André Rocha

André Rocha

André Rocha é carioca e jornalista. Blogueiro do ESPN.com.br, comentarista dos canais ESPN e coautor dos livros "1981" e "É Tetra"

'Muricybol', juventude, posse de bola ou aposta no talento? Tudo junto e misturado no São Paulo!

 

GazetaPress
Convencido pela diretoria à ficar, Muricy se mostra mais disposto: 'Lutar até o final'
Convencido pela diretoria à ficar, Muricy se mostra mais disposto: 'Lutar até o final'

Muricy Ramalho entregou o cargo depois da derrota para o Palmeiras por 3 a 0, mas foi convencido a prosseguir no São Paulo. Parece desanimado com os problemas dentro e fora de campo. Apesar das limitações físicas administradas, a saúde não é mais a mesma.

O técnico do São Paulo também tem suas responsabilidades pela má fase do time que tem qualidades, mas nada cria de novo para surpreender os rivais.

Muricy é da escola de treinadores no Brasil que acredita que uma equipe só precisa da mão do comandante se não tiver talento para decidir - como o São Paulo tricampeão brasileiro. Se há o craque, basta arrumar o sistema defensivo e deixar o instinto e a habilidade resolverem na frente. Assim ganhou outro brasileiro e a Libertadores, com Conca e Neymar desequilibrando.

Tudo mudou com os 4 a 0 do Barcelona sobre o Santos em 2011. A surra fez o técnico repensar seus métodos e inserir posse de bola no repertório. Troca de passes que agora se transforma em "culpada" pela má fase do São Paulo.

O que fazer para se reinventar? A resposta está na própria carreira de Muricy.

A começar pela primeira experiência, ainda como auxiliar de Telê Santana, com o São Paulo "Expressinho", campeão da Conmebol de 1994. Época em que acreditava e tinha mais paciência com os jovens vindos da base. Rogério Ceni, Caio Ribeiro, Denílson. Juninho que chegou aos 20 do Ituano, Catê do Guarany de Cruz Alta/RS.

Time de garotos, veloz e habilidoso. Armado em um 4-3-3 simples, que deu liga e superou Corinthians na semifinal e Peñarol na decisão do torneio continental.

André Rocha
A primeira experiência de Muricy  Ramalho como técnico: time jovem, rápido e habilidoso no 4-3-3, apostando na base para vencer a Conmebol em 1994.
A primeira experiência de Muricy Ramalho como técnico: time jovem, rápido e habilidoso no 4-3-3, apostando na base para vencer a Conmebol em 1994.

Por que não olhar com mais carinho e dar oportunidades reais aos jovens Auro, Ewandro e Boschilia, além de Lucão? Sem mimar, mas também deixando de lado as broncas exageradas e desnecessárias que, por exemplo, intimidaram e mandaram para fora do Santos o Felipe Anderson que hoje é destaque na Lazio?

Muricy voltou ao São Paulo em 2006 para vencer o Brasileiro três vezes consecutivas. A única estrela era Rogério Ceni, capitão, líder, símbolo, cobrador de faltas e pênaltis. Times que jogaram a essência do que se convencionou chamar de "Muricybol": sistema defensivo forte, com todos os jogadores colaborando sem a bola. Pragmatismo na busca do resultado. Espetáculo? "Vai ao teatro, meu filho!"

No Morumbi, marcação pressão e alta intensidade. Fora, time plantado, compacto e forte no contragolpe. Para desequilibrar, a bola parada de Ceni ou os cruzamentos para jogadores altos. O 3-5-2 era o sistema base com variações. A mais comum, o 4-4-2 com um dos zagueiros virando lateral pela direita. Breno e Alex Silva foram os melhores na função.

André Rocha
Em 2007, bicampeonato brasileiro com variação do 3-5-2 para o 4-4-2 com Breno ou Alex Silva na lateral direita e a essência do 'Muricybol'.
Em 2007, bicampeonato brasileiro com variação do 3-5-2 para o 4-4-2 com Breno ou Alex Silva na lateral direita e a essência do 'Muricybol'.

Solução que pode ser repetida agora, já que Bruno e Carlinhos não conseguem a regularidade dos tempos do Fluminense campeão brasileiro de 2012. Com o retorno de Rodrigo Caio ou até Doria podendo ser testado pela esquerda. Por que não?

