André Rocha

André Rocha

André Rocha é carioca e jornalista. Blogueiro do ESPN.com.br, comentarista dos canais ESPN e coautor dos livros "1981" e "É Tetra"

A obrigação de vencer é a maior derrota dos times brasileiros

SERGIO BARZAGHI/Gazeta Press
Oswaldo de Oliveira, técnico do Palmeiras
Oswaldo de Oliveira, técnico do Palmeiras, é um dos profissionais pressionados já neste início de Brasileiro. 

A terceira rodada da Série A do Campeonato Brasileiro se foi e o que vimos até aqui foram jogos e mais jogos de baixíssimo nível técnico, média de gols em queda livre - 2,8 na primeira rodada, 1,7 na segunda e 1,5 na terceira - e raríssimas jogadas bem pensadas e executadas.

Um olhar para os campos da "elite" do país e a pergunta inevitável: qual foi a preparação dos times nestes quase quatro meses completos de trabalho? De que serviram os estaduais?

Na prática, pouco ou quase nada. E desta vez apenas Cruzeiro e Internacional ainda estão envolvidos com a Libertadores que sempre tem enorme impacto neste início de competição nacional.

A indigência na forma de jogar das equipes passa diretamente pela cobrança de resultados imediatos. Já virou clichê porque ninguém encontra solução: o Estadual é visto como fase de preparação, quase uma continuação da pré-temporada que ganhou mais dias em 2015. Mas uma derrota para time de menor investimento já balança o treinador.

O raciocínio simplista: "Se está tendo dificuldades contra o time pequeno xxxx, imagine quando enfrentar o yyyy no Brasileiro". Como se a evolução coletiva com a assimilação de um modelo de jogo fosse uma impossibilidade.

O mesmo vale em caso de título regional. Como o que conta são apenas os três pontos, os triunfos no Estadual não são relativizados. Se há vitória está tudo certo. Até as críticas no próximo revés.

Porque o dirigente não contrata com convicção. Tantas vezes o estilo do técnico nada tem a ver com o elenco do clube. A espera é pela "química" que em alguns casos parece mais uma busca de milagre mesmo.

O planejamento só dura até o jogo seguinte. As avaliações também. Tite já não é mais o melhor técnico brasileiro porque o Corinthians que se dissolve financeiramente não consegue repetir a campanha do início da temporada. Oswaldo de Oliveira é questionado no Palmeiras por não dar liga a um elenco remontado quase do zero. Luxemburgo, considerado o técnico brasileiro ideal para o São Paulo há um mês, está por um fio no Flamengo. Ricardo Drubscky demitido do Fluminense com dois meses de trabalho.

Sempre o resultado. Cobram os três pontos, nem tanto o desempenho. Duas vitórias jogando mal significam "boa fase". Um empate e uma derrota atuando melhor que os adversários são o início da "crise". Essa montanha-russa de emoções, ou transtorno bipolar, explica o perde e ganha da grande maioria nas 38 rodadas.

Para piorar, agora há também a obrigação de ser "moderno". Não por filosofia, mas pela crença de que as chances de sucesso aumentam. Com isso, os treinadores tentam copiar conceitos da Europa, como compactar os setores e pressionar a zona do campo onde está a bola para recuperá-la.

A questão é: o que fazer com ela? Se os dois times trabalham para tirar os espaços, alguém tem que criá-los. Mas como, se mal há tempo de treinar os jogadores para destruir as jogadas? A construção do nosso jogo é deteriorada, incompleta.

Aí surge a "fórmula mágica": "Falta o camisa dez!" Essa entidade que em um toque na bola vai fazer os setores se sincronizarem com perfeição. Todos vão passar certo, se deslocar no momento correto e finalizar com precisão. Será?

O problema por aqui é que ainda acreditam que se a defesa garantir atrás, um ou dois talentos vão resolver na frente. Isso era na época dos "latifúndios" - campos enormes que pareciam imensos com as equipes espaçadas e cinco marcando pelos outros cinco, mais o goleiro.

Sem espaço você tem que criar movimentos mais complexos, como, por exemplo, iniciar a jogada de um lado, inverter rapidamente e finalizar com um homem surpresa ou as tabelas com infiltrações em diagonal. Perto da meta adversária, o drible que desequilibra a defesa.

