André Rocha

André Rocha

André Rocha é carioca e jornalista. Blogueiro do ESPN.com.br, comentarista dos canais ESPN e coautor dos livros "1981" e "É Tetra"

Grêmio de Roger Machado atualiza escola gaúcha com mobilidade, compactação e Douglas, a única peça 'retrô'

Roger Machado herdou o Grêmio de Luiz Felipe Scolari em maio prometendo resgatar agressividade e intensidade...do Grêmio multicampeão de Felipão nos anos 1990, no qual era o lateral-esquerdo.

Porque a escola gaúcha sempre foi intensa. Mas antes chamavam de "garra" ou "pelear". Ou nunca se entregar. Mas já era intensidade, com ritmo mais forte, mais argentino e uruguaio que do eixo Rio-São Paulo.

O novo técnico gremista, porém, não é, nem poderia ser, um saudosista. Está antenado e constrói aos poucos uma equipe compacta, reduzindo o campo a 30 metros. Também móvel, sem o típico centroavante. Sem o Jardel de Felipão.

Na frente está Luan, saindo para os flancos e abrindo espaços. Como no primeiro gol dos 3 a 1 sobre o Santos na Vila Belmiro que chegou a alçar o Grêmio à liderança do Brasileiro até o Atlético-MG atropelar o Internacional e tomar a dianteira.

Giuliano, meia do 4-2-3-1 que Roger manteve como sistema tático, sai da direita por dentro e abre o corredor para o lateral Rafael Galhardo, outro a crescer com Roger e compensar suas muitas dificuldades, especialmente na tomada de decisão.

Combinação óbvia, se Luan não se deslocasse e recebesse às costas da defesa, acelerando e servindo Pedro Rocha, que também fechou em diagonal da esquerda para não esvaziar a área adversária e aparecer para finalizar.

Reprodução PFC
Primeiro gol do Grêmio na Vila: Giuliano corta por dentro, Galhardo passa, Luan infiltra e serve Pedro Rocha que entra em diagonal.
Primeiro gol do Grêmio na Vila: Giuliano corta por dentro, Galhardo passa, Luan infiltra e serve Pedro Rocha que entra em diagonal.

Jogada bem pensada e executada, reflexo da superioridade da equipe gaúcha mesmo antes da polêmica expulsão do santista Geuvânio ainda no primeiro tempo. Do time que finalizou 16 vezes contra sete, mesmo com apenas 48% de posse. Mas 93% de aproveitamento nos passes.

Porque tem Douglas. Segundo Roger, o meia "que altera as velocidades do jogo". Dita o ritmo com a bola. Sem ela, descansa. Como Seedorf no Botafogo de Oswaldo de Oliveira em 2013 e Valdívia no Palmeiras de Gilson Kleina no ano passado. Luan compensa voltando para ajudar - do quarteto ofensivo, é quem mais desarma.

Reprodução PFC
Flagrante do Grêmio reduzindo o campo de ação do adversário e Luan participando da pressão no homem da bola enquanto Douglas fica livre no centro.
Flagrante do Grêmio reduzindo o campo de ação do adversário e Luan participando da pressão no homem da bola enquanto Douglas fica livre no centro.

Douglas corre menos que os demais, mas pensa o jogo. Precisa e tem velocidade ao seu redor, companheiros se movimentando e dando opções para a distribuição. Digamos que seja a única peça "retrô" neste Grêmio que se propõe a ser atual. Ainda assim, é mais participativo que em outras campanhas. Lembra o da arrancada em 2010 no próprio Grêmio, com Renato Gaúcho.

Agora é a vez de Roger, outro ídolo do clube. Recebeu o elenco tão criticado por Felipão, entendeu as dificuldades financeiras e trabalha com o que tem. Aos poucos vai atualizando a escola gaúcha.

Sem Maicon na Vila, usou Walace e Edinho. Volantes mais marcadores, porém incentivados e treinados para acertar o passe além de destruir. O primeiro é o melhor no fundamento, com 92% de aproveitamento. O segundo serviu Yure Mamute no terceiro gol.

