André Rocha

André Rocha

André Rocha é carioca e jornalista. Blogueiro do ESPN.com.br, comentarista dos canais ESPN e coautor dos livros "1981" e "É Tetra"

Primeiros sinais de redenção do Botafogo são o presente para o Rio de Janeiro no clássico dos 450 anos da cidade

Em qualquer família, quando um filho temporariamente se perde no caminho, ainda que os outros não estejam exatamente afirmados na vida, ele costuma ser o centro das atenções e preocupações.

O Rio de Janeiro sofre no futebol um pouco mais com o Botafogo, rebaixado à Série B do Brasileiro pela segunda vez em 13 anos. O terceiro descenso de um grande carioca nos últimos seis. Sem contar o do Fluminense no campo em 2013.

O melhor presente para a cidade que completa 450 anos foi ver um início de redenção do "filho" que parecia sem rumo. O Botafogo de novos comando técnico e diretoria, com elenco reformulado e Jefferson como símbolo e forte liderança.

Time que nitidamente sentiu o peso do jogo no primeiro tempo. René Simões desmanchou rapidamente o losango no meio-campo das partidas anteriores e rearrumou o meio em linha, com Diego Jardel e Tomás abertos. Jobson e Bill ficavam à frente, sem ao menos um voltar para fechar a saída do volante adversário. O Bota tentou pressionar a saída do rival em alguns momentos, mas sem intensidade e coordenação.

Reprodução TV Globo
Flagrante do 4-4-2 do Botafogo em linha no primeiro tempo que não teve boa coordenação, nem conseguiu frear o toque de bola do Flamengo.
Flagrante do 4-4-2 do Botafogo em linha no primeiro tempo que não teve boa coordenação, nem conseguiu frear o toque de bola do Flamengo.

O Flamengo controlou o clássico com troca de passes no meio-campo entre Canteros, Márcio Araújo e Jonas, a novidade na escalação. Pará, destro pela esquerda, descia por dentro e Leonardo Moura mais aberto. Sempre com média de 60% de posse, acima de 95% de acerto nos passes, mas a solução era improdutiva pela insistência, a partir da intermediária ofensiva, com lançamentos para o trio Marcelo Cirino, Alecsandro e Gabriel.

Os meio-campistas não se juntavam aos atacantes na área botafoguense e as ações ficaram previsíveis. Resultado: apenas seis finalizações contra cinco do rival - 4 a 3 na direção da meta. O Bota tentou conter nos desarmes certos: seis a dois. Ou nas onze faltas contra sete do rival.

Se nada mudou mesmo com a saída de Samir por lesão para a entrada de Bressan e a inversão de lado de Wallace, a troca de Jardel por Sassá foi o primeiro acerto de René Simões. Repaginou seu time no 4-2-3-1 centralizando Tomás, mas continuou tendo problemas porque Jobson só eventualmente recuava acompanhando Pará. Do outro lado, Sassá prendia mais Léo Moura.

André Rocha
Formações iniciais: Flamengo no 4-3-3 controlando a bola no meio-campo, mas chegando pouco à área; Bota assustado e acuado no 4-4-2 com meio em linha.
Formações iniciais: Flamengo no 4-3-3 controlando a bola no meio-campo, mas chegando pouco à área; Bota assustado e acuado no 4-4-2 com meio em linha.

Vanderlei Luxemburgo buscou o passe diferente e um elo com o ataque ao colocar Arthur Maia no lugar de Gabriel na volta do intervalo. Mas transferiu Márcio Araújo para a direita e inverteu o lado de Cirino num 4-2-3-1. O resultado imediato foi o equilíbrio na disputa no meio-campo, com o Bota recuperando consistência e posse com Tomás alinhado a Willian Arão à frente de Marcelo Mattos.

André Rocha
Flamengo perdeu meio-campo com a entrada de Arthur Maia e deslocamento de Márcio Araújo; Bota no 4-2-3-1 recuperou consistência e rapidez com Sassá.
Flamengo perdeu meio-campo com a entrada de Arthur Maia e deslocamento de Márcio Araújo; Bota no 4-2-3-1 recuperou consistência e rapidez com Sassá.

Luxemburgo mudou de novo na parada técnica da segunda etapa: Alecsandro por Eduardo da Silva, que se juntou a Cirino e Márcio Araújo desta vez foi para o lado esquerdo na segunda linha de quatro, com Arthur Maia pela direita. Assim fez Jefferson voltar a trabalhar, com grandes defesas - a mais importante em recuo atrapalhado de Diego Giaretta, que entrou na vaga de Roger Carvalho, "pendurado" com cartão amarelo.