Só que isso exige qualidade nos fundamentos, especialmente o passe. A jogada precisa ser mais elaborada, não basta apenas esperar o erro do rival. No país que consagrou, pelos resultados, vários times de ligações diretas e bolas aéreas, com um ou outro craque para decidir, é um choque de realidade. Triste.

Sigamos, pois, entre uma pelada e outra esperando dias melhores, em que a pressão insana por vitórias não seja a maior derrota dos times brasileiros.


E-mail: anunesrocha@gmail.com


Xavi Hernández: o senhor da bola, do tempo e dos espaços no 'Futebol Total'

Getty
Torcida fez bandeira especial em homenagem a Xavi
Torcida fez bandeira especial em homenagem a Xavi

1985. Em uma escolinha de futebol da Espanha, garotos de não mais que cinco, seis anos correm atrás da bola com a descoordenação natural da idade, todos ao mesmo tempo querendo chegar ao gol.

Menos um, que ficava parado no meio-campo. O pai questionou: "Filho, por que você está aí parado e não vai ao ataque como os outros?" A resposta do menino de cinco anos: "Porque se eu não estiver aqui, a bola não chegará até lá".

Era Xavi Hernández, que ontem, aos 35 anos, se despediu do Camp Nou sendo recepcionado com uma festa digna para um dos melhores e mais vencedores jogadores espanhóis de todos os tempos. Também um dos meio-campistas mais brilhantes que o mundo já viu.

Xavi sempre será lembrado por liderar o "tiki-taka" em duas equipes lendárias: o Barcelona de Guardiola e a seleção espanhola campeã mundial e bi da Eurocopa. A imagem é a de Xavi tocando, tocando, tocando...

Mas não só isso. Johan Cruyff, um dos mentores da maneira de jogar que consagrou o time catalão, costuma dizer que cada jogador tem a bola, no máximo, por cerca de três minutos em uma partida. Portanto, o mais importante é o que você faz nos 87 sem ela. Eis a chave.

O camisa seis do Barca e oito na seleção foi o senhor da bola, mas também do tempo e dos espaços. Um mestre em abrir o campo para a sua equipe e encurtá-lo para o adversário. Avançava sem a bola liderando a pressão no ataque, voltava até o goleiro, se necessário, para criar espaços. Sem contar a movimentação, sempre se colocando como uma opção de passe para a bola seguir circulando, o jogo fluindo. A essência do esporte com a infinita beleza da simplicidade.

É óbvio que sem o talento e a técnica, a inteligência acima da média não resultaria em 25 títulos em 17 anos como profissional, três vezes finalista da Bola de Ouro, melhor jogador da Eurocopa 2008, entre outros tantos prêmios individuais. Sem contar a liderança e a imagem diante de seus companheiros: "está difícil, toca no Xavi".

No futuro, pode herdar ou até aprimorar como treinador as ideias de Guardiola, assim como o sucedeu no meio-campo blaugrana. O "Futebol Total" passando de Michels a Cruyff, deste ao atual treinador do Bayern de Munique e chegando a Xavi. O futuro dirá.

Voltando ao presente, a segunda temporada com tríplice coroa seria um fecho de ouro. Mesmo como reserva de Iniesta, outra lenda do clube e do país. Mas historicamente Xavi ainda fica um pouco acima, exatamente pela capacidade de ditar o ritmo do seu time e do adversário. Saber o tempo de passar, marcar e se desmarcar. Negar espaço ao rival, abrir ferrolhos no toque e no talento.

Em alguns momentos faltou chutar mais, em outros o adversário compacto sufocou a troca de passes e não houve um "Plano B". Felizmente, a perfeição não pertence ao futebol - apaixonante por sua imprecisão. Mas a carreira de Xavi foi de muito mais acertos que equívocos. Mais vitórias que derrotas. Desde 2008, mais títulos que reveses.

Por isso o tocante agradecimento na enorme bandeira com a hashtag "#6raciesxavi" da torcida culé no estádio e de todos que amam o futebol ao melhor e mais inteligente meio-campista que este que escreve viu atuando ao vivo em mais de três décadas.


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A vitória fundamental do Cruzeiro que encaminha vaga e consolida reconstrução do time por Marcelo Oliveira

Você leu neste blog que a reconstrução do Cruzeiro sem Lucas Silva, Everton Ribeiro e Ricardo Goulart não seria nada simples. A vitória sobre o River Plate no Monumental de Nuñez pelas quartas de final da Libertadores apenas reforça os méritos do técnico Marcelo Oliveira.

