Quem matou Odete Roitman?

Por Conrado Giulietti, blogueiro do ESPN.com.br
Reprodução
Quem matou Odete Roitman?
Quem matou Odete Roitman?

Foi a Leila, num surto de ciúmes.

O assassino era o Coronel Mostarda com o castiçal na sala de estar.
O mordomo era o grande culpado, numa trama que ninguém imaginava.

Mocinhos e vilões convivem com a gente desde as primeiras vezes em que assistimos a um filme e entendemos a história.

No meu caso foi Goonies. Se bem que foi difícil entender que o Sloth só queria chocolate e não era mal. A vilã era sua mãezinha.

O Brasil é o maior produtor de telenovelas no mundo. Soap Opera, como dizem os americanos. De sabonete mesmo, os primeiros patrocinadores lá nos EUA.

Carminhas, Nazarés Tedesco e Marias de Fátima são eternizadas nas telinhas.

E aí que a gente cresce dentro deste pensamento e, às vezes, é difícil encarar uma derrota como uma.... como posso dizer.... derrota.

Pois é assim que a vida é. Engana-se quem pensa ser algo exclusivo do esporte.

O meu candidato perdeu? A culpa é daqueles caras lá no nordeste que não sabem em quem votam.

E quando é meu time do coração que perde? A paixão cega, ensurdece, mas não cala. Vá para o twitter após a rodada pra sentir.

Árbitro mal intencionado, esquemas de fabricante de leite e até preferências de empresas de comunicação determinaram o resultado. Só isso pode justificar. Teorias da conspiração brotam mais rápido que Gremlins quando em contato com a água (lembram-se desses simpáticos vilõezinhos?).

Pense no nosso trabalho. É assim também. Reunião pra lá e pra cá. Alinhamento, update, wrap up, e mais um monte de expressões americanizadas - que obviamente soam mais cool.

E ai de alguém discordar de mim. "Só pode ser coisa daquele cara ali, ele claramente quer me f****".

Heróis e vilões.

Confesso me divertir quando leio nas timelines alheias frases como "gosto do fulano, porque ele é do bem". Imediatamente penso em uma pessoa de carne osso, dessas reais mesmo - tipo um árbitro de futebol - acordando, olhando no espelho e dizendo:

- Quer saber? Hoje eu vou ser do mal

Sei lá. Prefiro acreditar no trabalho. Levantar da cama todos os dias disposto a ser melhor do que ontem, sem passar por cima de alguém (não intencionalmente).

E essa é uma tarefa muito difícil.
Coisa para super herói mesmo.

Todo carnaval tem seu fim

Conrado Giulietti, blogueiro do ESPN.com.br
Gazeta Press
Robinho fez funk antes e depois do jogo com o Palmeiras
O que seria de Robinho sem o Santos?

Santos, você é muito maior que o Paulista.

Sim, foi ele que ajudou a transformar Édson em Pelé.

Sim, foi ele que te impulsionou para o mundo.

Sim, foi nele que clássicos passaram a ser inesquecíveis.

Sim, foi nele que os Meninos se tornaram da Vila.

E sim. Foi nele que em três meses a situação mudou, para melhor.

Muito melhor.

Poderia enumerar 21 motivos para reforçar o valor de seus 21 canecos estaduais.

Do modesto presidente, ao modesto treinador.

Não se conforme, pois sua bandeira é a história.

O pior presidente da história do Santos. Por Alex Frutuoso

Alex Frutuoso**, especial para o ESPN.com.br
Diego Garcia/ESPN.com.br
Modesto Roma Júnior venceu as eleições presidenciais do Santos neste sábado
Modesto Roma Júnior venceu as eleições presidenciais do Santos neste sábado

É assim que Modesto Roma Júnior será conhecido ao final de 2017. Mesmo que tenha conquistado títulos e ajeitado as contas do clube. Não creio que será tarefa fácil, mas como a história do Santos prova, quando menos há esperança, mais o imponderável entra em ação. Infelizmente, faz tempo que as coisas acontecem assim. Planejamento não tem sido algo comum na linha do tempo alvinegra.

Mas por que Modesto será o "pior presidente da história do Santos"? Simples. Porque Odílio, Laor, Marcelo Teixeira e Samir também foram. O título é colado pela torcida, sempre, independente do que ocorra, pois sempre haverá os insatisfeitos e os que tiveram interesses feridos. E, o pior, é que certamente o novo presidente santista perderá a saúde por conta da saraivada de críticas e cobranças que receberá.

