Não há defesa ou motivo para deixar Nuzman como presidente do COB. Não te queremos mais

Fernando Meligeni, blogueiro do ESPN.com.br
Da casa de Nuzman, Gabi Moreira informa como operação 'Unfair Play - segundo tempo' prendeu dirigente

Carlos Arthur Nuzman foi preso, e com ele a certeza de que quando alguém fica muito tempo mandando no esporte ou na política tem grande chance de acabar mal. 

Há anos venho escutando que muitas pessoas que faziam coisas erradas (fui doce agora) estavam indo para o esporte e, para nossa infelicidade, estavam no poder dele. Ao mesmo tempo escutava que o esporte era perfeito porque ninguém dava a mínima e não teriam problemas.

Veja o momento em que Nuzman é conduzido à viatura da Polícia Federal

Bom. Hoje começo a acreditar que as coisas podem mudar. Os dirigentes que por anos ficaram no desmando do esporte com certeza dormem com um olho aberto e um fechado. Os que riram dos atletas, falaram que mandavam no esporte, que éramos trouxas, começam realmente a acreditar que podem acabar presos. 

Felizmente o Brasil mudou. Não da velocidade e da maneira que gostaríamos, mas vemos que existe a intenção.  

Há um ano, Nuzman falou sobre escândalos no esporte: ‘Deverão ser tratados dentro de medidas cabíveis'

Com todo respeito, chegou a hora de mudar. O esporte brasileiro não pode ser dirigido por alguém como Nuzman. Ele que se defenda. Tem todo o direito. Mas ao ser preso, ele teria que ser tirado do COB imediatamente. Não há defesa ou motivo para deixá-lo lá. 

Torço para que possamos ter um novo comandante e desta vez que se preocupe mais com o esporte e menos com ele mesmo. 

Advogado de Carlos Arthur Nuzman fala sobre a prisão

Que a prisão dele sirva de exemplo que o esporte é soberano e se ele for inocentado chegou a hora de dizer. Descanse longe do esporte. Não te queremos mais.

Profissão dirigente esportivo

Fernando Meligeni, blogueiro do ESPN.com.br

Ao acordar dei de cara com a matéria que o skatista Bob Burnsquist virou presidente da confederação de Skate e já se rotulou um presidente rebelde.

Tenho que admitir que fiquei feliz ao ver um atleta consagrado, inteligente, querido e ativo entrando nesse vespeiro. Fiquei mais feliz ainda com sua vontade e direção de não ser político, ser mais técnico e contestador, mas ao mesmo tempo a sua decisão me fez pensar. 

Será que o caminho é esse? Será que os atletas precisam ou devem se colocar nessa situação?

Há tempos eu vejo atletas entrando nas confederações e em pouco tempo abandonando o barco. Muitos deles totalmente decepcionados, outros revoltados. Poucos ficaram em fizeram um bom trabalho. Eu mesmo escuto que deveria fazer esse caminho. Muitos já me indagaram a respeito. Mas no meu caso isso está bem fora dos planos

Eu tenho claro algumas coisas sobre esse assunto:

1. Não importa o quanto o atleta foi bem sucedido. Na minha visão para ser presidente de uma confederação o postulante tem que ter muita noção de gestão, planejamento e ser um pouco político. De gestão e planejamento o cara precisa ser bom porque ele vai ser o responsável por um esporte. Uma empresa. Político, porque mesmo sendo rebelde o cara vai ter que lidar com presidentes, ministros, atletas e muitas vezes ou na maioria delas os outros não pensam como ele, ou melhor,  ele pensa totalmente diferente e tem um respeito ao esporte que os outros nem passam perto de ter.

2. Tem que ter estômago. Não preciso dizer aqui que o esporte brasileiro é dirigido em sua quase totalidade por caras que pouco produzem, pouco se preocupam com o desenvolvimento ou atletas. A sua grande maioria é feita de pessoas que não tem condição de estar lá e usam o posto para se promoverem e terem ingresso, regalias e um minuto de fama na frente da televisão. Ganham o posto e automaticamente viram a cara para o verdadeiro esporte.

3. Ter sido um grande atleta não representa ser um bom dirigente. Não te dá a credencial de competente. Não te dá a isenção de incompetente ou idôneo. Temos no esporte muito atleta perigoso. No caso do Bob, tenho certeza que ele tem condição. Mais que um atleta ele sempre se mostrou um empresário e um agregador. Não precisa da fama e do dinheiro da confederação e ama o esporte. Todas as credenciais necessárias.

4. Ter tempo para trabalhar. O esporte é fundamental. Temos que ter respeito a ele. Para isso quem assumir tem que trabalha duro. Ter tempo para pensar, aglutinar pessoas, fazer decisões, conversar, mas acima de tudo fazer decisões importantes. Mudanças radicais. Para isso se precisa tempo e um time forte. Sem isso vejo pouca chance de sucesso. Presidente que vai só no final da tarde para assinar papéis e ficar sabendo o que aconteceu quase sempre é engolido pela política brasileira.