No Fluminense e no Santos, as últimas conquistas na carreira dando a bola para os talentos. Dependência excessiva, mas que aproveitava o máximo das qualidades de Conca e Neymar. Não deixa de ser um mérito.

Também inspiração. Se não há um destaque absoluto, é possível tirar mais de Ganso, Pato, Luis Fabiano, Kardec, Michel Bastos, Centurión... Ainda que Kaká seja ausência sentida por conta de sua liderança e, principalmente, pelo exemplo de dedicação e concentração que compensavam a queda técnica do melhor do mundo em 2007.

E a posse de bola, marca do São Paulo desde o retorno de Muricy em 2013? Abandoná-la por não dar mais resultado?

A resposta está na nova ordem do futebol mundial. Até Barcelona e Guardiola, algozes em 2011, estão revendo conceitos. Agora o time blaugrana e o Bayern do técnico catalão ainda acreditam no controle da bola, porém alternando com transições rápidas e jogadas aéreas com bola parada ou rolando. Variar para surpreender os adversários que estudaram obsessivamente o estilo revolucionário e mais vencedor desde 2008.

Aprender com o Real Madrid de Ancelotti, campeão europeu e mundial. Ainda o melhor exemplo da mistura de Guardiola e Mourinho, com pitadas da escola italiana.

Eis a saída para Muricy: tudo junto e misturado! Renovar olhando a base como em 1994, alternar intensidade e pragmatismo com aposta no talento e controlar com posse de bola. Time "mutante" e imprevisível, adequado às necessidades e aos contextos de cada partida.

O mais importante: compactação. Termo que já vai ficando surrado, exatamente pela necessidade de setores próximos para qualquer proposta de jogo funcionar no futebol atual. Time espaçado é convite para o adversário trabalhar entre as linhas, como Corinthians e Palmeiras fizeram nos clássicos com o tricolor paulista em 2015.

Como fazer? O blog rascunhou abaixo uma formação possível tentando combinar todas essas nuances. Mas o treinador experiente,muito bem remunerado e (ainda) com moral no clube que resolveu permanecer e "lutar até o final", mesmo com toda a turbulência política, é que precisa encontrar as respostas. 

E rápido, porque na quarta-feira tem "decisão" de vaga no Nuevo Gasômetro e um novo São Paulo precisa emergir dos escombros para encarar o San Lorenzo campeão da Libertadores.

André Rocha
Uma formação possível: juventude com Auro e Lucão, variação de 3-5-2 para 4-4-2 com Doria à esquerda, posse de bola com Ganso e talento na frente.
Uma formação possível: juventude com Auro e Lucão, variação de 3-5-2 para 4-4-2 com Doria à esquerda, posse de bola com Ganso e talento na frente.

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Evolução da seleção brasileira vale mais que a virada sobre França - o perigo é a ilusão!

Uma virada sobre a França no estádio da derrota na final da Copa do Mundo em 1998 não pode ser desprezada. Mesmo em amistoso, é resultado que vai para a história. Não contraria, porém, a lógica de que em partidas que não valem três pontos, o desempenho é mais importante que o placar.

A boa notícia é que a seleção brasileira de Dunga mostrou evolução no Stade de France, principalmente no segundo tempo. Quando a organização e a posse de bola ganharam mobilidade e rapidez.

Na primeira etapa, controle com bola rolando. 58% de posse e seis finalizações a três - três a dois no alvo. Mas cometeu cinco faltas e cedeu o mesmo número de escanteios. O suficiente para Varane abrir o placar e a defesa brasileira sofrer nas jogadas aéreas em bolas paradas.

Porque a França, no mesmo 4-1-4-1 da Copa, penou sem Pogba no meio-campo e perdeu fluência nas ações ofensivas. Variação só quando Valbuena e Griezmann trocavam de lado ou o atacante do Atlético de Madri se juntava a Benzema. Pouco.

O Brasil, porém, não se impôs como poderia. Também pela imobilidade nas duas linhas de quatro, que deixavam espaços entre as linhas para os franceses. Willian e Oscar abertos, Neymar mais avançado e partindo do lado esquerdo.

Reprodução TV Globo
Flagrante do 4-4-2 brasileiro bem postado, mas deixando espaços entre os setores para os jogadores franceses.
Flagrante do 4-4-2 brasileiro bem postado, mas deixando espaços entre os setores para os jogadores franceses.

Só Firmino se movimentava e atacava os espaços entre as linhas que o volante Schneiderlin tentava fechar. Quando Oscar infiltrou em diagonal, Firmino acertou o passe e o meia do Chelsea empatou.