Samir, por exemplo, teve de lidar com os primeiros passos das TVs por assinatura, mas não foi massacrado pela opinião das redes sociais. Mesmo tendo colocado o CT Rei Pelé para funcionar; mesmo tendo construído uma nova arquibancada na Vila e dado um jeito no gramado e na iluminação do estádio; e mesmo tendo conquistado um Rio-SP, uma Conmebol e quase levado o Brasileiro de 95 (não levou pelos erros de arbitragem), Samir saiu do Santos odiado, com as organizadas o mandando para aquele lugar. Um presidente que também deixou Diego e Robinho no forno para a administração seguinte, mas que sumiu da cena durante anos pelo que sofreu. Foi o pior presidente da história do Santos.

Veio Marcelo Teixeira, que melhorou ainda mais o CT e a Vila, colocou pra funcionar um outro centro de treinamento, para a base, ganhou um título maior depois de 18 anos, chegou numa final de Libertadores, ganhou outro Brasileiro e depois um bicampeonato paulista. E ainda deixou Neymar e Ganso para a administração seguinte. MT também teve sua saúde afetada pelo desgaste, já sob o tiroteio que vinha da internet ele deixou a presidência. Foi o pior presidente da história do Santos.

Laor chegou como novidade, como o homem das grandes lideranças modernistas. Logo de cara, uma final de Copa SP. E em seguida a conquista de Paulista e Copa do Brasil; depois Paulista e Libertadores; e por fim Paulista e Recopa. Mas Laor perdeu a final do Mundial. E por quase ter morrido, teve de se afastar. Foi o pior presidente da história do Santos.

O vice, Odílio, assumiu. Tomou de 8 do Barcelona. Teve de vender Neymar. Perdeu uma final de Campeonato Paulista para o Ituano. E fez o pior negócio da vida do clube, a contratação de Leandro Damião. Mas saiu deixando um patrocínio máster fechado e um acordo para a construção de um novo e mais moderno CT para a base. Base que manteve uma rotina vencedora, diga-se, com títulos da Copa SP e da Copa do Brasil. Odílio deixa também Robinho sob contrato. Um histórico tímido, mas aceitável por conta das circunstâncias. Odílio pegou o bonde andando num momento ruim, em todos os aspectos. Mesmo assim, foi o pior presidente da história do clube.

Qual será o legado de Modesto Roma Júnior? Não sei, ninguém sabe. Ele tem três anos para provar que, mesmo como o pior presidente da história do clube, terá atingido algumas metas positivas. Ele foi eleito com o apoio de um ala tradicional do clube, com algumas figuras históricas. E o que se espera é havendo um momento de crise, essas figuras não sumam, como fizeram com o próprio Marcelo no final de seu mandato.

Aos derrotados Peres, Nabil, Fernando e Rollo, que também iriam ganhar o título de pior presidente da história do Santos se tivessem sido eleitos, que fique a lição: separados, vocês não têm chances. O grupo de Marcelo Teixeira é unido e isso fez a diferença.

Aguardemos, agora, os acontecimentos. Que os vencedores tenham sabedoria para dirigir o clube e que os derrotados saibam se organizar para a criação de uma oposição consciente e responsável.

Pelo bem do próprio Santos Futebol Clube.

**Alex Frutuoso é jornalista, atualmente editor da TV Record em Santos. Foi titular do Blog do Santos F.C. no jornal A Tribuna durante três anos e meio, além de colaborador na Rádio ESPN.

Palmeiras e os 7 pecados capitais

Conrado Giulietti, blogueiro ESPN.com.br
Os '7 pecados' que quase levaram o Palmeiras ao terceiro rebaixamento

O Palmeiras pecou.

O ano do centenário alviverde chega ao fim de um jeito que nem o mais pessimista torcedor poderia imaginar.

Os motivos que levaram o clube a um final de temporada dramático passam por graves erros, falhas de conduta que trazem consequências, às vezes, irremediáveis.

São os 7 pecados capitais.

- LUXÚRIA: Um ano, três técnicos.

Desde que assumiu o Palmeiras, Paulo Nobre queria ser diferente. Depois do contrato por produtividade, o presidente apostava em um técnico estrangeiro como chave do sucesso de um cenário viciado com os mesmo nomes.

Gilson Kleina começou 2014 respaldado pela campanha tranquila na Série B de 2013.
É bom que se diga que, antes disso, o Palmeiras não escondeu de ninguém que foi a Argentina atrás de Marcelo Bielsa.

Com a negativa de "El Loco", Kleina foi mantido.

No total ele fez 105 jogos, com 56 vitórias, 20 empates e 29 derrotas. Pesou contra o treinador cinco eliminações acumuladas desde que assumiu o clube: duas vezes no Paulistão (2013 e 2014), Sul-Americana, Copa do Brasil e Taça Libertadores.

Para substituir Kleina, Paulo Nobre mais uma vez tentou fugir do lugar comum. Começou a entrevistar candidatos a vaga.

Foi a Argentina buscar Ricardo Gareca, contando a pausa para a Copa do Mundo como período ideal para adaptação do ex-comandante do Vélez.