Sinais de evolução do time que venceu nas últimas cinco rodadas, desde a derrota para o São Paulo. Em oito jogos, seis triunfos e o empate com o Goiás na estreia de Roger.

Equipe forte. Tipicamente gaúcha como a de Felipão há 20 anos, mas sem cruzar para Jardel. Bola no chão, no ritmo de Douglas. Ataque rápido e móvel, porém chegando em bloco, sem o típico contragolpe. Reduzindo o campo e tentando jogar em espaços curtos. Um raro indício de renovação no estagnado futebol brasileiro.

ANDRÉ ROCHA - TACTICAL PAD
Roger manteve o 4-2-3-1 de Felipão, porém com mobilidade na frente e setores mais próximos - Luan volta para marcar e descansa Douglas.
Roger manteve o 4-2-3-1 de Felipão, porém com mobilidade na frente e setores mais próximos - Luan volta para marcar e descansa Douglas.

Como deve ser em 2015, que talvez não termine com a taça que o Grêmio não conquista desde 1996 - com Roger e Scolari. Mas que pode acabar bem melhor do que as previsões sombrias do início da temporada.

(Estatísticas: Footstats)


E-mail: anunesrocha@gmail.com


A noite histórica que premia Chile de Sampaoli, do trabalho coletivo e nega taça a Messi, o gênio que não desequilibra

Havia muito em jogo no Estádio Nacional. Título inédito do Chile, em casa, ou fim do jejum de 22 anos da Argentina - seleção principal, não a olímpica papa-medalhas. Muitas responsabilidades, tensão à flor da pele.

Cenário que inviabilizou um jogo solto, aberto, recheado de gols e belas jogadas para compensar o decepcionante nível técnico do torneio. Disputa tática, como é o esporte em si. Melhor para a seleção de Jorge Sampaoli.

O plano era bem engendrado. Pressão com Alexis Sánchez, Valdívia e Vargas para abafar a saída de três argentina com os zagueiros e Mascherano. Quebrar o passe desde a defesa e dificultar a criação de Pastore, Di Maria e Messi.

O gênio argentino foi tratado como atacante, não ponta-meia. Com Aguero, era cuidado por Francisco Silva, novidade na escalação chilena e estreando na final, Medel pela esquerda e Marcelo Díáz fazendo sua função de volante/terceiro zagueiro liberando Isla e Beausejour como alas. Mas nem tanto.

Reprodução Sportv
Flagrante da recomposição chilena com Medel cuidando de Messi, Silva e Díaz com Aguero, Isla voltando com Di María, Vidal e Aránguiz com Pastore.
Flagrante da recomposição chilena com Medel cuidando de Messi, Silva e Díaz com Aguero, Isla voltando com Di María, Vidal e Aránguiz com Pastore.

Para não deixar espaços na entrada da própria área, Vidal e, principalmente, Aránguiz recuavam e protegiam a retaguarda. Bola roubada, saída em velocidade em busca de Valdívia para acionar Sánchez e Vargas infiltrando em diagonal entre Zabaleta-Demichelis ou Otamendi-Rojo.

Resultado prático no primeiro tempo: Argentina da posse de bola ao longo do torneio com apenas 48% e sentindo a ausência de Di Maria, que saiu lesionado para a entrada de Lavezzi - novamente faltou sorte ao meia-ponta que ficou fora da decisão da Copa do Mundo. O Chile finalizou cinco vezes contra duas - uma para cada lado no alvo. 17 desarmes certos contra 12. Nítida superioridade tática, marca chilena na Copa América.

ANDRÉ ROCHA - TACTICAL PAD
Chile buscando Vargas e Alexis Sánchez em velocidade entre laterais e zagueiros da Argentina que foi melhor enquanto teve Di María pela esquerda.
Chile buscando Vargas e Alexis Sánchez em velocidade entre laterais e zagueiros da Argentina que foi melhor enquanto teve Di María pela esquerda.