No segundo tempo, mais movimentação e participação coletiva. Elias e Luiz Gustavo avançaram como meio-campistas, Willian e Oscar saíram dos flancos para o centro, procurando Firmino e Neymar. Elias para Willian, deste para o camisa dez e craque. 43º em 61 jogos. Quinto maior artilheiro da seleção brasileira, aos 23 anos. Fenômeno.

A senha para a seleção francesa colocar intensidade e voltar a  aproveitar as brechas entre as linhas que o Brasil de Dunga continuou cedendo e fez Jefferson trabalhar um pouco mais. A compactação dos setores é algo a ser aprimorado. Já a marcação adiantada surtiu efeito, com várias bolas roubadas no campo de ataque.

André Rocha
Seleção brasileira com duas linhas de quatro e posse de bola que ganhou mobilidade e rapidez no segundo tempo para superar o 4-1-4-1 francês.
Seleção brasileira com duas linhas de quatro e posse de bola que ganhou mobilidade e rapidez no segundo tempo para superar o 4-1-4-1 francês.

Tudo se resolveu com o gol de Luiz Gustavo em cobrança de escanteio de Willian. O troco no jogo aéreo que consagrou Zidane há quase 17 anos. Dunga só mudou peças a partir dos 37 minutos, depois que Didier Deschamps já havia feito três substituições. Interessante para melhorar o entrosamento, mas também uma chance perdida de testar e observar, em tese o objetivo dos amistosos.

Para Dunga é como se valessem três pontos. Nitidamente a proposta das mudanças foi fechar o time e ganhar tempo para administrar os 3 a 1. Foco total no resultado para melhorar os números e "calar os críticos", obsessão do treinador que beneficia também o discurso oportunista de dirigentes e formadores de opinião que capitalizam com o ufanismo.

Eis o perigo: a ilusão das sete vitórias consecutivas no país em que se costuma olhar apenas o resultado. A seleção ainda tem muito a progredir. Natural pelo pouco tempo de trabalho. Na Copa América, vale mais seguir aprimorando o novo estilo. Mas a seleção de Dunga, Marin e Del Nero vai atrás do título, custe o que custar.

A meta: com a taça, varrer os 7 a 1 para debaixo do tapete o mais rápido possível, reforçar o discurso do "apagão" e recuperar a imagem de vencedor. Cômodo e conveniente para muitos, mas será positivo para o futebol brasileiro?

Por ora, vale bem mais a boa atuação em Saint-Denis.

(Estatísticas: ESPN)


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Falhas, expulsões e passividade do São Paulo não diminuem atuação quase perfeita do Palmeiras móvel de Rafael Marques

Gazeta Press
Dudu e Rafael Marques brilharam nesta noite
Dudu e Rafael Marques brilharam na vitória por 3 a 0 do Palmeiras sobre o São Paulo na Allianz Arena.

O golaço de Robinho da intermediária em falha dupla de Rogério Ceni - na reposição de bola e por achar que o chute iria para fora - e a expulsão de Rafael Tolói por pura infantilidade na disputa com Dudu resolveram o clássico em apenas sete minutos.

Mas desde os primeiros segundos de disputa no Allianz Parque era nítido: havia um time elétrico, intenso, organizado sem a bola e com intensa movimentação quando atacava.

A execução do 4-2-3-1 palmeirense vai ganhando a cara de Oswaldo de Oliveira. Muito pela presença de Rafael Marques. Não é exatamente um primor de técnica e habilidade, mas compensa com inteligência tática e mobilidade. O treinador conhece as características e não sacrifica o atacante encaixotado entre os zagueiros.

Partindo do flanco, mas aparecendo em todos os setores revezando com Robinho, Dudu e até Cristaldo, contando com o apoio de Arouca e dos laterais Lucas e Zé Roberto, alternadamente. Marcou dois gols - o último uma pintura, por toda a jogada e a bela finalização. Participou de quase todas as ações ofensivas e foi o melhor na grande atuação alviverde em 2015, mesmo reduzindo o ritmo depois dos 3 a 0.

Por seus méritos, mas também porque o São Paulo foi mais do mesmo nos grandes jogos na temporada. Descoordenado, deixando espaços generosos entre os setores, mesmo nos poucos minutos com onze jogadores. Sem contar as falhas individuais. Faltou intensidade, principalmente.