Falado isso, reafirmo que estou feliz em ver o Bob encarando um desafio desses. Torço para que ele consiga mudar o falido processo dos dirigentes esportivos. Que ele incentive e mostre uma alternativa aos atletas e com isso que tenhamos mais e mais pessoas competentes no poder. Que ele consiga pressionar o COB e o ministério dos Esportes. É por último que ele tenha em casa guardado muita paciência.

Boa sorte, Bob. Voe alto. Tenha equilíbrio, erre ou acerte tentando o correto. Lute pela nota 10.

Uma Copa Davis para o tênis brasileiro esquecer

Fernando Meligeni, blogueiro do ESPN.com.br
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Bruno Soares, Marcelo Melo, Guilherme Clezar, Thiago Monteiro e o capitão João Zwetsch
Bruno Soares, Marcelo Melo, Guilherme Clezar, Thiago Monteiro e o capitão João Zwetsch

O time do Brasil volta do Japão com um saldo muito negativo e um gosto amargo. Fiquei pensando como escreveria este texto. Por onde eu pensava via lados negativos. Tivemos problemas na convocação, problemas com vídeos vazados com ofensas gratuitas a um top 10 que nem no confronto estava, uma atitude imperdoável de um atleta do time que repercutiu no mundo inteiro, e a derrota que nos mantém na segunda divisão da Copa Davis. De positivo? A dupla que mais uma vez foi e deu conta do recado.

Como ex-jogador e ex-capitão da Davis, fica muito difícil comentar a convocação do capitão João Zwetsch. Tenho minhas convicções, mas, como estive lá, a escolha é muito pessoal e baseada em confiança. O que fica claro é que a maneira como isso ocorreu criou um grande desconforto geral e com isso a recusa de Rogerinho, tenista número 1 do Brasil.

Após lesão de Bellucci, Rogerinho, que não tinha sido convocado, recusa substituí-lo na Copa Davis; veja discussão

Os dois episódios lamentáveis foram tristes e comprometem muito mais nosso tênis que os protagonistas. O presidente da confederação colocou um vídeo interno do time onde vaza um xingamento a Kei Nishikori. Claramente era uma brincadeira, conhecendo cada um dos tenistas, sei que não tem a ver com o que eles pensam. Na pressão, uma brincadeira mal colocada é normal, mas o que não é aceitável é um dirigente sentado à mesa com atletas expor os jogadores. Pior ainda é publicar coisas do time. O conhecido fogo amigo não pode acontecer. Mais triste foi ver que em nenhum momento veio e pediu desculpas publicamente. O ‘deixa pra lá’ e simplesmente apagar a publicação não resolvem. Em uma ‘nova era’ esperávamos mais e melhor atitude.

O caso do Guilherme Clezar já foi falado demais. Nem preciso dizer que ele errou feio e está pagando pelo seu ato. Tentou se desculpar e que a atitude sirva para seu futuro como tenista é cidadão. O que posso dizer é que atleta que está em quadra representando o país tem uma responsabilidade muito grande. O que fazemos, o que mostramos repercute muito. Precisamos saber que nosso time, nosso esporte e nosso país estão acima de tudo e temos que respeitar. Foi um erro grave. Eu, como atleta, me senti ofendido, então fico imaginando como se sentiram todos os atingidos.

O resultado?  Na boa, ficou em segundo plano diante de tudo que aconteceu. Aprendi na minha primeira Copa Davis que o resultado vem de uma preparação bem feita, harmonia no time, união de fora e de dentro e muita luta na hora do jogo. Se um dos lados ou pontos da preparação é mal feito, a derrota quase sempre vem.

Pergunto: merecíamos vencer? Desta vez não. Que na próxima oportunidade tudo seja diferente.

Do ‘tenista básico’ ao ‘tenista alma’, quem é quem no circuito?

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Del Potro foi pura raça e alma na vitória sobre Dominic Thiem
Del Potro foi pura raça e alma na vitória sobre Dominic Thiem

Ao assistir e comentar o jogo do Del Potro ontem, fiquei pensando nos tipos de jogadores de tênis que existem. Todos os estilos técnicos e mentais merecem respeito, mas não consigo deixar de admirar tenistas com o argentino. 

Vou tentar fazer um exercício aqui e convido vocês se quiserem participar deixando um comentário dizendo quem são seus tenistas favoritos.

Jogador de Tênis: para mim, todo mundo que um dia pegou em uma raquete pode se considerar tenista. Aqui não importa o nível ou a periodicidade. No circuito todos que estão no ranking merecem respeito. Mas ser tenista para mim quer dizer que o cara joga bem, tem pontos, ranking, mas não para nunca de se doar e de se entregar ao esporte. Frase desse jogador: “Estou feliz de jogar o circuito. Vou fazer o meu melhor”. 