Agora o treinador sofre com os passes errados de Willians quando pressionado, precisa contar com Marquinhos nas bolas paradas e depende demais da criatividade do meia uruguaio De Arrascaeta na execução do 4-2-3-1. Ciente das limitações, o time é mais pragmático, baseia o modelo de jogo em força e velocidade.

O maior mérito foi não abdicar das jogadas ofensivas, até porque a última linha de defesa do River era um convite no confronto direto com os atacantes. O time argentino ficou com a bola no primeiro tempo com 58% de posse e Ponzio distribuindo o jogo. Defendendo com duas linhas de quatro, atacando no 4-3-3 com Martinez se juntando à dupla Mora-Teo Gutierrez.

A força do River, porém, era pela direita, com Mammana, Sánchez e Mora para cima de Mena, que só contava com o auxílio de Willians, porque Willian voltava pouco na recomposição. Ainda assim, o Cruzeiro finalizou seis vezes contra cinco - apenas uma no alvo para cada time. Se Kranevitter anulava De Arrascaeta, ao menos os outros três atacantes criavam problemas para os quatro defensores do rival no um contra um.

ANDRÉ ROCHA - TACTICAL PAD
No primeiro tempo, River defendendo com 2 linhas de 4 e atacando no 4-3-3 o Cruzeiro no 4-2-3-1 que penou com Arrascaeta anulado por Kranevitter.
No primeiro tempo, River defendendo com 2 linhas de 4 e atacando no 4-3-3 o Cruzeiro no 4-2-3-1 que penou com Arrascaeta anulado por Kranevitter.

A equipe de Marcelo Gallardo cresceu no segundo tempo com Mayada no lugar de Ponzio e atacando pela direita, com Sánchez invertendo o lado no losango formado a partir da entrada do "enganche" Pisculichi. Na frente, mais presença física com Cavenaghi no lugar de Mora.

Marcelo Oliveira respondeu primeiro com Gabriel Xavier no lugar do De Arrascaeta. O meia criou a jogada que quase terminou no gol de Willian. Depois o técnico repaginou a equipe no 4-1-4-1 ao trocar Willian por Charles. Trinca de volantes, Gabriel Xavier pela esquerda. Maior compactação atrás à espera da velocidade nos contragolpes.

E a bizarra retaguarda do River se encarregou de falhar feio. O mérito cruzeirense foi ter três homens na área adversária para aproveitar e Marquinhos apareceu livre para ir às redes. Gol fundamental que encaminha a vaga na semifinal. Terceira vitória seguida do time celeste sobre o River em Buenos Aires - outras foram em 1998, com Gallardo em campo, e 1999.

ANDRÉ ROCHA - TACTICAL PAD
River Plate repaginado no 4-3-1-2 atacou, mas deixou espaços para o Cruzeiro no 4-1-4-1 que com três atacantes na área adversária achou gol da vitória
River Plate repaginado no 4-3-1-2 atacou, mas deixou espaços para o Cruzeiro no 4-1-4-1 que com três atacantes na área adversária achou gol da vitória

O novo Cruzeiro perde muito na técnica em relação ao time de 2013/14, mas na Libertadores é mais eficiente até aqui. Antes mais constante nos pontos corridos, agora competitivo no mata-mata. Uma prova da competência do técnico bicampeão brasileiro.

(Estatísticas: ESPN)

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Os pecados do Internacional em Bogotá que fortalecem o organizado Santa Fé para a perigosa volta no Beira-Rio

O Independiente de Santa Fé é um ótimo exemplo de que não existe sistema tático ultrapassado. Tudo depende das características dos jogadores e da execução. No 4-3-1-2, joga no ritmo do "enganche" argentino Omar Pérez - o homem que recua até os zagueiros para iniciar a saída de bola, "carimbando" todas as jogadas.

Como em qualquer esquema com losango no meio-campo, o trio de volantes precisa dar dinâmica ao time. Daniel Torres, mais plantado, se apresenta sempre como opção para desafogo dos zagueiros Mina e Meza e até de Pérez. Já os "carrilleros" Roa e Seijas não deixam o "enganche" solitário na articulação, nem os laterais Anchico e Mosquera nas ultrapassagens.