Mudou pouco na segunda etapa. Gerardo Martino novamente foi conservador nas substituições: Aguero por Higuaín, Pastore por Banega. E Tevez condenado à reserva. Difícil entender um dos cinco melhores da última temporada europeia descartado desta forma. Ou só pode haver explicação em uma possível influência de Messi, que nunca foi amigo do ídolo de volta ao Boca Juniors, nas escolhas do treinador.

Higuain perdeu gol feito no Maracanã contra a Alemanha e no último lance do tempo normal em Santiago desperdiçou livre, ainda que o passe de Lavezzi em jogada de Messi não tenha sido dos mais precisos.

Sampaoli também não ficou atrás no pragmatismo de quem pela primeira vez não era o favorito. Trocou Valdívia por Matias Fernández e Vidal avançou pelo centro. A única mudança nos pimeiros 90 minutos. A rigor, uma única chance cristalina, com Sánchez.

Prorrogação com times exauridos pela alta intensidade e marcação adiantada e pressionada em vários momentos do jogo. Sampaoli trocou Vargas, artilheiro do torneio com Guerrero, por Henríquez. Desta vez não arriscou Pinilla. Ainda assim, terminou com 15 finalizações contra sete e subiu a posse para 53%. Mas só quatro conclusões na direção da meta de Romero. Falta contundência.

ANDRÉ ROCHA - TACTICAL PAD
As substituições conservadoras não mudaram os sistemas táticos, nem o cenário de uma decisão tensa, com muito em jogo.
As substituições conservadoras não mudaram os sistemas táticos, nem o cenário de uma decisão tensa, com muito em jogo.

Já Messi teve mais trinta minutos para, enfim, levar a albiceleste ao titulo desequilibrando em uma decisão. Novamente tentou organizar e criar. Lutou, isso é inegável. Mas também é pouco para o melhor de sua geração, dos mais geniais de todos os tempos que ganhará sua quinta Bola de Ouro pelo que fez no Barcelona na temporada.

Mas falhou. Um pouco mais de iniciativa, chama, aquela loucura narcisista que sobrava em Maradona para compensar as limitações dos compatriotas, em campo ou no comando. "É comigo!"

Não foi, embora Messi tenha sido o único argentino a converter seu pênalti. Higuaín isolou, com Tevez olhando do banco. Bravo defendeu a cobrança de Banega. Matias Fernández, Vidal, Aránguiz e Sánchez, com cavadinha, fizeram história.

Vitória do jogo coletivo. Que sofreu mesmo com o caminho facilitado pela tabela dirigida e alguns erros capitais da arbitragem. Mas na final o melhor futebol da competição igualou a disputa com a seleção mais talentosa do continente.

Quem achou que a Argentina sobraria pelos valores individuais ganhou uma aula grátis de que o futebol é essencialmente tático e o trabalho em equipe potencializa o talento.

O Chile teve alma e o abraço de seu povo. É a melhor geração do país. Mas, acima de tudo, foi um time. Campeão pela primeira vez.


E-mail: anunesrocha@gmail.com


Tabela, arbitragens, pressão externa - tudo é discutível na campanha do Chile, menos o melhor futebol da Copa América

Os anfitriões da Copa América 2015 tiveram tabela dirigida para fugir de Argentina e Brasil. Poderiam ter evitado até o confronto com o Uruguai antes da decisão, se a Celeste não tivesse se classificado em terceiro no grupo mais difícil da primeira fase da Copa América, enquanto a Roja teve caminho bem mais tranqüilo contra Equador, Bolívia e México B.

Arbitragens mais que questionáveis nas quartas e na semifinal. Pressão externa, euforia, ambiente totalmente favorável. Talvez uma seleção mais fraca também chegasse à final.

Mas como joga o Chile de Jorge Sampaoli. Movimentação, troca inteligente de passes com alto nível técnico. Sempre propondo o jogo e buscando a superioridade numérica no setor onde está a bola. Ataque mais positivo com folga (13 gols), Só perde em posse de bola para a Argentina. O que temos de mais atual no futebol sul-americano, incluindo times e seleções.