René acertou de novo ao tirar o cansado Jobson e colocar Gegê. Mas o Botafogo já ocupava o campo de ataque, fazendo Paulo Victor trabalhar em chute de Tomás e assustando na cobrança de falta no travessão de Carleto. Enfim, o alvinegro recuperava algo que o contexto havia usurpado: confiança.

Acreditou, subiu posse para 48%, finalizou mais cinco vezes e conseguiu que o imponderável que torna o futebol tão apaixonante jogasse a seu favor: o chute forte e cheio de efeito de Tomás bateria na trave e sairia se não houvesse um goleiro na meta do Flamengo. Paulo Victor ficou parado, surpreso pela trajetória da bola, que na volta tocou no arqueiro rubro-negro e explodiu o lado preto e branco dos quase 50 mil presentes no Maracanã, maior público no futebol brasileiro em 2015.

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No final, Flamengo no 4-4-2 que não recuperou o meio-campo com Eduardo da Silva e o Bota ganhou marcação com Gegê na vaga de Jobson.
No final, Flamengo no 4-4-2 que não recuperou o meio-campo com Eduardo da Silva e o Bota ganhou marcação com Gegê na vaga de Jobson.

Rio de Janeiro que viu a despedida oficial de Léo Moura com derrota e o Fla novamente não ser feliz com o resgate da camisa Papagaio de Vintém repetindo 1995. Muito pela pouca contundência do ataque, com ou sem o típico centroavante - mais preocupante que sair do G-4 do Estadual.

Mas a aniversariante Cidade Maravilhosa testemunha alegre o início de despertar do Botafogo. Vitória que vale mais pelo simbolismo que a liderança do Carioca.

(Estatísticas: Footstats)


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A explosão de Philippe Coutinho, o camisa dez moderno que pensa correndo e decide para o Liverpool - quem sabe na seleção?

Os 2 a 1 do Liverpool sobre o Manchester City em Anfield Road praticamente encaminham o título para o Chelsea e afirmam a recuperação dos Reds na Premier League - invictos em 2015 com seis vitórias e dois empates, a dois pontos da zona de classificação da Champions.

A vitória também consolida a execução do 3-4-2-1 armado por Brendan Rodgers, que compensa a ausência de Gerrard e varia para uma linha de quatro atrás com Moreno recuando pela esquerda e Emre Can abrindo a direita como lateral. Na frente, movimentação e velocidade com Lallana, Philippe Coutinho e Sterling. Mas o time foi às redes com Henderson, em bela finalização cortando da esquerda para dentro, recebendo de Coutinho.

Aceleração que criou problemas para o City de Manuel Pellegrini que repetiu a proposta de jogo contra o Barcelona, resgatando um conceito dos tempos do técnico Roberto Mancini: sem a bola, duas linhas de quatro. Atacando, Nasri e David Silva saem dos lados e se movimentam buscando articular com Yaya Touré em busca de Aguero e Dzeko.

O gol de empate foi um fiel retrato da ideia de Pellegrini: Silva saiu da esquerda e, no centro, achou Aguero que clareou tudo para Dzeko com uma assistência perfeita. Jogo equilibrado no primeiro tempo, com o City trocando passes e o Liverpool colocando intensidade máxima e velocidade nas transições ofensivas.

Coutinho fez a diferença. Não só pelo golaço que decidiu a partida, cortando da esquerda para dentro e batendo forte no canto, tirando totalmente do alcance do Hart. Confirmando a supremacia do time da casa, que finalizou 11 vezes contra oito, cinco a um no alvo, mesmo com apenas 48% de posse que chegou a ser 40% no primeiro tempo.

André Rocha
Liverpool no 3-4-2-1 que varia para uma linha de quatro atrás com Can abrindo e Moreno recuando pelos lados; City no 4-4-2 que libera Nasri e Silva.
Liverpool no 3-4-2-1 que varia para uma linha de quatro atrás com Can abrindo e Moreno recuando pelos lados; City no 4-4-2 que libera Nasri e Silva.

Principalmente porque o meia brasileiro foi o que se espera de um camisa dez em alto nível. Com campo reduzido, é inútil esperar pelo jogador cerebral que recua, carimba a bola e faz os outros acelerarem com o passe diferente. Agora é necessário que ele também se mexa, circule, marque. Pense correndo, buscando brechas nos espaços reduzidos. Menos plástico e romântico. Mas pode ser mais produtivo.