Tudo bem organizado e coordenado, mas sem efetividade no primeiro tempo do El Campín. Porque o Internacional, no 4-2-3-1, utilizou a compactação em duas linhas para compensar a desvantagem numérica no meio-campo (quatro contra três). No início com alguns problemas, porque Rodrigo Dourado afundava com os zagueiros Alan e Juan e Aránguiz ficava mais avançado, deixando espaços no centro, entre as linhas. 

Reprodução Fox Sports
Flagrante do Internacional armado em duas linhas, mas deixando espaços entre as linhas para Omar Pérez.
Flagrante do Internacional armado em duas linhas, mas deixando espaços entre as linhas para Omar Pérez.

Eduardo Sasha e Valdívia se sacrificavam acompanhando os laterais. O xodó da torcida colorada só apareceu na frente em contragolpe que tentou encobrir o goleiro Castellanos. Uma das três finalizações da equipe brasileira no primeiro tempo, todas sem direção.

O Santa Fé rodou a bola com 60% de posse, rondou a área, mas só finalizou uma vez, também longe da meta de Alisson Becker. Disputa tática, mas sem a qualidade técnica prometida na primeira quarta-de-final.

ANDRÉ ROCHA - TACTICAL PAD
Santa Fé no 4-3-1-2 bem coordenado com volantes ajudando Omar Pérez e liberando laterais contra Inter no 4-2-3-1 defendendo em duas linhas de quatro.
Santa Fé no 4-3-1-2 bem coordenado com volantes ajudando Omar Pérez e liberando laterais contra Inter no 4-2-3-1 defendendo em duas linhas de quatro.

Na segunda etapa em Bogotá, o roteiro esperado: Santa Fé avançando as linhas e o técnico Gustavo Costas reoxigenando o ataque trocando Paez e Morelo por Rivera e Borja. Espetou de vez os laterais e forçou as jogadas aéreas, com bola parada ou rolando.

Diego Aguirre respondeu primeiro com troca ousada: Sasha por Nilmar, que foi jogar aberto pela esquerda. Na segunda vez que o atacante não acompanhou Anchico, o técnico uruguaio mandou a campo Nico Freitas e tirou D'Alessandro, que não conseguia reter nem cadenciar.

De novo duas linhas de quatro, com Aránguiz aberto pela direita, Valdívia retornando à esquerda e Lisandro atrás de Nilmar. Os dois atacantes tiveram duas chances de matar o jogo e encaminhar a classificação em contra-ataques, mas o argentino se atrapalhou com a bola e o brasileiro errou a cavadinha. Primeiro pecado mortal.

O segundo foi se entrincheirar com o cansaço e depois de duas bolas no travessão em jogadas aéreas. Réver na vaga de Lisandro para aumentar a estatura. Com cinco defensores afundados na própria área cedeu o gol nos acréscimos.

Escanteio da direita de Pérez, 25º cruzamento na área colorada para Mosquera acertar a 13ª finalização e construir vantagem mínima, mas fundamental para a volta no Beira-Rio. Principalmente porque todo gol colombiano será "qualificado" em Porto Alegre. Um perigo.

ANDRÉ ROCHA - TACTICAL PAD
No final, Inter cansou e se entrincheirou com cinco defensores e cedeu o gol no final para o time colombiano que reoxigenou ataque e cruzou 25 bolas
No final, Inter cansou e se entrincheirou com cinco defensores e cedeu o gol no final para o time colombiano que reoxigenou ataque e cruzou 25 bolas

(Estatísticas: ESPN)


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Felipão deixa o Grêmio com uma dura lição para sua geração de técnicos: o jogador do século 21 quer um treinador, não pai.

Gazeta Press
Luiz Felipe Scolari, em entrevista coletiva do Grêmio, após derrota para o Internacional
Luiz Felipe Scolari deixa o Grêmio com 59% de aproveitamento e sem títulos.

Fim do sonho para a torcida gremista. Luiz Felipe Scolari, o messias, o Sebastião ferido pelos 7 a 1 que voltou para Porto Alegre redimir seu povo falhou mais uma vez. Pediu o boné sem títulos ou ao menos uma participação na Libertadores que venceu por lá em 1995.

Em 51 jogos, 26 vitórias, 12 empates e 13 derrotas, aproveitamento de 59%. Nem tão ruim, mas muito pouco para tamanha espera e tanta esperança. Mesmo com atenuantes como limitação financeira do clube, questões políticas, crise técnica de um elenco enfraquecido.