No entanto,sofre. Porque corre riscos. O volume de jogo nem sempre se traduz em gols. É pouco para quem fica tanto com a bola, ataca com tanta gente e por isso expõe a última linha defensiva de baixa estatura e quase sempre adiantada.

O Peru lutou e foi organizado. Mesmo depois da expulsão do descontrolado zagueiro Zambrano aos 19 minutos do primeiro tempo. Até então era superior, com Farfán cabeceando na trave. Compactou linhas de quatro e deixou Guerrero à frente. Defendia pela esquerda com Vargas e Carrillo, ponteiro bem recuado para conter Isla e matar a profundidade do lado forte chileno.

Reprodução Sportv
Flagrante do Chile atacando com oito jogadores diante das linhas peruanas e Carrillo bem recuado para conter Isla.
Flagrante do Chile atacando com oito jogadores diante das linhas peruanas e Carrillo bem recuado para conter Isla.

Atacava à direita com Advíncula e Farfán, como no lance do gol contra de Medel. O empate na segunda etapa depois de Vargas, impedido, abrir o placar no primeiro tempo de 67% de posse chilena e dez finalizações contra três - mas só três no alvo contra duas peruanas. Novamente faltou eficiência nas conclusões aos donos da casa.

Para compensar o cerco a Isla, Vidal foi jogar aberto à direita para dar opção e deixar Vargas fazendo as diagonais a partir da direita. O mesmo para Sánchez do lado oposto. Desta vez Valdívia não foi tão brilhante.

ANDRÉ ROCHA - TACTICAL PAD
Com um a menos, Peru plantou linhas de quatro, defendeu pela esquerda e atacou a direita um Chile pouco inspirado, mas ainda ofensivo.
Com um a menos, Peru plantou linhas de quatro, defendeu pela esquerda e atacou a direita um Chile pouco inspirado, mas ainda ofensivo.

Nem Vargas, apesar do belo chute com efeito que Gallese, mal colocado, aceitou. Quarto gol do artilheiro da Copa América, ultrapassando Vidal e Guerrero. Surpreendente para quem vinha de lesão grave e iniciou a competição na reserva de Beausejour.

Sampaoli, que escalou Rojas na vaga do suspenso Jara, retornou do intervalo com Mena no lugar de Albornoz e trocou Díaz por Pizarro para ocupar ainda mais o campo de ataque. No final, Felipe Gutiérrez à frente da defesa substituindo Valdívia para controlar o jogo tenso.

Porque o Peru de Ricardo Gareca não abdicou do ataque. Nem podia. Com apenas mais duas substituições por conta da troca forçada de Cueva por Christian Ramos para recompor a zaga, o técnico argentino mandou a campo Yotún e Pizarro nas vagas de Carrillo e Lobatón. Com dois atacantes enfiados, seguiu dando trabalho. Finalizou mais quatro vezes, subiu a posse para 35%. Pode reclamar da arbitragem hesitante do venezuelano José Argote.

ANDRÉ ROCHA - TACTICAL PAD
Sampaoli apelou para uma formação mais conservadora nos últimos minutos para se defender do 4-3-2 peruano com Pizarro se juntando a Guerrero na frente
Sampaoli apelou para uma formação mais conservadora nos últimos minutos para se defender do 4-3-2 peruano com Pizarro se juntando a Guerrero na frente.

Mas, como previsto, o Chile estará na grande final de sábado no Estádio Nacional. É possível discutir tudo nesta campanha, menos que o melhor futebol desta edição do torneio continental foi praticado pela seleção de Jorge Sampaoli.


E-mail: anunesrocha@gmail.com


Brasil ainda não entendeu a revolução Guardiola x Mourinho e precisa reaprender a jogar - nosso maior atraso é no campo

Catorze minutos de jogo em Concepción. A jogada começa pela esquerda com Filipe Luís, passa por Robinho, chega a Elias que aciona Daniel Alves. Firmino atrai a marcação paraguaia para a primeira trave e o lateral encontra Robinho infiltrando.