Coutinho foi eficiente e eficaz. Vem desequilibrando no novo sistema de Rodgers, sem referências na frente como Suárez e Sturridge, voltando aos poucos à equipe. Mas o camisa dez já se destacou não só aberto pela esquerda, até recuado como um volante-meia no losango.

"Ele já é uma estrela da Premier League, mas há o que melhorar. É um jovem jogador que vai evoluindo, atua num time que quer jogar tecnicamente e quer treinar todo dia. É uma alegria trabalhar com ele". Palavras do comandante Rodgers, logo após a partida. 

ESPN Trumedia
Mapa de toques de Coutinho em 2015: parte da esquerda para articular em velocidade, se juntando ao ataque.
Mapa de toques de Philippe Coutinho em 2015: parte da esquerda para articular em velocidade, se juntando ao ataque.

Evoluiu muito na finalização, com três gols nos últimos sete jogos - problema por ter queimado etapas na formação, ainda no Vasco. Subiu foi para o exterior muito cedo. Com 22 anos, segue com visão de jogo, o "passe de morte" e mostra a versatilidade que pode e deve ser utilíssima ou mesmo fundamental na seleção brasileira.

Porque Dunga pode utilizar Philippe Coutinho com Oscar, Willian ou Lucas e Neymar num quarteto ofensivo sem referência na frente. Rápido, móvel, envolvente. Quem organiza o jogo? Pode ser Lucas Silva, de trás. Se os espaços estão reduzidos nos últimos 30 metros, o meio-campista mais recuado, o "ex-volante" é que vai ditar o ritmo, acelerar o cadenciar. Não é mais função do "dez".

André Rocha
Dunga pode armar um 4-2-3-1 com quarteto ofensivo leve e móvel, sem referência. Quem pensa o jogo? Não o dez, mas o volante Lucas Silva.
Dunga pode armar um 4-2-3-1 com quarteto ofensivo leve e móvel, sem referência. Quem arma o jogo? Não o dez, mas o volante Lucas Silva.

Mas ele também pensa, porém correndo. Coutinho cresce, amadurece e explode com estilo moderno. O Liverpool não caminha mais sozinho, mesmo quando não tem a lenda Gerrard.


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Brasil x Alemanha em Copas do Mundo e uma reflexão sobre futebol coletivo - para ver se a gente aprende...

Sim, é mais um post (também) sobre os 7 a 1. Não, ele não se propõe a tentar provar que foi um "apagão" ou "acidente", nem ser um mensageiro do apocalipse, do "está tudo errado" sem propor soluções, alternativas para o futebol brasileiro - infelizmente, os dois caminhos que o debate sobre a maior derrota da seleção cinco vezes campeã do mundo costuma tomar.

A proposta aqui é apenas refletir. Na semana em que Messi e Neymar se sacrificaram taticamente mais do que nunca para que o Barcelona fosse forte também defensivamente contra o Manchester City, vale pensar sobre o futebol coletivo.

Brasil e Alemanha têm nove títulos, 14 finais em 20 edições de Copa do Mundo. Só na primeira, em 1930, uma das potências não ficou ao menos entre os quatro primeiros colocados.

Com tamanha tradição e onipresença, é impressionante que só tenham se enfrentado duas vezes em Mundiais - considerando a Alemanha da parte ocidental durante a existência do Muro de Berlim. Não por acaso, dois jogos históricos que, analisados com frieza e contextualização, trazem lições.

Em 2002, o Brasil de Luiz Felipe Scolari era dos craques na frente. Rivaldo e os Ronaldos. Ainda Roberto Carlos na lateral-esquerda. Seleção que virou favorita com o brilho de seus talentos e as eliminações das favoritas França e Argentina ainda na fase de grupos.

Equipe que descobriu sua melhor formação e amadureceu variações táticas durante a Copa. Com Kléberson, a solidez no meio-campo com Gilberto Silva e uma saída rápida pelo meio quando os laterais Cafu e Roberto Carlos estavam bloqueados. Na defesa, revezamento na sobra entre Lúcio, Roque Júnior e Edmilson, que avançava como volante quando o adversário atuava com apenas um atacante de ofício. Em números, variação do 3-4-2-1 para o 4-3-3.