Gareca chegou negando a lenda de que não gostava de verde. Indicou quatro compatriotas e tentou aprender a falar português. De nada adiantou.

No Brasileiro, o argentino conquistou apenas uma vitória. Quatro pontos em 27 possíveis.

O verde não lhe cabia.

Parecia caber para alguém que nasceu com o sangue da velha Academia. Dorival Junior chegou referendado pelo tio Dudu. Ao final do Brasileiro, seu retrospecto, porém, não justificou a mudança.

Até a última rodada do Campeonato, o técnico somava 22 pontos em 53 possíveis. E uma incrível sequência de cinco derrotas consecutivas, com apenas um gol marcado neste período.

Cesar Greco/Ag Palmeiras/Divulgação
Gilson Kleina foi o primeiro técnico do Palmeiras na temporada
Gilson Kleina foi o primeiro técnico do Palmeiras na temporada


- AVAREZA: A perda de Kardec

Alan Kardec era o cara do Palmeiras. Artilheiro, líder de um time que navegou tranquilo na série B. Ainda por cima usava a 14. A camisa indicada por seu presidente, com o mesmo número dos carros guiados por Paulo Nobre em seus tempos de "Palmeirinha" no rally.

A renovação era dada como certa no início do ano.

Até que a razão econômica se sentou a mesa. Aumenta dali, cede daqui, ganha mais acolá e deixa de ganhar aqui.

Cinco mil reais da discórdia.

O valor era uma pechincha, e o São Paulo logo se mostrou disposto a pagar.

Em meio a um centenário cheio de incertezas, o Palmeiras perdia seu principal jogador.
Pior: para seu rival e vizinho de muro.

Gazeta Press
Atacante Alan Kardec deixou o Palmeiras
Atacante Alan Kardec deixou o Palmeiras


- GULA: Ricardo Gareca e a tropa argentina.

O técnico era novo. Tinha em seu currículo um trabalho de longo prazo e de bons resultados no Vélez. Mas faltava alimentar o treinador.

O Palmeiras logo se prontificou a dar aquilo que Gareca queria: jogadores que o conheciam. Numa mesma levada, quatro Hermanos deixavam o clube ainda mais com sotaque espanhol: Tobio, Allione, Mouche e Cristaldo chegaram indicados pela comissão técnica.

O treinador se foi, mas os longos contratos firmados com os jogadores os mantém a disposição do clube.

O zagueiro Tobio é o que mais atua. Porém, nenhum se firmou a ponto de deixar a torcida saudosa, caso estes quatro reforços tivessem acompanhado o professor demitido.

Getty
Ricardo Gareca: não deu certo
Ricardo Gareca: não deu certo


- SOBERBA: Goleiros instáveis.

"O Palmeiras é o maior formador de goleiros do Brasil". A frase anterior valia até o início de 2014.

Depois da aposentadoria de Marcos, o clube precisou passar por cima de seu orgulho e contratar um experiente para a posição.

E quando não teve Fernando Prass, lesionado no início do campeonato, o time sofreu com a irregularidade de Fábio, Bruno e Deola.

Até o desconhecido, mas experiente, Jailson, chegou no final da temporada.

Fabio Menotti/Palmeiras/Divulgação
Fábio: várias falhas ao longo do campeonato
Fábio: várias falhas ao longo do campeonato


- VAIDADE: Paulo Nobre

Paulo Nobre escuta, não ouve. A definição é de quem transita no escritório do presidente do Palmeiras.

A negociação frustrada com Kardec é símbolo do jeito centralizador de Nobre: enquanto seus representantes tratavam com o staff do jogador, havia otimismo na permanência do atacante.

Ao tomar frente das tratativas, Nobre bateu o pé. Fez sua vontade permanecer. O resultado todo mundo sabe.

Paulo Nobre nunca cedeu e, em um ano, rompeu com torcida, construtora do estádio e com a qualidade do time.

Gazeta Press
Paulo Nobre, presidente do Palmeiras
Paulo Nobre, presidente do Palmeiras


- PREGUIÇA: Valdívia.

Se tudo tivesse corrido como a diretoria do Palmeiras planejou, Valdívia não era a aposta da salvação alviverde na última rodada.
Neste momento ele estaria desfrutando de alguns milhares de dólares pagos pelo Al Fujairah;

Sem o acordo financeiro, um pulo na Disney sem dar notícias a seus empregadores entrou no roteiro do chileno.
Até que o Palmeiras tardiamente percebeu: era o time quem precisava (e muito) do jogador. Não o contrário.

E ele sabe muito bem disso.

Gazeta Press
Valdivia: desfalcou o time por conta de lesões
Valdivia: desfalcou o time por conta de lesões


- IRA: Contratações duvidosas

Paulo Nobre fez de tudo para tirar o rótulo do "bom e barato", eternizado nos tempos de Mustafá Contursi no clube.