Desta vez a responsabilidade pela letargia não foi só de Ganso, que saiu no intervalo para Centurión fechar a segunda linha de quatro no básico 4-4-1 depois da entrada de Edson Silva na vaga de Pato para recompor a zaga. Quando Michel Bastos também levou o vermelho no segundo tempo, virou treino. A ponto do Palmeiras quase marcar um golaço com Gabriel após duas tabelas pelo meio.

André Rocha
Palmeiras no 4-2-3-1 com intensidade e movimentação atropelou o São Paulo no 4-4-1 desde a expulsão de Tolói aos sete minutos do primeiro tempo.
Palmeiras no 4-2-3-1 com intensidade e movimentação atropelou o São Paulo no 4-4-1 desde a expulsão de Tolói aos sete minutos do primeiro tempo. 

Saldo final do massacre: Palmeiras com 52% de posse, 13 finalizações contra cinco, 22 desarmes certos - o dobro do rival.

Muricy Ramalho parece sem forças e até capacidade para juntar os cacos de tantos reveses em jogos de alta intensidade para o duelo com o San Lorenzo na Argentina. O Palmeiras garante a classificação para a fase final do Paulista e encerra o jejum de mais de um ano em clássicos.

Mais importante é ter uma referência de desempenho para o resto da temporada de reconstrução do clube e do time que cumpriu atuação quase perfeita.

(Estatísticas: Footstats)


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Os pecados de Cristóvão Borges e o que esperar de Ricardo Drubscky no Fluminense

Nelson Perez/Fluminense
Demitido do Flu, Cristóvão Borges deu entrevista coletiva nesta segunda
Demitido do Flu, Cristóvão Borges deu entrevista coletiva nesta segunda

É duro criticar Cristóvão Borges. Pessoa do bem, sereno, educado, humilde, solícito. Profissional trabalhador, honesto, estudioso e antenado.

Mas, impossível negar, pecou no Fluminense. Não só pelos resultados - fora do G-4 do Brasileiro ainda com elenco milionário da Unimed e agora, mesmo com grupo mais modesto, distante da zona de classificação para a fase final do Carioca. Sem contar o pior momento: eliminação da Copa do Brasil com derrota por 5 a 2 para o América-RN no Maracanã. No total, 28 vitórias, 11 empates e 19 derrotas - 54,6% de aproveitamento.

Também faltaram desempenho e felicidade em algumas escolhas na virada para 2015 sem a patrocinadora. Já que o orçamento era curto, as contratações precisavam ser certeiras. Cristóvão, com apoio da equipe de scout e aval da diretoria, acreditou na força e na velocidade de Victor Oliveira e João Filipe como reposições na zaga a Gum, Marlon e Guilherme Mattis.

A rigor, nenhum deles teve plena adaptação à proposta de compactação e marcação adiantada, que obriga os zagueiros a deixar espaços às costas e precisam de rapidez em recuperação na cobertura.

Para complicar, outro equívoco de Cristóvão: apostar em laterais fortes ofensivamente, como Wellington Silva, Giovanni e Guilherme Santos, mas que sofriam para executar suas funções atrás. Especialmente as diagonais de cobertura, o que expunha ainda mais os zagueiros, que também se perdiam saindo para dar bote na linha dos volantes. Bem diferente da pressão sobre o adversário com a bola, obrigatório na redução de espaços no futebol atual.

Reprodução PFC
Início da jogada do segundo gol do Volta Redonda: Henrique saiu errado para dar o bote, Hugo entrou nas costas de Wellington Silva para finalizar.
Início da jogada do segundo gol do Volta Redonda: Henrique saiu errado para dar o bote, Hugo entrou nas costas de Wellington Silva para finalizar.

Na frente, a opção por Lucas Gomes se mostrou ainda mais infeliz. Em 2014, a principal reclamação do treinador e até das lideranças no elenco era a ausência de um atacante de velocidade para desafogar em contragolpes. O problema persistiu com o ex-Icasa e o ataque continuou dependendo dos gols de Fred e da aproximação do trio de meias na execução do 4-2-3-1.

Cristóvão ainda se ressente um pouco da falta de rodagem e vivência na função para conseguir mudar o jogo em momentos importantes. A obsessão por organização e movimentos coletivos é positiva, mas um pouco de intuição é fundamental.