A Alemanha também chegou à decisão no "vácuo" dos favoritos que ficaram pelo caminho no Japão e na Coréia do Sul. No segundo ano do processo de reformulação iniciado em 2000 após a eliminação na fase de grupos da Eurocopa, a Nationalmannschaft comandada por Rudi Voeller possuía três pilares: o goleiro Oliver Kahn, destaque absoluto até a decisão com apenas um gol sofrido; Michael Ballack, o suporte no meio-campo com bom passe e timing para chegar na área e concluir; Miroslav Klose, o improvável goleador a disputar a artilharia com Ronaldo e Rivaldo.

A grande final em Yokohama é lembrada pelos gols de Ronaldo Fenômeno, grande personagem da Copa pela incrível história de redenção após sérias lesões. Também a falha de Kahn no primeiro e a finta de Rivaldo no segundo. Para os de memória mais apurada, a sentida ausência no lado alemão de Ballack, suspenso pelo segundo amarelo.

O ponto é que, apesar da larga vantagem em qualidade individual para a seleção brasileira, a decisão foi equilibrada. Porque a Alemanha tinha relativa força coletiva, com três do Bayer Leverkusen vice-campeão nacional e da Liga dos Campeões na temporada 2001/02. Ramelow, Schneider e Neuville. Poderiam ser quatro com Ballack, substituído por Jeremies, do Bayern de Munique, representado também por Kahn e Linke.

O Brasil sofreu no primeiro tempo com a tensão natural de um jogo tão pesado em tradição e o recuo de Rivaldo para articular, deixando os Ronaldos mais próximos na frente. O Mundial havia deixado bem claro que o melhor do planeta em 1999 era bem mais perigoso atuando avançado, como atacante. Voltando para armar, muitas vezes era lento e não dava seqüência às jogadas.

Voller armou um 3-4-1-2 encaixado no sistema brasileiro. Os alas Frings e Bode batendo com os brasileiros, Hamann cuidando de Ronaldinho ou Rivaldo. Link, Ramelow e Metzelder vigiavam Ronaldo e o outro atacante. Na frente, velocidade para Neuville e Klose buscando as infiltrações em diagonal, alimentados por Schneider, que tentava armar por Ballack.

A diferença foi Kléberson levando vantagem sobre Jeremies e criando superioridade no meio-campo. Não por acaso, o volante-meia do Atlético-PR carimbou o travessão em bela finalização e iniciou a jogada do segundo gol. Na segunda etapa, porém, a seleção alemã também teve um chute na trave, em cobrança de falta de Neuville que Marcos ainda tocou na bola. Mais chutes de Hamann e Frings com relativo perigo. Já com 2 a 0, o goleiro brasileiro salvou gol certo de Bierhoff, que entrara na vaga de Klose.

André Rocha
Na final da Copa de 2002, Brasil e Alemanha com sistema de três zagueiros e marcações encaixadas - o talento fez a diferença, apesar do esforço alemão
Na final da Copa de 2002, Brasil e Alemanha com sistema de três zagueiros e marcações encaixadas - o talento fez a diferença, apesar do esforço alemão

Trazendo para os 7 a 1 doze anos depois - sem o detalhamento da partida que não se faz necessário por ainda estar tão viva na lembrança (se preferir, relembre AQUI), a questão é: como o Brasil com craques que totalizariam seis Bolas de Ouro não goleou a Alemanha, individualmente bem mais frágil que a seleção de Felipão em 2014, mesmo sem Thiago Silva e Neymar?

A resposta está no jogo coletivo. Dos alemães no Mineirão, combinando as qualidades de Neuer, Lahm, Hummels, Schweinsteiger, Khedira, Kroos, Ozil, Muller e Klose. Nenhum nem próximo do talento dos três "R" brasileiros. Mas que trabalhando em conjunto com posse de bola, ocupação de espaços e pressão quando necessário envolveram totalmente a seleção anfitriã. Como equipe, os brasileiros foram uma tragédia, muito abaixo da seleção alemã vice-campeã mundial. Sem Ballack e com Kahn falhando no momento decisivo.

Uma prova irrefutável de algo óbvio, mas que por aqui relutamos tantas vezes em aceitar: futebol não é um esporte individual.

