faz pelo tênis. Somos diferentes, mas verdadeiros parceiros.

3 - Amigo de circuito que virou amigo de verdade. Podemos fazer uma lista. Amigos que nos apoiaram, nos ajudaram em treinos e momentos duros. Amigos que nos surpreenderam. Aqui vou colocar o Fábio Silberberg. Quase morri quando entrava na quadra para jogar a semi de Roland Garros e vejo o Fábio lá sorridente. Não poderia perder este momoneto, então, de um amigo tão querido. Que sensibilidade. Que atitude maravilhosa.

4 - Técnicos. Edu Faria. Aqui posso colocar muitos. Ou melhor, todos que trabalharam comigo e deram o sangue. Mas o Edu é especial. Meu preparador físico que me fez mudar de estágio, mudar de patamar. Me colocou no ponto. Não era o que mais ganhava, não era o que mais viajava, mas era um gênio. Deu o sangue, deu a vida pelo meu objetivo. Nunca poderei retribuir. Nunca poderei dizer o quanto ele foi e é incrível.

5 - Por último, imprensa. Aqui coloco André Kfouri. Tão complicada a relação. Tão difícil para o jornalista ficar próximo do atleta e ser ético, ser correto. André Kfouri é o que eu simplesmente admiro de um jornalista. Teve todas as notícias na mão. Teve furos incríveis, fotos comprometedoras, viu coisas que um jornalista qualquer poderia esquecer em uma amizade. André é ético, é verdadeiro, é correto, é humano e é incrível. Sou fã desse incrível jornalista que virou amigo, que virou da minha família e hoje é um verdadeiro irmão.

Espero ter mostrado a relação de amizade do circuito. Com ela, faço uma singela homenagem a pessoas que eu admiro. Pessoas que eu até hoje me relaciono.

A semana gigantesca de Bia Haddad, e o que isso revela sobre o tênis brasileiro

Fernando Meligeni, blogueiro do ESPN.com.br
Getty
Bia Haddad conseguiu a maior vitória da carreira sobre Samantha Stosur
Bia Haddad conseguiu a maior vitória da carreira sobre Samantha Stosur

A gigantesca semana de Bia Hadad até o momento, com vitórias sobre Christina McHale (top 50) e Samantha Stosur (top 20), me faz debater um assunto mais do que importante.

Nos últimos dez anos o tênis brasileiro foi patrocinado pela nossa entidade maior com ajudas de viagens e, pela proximidade dos Jogos Olímpicos, a maioria dos jogadores foi ajudada por muitas empresas.

Se por um lado isso foi fundamental para que nossos melhores tenistas jogassem com mais tranquilidade - e que fique claro que é mais que merecido -, o lado negativo é que acomodou muita gente.

Vou tentar explicar melhor.

No caso da Bia, por exemplo, ela sempre foi ajudada e teve patrocinador. A entidade pagou seus treinos e foi uma promessa bem ou mal ajudada. Quando teve uma grande dificuldade, perdeu patrocínios, percebeu que não tem muito dinheiro em caixa, e o que aconteceu? Consegue seus melhores resultados. Será que isso está de alguma maneira fazendo sentido?

Meligeni diz que Sharapova voltou ao tênis mais magra e analisa queda em Stuttgart

Outros jogadores - sem dar nomes - são ajudados, ajudados e ajudados. Passagens, dinheiro para viajar, treinadores pagos e, lá no fundo, vejo uma falta de compromisso ou comprometimento. Aquela história que já escutamos. Se não der certo, meu papai ajuda. Tenho um plano B. É o pior. Acha que seus problemas apenas acontecem porque não tem grana pra viajar.

Outros é bem verdade, não tem dinheiro e perdemos grandes valores porque a família não tem condições e ao não viajar, treinar bem, ficam pelo caminho.

Mas então qual é a fórmula?

Sem dúvida nenhuma, é um meio termo. Não fazer política, não passar a mão na cabeça e estar próximo da verdade e do dia-a-dia do jogador. Saber se ele está fazendo por merecer. Só ajudar quem vem trabalhando, viajando e vivendo o tênis.

Meligeni se derrete pelo 'impressionante' Rafael Nadal e destaca o bom momento físico

Nos outros países, os jogadores chegam sem ajuda, viajando e ficando na Europa sem grana e com muito amor ao esporte. Aqui não me parece bem isso. Vejo uma dificuldade gigante de ABDICAR. Das coisas boas da vida. Da namorada. Da sua cidade. Dos amigos...

Convido os amigos tenistas, fãs do esporte, entidades e técnicos a discutirem comigo.

Viva os jogadores que lutam, amam e dão a vida pelo tênis.

Viva Bia, que teve todas as chances de desistir, desmotivar, mas consegue a cada dia se firmar e mostrar que o trabalho, o compromisso, o comprometimento e o amor ao tênis têm seu resultado - rápido ou demorado.

O que a última semana mostrou de Nadal e Sharapova

Fernando Meligeni, blogueiro do ESPN.com.br
Getty
Rafael Nadal e Maria Sharapova, os destaques da última semana no tênis
Rafael Nadal e Maria Sharapova, os destaques da última semana no tênis

Dois dos maiores nomes do circuito começaram a última semana em momentos bem diferentes. Rafael Nadal lutava pela sua décima conquista em Barcelona; Maria Sharapova entrava em Stuttgart para tentar deixar pra trás o pior momento da sua carreira e começar uma nova fase.

O espanhol mais uma vez mostrou ao mundo como se joga no saibro. Sólido, profundo, sem erros e com muito apetite, voltou a ganhar sem problemas. É bem verdade que pouco ou nada foi colocado à prova: chegou à final sem maiores problemas e na decisão passou por cima de Dominic Thiem.

Veja lances da vitória de Rafael Nadal sobre Dominic Thiem por 2 sets a 0

Rafa deixa claro que, quando está sem problemas físicos, não tem adversários no saibro. Pode até não ganhar Roland Garros, mas nem público, nem imprensa e nem jogadores acreditam que exista outro favorito em Paris.

A russa jogou acima do esperado e teve uma mistura de sensações. Perguntas ásperas nas coletivas, adversárias com pouca ou nenhuma tolerância, público dividido.

Veja lances de Kristina Mladenovic 2 x 1 Maria Sharapova

Se na quadra ela mostrou que rapidamente vai voltar entre as 10 do mundo, fora da quadra me parece que vai demorar um pouco mais para conquistar a maioria. A semi e os convites para as próximas semanas vão trazer a russa para mais jogos, mais problemas e chances de tentar esquecer o passado.

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