Em várias partidas, desde a primeira experiência no Vasco, o técnico demorou a substituir ou quando o fez a equipe caiu de produção. É algo a ser repensado e aprimorado para a seqüência na carreira que tem tudo para ser vencedora.

No mais, também faltou um pouco de sorte, há de se reconhecer. Jogos controlados que viraram derrotas por várias chances desperdiçadas ou um gol sofrido em lance isolado. Acontece.

Chega Ricardo Drubscky. 55 anos, quase vinte treinando equipes profissionais ou trabalhando como gerente de futebol. Experiente, com vivência no trato com as divisões de base - lançou Gilberto Silva no América-MG. Salário compatível com a nova realidade de fairplay financeiro e parcelamento das dívidas com o governo. Bons conceitos, principalmente. A quem interessar, este que escreve recomenda a leitura de seu livro "Universo Tático do Futebol - Escola Brasileira".

Para entender melhor o que pensa o novo técnico do Fluminense sobre o futebol brasileiro, vale assistir ao vídeo (abaixo) de sua participação no "Bate-Bola" e ler suas observações ao colaborar com um post deste blog - AQUI.

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Ricardo Drubscky analisa a 'escola brasileira de futebol' e diz: 'Hoje, o jogo é de tática e inteligência'

Títulos? Apenas o Paraibano pelo Botafogo em 2002, a Série D com o Tupi em 2011 e a Marbella Cup comandando o Atlético-PR em 2013. No último Brasileiro, entregou o Goiás em 12º. Agora foi demitido pelo Vitória com 63% de aproveitamento. Para quem esperava um papa-títulos como Abel Braga, por exemplo, pode parecer pouco.

Mas é aposta válida. Só que precisa do respaldo e da convicção da diretoria do Fluminense. No inicio do ano passado, Drubscky foi demitido pelo Criciúma depois de apenas sete partidas e publicou carta aberta criticando o imediatismo no futebol brasileiro.

No Flu, o desafio é a gestão de um elenco heterogêneo. Base experiente, garotos formados em Xerém e outros jovens contratados como apostas. A missão do vice de futebol Mario Bittencourt e do gerente Fernando Simone é filtrar qualquer foco de questionamento antes mesmo de Drubscky começar a trabalhar. O famoso "Quem é esse cara? Ganhou o quê para treinar o Fluminense?" Aceitável vindo do torcedor passional, mas não dentro do clube, muito menos dos atletas.

Em campo, com os jogadores disponíveis, a formação ideal é a que venceu o Botafogo por 3 a 1, com Gum entrando na vaga de Henrique na zaga. Cabe a Drubscky organizar o sistema defensivo com trabalho coletivo e aprimorar o bom entendimento do quarteto ofensivo. O revezamento de Wagner e Gerson pela esquerda é boa ideia a ser mantida, assim como as infiltrações em diagonal de Kenedy se juntando a Fred e Jean avançando como meia e o sistema alternando naturalmente para o 4-1-4-1.

André Rocha
Drubscky pode manter a variação 4-2-3-1/4-1-4-1 de Cristóvão com Gerson e Wagner alternando pela esquerda e Jean se juntando ao quarteto ofensivo.
Drubscky pode manter a variação 4-2-3-1/4-1-4-1 de Cristóvão com Gerson e Wagner alternando pela esquerda e Jean se juntando ao quarteto ofensivo.

Pode dar certo. Porém, como em qualquer atividade, requer tempo e confiança. Cristóvão Borges teve, dentro da realidade brasileira, e não foi feliz. Como será com Drubscky?


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Vanderlei Luxemburgo muda o Flamengo para vencer clássico de chuva, expulsões e fim da invencibilidade do Vasco

O técnico do Flamengo costuma citar a Alemanha campeã mundial como referência para a execução do 4-3-3/4-1-4-1 que vem tentando implantar na sua equipe.

A dificuldade maior tem sido aproximar Canteros e Márcio Araújo do trio ofensivo e condicioná-los a entrar na área adversária, como faziam Khedira e Kroos - autores de três gols nos 7 a 1, por exemplo. Foi este novamente o problema rubro-negro no início do "Clássico dos Milhões" no Maracanã com mais de 50 mil pagantes.

O Vasco - sem Luan, lesionado e substituído por Anderson Salles - iniciou adiantando a marcação e "quebrando a bola", forçando o passe longo ou chutão para Gabriel, Alecsandro e Cirino na frente. Na execução do 4-2-3-1 armado por Doriva, Julio dos Santos recua pela direita para ajudar os volantes na articulação e no combate. No espaço deixado, passa o lateral Madson ou infiltra o meia central - antes Marcinho, agora Jhon Cley.