Não precisamos de derrotas humilhantes para que isso seja lembrado. Nas cinco conquistas, o Brasil teve força coletiva. Se Pelé e Garricha, nesta ordem, foram protagonistas em 1958 e 1962, o mais regular daqueles mundiais foi Didi. O craque da "Folha Seca" distribuía passes curtos e longos, ditava o ritmo, fazia o time de Vicente Feola jogar. Com o respaldo de Zagallo pela esquerda compondo o meio e fazendo o 4-2-4, na prática, virar 4-3-3, em uma inovação tática para a época.

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O Brasil de 1958 com linha de quatro defensores e Zagallo voltando pela esquerda para liberar Garrincha, Didi, Pelé e o apoio de Nilton Santos.
O Brasil de 1958 com linha de quatro defensores e Zagallo voltando pela esquerda para liberar Garrincha, Didi, Pelé e o apoio de Nilton Santos.

Em 1970, a seleção dos "camisas dez", da magia e eleita a melhor de todos os tempos não atropelou apenas no talento. Antes vinha a boa execução do 4-3-3 que, visto hoje, era um perfeito 4-2-3-1 com apenas Tostão na frente sem a bola e muita mobilidade. Também velocidade nos contragolpes, matando a maioria dos jogos no segundo tempo pela ótima preparação física.

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O Brasil de 1970 uniu técnica, vigor físico e versatilidade tática para formar a melhor seleção da história das Copas.
O Brasil de 1970 uniu técnica, vigor físico e versatilidade tática para formar a eleita melhor seleção da história das Copas.

1994 de Romário e Bebeto, mas também do time consistente de Parreira. Seguro na defesa, mesmo com a dupla de zaga reserva - Aldair e Márcio Santos. Que controlou a posse de bola contra todos os adversários, com os passes simples e objetivos de Dunga e as muitas jogadas pelos flancos, com as duplas Jorginho-Mazinho e Branco-Zinho.

André Rocha
O 4-4-2 brasileiro em 1994 tinha Mauro Silva próximo dos zagueiros, zagueiro combinando com meias, Dunga organizando, Bebeto e Romário decidindo.
O 4-4-2 brasileiro em 1994 tinha Mauro Silva próximo dos zagueiros, zagueiro combinando com meias, Dunga organizando, Bebeto e Romário decidindo.

O Brasil venceu com jogadores brilhantes em favor do coletivo. Mas na nossa avaliação, impregnada de romantismo e dos arroubos de Nelson Rodrigues, Mário Filho, Armando Nogueira e os cronistas que vieram a reboque, era pura magia de nossos craques. Nenhum plano, puro instinto com uma pitada de "malandragem", como no pênalti de Nilton Santos não marcado contra a Espanha no Mundial do Chile.

Ainda hoje, o talento é o único protagonista. Adoramos exaltar os feitos individuais dos craques, comparações individuais entre os principais times - o famoso "quem é quem", como se apenas ter jogadores melhores fosse garantia de vitória. Quando um Corinthians de Tite ganha a América e o mundo em 2012 com nítida organização tática, isso só é reconhecido porque não houve um craque para centralizar as atenções.

A conquista em 1994 só é considerada "chata" e fruto do "antifutebol" porque a final contra a Itália foi para os pênaltis. Se Romário fizesse o gol que perdeu na prorrogação, teríamos o herói afirmado e a memória hoje carregaria todo esse afeto.

Somos assim, mas precisamos mudar. O blog insiste: o futebol se transformou muito nos últimos dez anos. É mais complexo, intenso, tático. Exige uma leitura de jogo mais refinada. Os nossos lampejos não têm resolvido em alto nível. Não faltam só craques. O Brasil tem Neymar e isso não é pouco em talento. Mas não basta.

Quando gênios como Messi se sacrificam pelo time, isso não devia causar estranheza. Faz parte do jogo, do trabalho em equipe. Mas ainda nos assustamos.

As lembranças de Brasil x Alemanha e a comparação dos resultados finais, mesmo entendendo que futebol não é ciência exata, são mais uma oportunidade de reflexão. Quem sabe uma hora a gente aprende...


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A dura transição do novo Cruzeiro, baseada em força, velocidade e que já depende do uruguaio De Arrascaeta

O Universitário de Sucre é o nono colocado no campeonato boliviano de 12 equipes e enfrenta grave crise, dispensando quatro jogadores inscritos para a Libertadores. Mas fez partida correta na estreia do Grupo 3 no torneio continental.

Trocou passes no ritmo do meia De La Cuesta, acelerou com Bejarano e Castro pelos lados, alternando com o volante Ribera. Boas combinações em velocidade nos flancos em busca do atacante argentino Palavicini.