Gol na melhor jogada coletiva da seleção na Copa América. Uma prova de que não é preciso um combo de craques ou uma geração saturada de talento para fazer um belo trabalho em equipe. Nem precisou de Neymar.

Reprodução TV Globo
Jogada do gol brasileiro começou na esquerda com F. Luís e chegou a D. Alves do lado oposto até encontrar Robinho chegando de trás - jogo coletivo!
Jogada do gol brasileiro começou na esquerda com F. Luís e chegou a D. Alves do lado oposto até encontrar Robinho chegando de trás - jogo coletivo!

Os outros 89 minutos foram a prova da estagnação do futebol da seleção e no país. De novo o pragmatismo, mais uma vez o foco obsessivo no resultado que plantou a equipe na defesa, à espera do contragolpe que não veio. Aguardando no próprio campo o Paraguai que, mesmo sem ideias e talento, avançou pela esquerda com Benítez e aproveitou mais um toque de Thiago Silva com a mão na própria área para empatar e avançar nos pênaltis.

Sim, o zagueiro falhou novamente. Aumenta ainda mais a impressão de instabilidade emocional, evidente durante a Copa do Mundo. Mas se a seleção não tivesse abdicado de jogar a partir do próprio gol talvez a vaga na semifinal já estivesse garantida.

ANDRÉ ROCHA - TACTICAL PAD
Seleção brasileira começou bem, com mobilidade e volume até abrir o placar, depois abdicou do jogo e o Paraguai cresceu pela esquerda com Benítez.
Seleção brasileira começou bem, com mobilidade e volume até abrir o placar, depois abdicou do jogo e o Paraguai cresceu pela esquerda com Benítez.

Dunga e sua visão monocromática do futebol têm enorme responsabilidade por mais esse fiasco brasileiro, que é não vencer porque não joga. Mas o técnico é parte de um problema maior: o atraso na concepção de futebol.

Aqui ainda acreditamos na fórmula de Zagallo, Parreira e Felipão. Os que venceram desde 1970. A velha máxima da escola brasileira de que se o grupo estiver unido e displicinado e a defesa organizada, o talento resolve na frente. Um jogo compartimentado, cheio de especialistas: o zagueiro "rebatedor", o volante "cão de guarda", o lateral "cruzador", o meia "de ligação" e o centroavante "o mais importante" - como na letra do Skank que também diz que "o meio-campo é o lugar dos craques".

Já foi. A construção do jogo brasileiro há algum tempo passa pelas laterais e chega com pressa ao ataque. Desde Jorginho e Branco a Bebeto e Romário, depois por Cafu e Roberto Carlos aos Ronaldos e Rivaldo. Hoje Daniel Alves a Neymar ou Robinho. Com lapsos de presença dos "segundos volantes": Dunga, Kleberson e Elias.

Não dá mais para ser assim. Porque o Brasil não entendeu a verdadeira revolução que o embate Guardiola x Mourinho e seus desdobramentos trouxeram ao futebol mundial nos últimos cinco anos.

Pep Guardiola iniciou o processo. Combinou conceitos de Johan Cruyff, Arrigo Sacchi, Marcelo Bielsa, Ricardo La Volpe, Juan Manuel Lillo e Van Gaal. Trouxe para o Século XXI as ideias de Rinus Michels: compactação, pressão, posse de bola, superioridade numérica. Seu Barcelona avançava para roubar a bola do adversário e recuava até o goleiro, se preciso fosse, para começar a atacar. Com jogadores talentosos e inteligentes como Xavi, Iniesta e Messi, virou o futebol mundial de pernas para o ar.

Mistura das escolas holandesa, italiana, espanhola e argentina. Brasil? Guardiola sempre se refere ao passado. O que ouviu de seus avós, o São Paulo de Telê Santana, o respeito por Pepe, seu ex-treinador. Depois que seu Barcelona triturou o Santos de Muricy Ramalho em 2011 foi respeitoso e gentil com o futebol cinco vezes campeão do mundo. Mas suas biografias mostram que a influência é zero.