O técnico campeão mundial pela seleção em 2002 voltou ao Brasil em 2010 como um mito no Palmeiras, no escrete canarinho e no Grêmio. Em maio de 2015, aos 66 anos, parece sem idolatria e mercado. Pior: com a imagem arranhada por fiascos seguidos que uma Copa do Brasil no Alviverde e a Copa das Confederações não apagam.

A mais dura constatação, porém, é que Felipão parece mesmo ter um perfil de treinador que ficou para trás. Não exatamente ultrapassado. Ele entende como funcionam os mecanismos do futebol atual dentro de campo.

O Brasil da Copa das Confederações, mesmo descontando todo o contexto favorável, jogou com intensidade. Novidade nenhuma para Scolari, produto da escola do sul do país que atua assim desde sempre. O Grêmio do último ano tentou investir em volantes mais qualificados, que tornassem mais dinâmico o 4-2-3-1 quase imutável da equipe.

No entanto, a impressão é de que o técnico conhece, mas não consegue transmitir os conceitos modernos. Talvez falte uma metodologia mais atual nos treinamentos. Felipão é de uma escola de treinadores que sempre investiu mais na intuição e na motivação dos atletas do que no exercício, na repetição.

Também confia no talento natural do brasileiro para atacar. Se a defesa estiver arrumada e não sofrer gols, lá na frente os atacantes resolvem. Acima de tudo, fazia o jogador correr por ele.

Só que o atleta de futebol mudou no século 21. Em geral, ele agora tem a família mais próxima, que investiu no seu talento. Alguns já sustentam pai e mãe desde garotos, com salários de profissional. Possuem agentes, empresários, aspones...Se o técnico for amigo e honesto, ótimo. Mas ele quer um treinador, não pai.

Felipão é de uma época em que jogar futebol não era exatamente a profissão dos sonhos. O jogador chegava com baixa autoestima, origem humilde, contra tudo e todos precisando de um colo, do ombro amigo. Ou de uma bronca para acordar. Agora, o profissional quer salário em dia, estrutura para trabalhar e um comandante que lhe diga o que fazer em campo.

Sem churrasco na casa do técnico para "unir o grupo" e bilhetinho embaixo da porta do hotel, porque o cara quer ficar com a namorada modelo ou nas redes sociais publicando selfies. Outros tempos. Uma lição.

Por isso a crise com vestiário rachado no Palmeiras, a briga com Kléber Gladiador. O fracasso na Copa do Mundo passa pela fidelidade canina a seus jogadores que não teve resposta em campo.

Quando Fred e Paulinho não corresponderam como no ano anterior, era hora de mexer na escalação. O treinador preferiu alterar a estrutura, avançando Neymar para compensar na frente e transferindo Oscar para o lado do campo.

Efeito dominó: cratera no meio-campo e Luiz Gustavo, que atuava perto dos zagueiros par ajudar a cobrir os ofensivos Daniel Alves e Marcelo, precisou ocupar mais a intermediária e a seleção desandou de vez. Nem as entradas de Maicon e Fernandinho corrigiram.

Os problemas técnicos e táticos influíram no emocional e não o contrário, como quiseram fazer acreditar. Jogadores que trabalharam com treinadores como Guardiola, Mourinho, Ancelotti, Heynckes e Van Gaal percebiam o time mal armado e não queriam ser os vilões da Copa em casa. Por isso o choro e os nervos em frangalhos.

Na tragédia do Mineirão, Felipão deu de ombros para os relatórios de Gallo e Roque Júnior que sugeriam o óbvio: sem Thiago Silva e Neymar, o melhor a fazer seria congestionar o meio-campo e reduzir os espaços para a técnica seleção alemã.

A torcida aceitaria até uma retranca, pelo contexto da semifinal. Scolari preferiu ouvir sua intuição: com Bernard, ídolo no Atlético Mineiro e "alegria nas pernas", o time ofensivo chamaria a massa e intimidaria o rival. O resto é história...

Felipão é um personagem eterno do futebol brasileiro. Multicampeão, carismático, controverso, explosivo. Querido por muitos dos que trabalharam com ele. Vencedor no trabalho e na vida.

Exatamente por isso o momento parece, para quem está de fora, mais adequado para uma pausa. Refletir, ficar com a verdadeira Família Scolari que talvez esteja precisando do patriarca mais presente.

Sair de cena e deixar o tempo reavivar as muitas boas lembranças, cicatrizar as feridas. Ainda que algumas manchas fiquem para sempre.


E-mail: anunesrocha@gmail.com


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