No segundo tempo, forçou os cruzamentos para Mercado, que fez dupla de atacantes, variando do 4-2-3-1 para o 4-4-2. Deu trabalho a Fabio, que foi o melhor cruzeirense na Bolívia com pelo menos três defesas difíceis.

A transição do novo Cruzeiro não é tarefa fácil para o técnico Marcelo Oliveira, mesmo com o bom início no Campeonato Mineiro. O time bicampeão brasileiro pensava o jogo com passes curtos e longos de Lucas Silva e criava espaços com Everton Ribeiro partindo da direita para articular. Ricardo Goulart era o meia central do 4-2-3-1 que se aproximava de Marcelo Moreno.

O atual tem marcação à frente da defesa com Willian Farias, depois Willians, que libera Henrique para se juntar eventualmente ao quarteto ofensivo. Conta com velocidade pelos lados com Marquinhos e Willian, invertendo o posicionamento e procurando as infiltrações em diagonal, abrindo os corredores para os laterais Fabiano e Mena. Damião joga enfiado, ronda a área fazendo o pivô ou girando para finalizar.

Time de condução. Força e velocidade. Quem pensa? Apenas Giorgian De Arrascaeta. Sem a bola, o meia contratado ao Defensor tem mais liberdade que Goulart. Fica à frente da linha de meio-campo, formada por volantes e ponteiros, mais próximo de Damião. No máximo, uma "sombra" no volante adversário.

Na transição ofensiva, porém, o novo camisa dez fica sobrecarregado. Porque não há mais um meio-campista iniciando a troca de passes, nem um meia aberto de criação. Toda a articulação fica a cargo do uruguaio. No centro e pelos flancos.

O meia se mexe, não fica entregue à marcação. Volta para buscar o jogo e chega na área. Mas a função é desgastante, mais ainda na altitude de 2.800 metros. Acertou 14 passes, errou seis. Finalizou duas vezes, para fora. Saiu extenuado para a entrada de Judivan.

O técnico valoriza as qualidades do novo comandado, mas sabe que a dependência é perigosa. "É um atleta de 20 anos surgindo muito bem. Mas não podemos trazer toda a responsabilidade para ele, somos um time que tem que ser forte", alerta.

O Cruzeiro finalizou apenas uma vez no alvo em 13 finalizações, contra seis do Sucre em 14. Pouco para os 64% de posse de bola. Sofrimento nos minutos finais depois da tola expulsão de Joel, que entrara na vaga de Willian para manter a velocidade nos contragolpes. No apito final, o empate sem gols fora de casa na estréia veio como alívio.

Marcelo Oliveira espera por Mayke, ainda que Fabiano tenha recursos, estatura e rapidez pela direita, e Manoel na defesa. É possível reconstruir o Cruzeiro com novas peças e criar um trabalho coletivo que não sacrifique tanto De Arrascaeta. Mas a missão não é simples, requer tempo, trabalho e paciência. 

Nos dois anos de trabalho, o treinador teve o respaldo dos resultados. Oscilações, mas sem turbulências mais sérias. Agora vai precisar de todos seus créditos com torcida e diretoria para um duro recomeço.

André Rocha
O 4-2-3-1 do Cruzeiro repaginado com força, velocidade e a criação a cargo do meia De Arrascaeta; Universitário de Sucre trabalhou bem pelos flancos.
O 4-2-3-1 do Cruzeiro repaginado com força, velocidade e a criação a cargo do meia De Arrascaeta; Universitário de Sucre trabalhou bem pelos flancos.

(Estatísticas: Conmebol)


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O recital de Messi e do Barcelona coletivo no primeiro tempo que perdeu a chance de definir confronto com City, mas segue favorito

O Barcelona do período mais crítico e turbulento na temporada era um time descoordenado, que dependia exclusivamente dos três talentos sul-americanos no ataque. Oito jogadores trabalhando para Messi, Suárez e Neymar.

Em Manchester, o City enfrentou no jogo de ida pelas oitavas-de-final uma equipe catalã que inverteu essa lógica, especialmente no primeiro tempo. Todos trabalhando na construção de jogo; Suárez pressionando os zagueiros Kompany e Demichelis, Messi e Neymar voltando pelos lados com incrível disciplina, repaginando o Barca em um compacto 4-1-4-1.