Jogador Talento: quando nascemos, chegamos ao mundo com habilidades. Alguns trabalham muito duro para tentar melhorá-las. Outros vêm com habilidades especiais e tudo fica mais fácil. No mundo do amador vemos tenistas talentosos. Nem sempre eles vencem. Normalmente eles não pagam o preço nos jogos duros e longos. No circuito é igual. Poucos que são muito habilidosos treinam como deveriam e encaram o circuito com a garra e atitude que se precisa. Eles jogam bem, muito bem, mas claramente poderiam muito mais. Sempre deixam a impressão que poderiam ser bem melhores do que são. Frase desse jogador: “Já treinei, tenho dúvidas do quando eu amo este esporte. Pelo o que eu treino, sou bom”.   

Jogador Completo: esse é aquele jogador que não é o mais talentoso, não é o que mais chama a atenção, mas trabalha duro. Quer ser bom. Se joga no circuito. A falta de um talento ou o lado mental o trai às vezes, mas ele tenta com muita garra. Aqui fica a grande maioria dos tenistas amadores e principalmente os tenistas do circuito. A galera que está entre o 30º e o 120º do mundo está por aí. Erram, tentam, trabalham, viajam, vivem do esporte com atitude e profissionalismo. Ser tenista para esses caras é uma profissão como a de médico, professor, engenheiro. Esse cara trabalha duro. Frase desse jogador: “Tênis é a minha profissão e faço de tudo para ser o melhor possível. Abdico do que for para atingir meu grande objetivo: ser tenista”. 

Jogador Alma: é fácil e muito legal falar desse jogador. Ao assistir o jogador, você percebe que ele deixa tudo em quadra. Não importa o quanto ele é bom ou se tem pontos fracos. Seus olhos brilham, seus treinos são intensos, sua atitude é exemplar. Cada bola parece que é a última que ele vai bater na vida. Dentro desse jogador tem fogo, atitude, coração. O ‘tenista alma’ encanta pela sua garra e amor ao esporte. Pode não ganhar sempre, e muitas vezes perde, mas sempre deixa o torcedor feliz por ter acreditado e sem se importar completamente pelo resultado final. Ele sempre deixa tudo dentro da quadra. Frase desse jogador: “Tênis é a minha vida, um sentimento maravilhoso, minha opção de vida. Ganhar e perder faz parte, mas, por tudo o que eu amo e faço pelo esporte, não aceito perder. Vou lutar até o último ponto e gotinha de suor”. 

Pergunto: quem é você? Quem é o tenista profissional em cada exemplo que eu dei?

Desabafo: força meu querido tênis

Fernando Meligeni, blogueiro do ESPN.com.br
Pai apela às redes sociais para pedir ajuda a Fernando Meligeni: situação do tênis no Brasil é lamentável

Ser tenista no Brasil sempre foi uma aventura. Desde os tempos da Maria Esther e Thomaz Koch, o esporte era visto sem o respeito ou importância que merecia. O tempo foi passando e sempre imaginamos e sonhamos com um esporte mais forte, mais reconhecido e querido.

Nestes anos ele vem sendo mais respeitado pelas pessoas. Mas infelizmente, como na política, as pessoas (algumas nem merecem esse rótulo) que passaram pelo esporte deixaram a desejar, fizeram feio e envergonharam a comunidade. O mais triste é que muitos deles, que deveriam estar escondidos e morrendo de vergonha, estão jogando tênis em clubes, e 'latindo' em Facebook como se tivessem moral para isso.


Muitos desses dirigentes, tenistas, técnicos, e promotores que pouco fizeram, muito se aproveitaram do esporte e não deixaram nenhum legado, continuam por ai dando risada de tudo e de todos. Pensando um pouco, sabemos que somos bem responsáveis. Poucos se molham, poucos têm atitude ou coragem de falar e MUITOS são os que preferem deixar pra lá porque estão bem, estão 'de boa', estão ganhando bom dinheiro.

Está claro que vamos chegando ao fundo do poço, mas, quando vejo um vídeo como este, que recebi de um pai de tenista em pleno Parque Olímpico, organizado por uma federação que prometeu mudar o tênis do Rio, que brigou com muita gente falando que o passado era horrível, sinceramente me deprime. Podem tentar dar qualquer justificativa, mas contra imagem e um monte de gente declarando não há o que falar. Sem cadeira, sem estrutura, sem organização, com árbitro em cima da cadeira e mais um monte de coisa mostram que o respeito ao esporte desapareceu.

Não sei mais o que dizer. Espero de coração que a CBT puna a federação, que tenhamos represálias, que tenhamos pelo menos um pedido de desculpas ou melhor, uma declaração de que estão envergonhados e tudo mudará. Além de melhorias imediatas.

Queria morar em um país onde se respeitasse nosso esporte. Queria morar em um país no qual os dirigentes esportivos morressem pelo esporte. Queria morar em um país onde o esporte fosse mais importante que o poder e a vontade de simplesmente aparecer. Queria morar em um país onde, ao ser devidamente criticado, o cara se calasse e trabalhasse, e não viesse com pedras mentindo ou tentando enganar. Queria morar em um país onde dirigente corrupto fosse preso e apodrecesse na cadeia. Queria morar em um país que amasse o esporte.

Não moro nesse país mas nem por isso desisti. Queria muito que os outros atletas não desistissem. Não se calassem. Não se omitissem.

Força meu querido tênis.

Força meu querido país Brasil.

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