A resposta de José Mourinho, então melhor técnico do mundo, foi dar inteligência à retranca. Não mais um amontoado de jogadores defendendo a própria área, mas duas linhas "chapadas", quase coladas como no handebol. Os quatro defensores muito próximos na compactação horizontal - distância lateral entre um jogador e seu companheiro - e os dois meias pelos flancos na segunda linha recuados impedindo a profundidade. Samuel Eto' surpreendeu o mundo como quase lateral pela Internazionale que superou o time de Guardiola.

Como? Com não mais que 35% de posse de bola, tornou o jogo ainda mais vertical. Passes rápidos e práticos, com pouca gente na frente para não desorganizar atrás. Jogando por uma bola, fosse no contragolpe ou nas jogadas aéreas, oportunidade para chegar no ataque com mais atletas.

Reprodução ESPN
Barcelona x Internazionale em 2010: No duelo entre Guardiola e Mourinho, 18 jogadores em vinte metros, linha de handebol italiana e Eto'o de lateral.
Barcelona x Internazionale em 2010: No duelo entre Guardiola e Mourinho, 18 jogadores em vinte metros, linha de handebol italiana e Eto'o de lateral.

Esse duelo que seguiu com Mourinho no Real Madrid fez o esporte muito mais complexo, avançou taticamente vinte anos em cinco. Acelerou processos. Reduziu o campo de jogo para não mais que trinta metros. Transformou definitivamente o futebol em uma disputa de espaços, no qual os números dos sistemas táticos se tornaram praticamente irrelevantes.

Um duro golpe no futebol brasileiro que sempre gostou de espaço para jogar e nunca deu muita pelota para o trabalho coletivo. Alguém marcava para um criar e outro resolver lá na frente. Zagueiros "fechando a casinha", encaixe na marcação, perseguições individuais e quem tivesse talento, ou o marcasse, vencia. O que era fórmula de sucesso virou a Idade da Pedra.

Quem sempre valorizou a tática do jogo percebeu mais rapidamente a metamorfose. Não por acaso a experiência mais bem sucedida por aqui tenha sido o Corinthians de Tite em 2012. Mesmo carregando conceitos enraizados como volante marcador e jogo pelas laterais, a compactação e a intensidade atualizadas foram suficientes para vencer a Libertadores e superar o Chelsea, mais frágil campeão europeu desde 2008.

Não foram acidentais os vexames de Internacional e Atlético Mineiro diante de Mazembe e Raja Casablanca. Ou o país fora das semifinais na última Libertadores. Um pouco de organização e conceitos atuais já são o suficiente para complicar o nosso jogo lento e baseado em individualidades.

O Brasil de Dunga em 2009/10 pegou o início da revolução, mas já sofreu contra a Holanda, berço de todas essas ideias, e viu algo diferente em Espanha e Alemanha. Em 2013, o contexto favorável de jogar em casa construiu com Felipão um jogo de "abafa" e contragolpes que derreteu no calor tropical as decadentes Itália e Espanha na Copa das Confederações.

Veio o choque de realidade no Mundial. Cinco atuações fracas, um espasmo contra a Colômbia e os 7 a 1. A desculpa foi o "apagão". A realidade, uma aula alemã de futebol coletivo, tático e inteligente, especialmente inspirado nas finalizações na segunda metade do primeiro tempo.

Dunga voltou. Ele que foi alçado a técnico em 2006 pela convicção de que teria faltado liderança para comandar os talentos na Copa da Alemanha. Com a negativa de Scolari para voltar a trabalhar com Ricardo Teixeira, chamaram o capitão de 1994. De novo a combinação disciplina-defesa-talento. Não basta mais.

O futebol brasileiro tem enormes problemas fora de campo. É óbvio e cristalino. A CBF comercializa a seleção e, para reforçar sua marca, despreza os clubes que padecem com administrações amadoras que explodem dívidas, não oferecem as melhores condições para seus profissionais e valoriza a base para exportação. Sem contar a corrupção cada vez mais explícita.