O termo da moda é "contrato por produtividade".

Desta forma, Lucio, Bruno César, França, Bernardo e alguns célebres desconhecidos chegaram ao clube inchando o elenco.

Folha salarial controlada, qualidade duvidosa.

O Palmeiras 2014 entra para a história como um dos piores times formados em 100 anos.

Sobra ira para a torcida.

Gazeta Press
Bruno César: uma das várias contratações para a temporada
Bruno César: uma das várias contratações para a temporada

Ok moleques. Vocês venceram

Conrado Giulietti, blogueiro ESPN.com.br

 

Gian Oddi
Cartazes do protesto em São Paulo
Cartazes do protesto em São Paulo

 

Foi a primeira vez que tive contato com um "reacionário".

O estagiário pega sua mochila e anuncia que está indo para a Paulista.

No alto da caretice, questiono.

A resposta vem no alto do sangue do jornalismo que já corria nas veias dele:

"No mínimo, há um grande movimento acontecendo aqui do lado e eu preciso ver".

Sinto vergonha, porque o jornalista aqui sou eu.

Ponto para ele (a mãe ligou meia hora depois aparentemente preocupada, mas isso não conta).

Três dias depois, alarmados estamos, preocupados estamos, e lá se vai uma excursão bem maior em direção ao protesto.

Começo a refletir quanto curioso é o fato de eu, metido a controverso, me manter indiferente.

Desde o estopim das primeiras manifestações, nunca tive 100% de convicção do que era certo, de quem estava certo.

E se esse grupo está agindo com uma manipulação partidária por trás? As bandeiras com as siglas me afastavam ainda mais.

Alheio.

Vamos ver o que se passa nesse grande protesto prometido para a segunda-feira, pensei.

Começo a trocar mensagens com meus amigos. Nossos encontros de todas segundas às vezes se tornam fóruns políticos. Discutimos, trocamos ideias, discordamos, e sempre acordo no dia seguinte revigorado.

Hoje antecipei a pauta pelo whatsapp. Queria encontrar alguém para me convencer a me juntar ao "movimento".

Daniel, o mais politizado entre todos, está com um sentimento parecido. Teme uma articulação maior, conspiratória, assustadora (bato na madeira três vezes).

Porém, me diz que vai. "Preciso ver de perto", numa tentativa de ganhar um companheiro de passeata.

Reluto. Vejo na TV a bandeira de um dos partidos.

A coisa ganha proporções. BH, Rio (100 mil pessoas!!), Fortaleza...
E pelo twitter os relatos dão conta de manifestantes afastando qualquer tentativa de panfletários políticos.

É política, mas do jeito das pessoas, não das siglas.

Da minha confortável cadeira começo a fazer parte. Tuites para lá e para cá. Sou um revolucionário da rede social.

O telefone toca e os "moleques" que trabalham comigo relatam uma experiência única.

O arrependimento começa a bater.

Avalio que era tarde para voltar atrás. Um pouco por orgulho, um pouco pelo medo de seguir sozinho para o desconhecido.

As fotos são lindas. As imagens, idem.

Meu canal (não sou o dono, nem filho do dono, mas trato a ESPN como algo meu) faz aniversário e cumpre a risca sua maior missão: informação é o nosso esporte. Não dá pra negar que no país da Copa algo está acontecendo.

Temos links nas concentrações. O Igor entra no ar segurando o choro dolorido por uma bala de borracha que acaba de levar da polícia na capital mineira.

Vou embora. Parece que o trânsito melhorou.

Não tem jeito. Se fugia do movimento, é o movimento que me pega.

Corta pra lá, viro pra lá e... todos os carros parados.

Pior, com motores desligados.

As ruas estão escuras nos arredores do Jardim Europa. Desisto de brigar, até porque não há briga. Os motoristas ali parados conversam, como não dialogariam se estivessem naqueles dias em que brigam pelos centímetros do asfalto paulistano.

Ao contrário. Estão fora de seus carros conversando, sorrindo e pacientemente aguardando a multidão seguir seu fluxo.

Me sinto seguro, como não me sentiria fosse um dia comum.

Vou ao encontro da massa.

Ali vejo moleques com seus cartazes feitos a mão, do tipo da aula de educação artística. Caminham, cantam e assobiam. Em paz.

Não há nenhum policial perto. Nenhum tumulto.

Os moleques venceram.

Uma hora depois o trânsito é liberado. Vou encontrar a minha "molecada" (como carinhosamente nos chamamos desde a infância).

Quero abraçá-los, comemorar como se o meu time tivesse ganho uma Copa.

Os moleques venceram.

Na Avenida Brasil eu vi a história passar em frente aos meus olhos.

Os moleques venceram.

O Brasil venceu.

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