André Rocha
Formações iniciais: Flamengo no 4-3-3 com o meio muito longe do ataque, Vasco no 4-2-3-1 com Julio Santos abrindo espaços à direita para Madson e Cley
Formações iniciais: Flamengo no 4-3-3 com o meio muito longe do ataque, Vasco no 4-2-3-1 com Julio Santos abrindo espaços à direita para Madson e Cley

Mas a chuva apertou, o gramado encharcou e Martín Silva foi no mínimo infantil na reposição de bola com as mãos procurando Rodrigo. A bola parou e Alecsandro aproveitou. Os cruzmaltinos não se intimidaram e tiveram a chance de empatar com Julio dos Santos. Bola na trave.

O ultimo ato antes do árbitro João Batista de Arruda interromper a partida e começar a habitual disputa de bastidores, ainda mais com Eurico Miranda de volta ao "front"  - veja mais no blog do nosso Mauro Cezar Pereira.

Fim da tempestade, times de volta ao gramado com Bernardo na vaga de Dagoberto. Antes, Cáceres entrara no lugar de Jonas. Ambos lesionados. Empate do Vasco com Gilberto em jogada de escanteio manjada - desvio na primeira trave de Julio dos Santos, conclusão do centroavante.

Senha para a pressão vascaína até o final do primeiro tempo, com o Fla acuado e penando com uma "cratera" entre o meio e o ataque. Desempenho compensado pelos dez desarmes corretos contra apenas três do rival. Empate na posse de bola, mas sete finalizações cruzmaltinas contra quatro - dois a um no alvo.

Luxemburgo mudou. Trocou Gabriel por Everton, abriu Marcio Araújo à direita e com duas linhas de quatro - ou 4-1-3-2, por conta do posicionamento mais recuado de Cáceres - aproximou os setores e ganhou muita velocidade pela esquerda com Everton e Cirino, que sofreu o pênalti convertido por Alecsandro.

Reprodução Premiere
Flagrante da segunda linha de quatro do Flamengo com Marcio Araújo e Everton abertos e Cáceres mais plantado, próximo da defesa, que liberou Cirino.
Flagrante da segunda linha de quatro do Flamengo com Marcio Araújo e Everton abertos e Cáceres mais plantado, próximo da defesa, que liberou Cirino.

O jogo ficou à feição para os contragolpes rubro-negros e Vanderlei aumentou ainda mais a velocidade com Paulinho no lugar de Alecsandro. Doriva tirou Serginho e colocou Thalles, recuando Julio dos Santos como volante no mesmo 4-4-2 do Fla. Depois trocou Jhon Cley por Yago para acelerar pela direita. O time, porém, ficou muito espaçado, com a defesa totalmente escancarada.

Quando o terceiro gol do Flamengo parecia questão de tempo, confusão em campo e quatro expulsos: Guiñazu e Bernardo pelo Vasco, Anderson Pico e Paulinho no Fla. Com nove para cada lado, a equipe de Luxemburgo se defendeu num 5-2-1 e o time de Doriva, numa espécie de 2-3-3, despejou bolas na área do oponente e teve a chance do empate nos pés de Christiano. Última das 18 finalizações do time, dez a mais que o rival. Mas a 12ª sem direção. Faltou qualidade.

André Rocha
No final, com nove para cada lado, Vasco despejou bolas na área rubro-negra e teve a chance do empate; Fla se defendeu e isolou Cirino na frente.
No final, com nove para cada lado, Vasco despejou bolas na área rubro-negra e teve a chance do empate; Fla se defendeu e isolou Cirino na frente.

Fim da invencibilidade vascaína no Carioca do equilíbrio (ou inconsistência?) nos clássicos: Fluminense venceu o Botafogo, que ganhou do Flamengo, que superou o Vasco, que faturou os três pontos sobre o tricolor.

Na vitória rubro-negra que aumentou para dez o número de jogos sem derrota contra o Vasco, Vanderlei Luxemburgo foi infeliz na escalação, mas acertou nas mudanças. Com elenco mais completo, é hora de buscar formação equilibrada. As duas linhas de quatro com Cirino na frente pode ser boa solução.

(Estatísticas: Footstats)


E-mail: anunesrocha@gmail.com


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