Também precisa de uma chacoalhada. Porque ser transparente, pagar em dia, dar ferramentas para o trabalho e planejar o futuro é o básico. Não exatamente uma condição para voltar a vencer. Porque ganhava antes, desde os tempos de João Havelange. E na Europa o futebol é tratado como negócio e com gestão há décadas. No campo, porém, o talento puro resolvia.

Ainda resolve e o Barcelona está aí para comprovar com seu trio sul-americano. Mas agora a qualidade técnica e o improviso são a diferença no terço final do campo, não mais a base que sustenta uma equipe.

Portugal e Argentina são provas de que sem trabalho coletivo Cristiano Ronaldo e Messi podem decidir eventualmente. Como Neymar na seleção cinco vezes campeã do mundo. Mas os títulos mais importantes ficam com Espanha e Alemanha - coletivas, com qualidade e entrosamento de uma base de um ou dois clubes.

Porque o futebol mudou. Fora, mas principalmente dentro de campo. Guardiola e Mourinho iniciaram e agora parecem reféns de suas fórmulas. Jupp Heynckes, Carlo Ancelotti e agora Luis Enrique aprimoraram, deram um passo adiante. Construíram times ainda mais inteligentes e adaptáveis ao contexto. Prontos para propor o jogo, trocar passes ou aniquilar os rivais em contragolpes ou bolas paradas.

E a gente aqui descascando batata no porão. Se o resultado é desconectado do desempenho, as derrotas deixam claro que algo precisa mudar.

A saída? No curto prazo não existe. A primeira solução é aceitar humildemente nossa inferioridade e se dispor a reaprender a jogar. Depois de sedimentados os conceitos básicos, resgatar o nosso jeito: drible, passe longo, intuição, invenção. Mas sem a correria, as ligações diretas e o jogo de muito suor e pouco raciocínio dos últimos tempos.

Há material humano para voltar a jogar bem. A geração não é das mais brilhantes, os jovens sofrem sem as referências que deviam ser Robinho, Kaká, Ronaldinho, Adriano, Diego e outros que por diferentes motivos não conseguem mais jogar em altíssimo nível como protagonistas para liderar Neymar e os que estão chegando. Ainda assim, há qualidade. É possível extrair bom futebol, o gol de Robinho sobre o Paraguai é uma prova. Mas agora só com conteúdo, conhecimento. Não mais o lampejo.

Dunga nunca foi a solução. Mesmo com onze vitórias seguidas. Nem parece disposto a mudar. Continua olhando para fora. Se acha perseguido, agora uma suposta virose vira muleta para a derrota. A nova versão do "apagão" que deve seguir enganando os incautos ou orgulhosos, que ainda creem que só com gestão fora de campo o Brasil voltará a dar as cartas no planeta bola.

Pode ser, mas é improvável. Estamos parados onde sempre resolvemos nossos muitos problemas: no campo. É enxergar isso e agir ou esperar o maior dos 7 a 1 que seria ficar fora de uma Copa do Mundo pela primeira vez.

Reuters
Carlo Ancelotti sorri após entrevista coletiva no Real Madrid
Carlo Ancelotti, desempregado, poderia ser uma alternativa para a transformação do futebol brasileiro via seleção.

Carlo Ancelotti e Jurgen Klopp estão desempregados, ao menos oficialmente. Pode ser um primeiro passo. Se é pedir demais da CBF pensar mais em futebol do que em política e negócios, basta lembrar que a camisa verde e amarela está perdendo valor de mercado.

Quem sabe assim acordam desse sono em berço esplêndido? Ou será eterno?


E-mail: anunesrocha@gmail.com


O massacre argentino sem gols e o drama nos pênaltis contra Ospina e pouco mais da Colômbia mal escalada e covarde

ANDRÉ ROCHA - TACTICAL PAD
Com James no centro do meio-campo, Messi saiu da direita para o meio e encontrou espaços entre as linhas para criar.
Com James no centro do meio-campo, Messi saiu da direita para o meio e encontrou espaços entre as linhas para criar.