Reprodução ESPN
Flagrante do Barcelona marcando no próprio campo, com pressão no homem da bola,  Messi e Neymar fechando os lados na recomposição.
Flagrante do Barcelona marcando no próprio campo, com pressão no homem da bola, Messi e Neymar fechando os lados na recomposição.

Pellegrini foi corajoso na montagem dos citizens em casa. Sem a bola, duas linhas de quatro com Nasri e David Silva pelos lados, Dzeko e Aguero alternando no cerco a Busquets na saída de bola do adversário. Atacando, liberdade para os meias abertos afunilarem, especialmente Silva. Os problemas estavam no centro do meio-campo, com Fernando e Milner perdidos. Yaya Touré fez muita falta.

Na prática, o time inglês deixou espaços demais entre as linhas e assistiu à troca de passes e o recital de Messi nos primeiros 45 minutos. Partindo da direita para dentro, criando, arrancando em diagonal para servir seus companheiros.

Reprodução ESPN
O 4-4-2 do City que assistiu à troca de passes do Barcelona e deixou epaços entre as linhas no primeiro tempo.
O 4-4-2 do City que assistiu à troca de passes do Barcelona e deixou epaços entre as linhas no primeiro tempo.

Suárez aproveitou bem as jogadas do camisa dez e fez o que está acostumado jogando em campos na Terra da Rainha com a camisa do Liverpool: gols. No primeiro, foi feliz ao receber a bola que desviou em Kompany para bater cruzado. Depois completou passe de Alba em lance arquitetado pelo gênio argentino.

Primeiro tempo de 58% de posse para o time de Luis Enrique, oito finalizações a cinco - três a um na direção da meta. Números até modestos para o passeio blaugrana.

André Rocha
Barcelona no 4-3-3 com Messi e Neymar ajudando muito sem a bola e criando para Suárez; City no 4-4-2 que deixou muito espaços entre as linhas.
Barcelona no 4-3-3 com Messi e Neymar ajudando muito sem a bola e criando para Suárez; City no 4-4-2 que deixou muito espaços entre as linhas.

A execução do plano de jogo do Barcelona, porém, requer concentração absoluta de todos. A vantagem relaxou, tirou intensidade. Mais organizado e com espaços, o City adiantou a marcação e teve chance cristalina com Dzeko, mas o gigante bósnio cabeceou fraco.

Pellegrini deu consistência ao meio trocando Nasri por Fernandinho e puxando Milner para o lado direito. Depois ganhou mobilidade na frente com Bony na vaga de Dzeko. Quando Messi vacilou contra Clichy, Fernandinho fez a bola chegar a Silva e este serviu Aguero com lindo passe. 23º gol do argentino na temporada. Onze nos últimos dez jogos na Liga dos Campeões.

Luis Enrique respondeu com Mathieu no lugar de Rakitic, levando Mascherano para a proteção da defesa pelo meio junto com Busquets. Parecia a senha para um "abafa" do time azul de Manchester. Mas Clichy, já com amarelo, foi atabalhoado na disputa com Daniel Alves e acabou expulso.

Restou ao técnico do City tirar Silva e refazer a defesa com Sagna. No básico 4-4-1, Aguero voltava pela direita. Para não correr riscos de desperdiçar a vantagem numérica, Luis Enrique tirou Daniel Alves, com amarelo, e colocou Adriano. Mais tarde, trocou Neymar, o menos fulgurante do tridente sul-americano, por Pedro.

André Rocha
Com a expulsão de Clichy e as substituições, o City praticamente abriu mão do ataque e o Barcelona, com Mascherano no meio, voltou a controlar o jogo.
Com a expulsão de Clichy e as substituições, o City praticamente abriu mão do ataque e o Barcelona, com Mascherano no meio, voltou a controlar o jogo.

O Barca recuperou o controle do jogo, subiu a posse para 62% e voltou a abrir vantagem nas finalizações - 15 a 13, mas apenas quatro no alvo contra cinco do City. Na última conclusão, Messi desperdiçou mais um pênalti na temporada: o terceiro em cinco. Pior ainda foi a cabeçada torta no rebote de Hart. Era a chance de praticamente definir o confronto.

Ainda assim, o Barcelona é favorito absoluto no Camp Nou. Se repetir a atuação coletiva que beneficia os talentos complica para qualquer time do planeta. Resta ao City subverter a lógica do time na Champions League e se fazer gigante, mesmo longe do Etihad Stadium.


E-mail: anunesrocha@gmail.com


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