Sem os volantes Sánchez, suspenso, e Valencia, lesionado, Jose Pekerman errou na formação inicial. Nem tanto pelo 4-4-2 ou por escalar Mejía e James Rodríguez no centro da segunda linha de quatro.

O pecado foi acreditar que com Arias plantado como lateral-zagueiro e Ibarbo voltando pela esquerda Messi ficaria encaixotado. Dois passos do argentino para dentro e abriu-se uma cratera às costas de James.

Reprodução Sportv
Messi recebe às costas de Arias e James, ganha de Mejía e arranca contra os zagueiros expostos - erro colombiano na escalação inicial.
Messi recebe às costas de Arias e James, ganha de Mejía e arranca contra os zagueiros expostos - erro colombiano na escalação inicial.

A Argentina deixou o corredor direito para Zabaleta e as aparições de Pastore. O lado forte era o esquerdo, com Rojo e Di Maria. Um massacre nos primeiros 23 minutos que obrigou Pekerman a corrigir o próprio erro.

Teo Gutiérrez foi sacrificado. Cardona entrou, adiantando James para se aproximar de Jackson Martinez, que entrou na vaga de Falcao. Com linhas mais compactas, defendeu melhor. Mas Messi e seus companheiros seguiram sobrando.

Nove finalizações a zero, além da posse de 64% no primeiro tempo. Massacre que Ospina evitou, especialmente na seqüência de defesas contra Aguero e Messi.

ANDRÉ ROCHA - TACTICAL PAD
Colômbia mais compacta com Cardona no meio e James na ligação; Pastore e Zabaleta apareceram no corredor direito.
Colômbia mais compacta com Cardona no meio e James na ligação; Pastore e Zabaleta apareceram no corredor direito.

O goleiro colombiano seguiu salvando a Colômbia inócua e acuada na segunda etapa. Ainda foi feliz no chute de Banega no travessão e na conclusão de Otamendi em escanteio que o arqueiro tocou e ainda foi na trave. O grande nome do jogo, ao menos nos 90 minutos.

Messi se apresentou, driblou, criou. Desta vez assumiu a responsabilidade de liderar tecnicamente a albiceleste. Melhor atuação na Copa América. Mas havia Ospina e também Murillo, de atuação quase perfeita. No tempo normal.

A Colômbia só se apresentou no ataque e finalizou duas vezes nos últimos vinte minutos. Pekerman trocou Ibarbo por Muriel e Jackson por Falcao. Subiu pouco a posse para 38%. Mas sentiu demais a ausência de Sánchez. Também faltou mais de James. Covardia também no excesso de faltas: 21 contra 13. Nem sinal da consistência na vitória sobre o Brasil.

Gerardo Martino não foi menos conservador nas mudanças. Com tamanha superioridade, era possível ousar mais que trocar Pastore, Aguero e Di Maria por Banega, Tevez e Lavezzi. Mesmo concluindo só mais quatro vezes na segunda etapa, a vitória não veio por detalhes. Nos 90 minutos.

ANDRÉ ROCHA - TACTICAL PAD
Com as mudanças, a Colômbia arriscou mais, porém seguiu sendo dominada pela Argentina com Banega, Tevez e Lavezzi no mesmo 4-3-3.
Com as mudanças, a Colômbia arriscou mais, porém seguiu sendo dominada pela Argentina com Banega, Tevez e Lavezzi no mesmo 4-3-3.

Na decisão por pênaltis, previsão de drama para os argentinos contra Ospina e 22 anos sem títulos. Mas Messi, Banega, Garay e Lavezzi acertaram e viram Muriel isolar bisonhamente. Na hora de definir, Biglia falhou. O primeiro de uma seqüência de três erros: Zuñiga, Rojo e Murillo.

Coube a Tevez, no dia da confirnação oficial de sua volta ao Boca Juniors, definir a classificação para a semifinal. Sofrimento que parecia improvável no primeiro tempo e uma tragédia anunciada nos penais. Por isso o futebol é tão apaixonante.

(Estatísticas: Footstats)


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